Austeridade ou crescimento,
a alternativa que não resolve os problemas da Europa
por Juan Torres López
As políticas de austeridade impostas pelos grandes poderes financeiros
por intermédio dos governos da França e Alemanha e do Banco
Central Europeu são um fracasso rematado: levaram quase toda a Europa a
outra recessão, agravaram o peso da dívida, as assimetrias e a
paralisação, estão a destruir a coesão social da
Europa e direitos sociais cuja conquista custou décadas de conflitos e
lutas, destroem milhares de empresas, criam pobreza e exclusão, produzem
um afastamento, quem sabe se definitivo, entre a população e as
autoridades públicas, e estão dando asas à extrema direita
fascista e neonazi que os banqueiros e grandes industriais sempre
açularam em época de crise.
Não há nenhuma experiência histórica nem
evidência empírica que permita afirmar que se possa sair de uma
crise como a que estamos (de racionamento financeiro e falta de procura
efectiva) com menos gasto, de modo que insistir em reduzi-lo sem ao mesmo tempo
tomar medidas que garantam novamente o financiamento e que proporcionem
rendimentos adicionais à população consumidora é
uma via que só leva à depressão e ao desastre.
A cegueira ideológica das autoridades políticas e dos economistas
que assinalam o caminho impede-lhes de reconhecer esta realidade. E sua
submissão aos poderes financeiros (agora só interessados em
aproveitar a crise para aumentar seus privilégios) leva-os a insistir em
novos cortes, que só servem para que os bancos, especuladores e grandes
empresas aumentem seus lucros e um poder já absoluto que está a
liquidar as já em si débeis democracias a que se permite o
capitalismo da nossa época.
Os cortes em educação, investigação,
inovação, em infraestruturas vitais e em prestações
sociais só vão trazer anos de atraso e uma instabilidade sociais
de terríveis antecedentes na Europa.
Tão clara é a evidência de tudo sito que, desde há
semanas, começaram a abrir-se gretas nos blocos políticos
dominantes e a filtrar-se a ideia de que é imprescindível por fim
a esta barbaridade política e económica. A pressão de
movimentos sociais, de economistas críticos ou inclusive das
personalidades mais sensatas do próprio establishment contribuiu
decisivamente para isso e a vitória do socialista Hollande nas
eleições francesas possivelmente será o que obrigue
definitivamente a por em causa as políticas de austeridade.
Mas a alternativa que se está a difundir frente a elas é
insuficiente e inadequada: a do crescimento. Uma estratégia que
já demonstrou poder ser muito perversa e pouco útil se não
se explicitar claramente o que implica e aonde queremos que nos conduza.
CRESCIMENTO NÃO BASTA
Travar os cortes de despesas públicas e em geral todas as
políticas de austeridade que estão a impedir que se regenere o
privado e se recupere o pulso económico é uma
pré-condição indispensável para que na Europa se
volte a criar emprego e para garantir padrões mínimos de
bem-estar e protecção a toda a população. Mas
trata-se só de uma pré-condição para evitar o
desastre. Para conseguir que não se volte a produzir outra crise maior e
com piores perturbações e danos do que aqueles que agora estamos
a sofrer são precisas mais coisas.
Não basta fazer com que cresça o Produto Interno Bruto de
qualquer forma nem injectar mais dinheiro ainda de qualquer modo.
Ainda que a crise se tenha desencadeado, visto à superfície, pela
desregulamentação financeira e pelos roubos continuados que
centenas de bancos efectuaram com a anuência das autoridades, suas causas
profundas (aquelas que a tornaram sistémica) e as que tornarão a
provocá-la novamente se não forem resolvidas, são outras:
a grande desigualdade que deriva rendas incessantes para a
especulação financeira, a utilização intensiva e
perdulária de recursos naturais e energia que rompe a harmonia
básica e os equilíbrios imprescindíveis entre a sociedade
e a natureza, e uma degeneração progressiva do trabalho que
empobrece a população e o tecido empresarial e que trava a
inovação e o incremento da produtividade.
Sem enfrentar tudo isso, promover novamente o crescimento do produto interno
"à bruta", a base de despesa pública e injectando
recursos para a criação de mais infraestruturas e para o
fornecimento de mais serviços públicos, pode travar a deriva para
a depressão na qual nos encontramos, como já ocorreu com os
planos de estímulo, mas sem dúvida será insuficiente e
terminaria por provocar problemas ainda mais graves do que os que temos.
O crescimento entendido como um objectivo em si mesmo, sem mais
explicitações, medido através de um indicador tão
perverso como o PIB e sem ter em conta os custos sociais, ambientais e
antropológicos que traz consigo, favorecer a acumulação e
voltará a dar bons lucros a certos ramos do capital, além de
gerar algo mais de emprego em bem-estar. Mas, nessas condições,
estes últimos não serão os suficientes para
alcançar níveis mínimos de estabilidade e
satisfação social, como demonstra a experiência vivida nos
últimos trinta anos, nem com isso se poderá evitar reincidir no
vício mais cedo do que tarde.
O que a Europa precisa não são planos de crescimento do PIB e sim
uma estratégia global para a igualdade, o bem-estar e a responsabilidade
ambiental baseada na promoção de novos tipos de actividade, de
propriedade e de gestão empresarial, na generalização do
emprego decente, na utilização sustentável das fontes de
energia e dos recursos naturais que modifique radicalmente o actual modelo de
metabolismo sócio económico, e na promoção de uma
cidadania democrática, plural, participativa e cosmopolita. Em
também, passe o paradoxo, baseada na austeridade mas no que esta tem de
respeito para com o equilíbrio natural e pessoal e com a boa
utilização dos recursos, de recusa do desperdício; mas
não de renúncia aos direitos sociais e à igualdade, como
entendem os neoliberais.
E além disso são imprescindíveis reformas políticas
institucionais que travem o poder dos grandes grupos oligárquicos e que
permitam que as autoridades representativas sejam aquelas que realmente adoptem
as decisões em função dos mandatos da maioria social no
âmbito de uma autêntica democracia. Sem criar um autêntico
poder público na Europa, sem submeter a actuação do Banco
Central Europeu às exigências dos interesses sociais e sem acabar
com a sua cumplicidade com os interesses bancários privados, sem sanear
o sistema financeiro europeu declarando o financiamento da vida
económica como um serviço de interesse público essencial,
nacionalizando os bancos que não se submeterem e fomentando novos tipos
de finanças descentralizadas e de proximidade, sem dispor de um
autêntico tesouro europeu e sem recolocar a concepção da
união monetária, para não mencionar senão as
questões mais urgentes, a Europa continuará a balouçar-se
irresponsavelmente à beira do precipício e os apelos ao
crescimento só servirão, se me permitem a expressão, pouco
mais do que para embebedar o peru e enganar mais uma vez os povos.
A questão a colocar sobre a mesa na Europa não é se
cortamos um pouco menos as despesas e injectamos algo mais de recursos para as
mesmas actividades e infraestruturas de sempre (outra vez auto-estradas,
habitações, mais comboios de alta velocidade...) e sim se
rompemos ou não com o poder das finanças privadas e das grandes
corporações empresariais e oligárquicas que nos dominam e
que nos levaram à situação em que estamos.
O original encontra-se em
juantorreslopez.com/...
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