A UE assume o malthusianismo como política central
por Daniel Vaz de Carvalho
[*]
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"Não está no poder dos ricos fornecer aos pobres
ocupação e pão e consequentemente os pobres pela
própria natureza das coisas não têm obrigação
de lhos pedir. Os pobres não têm qualquer direito a serem
mantidos".
[1]
Malthus.
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Aquilo que se designou por malthusanismo económico está a ser
posto em prática na UE e formalizado com o Mecanismo Europeu de
Estabilidade, que exercerá penalizações aos Estados que
ultrapassarem um
défice público superior a 0,5% do PIB
[2]
Vejamos alguns dados da Eurostat sobre a situação na UE,
destacando em particular alguns países mais próximos quer pelas
relações quer pela situação em que se encontram,
Irlanda, Grécia, Itália e Espanha, em comparação
com os de Portugal.
PIB e DESEMPREGO
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PIB
|
Desemprego
|
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2008 a 2011 *
|
2012 (p)
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<25 anos **
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Jan..2011
|
Jan. 2012
|
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UE 27
|
-0,5
|
0,0
|
22,4
|
9,5
|
10,1
|
|
Zona
|
-0,6
|
-0,3
|
21,6
|
10,0
|
10,7
|
|
Irlanda
|
-9,5
|
+0,5
|
29,6
|
14,4
|
14,8
|
|
Grécia
|
-13,8
|
-4,4
|
48,1
|
14,7
|
* * * 19,9
|
|
Itália
|
-4,5
|
-1,3
|
31,1
|
8,1
|
9,2
|
|
Espanha
|
-2,2
|
-1,0
|
49,9
|
20,6
|
23,3
|
|
Portugal
|
-3,1
|
-3,3
|
35,5
|
12,3
|
14,8
|
* Variação acumulada
* * Janeiro 2012
* * * Grécia, Novembro/2011
A UE vive um longo período de estagnação e de
recessão sem fim à vista. As projeções, que
empurram sempre o fim da crise para mais dois anos, são sistematicamente
desmentidas. A FBCF é disso um claro indício: nos três
últimos trimestres de 2011 esteve em retrocesso; representando apenas
+0,6% no último trimestre de 2011 relativamente a período
homólogo de 2010.
Porém o desemprego é o mais dramático indicador da
incapacidade de a UE resolver os problemas dos países e das pessoas.
Segundo os dados oficiais no início de 2012 estavam sem emprego 24
milhões de pessoas, valor em constante crescimento praticamente desde o
início da década. Em janeiro de 2012 o número de
desempregados excedia em cerca de 1,5 milhão (1 488 000) o de um ano
antes. O facto é que em 2001 o desemprego no seu nível mais baixo
da década, atingia 19 milhões de pessoas, correspondendo ao
já de si intolerável valor de 8,5% da força de trabalho, o
que mostra a total incapacidade de com as atuais políticas se resolver o
que quer que seja no campo económico e social em benefício dos
povos.
Neste contexto, é porém gravíssimo que o desemprego jovem
assuma valores duplos do desemprego geral ainda por cima numa
situação de baixa natalidade e com progressivo envelhecimento da
população. Bastaria o indicador do desemprego jovem para nos
levar a exigir de imediato mudanças drásticas nas
políticas económicas e sociais.
O caminho que se segue não é para o abismo: é aprofundar a
rota no abismo a que se chegou, em particular com a adoção da
moeda comum e políticas associadas que agora se agravam.
SITUAÇÃO DE POBREZA OU EXCLUSÃO SOCIAL
O Eurostat define o
indicador AROPE
como a percentagem da população que vive pelo menos numa destas
condições: 1) em risco de pobreza, significando abaixo do limiar
de pobreza, 2) numa situação de privação material,
3) vivendo numa família com baixa intensidade laboral (trabalho a tempo
parcial)
Nestas condições encontravam-se:
2010
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Indice Geral
|
0 17 anos
|
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UE 27
|
23,4
|
26,9
|
|
Irlanda *
|
-
|
-
|
|
Grécia
|
27,7
|
28,7
|
|
Itália
|
24,5
|
28,9
|
|
Espanha
|
25,5
|
29,8
|
|
Portugal
|
25,3
|
28,7
|
* O Eurostat não disponibilizou estes dados para Irlanda.
-
10% das pessoas com idade inferior a 60 anos viviam em famílias de
muito baixa intensidade de trabalho (trabalho a tempo parcial). Valor que
complementa os dados oficiais sobre o desemprego.
-
8% das pessoas viviam em condições de "severa
privação"
-
36% não poderiam satisfazer despesas inesperadas
-
16,4% viviam em risco de pobreza, porém sem as transferências
sociais em vigor em 2010 este valor seria de 25,7%.
Desde então estes dados terão sofrido acentuado agravamento
atendendo ao aumento do desemprego e redução dos apoios sociais
devido às medidas de austeridade. Note-se que o risco de pobreza antes
dos apoios sociais passava então de 16,4% para 25,7% da
população.
Olhando para estes dados cabe perguntar como é possível que se
tenha assinado um pacto para o défice orçamental que estabelece
um limite máximo de 0,5%, com graves penalizações e
deliberada ingerência nos países em que for ultrapassado. Este
pacto intenta acentuar ainda mais as políticas de austeridade: o aumento
dos impostos indiretos e sobre o trabalho, a redução dos apoios
sociais, o congelamento do investimento público no seu nível
mínimo.
A DESTRUIÇÃO ECONÓMICA E SOCIAL EM MARCHA
Com todas as medidas de austeridade postas em prática o défice
público na UE era no 3º trim. de 2011 de 4,3% do PIB, contra 6,6%
no período homólogo de 2010, correspondendo a 10,6%, na Irlanda;
9,4% na Grécia; 6,1% na Espanha; 2,7% na Itália 2,7%; 3,8% em
Portugal (valores relativos ao 3º trimestre).
Em que condições será então possível
atingir 0,5% do PIB, quando a fiscalidade sobre o capital está a ser
nivelada por baixo e a livre circulação de capitais se considera
intocável? Que níveis de desemprego, pobreza ou exclusão
social serão atingidos?
Não existirão condições de redução do
desemprego nem capacidade para apoiar os desempregados. Apenas com um
crescimento de 2 a 2,5% seria possível começar a reduzir o
desemprego. Crescimentos estes fora de causa com as atuais políticas,
pelo menos nos países mais fragilizados Com o investimento em queda ou
em estagnação, em concorrência com as taxas de lucro da
especulativas, sabendo-se que são cada vez mais elevados os montantes
necessários para a criação de postos de trabalho, os
apelos à criatividade dos desempregados e MPME são apenas
ilusões para iludir a massa de falências devido à
redução da procura solvente.
O BCE e a troika continuam a impor medidas pró-cíclicas e mesmo
com alguma retoma, que a propaganda aproveitará para iludir a realidade,
não será possível colmatar o desastre que se acentuou
desde 2008.
O dinheiro do Estado vai para "incentivos", medidas indiretas sem
objetivos sociais concretos, mensuráveis e controlados. O emprego
possível com a anémica retoma tenderá a pautar-se pelas
condições de competitividade que o neoliberalismo impõe.
Mesmo os empregos criados serão sempre na sua grande maioria em
condições de precariedade e com o mínimo de direitos
laborais e sociais.
Perante as situações atrás descritas 25 países da
UE assinaram um pacto de destruição económica e social que
designaram por Mecanismo Europeu de Estabilidade e que será tudo
menos de estabilidade comprometendo-se a reduzir os défices
orçamentais para 0,5 % do PIB. Não é difícil supor
as consequências para o desemprego, a pobreza, a exclusão social.
Os propagandistas do sistema sem mais argumentos fazem as promessas habituais
de que no futuro haverá crescimento, emprego, etc. É como, para
reparar uma peça, destruir a máquina (as forças
produtivas) e dizer que depois irá funcionar melhor!
Desde os tempos que precederam a II Guerra Mundial que não se via a
política europeia ser dominada por tão nefasto grupo de
fanáticos e subservientes apaniguados.
A UE tornou-se uma associação sem soluções. Estas
têm de ser procuradas substituindo a maximização do lucro
privado pela maximização dos benefícios sociais, isto
é, substituir o domínio monopolista e do capital especulativo por
uma orientação consequentemente socialista.
[1] História das Ideias Políticas, J. Touchard, ed.
Europa-América, T II , p. 198.
[2] Admite-se que possa atingir 1% no caso da dívida pública
ser inferior a 60% do PIB
[*]
Engenheiro.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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