"Portugal poderá perder ainda mais com a permanência no
Euro"
A situação nacional é decisivamente marcada pelos
constrangimentos decorrentes da integração capitalista europeia.
Libertar o país do peso destes constrangimentos é uma
condição de uma política alternativa, patriótica e
de esquerda.
Se a política de direita e de abdicação nacional, ao longo
dos últimos 28 anos, teve e tem na integração na CEE/UE um
importante factor de apoio ao seu desenvolvimento, então, a
política patriótica e de esquerda, para ser consequente,
terá de romper com a integração capitalista e, no
imediato, com alguns dos seus principais instrumentos.
Entre estes instrumentos avulta, indiscutivelmente, o Euro e a União
Económica e Monetária. Mas outros há, que não podem
ser ignorados.
O mercado único, com a livre circulação de mercadorias e
de capitais, confirmou a velha máxima de que "entre o rico e o
pobre, entre o forte e o fraco, é a liberdade que oprime e a lei que
liberta". A sacrossanta livre concorrência no mercado único
expôs a economia nacional a pressões concorrenciais que se
revelaram ruinosas para muitos dos nossos sectores produtivos.
As sucessivas vagas de liberalização e desregulação
do comércio mundial, activamente promovidas pela União Europeia,
tudo vieram agravar. No imediato, os acordos de livre comércio já
assinados ou em fase de negociação com destaque para o
acordo transatlântico com os EUA devem ser motivo de alerta, pela
séria ameaça que constituem.
A política comercial, com o Tratado de Lisboa, passou a ser uma
competência exclusiva da União Europeia. Conduzida de forma a
servir os interesses das principais economias industrializadas do centro, esta
política revela-se desastrosa para países como Portugal
uma periferia, cada vez mais, oferecida ao sacrifício no altar do livre
comércio.
A circunstância de um país como Portugal prescindir, ao mesmo
tempo, de uma política monetária e de uma política
comercial próprias, ajustadas à sua economia e à sua base
produtiva, deixando a definição destas políticas nas
mãos de potências económicas com características e
necessidades seguramente muito diferentes das do nosso país, resulta
numa combinação explosiva. Estamos a sentir na pele as suas
consequências.
A Política Agrícola Comum aprofundou a desregulação
e a liberalização da produção e dos mercados.
Estão criadas as condições para se gerarem
situações liquidatárias do que resta de alguns importantes
sectores, de que é exemplo a produção leiteira.
No caso das pescas, a gestão dos recursos vivos marinhos da Zona
Económica Exclusiva portuguesa (a mais extensa de toda a União
Europeia) é, com o Tratado de Lisboa, uma competência exclusiva da
União Europeia. Os prejuízos são evidentes, seja do ponto
de vista económico e social, seja do ponto de vista da
conservação desses recursos.
Com o aprofundamento do mercado único avança a
concentração monopolista à escala europeia, em sectores
tão diversos como a indústria, os transportes, a energia e, mais
recentemente, no sector financeiro. A chamada União Bancária, com
a centralização, num plano supra-nacional, da supervisão e
da resolução das instituições bancárias de
toda a União Europeia constitui um salto importante nesta
direcção.
Os condicionamentos à intervenção do Estado na economia
alimentam e aprofundam esta dinâmica. Da TAP aos Estaleiros Navais de
Viana do Castelo, as restrições impostas pela
legislação da União Europeia ao financiamento de
serviços públicos e à capitalização de
empresas públicas visam deliberadamente promover encerramentos e
privatizações.
Uma década e meia decorrida desde à adesão à moeda
única, todas as promessas de convergência se revelaram falsas.
Pelo contrário, aprofunda-se a dinâmica de divergência que
está na origem da chamada crise do Euro.
Os critérios do Pacto de Estabilidade, mais do que uma
condição para a união monetária,
constituíram e constituem um pretexto para impor políticas de
compressão dos salários (visando a redução dos
custos unitários do trabalho) e de redução do investimento
e da despesa pública. Políticas que inviabilizaram a
convergência real das economias.
O Euro representou para Portugal estagnação e recessão;
uma colossal compressão do investimento (atraído a outras
paragens) e uma correspondente degradação do aparelho produtivo;
endividamento externo e perda de competitividade;
deslocalizações; endividamento público e ataque
especulativo à dívida soberana; descontrolo orçamental e
agravamento do défice. Desde a adesão ao Euro, Portugal
não alcançou nunca aquilo que as regras do Tratado
Orçamental querem agora vir forçar: saldos orçamentais
primários positivos. São dezasseis anos consecutivos de
défices orçamentais primários.
Portugal produz hoje menos riqueza do que quando se introduziu fisicamente o
Euro. Entre 2001 e 2011, a produção industrial teve uma
redução acumulada de 16%. Estava em 2011 ao nível de 1994
um recuo de 17 anos. A dívida pública terá crescido
mais de 120%, e regista uma dinâmica imparável de crescimento.
O Euro significou aumento do desemprego e da precariedade,
redução dos salários, aumento da exploração,
desigualdades sociais e pobreza. Entre 2001 e 2013, o número de
desempregados cresceu 147% em Portugal. Neste período, em termos
médios, na zona Euro, os lucros cresceram cinco vezes mais do que os
salários. Em Portugal, cresceram quase 26 vezes mais. O peso dos
salários no rendimento nacional está em níveis dos mais
baixos de sempre.
Não é possível esconder as consequências
devastadoras da adesão ao Euro. A subordinação do
país ao Euro revela-se insustentável para a economia portuguesa,
e um factor de crescente degradação das condições
de vida do povo português. Quem defender a continuação
deste caminho terá de justificar em nome de que interesses o faz
e não será seguramente em nome da defesa dos interesses do povo e
do país.
A adesão e permanência no Euro expropriou o país de
instrumentos necessários para inverter o rumo de declínio e
afundamento nacional e retomar um caminho de crescimento económico e
desenvolvimento. Essa expropriação mantém-se e
aprofunda-se com os instrumentos postos em marcha em nome da
"salvação do Euro", a saber: o Tratado
Orçamental, a Governação Económica e o Semestre
Europeu.
O garrote do Pacto de Estabilidade foi apertado ainda mais. A regra do
"equilíbrio orçamental", inscrita no Tratado
Orçamental e transposta para o direito nacional por PS, PSD e
CDS, imporá aos países considerados faltosos uma
"trajectória de ajustamento", com cortes severos na despesa
pública, e um rigoroso policiamento do cumprimento dessa
trajectória. A Comissão Europeia determinará as medidas
para corrigir os desvios e o seu escalonamento no tempo. Medidas que
estarão em linha com a "condicionalidade política"
associada aos programas do FMI e que integrarão programas, cujo teor e
formato passam a estar definidos no direito da União Europeia.
Os Estados-Membros ficam obrigados a comunicar previamente ao Conselho e
à Comissão Europeia os respectivos planos de emissão de
dívida pública, os planos orçamentais a médio prazo
e todas as reformas de política económica que pretendem levar a
cabo. Tudo será previamente discutido nestes órgãos e
sujeito à sua aprovação.
O Tratado Orçamental define também um ritmo de
redução da relação entre a dívida
pública e o produto, ritmo esse que garante uma drenagem contínua
de recursos nacionais para os detentores de títulos da dívida
nacional, ou seja, para o capital financeiro especulativo.
Os países que não cumpram as orientações previstas
no Tratado estão sujeitos à aplicação de
sanções. Ao contrário do que sucedia até aqui, as
sanções passam a ser automáticas, sendo necessária
uma maioria qualificada no Conselho para as impedir. Sublinhe-se que a
relação de poderes no Conselho, decorrente do Tratado de Lisboa,
é tal que 6 países detêm 70% dos votos, não podendo
nenhuma decisão ser tomada contra a vontade dos quatro maiores
países.
Estamos perante instrumentos que submetem Portugal a um programa de
"austeridade" eterna, com imposições de recorte
colonial por parte da União Europeia e do seu directório.
O projecto de cooperação entre Estados soberanos, livres e iguais
em direitos, que defendemos, exige a rejeição destes instrumentos.
Por esta razão, avançamos com a proposta de
convocação de uma Conferência Intergovernamental, tendo em
vista a revogação do Tratado Orçamental, a par da
consagração da reversibilidade dos tratados da União
Europeia (começando pelo Tratado de Lisboa), ajustando o estatuto de
cada país à vontade do seu povo. Até à
realização desta Conferência deverá ser declarada a
suspensão imediata do Tratado Orçamental, e, em qualquer caso, a
desvinculação de Portugal deste Tratado.
Esta proposta deve integrar uma iniciativa diplomática mais ampla do
Governo português que, concertando esforços, desde logo com
países enfrentando dificuldades semelhantes, vise a
dissolução da União Económica e Monetária, a
revogação da legislação relativa à
União Bancária, a revisão do papel do Banco Central
Europeu, a extinção do Pacto de Estabilidade e a
criação de um programa de apoio aos países cuja
permanência no Euro se tenha revelado insustentável.
É hoje uma evidência que Portugal perdeu muito com o Euro. Mas
aqui chegados é forçoso reconhecer que poderá perder ainda
mais, seja com a permanência no Euro, enredado numa teia de instrumentos
de subordinação e empobrecimento permanentes de
consequências catastróficas, seja com uma saída
forçada imposta pelas grandes potências europeias, uma vez
esgotado o seu interesse ou capacidade de manter dentro do barco uma economia
cronicamente endividada e deprimida, incapaz de assegurar o financiamento da
actividade do Estado ou do sistema bancário. Conjunturalmente aliviado,
o risco de uma saída imposta persiste e deve ser firmemente encarado.
Uma saída forçada, involuntária, impreparada, precipitada
pela degradação da situação nacional e europeia,
conduzida pela mão de um governo de direita, não deixaria de ter
consequências igualmente catastróficas.
A saída do Euro é necessária para libertar o país
da subalternidade, da dependência e do atraso, para libertar o povo
português da austeridade permanente. Mas deve ter como
condições: a preparação do país; a
articulação com outras facetas de uma política soberana de
desenvolvimento como a renegociação da dívida e a
recuperação do controlo público da banca comercial e de
outras instituições financeiras; o respeito pela vontade popular
e a condução do processo por um governo empenhado em defender na
transição os rendimentos, as poupanças, os níveis
de vida e os direitos da generalidade da população, e em evitar a
fuga de capitais e a perda de divisas, a desorganização do
comércio externo e da vida económica do país.
No plano da União Europeia e das relações entre Estados, a
questão da saída do Euro, tendo certamente uma faceta
jurídica, é eminentemente política.
Insistimos: ela não deve ser encarada isoladamente, mas antes em
articulação com outras preocupações e
exigências, como sejam: a renegociação da dívida; a
defesa e o aumento da produção nacional; a
recuperação para o Estado do sector financeiro e de outras
empresas e sectores estratégicos; a valorização efectiva
dos salários e pensões; a tributação dos dividendos
e lucros do grande capital; e a defesa e recuperação dos
serviços públicos.
Neste processo, a institucionalidade europeia, as regras e as
disposições dos tratados conflituarão seguramente com os
interesses nacionais. Mas não esqueçamos que estas regras
não são, nunca foram, "escritos sagrados". São
fruto de uma negociação permanente. Negociação em
que é muito forte a vontade e a determinação de um povo
ganho para defender o seu direito ao futuro.
[*]
Deputado do PCP no Parlamento Europeu. Intervenção na
sessão pública "A Dívida, o Euro e os interesses
nacionais", realizada a 28/setembro/2014.
Este discurso encontra-se em
http://resistir.info/
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