Um olhar resoluto sobre uma catástrofe nacional e a possível
dissolução da Zona Euro: A crise da dívida grega no seu
contexto
Qualquer analogia com Portugal
não
é mera coincidência
por C. J. Polychroniou
[*]
A União Europeia (UE) tem a sua origem na sequência da II Guerra
Mundial e em grande medida foi constituída mais como uma resposta aos
revezes geopolíticos europeus do que como uma expressão
concertada de aspirações idealistas para instituir um qualquer
tipo de estado pan-europeu que viesse a realizar o sonho de paz perpétua
de Immanuel Kant. Os pais fundadores da UE tiveram como objectivo principal
"unir a França e a Alemanha" a fim de exorcizar "os
demónios do passado".
[1]
Era uma missão política e acreditava-se que a
cooperação económica era a chave para o seu êxito.
O projecto europeu, que já tem 60 anos, é sem dúvida o
movimento mais ousado e inovador para uma integração
económica na história mundial. Evoluindo da Comunidade do
Carvão e do Aço (1952) para uma "União"
após a ratificação do Tratado de Maastricht (1993), que
estabeleceu as disposições para a criação duma
divisa única (o euro) e preparou a cena para a instituição
de um banco central europeu, pelo Tratado de Amsterdão (1998), a UE
engloba 27 estados membros com uma população total de mais de 500
milhões de pessoas e gera um PIB perto dos 13 milhões de
milhões de euros, tornando-a na maior economia do mundo. O euro é
a divisa de maior circulação na União Europeia e é
utilizado por 17 estados membros, que formam a chamada zona euro.
Mas nem tudo corre bem na Eurolândia. A crise financeira que rebentou nos
Estados Unidos em 2007, após o colapso do Lehman Brothers, alastrou
rapidamente até à Europa
[2]
e o continente viu-se, de um momento para o outro, no meio da crise financeira
e económica mais grave desde os anos 70. A princípio, houve
ameaças de um colapso financeiro e os governos de Londres a Berlim
acorreram a salvar os bancos em dificuldades. A situação na
Islândia foi particularmente trágica, visto que a economia deste
país foi atingida muito fortemente pela restrição ao
crédito. Na Irlanda ocorreu uma situação semelhante e o
governo teve que intervir para caucionar os principais bancos do país.
Em Março de 2010, o governador do banco central da Irlanda, Patrick
Honohan, descreveu a crise irlandesa como "uma das crises bancárias
mais caras da história mundial".
[3]
O pesadelo financeiro na União Europeia não terminou com as
crises da banca. Logo depois seguiu-se uma vaga de crises da dívida, com
a Grécia à cabeça. Quando se tornou deveras real a
possibilidade de a Grécia não poder honrar a sua enorme carga
devedora, a UE e o Fundo Monetário Internacional (FMI) envolveram-se num
amplo plano de ajuda (foi aprovado em Maio de 2010 um plano de salvamento no
valor de 110 mil milhões de euros) que incluía um programa de
ajustamento estrutural que continha rigorosas medidas de austeridade. A
reestruturação da dívida incontrolável da
Grécia foi totalmente ignorada pelos chefes da UE, que preferiram optar
por fazer da Grécia uma cobaia para a transformação
neoliberal mais radical duma economia nacional desde a época de Margaret
Thatcher.
A Grécia, uma economia com problemas estruturais a longo prazo e bem
conhecida pela ineficácia do seu sector público e pela
corrupção pública, é o elo mais fraco na zona euro;
contribui com apenas 2 por cento do PIB total da UE. Mas isso não
impediu que a crise da dívida grega se espalhasse como o
Ébola
por toda a zona euro
[4]
, afectando especialmente as outras economias periféricas. Com os
mercados a considerarem que o plano de salvação UE/FMI só
serviria para tornar a dívida do governo grego ainda mais
incontrolável, desencadeou-se um efeito de contágio que depressa
se materializou numa crise sistémica da zona euro.
A crise da zona euro é uma crise do capitalismo neoliberal global e de
tudo o que significam os mercados livres: insegurança económica e
risco acrescido, crescente desigualdade e mal-estar social, maior liberdade do
capital e menos democracia política. Neste aspecto, o problema grego,
reconhecidamente com algumas características especiais e
extraordinárias, é também um problema europeu
exactamente da mesma maneira que a crise da Irlanda é um problema
europeu. Afinal, como é possível que dois países com
economias tão diferentes tenham tido a mesma sina?
[5]
No universo neoliberal, em que a política cedeu o poder a uma elite
oligárquica, as economias nacionais estão à mercê
das forças capitalistas predatórias e, assim sendo, os
políticos pouco podem fazer para influenciar os resultados. Com efeito,
quem pode negar que o capitalismo global mergulhou grande parte do mundo numa
crise de proporções sem precedentes e está a provocar a
miséria e o sofrimento a milhões de pessoas? A insegurança
económica, o desemprego maciço, os salários em
declínio, a pobreza, a marginalização social, o crime, o
medo e a decomposição social são actualmente
características que definem muitas das sociedades capitalistas
avançadas. Com o crescimento concentrado sobretudo em actividades
financeiras especulativas e na supressão de salários, a riqueza
está distribuída de modo tão desigual que as fronteiras
sociais e históricas entre nações ricas e pobres se
esboroaram totalmente. A riqueza e a pobreza coexistem muito de perto em muitas
cidades de sociedades avançadas tal como acontece no mundo menos
desenvolvido.
With the belief that markets on their own terms are the best means for the
maximization of growth and development and that societal interests are best
served when individuals act more like consumers than citizens, the neoliberal
dogma has become a scary dystopian nightmare. In its bare essence,
neoliberalism represents a counterrevolution to the postwar regime in the area
of economic and social rights and connects to the interests of the rich,
corporations and the needs of the dominant form of capital in contemporary
capitalism, that of finance.
Na crença de que os mercados, de acordo com as suas próprias
condições, são a melhor forma para a
maximização do crescimento e do desenvolvimento e de que os
interesses da sociedade são mais bem servidos quando os
indivíduos agem mais como consumidores do que como cidadãos, o
dogma neoliberal tornou-se num pesadelo distópico assustador. Na sua
essência, o neoliberalismo representa uma contra-revolução
ao regime pós-guerra na área dos direitos económicos e
sociais e está ligado aos interesses das grandes e ricas
corporações e às necessidades da forma dominante do
capital no capitalismo contemporâneo, ou seja, o da finança.
O neoliberalismo permitiu a liberalização das normas do trabalho,
a privatização do património do estado, os cortes
orçamentais em programas sociais, na educação
pública e na saúde pública. Protegeu fortes cortes de
impostos para os ricos, o imobiliário, a banca e as
transacções financeiras. Tratou de reforçar o estado
penal. Apoiou a penalização da pobreza e a
criminalização de muitos movimentos sociais que resistiam ao
colapso da esfera pública.
Muito à semelhança do que aconteceu ao terceiro mundo nos anos 70
e 80, a Europa caiu vítima das políticas económicas
neoliberais globais. A crise financeira global que atingiu o pico em
Setembro-Outubro de 2008 tornou-se numa crise de emprego global. Esta crise
envolveu toda a Europa, e ameaça desmantelar os últimos
vestígios da economia de mercado social e completar a
destruição de ganhos fundamentais e de direitos sociais
conquistados pelas classes trabalhadoras durante os últimos 50 anos.
Desde o Tratado de Maastricht, em que a Europa exprimiu plenamente a sua
intenção de abraçar e reforçar o projecto
neoliberal global, prosseguiu a erosão das garantias de bem-estar
social, e só não atingiu o total desmantelamento da democracia
social porque a resistência popular se intrometeu no seu caminho. Agora,
à medida que a crise global se vai espalhando pela Europa, trazendo para
a linha da frente as fraquezas de o euro ser a única divisa em toda a
UE, surgiram como questões mais prementes os problemas fiscais e a
dívida soberana. Estão a ser implementadas a disciplina fiscal e
severas medidas de austeridade a fim de acalmar os mercados financeiros globais
e proporcionar estabilidade ao sistema bancário europeu.
A Grécia está actualmente sob as ordens da UE e do FMI por causa
da dimensão incontrolável da sua dívida e ficou assim
sujeita a medidas de austeridade draconianas. Portugal, a Espanha, a
Itália, a França e a Inglaterra juntaram-se ao clube de
austeridade da Europa com profundos cortes orçamentais. A Letónia
e a Roménia também estão sob a supervisão UE/FMI e
as suas economias foram submetidas a tratamentos de terapia de choque para os
empréstimos de salvação que receberam.
No pesadelo neoliberal, desapareceram as distinções
ideológicas entre partidos políticos sociais-democratas e
conservadores. Assim, na Grécia e em Espanha, os governos
"sociais-democratas" estão a pôr de lado o
próprio pretexto de serem agentes de reformas progressistas. Estes
governos estão a impor cortes e medidas de austeridade sem precedentes,
reduzindo significativamente o nível de vida dos trabalhadores
através do recuo em programas sociais, benefícios sociais e
direitos sociais há muito consagrados.
A Grécia é de longe o exemplo mais flagrante de como um governo
"socialista" pode facilmente tornar-se num agente ao serviço
do projecto neoliberal global. Na sua campanha eleitoral de 2009, o partido
socialista da Grécia, PASOK, liderado por George Papandreu, propôs
o modelo de "democracia participativa" como base duma nova
política. Porém, a primeira acção que Papandreu
tomou enquanto novo primeiro-ministro foi preparar o terreno para entregar a
Grécia ao FMI e escondeu esse facto vergonhoso aos
cidadãos gregos até à última hora.
[6]
O que se segue é uma tentativa de examinar os antecedentes
político-económicos da crise da dívida da Grécia e
evidenciar os efeitos catastróficos que as medidas de austeridade
estão a ter na população do país e nas perspectivas
de recuperação económica. No mínimo, as
políticas UE/FMI que estão a ser actualmente implementadas
vão garantir a incapacidade do país e forçar a
Grécia a sair do euro. As políticas neoliberais extremas da UE,
aliadas à ambígua abordagem a uma maior unidade económica
e política propostas pela Alemanha e pela França, aumentam
substancialmente o risco da possível dissolução da zona
euro e até mesmo a dissolução do projecto de
integração europeu. À luz disto tudo, o facto de os
líderes da UE estarem a ter dificuldades em dominar o problema grego e
em arranjar uma solução abrangente para a crise de dívida
da zona euro deve-se aos próprios constrangimentos do regime
económico neoliberal em que funcionam os políticos, e que
ajudaram a criar, e em muito menor grau a uma questão de
incompetência política. A arquitectura da governação
da zona euro, aliada às assimetrias da integração
europeia, limitam fortemente decisões políticas rápidas,
de longo alcance, para resolver a crise de dívida, incluindo o sistema
bancário da Europa que se mantém amplamente sub-capitalizado.
Neste contexto, o recente lamento do antigo Chanceler Helmut Kohl, noticiado em
Der Spiegel,
de que "a Chanceler Merkel está a destruir a minha Europa"
[7]
pode ter uma certa verdade, mas também revela uma total falta de
apreciação de como a Europa de hoje está afastada do
modelo social-democrata que o continente representava ainda há poucas
décadas.
SEM CONDIÇÕES PARA O EURO
Quando a Grécia foi aceite na zona euro em 1 de Janeiro de 2001, o
sentimento entre a elite política e a comunidade financeira e de
negócios em Atenas era, naturalmente, de grande júbilo. O
ministro das Finanças grego, Yannos Papandoniou, descreveu-o como
"um dia histórico que vai colocar a Grécia firmemente no
centro da Europa, enquanto o primeiro-ministro Costas Simitis propagandeava que
"todos sabemos que a nossa inclusão na UME (União
Monetária Europeia) nos garante maior estabilidade e nos abre novos
horizontes".
[8]
Ambos acabaram por ser considerados como tendo reinado durante o mais longo
período ininterrupto de corrupção política da
história moderna da Grécia.
A elite política e financeira grega estiveram de acordo com economistas
e funcionários públicos europeus em que uma única divisa
se traduziria em importantes benefícios. Um relatório da
Comissão da Comunidade Europeia intitulado "Um Mercado, uma
Moeda", publicado uns 10 anos antes de o euro entrar em vigor,
realçava o que considerava serem os principais benefícios duma
divisa única, mas também sublinhava alguns dos custos a ela
associados.
[9]
Tipicamente, a elite política grega preferiu ignorar estes
últimos, pois isso significaria ter que enfrentar a dura realidade de
que a economia grega não estava em posição de entrar numa
intensa competição num mercado unificado único com uma
divisa única, e concentrou-se na sua campanha de relações
públicas em convencer os cidadãos da grande oportunidade
histórica proporcionada pela adesão à zona euro. Por
exemplo, um dos principais benefícios do euro, de acordo com o
relatório, era de que "vai acelerar a integração
económica e o crescimento económico através duma
competição crescente e duma produtividade mais alta".
[10]
O projecto europeu duma união económica e monetária sob a
forma duma moeda única não deixava de ter os seus críticos
e alguns deles encontravam-se dentro da própria Alemanha. Wilhelm
Hankel, Karl Albrecht Schachtschneider, Joachim Starbatty, e Wilhelm
Nölling eram quatro professores renegados que se opuseram ao euro desde o
início e tentaram impedi-lo com um processo legal no supremo tribunal da
Alemanha. Obviamente, perderam o processo. Tentaram de novo, 12 anos depois,
contra uma operação alemã de salvação
à Grécia. Perderam novamente. A sua alegação
básica era que o euro era um erro arquitectural que iria levar ao
colapso das economias europeias. Numa entrevista recente que fiz a um dos
quatro economistas alemães renegados, Joachim Starbatty mostrou-se
vingado e repetiu a sua objecção de há muito em
relação ao euro: "Uma união monetária
só pode sobreviver se a competitividade económica de todos os
estados membros se movimentar na mesma direcção e se os diversos
governos implementarem uma política fiscal saudável".
[11]
Uma acusação igualmente forte feita contra uma divisa europeia
única era que uma convergência sustentável na União
Europeia só podia ser conseguida à custa de taxas ainda mais
altas de desemprego. De acordo com este argumento, a política
económica e fiscal da zona euro tinha que levar a uma convergência
do custo laboral unitário real, senão o desemprego atingiria
níveis insustentáveis. Contudo, os críticos consideravam
que uma convergência real (crescimento, criação de riqueza,
custos salariais reais, desemprego, produtividade) num ambiente
económico neoliberal, era uma quimera. Na verdade, comprovou-se que os
críticos tinham razão, pelo menos neste ponto: o euro levou a uma
maior desigualdade económica e social entre as diversas economias
nacionais, exacerbou o problema do desemprego nas economias periféricas,
e provocou enormes transferências da periferia para o centro. Mas,
esperar que a elite política e financeira na Grécia se dedicasse
a estas reflexões e ponderasse se seria avisado para o país
entrar no euro na altura em que o fez, seria o mesmo que esperar que um
tubarão virasse as costas ao cheiro de sangue. O fácil acesso ao
crédito internacional com baixos juros não só ajudaria a
sustentar o modelo e a estratégia de crescimento dos últimos 30
anos, mas também ampliaria fortemente as oportunidades para subornos,
luvas e recompensas para a classe política. Quanto aos economistas
académicos neoliberais, que eram sólidos defensores da
adesão da Grécia ao euro, o melhor que conseguiram fazer foi
colocar as suas apostas na esperança infundada de que a moeda
única levaria a uma produtividade acrescida e a acelerar ajustamentos
estruturais na economia grega.
[12]
Obviamente, ainda se está para ver até que ponto as recentes
evoluções na zona euro deram uma legitimidade renovada aos
argumentos dos críticos do euro. Mas o que é incontestavelmente
claro é que a Grécia não estava em condições
de aderir ao euro na altura em que o fez.
Vejamos, quando o século XX estava a chegar ao fim, a economia grega
tinha graves fraquezas estruturais, marcadas por uma baixa competitividade,
infra-estruturas ineficazes, um mercado de trabalho rígido, capacidade
produtiva limitada, várias empresas do sector público
financeiramente insustentáveis e uma administração do
sector público ineficaz e frequentemente ineficiente.
[13]
A sua economia baseada no mercado mas orientada pelo estado era controlada por
uma estrutura oligárquica em que os grandes conglomerados e
indivíduos de negócios, em aliança com a elite
política interna, possuíam o grosso da riqueza do país,
controlavam os meios de comunicação e estabeleciam o programa
político e económico. Assim sendo, uma classe capitalista
parasitária vivia à conta do orçamento do estado, em que a
pilhagem da riqueza pública assumia a forma de contratos de obras
públicas (sempre com uma avultada comissão para os
políticos envolvidos) e uma maciça evasão fiscal.
A Grécia conseguiu a entrada na zona euro falsificando (com a ajuda do
Goldman Sachs) o verdadeiro estado da situação fiscal do
país. Poucos anos depois da sua admissão na zona euro, o Eurostat
anunciou que o défice orçamental grego era de 4,1 por cento em
2000, de 3,7 por cento em 2001 e 2002, e de 1,7 por cento em 2003. Os
números fornecidos por Atenas para a entrada na zona euro eram de 2,0
por cento para 2000, de 1,4 por cento em 2001 e 2002, e de 1,7 por cento em
2003.
[14]
Quanto à dívida, sabemos agora que em 2000 se situava em 114 por
cento do PIB.
O défice grego não foi uma invenção dos anos 2000.
As suas raízes remontam ao governo populista de Andreas Papandreou nos
anos 80 e tornou-se numa característica permanente da política
económica de todas as administrações durante as duas
décadas seguintes. Tanto nos anos 80 como nos anos 90, a despesa
governamental anual ultrapassou a receita a uma média de mais de 8 por
cento do PIB. Como seria de esperar, a dívida pública
também aumentou durante o mesmo período em grande parte
como resposta aos altos défices que se foram acumulando numa base anual.
[15]
Um outro indicador de como era fraca a base da economia na altura em que a
Grécia estava a dar tudo por tudo para conseguir entrar na zona euro,
era que a balança de pagamentos em 2000 registava um défice de
8,3 mil milhões de euros, quase o dobro do ano anterior.
[16]
Outra importante fonte de preocupação era o enorme défice
em cinco fundos públicos de saúde, que em 2000 atingia cerca de
1,5 mil milhões de euros.
[17]
Na ausência de um ambiente de negócios aberto, transparente e
não discriminatório, assim como de uma economia competitiva e
saudável, o desemprego na Grécia era também um problema
muito grave na época. Em 1999, o nível nacional real de emprego
situava-se apenas em 56,9 por cento, enquanto que na UE era de 63 por cento. A
taxa oficial de desemprego para o mesmo ano andava perto dos 12 por cento
quando a taxa média de desemprego na UE era de 9,4 por cento.
[18]
O problema do desemprego manteve-se a níveis muito altos entre 2000 e
2009, e actualmente, em consequência das rigorosas medidas de austeridade
impostas pela UE e pelo FMI no quadro do plano de salvação, o
desemprego chegou aos 16 por cento, e muitos analistas prevêem que vai
atingir ou mesmo ultrapassar a marca dos 20 por cento no final de 2011.
Claramente, a Grécia não devia ter entrado na zona euro quando o
fez; na verdade, conseguiu-o através da manipulação das
contas fiscais porque a sua elite interna político-económica viu
nisso uma janela de oportunidades para um fácil acesso a riqueza
adicional e porque os chefes da UE na altura, em grande parte por razões
politicas e porventura até ideológicas, optaram por olhar para o
lado. A entrada da Grécia para a zona euro, conforme assinalaram alguns
analistas, foi "um erro de proporções
históricas".
[19]
CRESCIMENTO ECONÓMICO COM BOLHAS
O desempenho da economia grega desde a adopção do euro coloca
significativos desafios aos economistas e a outros analistas e, assim sendo,
exige um nível de análise que está tão afastado
quanto possível da tradicional abordagem económica
neoclássica. Captar as importantes contradições da
economia política grega até que ponto o crescimento
económico se baseou na desregulamentação dos mercados de
crédito e de capitais e no empréstimo extensivo, até que
ponto a criação de riqueza se formou com base em escândalos
financeiros, numa desigual redistribuição de receitas, na
exploração da força de trabalho e numa maciça
evasão fiscal entre os ricos exige mais do que uma
micro-análise baseada em consumidores e empresas racionais.
Como já vimos, um dos argumentos a favor duma divisa única era
que tornaria as economias mais competitivas e que estimularia o crescimento e a
produtividade. Mas um estudo recente patrocinado por um dos maiores bancos do
país revelou que a competitividade da Grécia diminuiu em 10 por
cento entre 2000 e 2009.
[20]
Esta evolução assume um peso extra quando consideramos o facto
de que o maior aumento registado na competitividade grega ocorreu no
período antes de a Grécia aderir ao euro. Com efeito, como
indicador do impacto que o euro teve na competitividade grega, em 2009 a
Grécia situava-se no 71º lugar no Índice de Competitividade
Global do Fórum Económico Mundial e caiu para o 83º lugar em
2010.
Mesmo assim, a Grécia teve um crescimento médio de 4 por cento do
PIB entre 1997 e 2007. Como foi isso possível? E até que ponto
seria rigoroso este número como reflexo da força da economia
real, quando a economia em questão é pouquíssimo
competitiva, as condições fiscais se deterioram exponencialmente
com o tempo, e a percentagem da população pobre e em
situação de subemprego aumenta regularmente duma década
para a outra? Os mistérios da economia grega são de facto
tão profundos que espantaram até os especialistas
económicos da UE e do FMI que estão agora a tentar deitar a
mão aos assuntos fiscais da nação! Um ponto a ter em
atenção: quantas economias podemos referir em que os
salários estejam a encolher, o exército de reserva da
força de trabalho está a aumentar rapidamente, a procura desce
até aos caboucos, e no entanto os preços dos produtos essenciais
continuam a subir em espiral? A inflação média na
Grécia em 2011, num período de profundas medidas de austeridade,
de desemprego maciço e de quase colapso do sector da pequena
indústria e comércio, mantém-se em 3,86 por cento
quando no resto da área do euro se situa nos 2,5 por cento.
[21]
De qualquer modo, a resposta mais simples à questão acima
levantada é que o "desempenho de crescimento" da economia
grega durante a última década assentou em dois pilares
gémeos, o do forte endividamento do estado e o das transferências
da UE. Melhor dizendo, a divida do governo grego duplicou entre 2001 e 2009
enquanto que as transferências da UE para o período de 2000-2006
totalizaram aproximadamente 20 mil milhões de euros, que, segundo as
estimativas da CIA, equivalem a cerca de 3,3 por cento do PIB anual.
[22]
Claro que o sobre-endividamento e as transferências da UE para a
Grécia representam apenas uma face da moeda. O outro lado da moeda
é a enorme fatia de fundos pagos aos credores.
[23]
Segundo o Banco da Grécia, para o período de sete anos
até 2004, a Grécia pagou 208 mil milhões de euros aos seus
credores, e contudo a sua dívida não diminuiu, pelo
contrário aumentou, de 105 mil milhões para 185,3 mil
milhões de euros.
[24]
É o mesmo ciclo vicioso, terrível e horrendo, de dívida
em que muitos países latino-americanos e outros países do
terceiro mundo se encontraram no auge da exploração financeira
ocidental nos anos 60 e 70. Neste caso, há que ter em conta
também a enorme quantidade de dinheiro que a Grécia gastou
anualmente em armamento militar, desde os anos 80 até aos finais dos
anos 2000. As despesas militares da Grécia, expressas em percentagem do
PIB, foram, na última década, quase o dobro das da NATO e da
União Europeia. Enquanto que a taxa média anual para esta
última foi de 2,4 por cento, para a Grécia foi de 4,8 por cento.
A Grécia tem sido o melhor cliente da Alemanha e da França. A
Alemanha e a França ofereceram empréstimos generosos à
Grécia para esta poder comprar armas para se proteger de outro membro da
NATO (ou seja, a Turquia). Subsequentemente, em 2006, a Grécia já
tinha atingido a segunda maior dívida pública entre os 27 estados
membros da UE.
[25]
Durante o início dos anos 2000, mas também durante os anos 90,
foram batidos todos os níveis históricos de consumo na
Grécia (o consumo chegou perto dos 90 por cento do PIB) e o investimento
desceu (representou pouco mais de 20 por cento do PIB). Em termos simples
económicos, conforme assinalam Meghir, Vayanos e Vettas, "Isto
significa que os cidadãos gregos andaram a consumir mais, enquanto se
gastava menos em investimento produtivo, como fábricas e
auto-estradas".
[26]
Nestas condições, a dimensão da dívida só
podia aumentar; na verdade, explodiu à medida que a taxa de
empréstimo aumentava para 10,2 por cento do PIB ao ano durante os anos
2000.
[27]
Além disso, a dívida da Grécia é sobretudo
externa. Em 2009, a dívida pública externa da Grécia era
de 89 por cento do PIB.
[28]
Os males fiscais da Grécia intensificaram-se com a enorme
discrepância entre a despesa e as receitas. O governo grego realiza 7,9
por cento do PIB em impostos directos quando a média dos governos da UE
realiza 13,7 por cento.
[29]
A entrada da Grécia na zona euro esteve mergulhada num mar de outros
interesses e de profundas contradições. A
acumulação de capitais, por exemplo, conforme assinala o
economista político grego Costas Vergopoulos, avança, durante os
primeiros cinco anos da entrada do país na zona euro "a um ritmo
que é equivalente ao do crescimento do défice e da dívida
públicos em vez do ritmo do consumo interno".
[30]
Especificamente, a formação de capital cresceu em 89 por cento
quando o consumo interno registou um crescimento de 39 por cento.
[31]
Assim, como sublinhou Vergopoulos, "esta evolução deformou
a economia real, quando a formação de capital se desenvolveu
não em relação ao mercado interno e global, mas com base
na procura de capital financeiro".
[32]
De modo semelhante, enquanto a produtividade da força de trabalho
aumentou no mesmo período de cinco anos a uma taxa média anual de
3 por cento, a média dos salários reais aumentou apenas em 0,8
por cento.
[33]
Em resumo, o crescimento económico grego entre 1997 e 2007 foi
principalmente, ou mesmo exclusivamente, baseado no sobre-consumo, em
níveis de dívida cada vez mais elevados, e num processo de
acumulação de capitais que estava profundamente divorciado da
economia real. Foi um período de crescimento económico no meio de
bolhas. Também se gerou uma quantidade imensa de riqueza para uns poucos
através de escândalos financeiros, subornos e luvas, e
através de transferências via diversos esquemas financeiros. Na
verdade, os processos de arrebanhamento de riqueza e de "pilhagem da
República Helénica"
[34]
atingiram novos picos no início dos anos 2000. A crise da
dívida, que fez com que este país se encontre essencialmente
falido, não só vai levar a resultados económicos e sociais
catastróficos a longo prazo como vai também assegurar à
Grécia um lugar como uma das maiores democracias fictícias do
mundo e possivelmente a posição ímpar de ser a
única república das bananas na Europa.
ESCÂNDALOS FINANCEIROS, SUBORNOS E LUVAS
Os escândalos financeiros e a corrupção constituem
importantes fontes de criação de riqueza na Grécia.
[35]
Enquanto praticavam políticas populistas para satisfazerem os seus
eleitores e prosseguiam estratégias destinadas a tranquilizar os
interesses económicos consagrados do país, os governos gregos,
sem excepção, desde o restabelecimento da democracia, têm
estado envolvidos em diversos escândalos de natureza financeira e
política, explorando recursos do estado para transferir riqueza do
público para o privado e para redistribuir a riqueza de baixo para cima.
Do mesmo modo, os subornos e as comissões representam uma componente
integral do modo como o país conduz os seus negócios e a
única forma possível, em muitos aspectos, com que os
cidadãos conseguem acelerar serviços no sector público.
"Fakelaki"
(dinheiro dentro de um envelope) é usado até à
exaustão em praticamente todas as transacções, incluindo o
acesso a hospitais e médicos, para manter à distância as
autoridades fiscais e para violações ambientais e de
construção.
No início do novo milénio, e quando estava a preparar-se
politicamente para entrar na zona euro, a Grécia ainda estava a lamber
as feridas do maior escândalo político-financeiro da sua
história pós-guerra: o colapso da bolsa de Atenas. A
especulação selvagem do mercado de acções fora
alimentada por declarações muitas vezes repetidas de diversos
funcionários governamentais (com o ministro das Finanças Yiannos
Papantoniou a liderar o coro) de que a tendência ascendente era um
reflexo rigoroso da situação robusta da economia real.
Milhões de gregos, sem experiência anterior de investimento no
mercado de acções, precipitaram-se para aproveitar a
oportunidade, aparentemente dourada, de ficarem ricos de um dia para o outro. O
resultado foi uma perda calculada em aproximadamente cem mil milhões de
euros, na sua maioria de pequenos investidores, e a maior
redistribuição de riqueza privada jamais verificada na
história do país. Foi uma fraude de proporções
gigantescas, igual na sua concepção ao frenético esquema
Ponzi da Albânia em 1996-97, embora este último tenha tido
consequências económicas, políticas e sociais muito maiores.
O governo socialista do então primeiro-ministro Costas Simitis foi de
facto directamente responsável pela terrível subida e colapso da
bolsa de Atenas mas esta situação não foi uma
aberração: durante o reinado de Costas Simitis, o
primeiro-ministro da Grécia de 1996 a 2004, o partido socialista (PASOK)
tinha-se transformado radicalmente de uma organização
política populista mas cleptocrática num partido neoliberal de
meliantes políticos que praticavam a corrupção
política sistemática enquanto pregavam as virtudes de mercados
sem entraves.
O caso Siemens é mais um exemplo da flagrante corrupção
política, com raízes que remontam ao início e meados dos
anos 2000, mas que só há poucos anos despertou a
atenção pública na Grécia e apenas por causa das
revelações feitas pelos meios de comunicação
estrangeiros sobre escândalos de subornos envolvendo uma das
corporações industriais mais poderosas e mais ricas da Alemanha.
A empresa alemã tinha por costume entregar comissões a figuras
políticas a fim de conseguir tratamento preferencial em acordos de
negócios (ou seja, ganhar contratos estatais). Era uma prática
global da Siemens e calcula-se que os subornos a quadros gregos dos dois
principais partidos políticos possam ter chegado aos 100 milhões
de euros num período de 10 anos. Foram apresentadas queixas em 2008 por
lavagem de dinheiro e suborno, mas uma comissão de
investigação parlamentar que se constituiu para examinar o
escândalo Siemens meteu convenientemente o processo na gaveta. De
qualquer modo, a lei existente na Grécia (graças ao actual
ministro das Finanças no governo de Papandreou) torna impossível
processar ministros por crimes praticados durante o exercício do seu
cargo.
Um outro escândalo ainda, envolvendo enormes transferências,
ocorreu nos Jogos Olímpicos de Verão de 2004. Sob muitos
aspectos, a organização dos Jogos Olímpicos de
Verão de 2004 foi apenas o prelúdio para a crise de
insolvência que rebentou uns anos depois e que já forçou
até agora a UE a alargar dois pacotes de salvação de
dimensão sem precedentes a fim de impedir o efeito de contágio no
resto da zona euro. De acordo com a forma como as corruptas entidades estatais
gregas gerem os negócios públicos, o custo real dos Jogos
Olímpicos ainda está por vir a público; mas os custos
estimados situam-se algures entre 15 a mil milhões de euros, tendo o seu
custo disparado poucos meses antes do início dos Jogos. Além
disso, os benefícios de retorno foram insignificantes, a maior parte dos
locais desportivos mantêm-se inactivos e quase todas as
instalações em volta da Aldeia Olímpica foram abandonadas.
Gastos monetários em investimentos de valor duvidoso no sector
público, uma ausência total de prestação de contas,
e total incompetência administrativa, tudo isto são exemplos da
forma como funciona o estado grego. Enquanto o opado sector público
concentra a fúria dos meios de comunicação por causa dos
males fiscais do estado grego, continua a pilhagem da riqueza pública em
benefício da elite económica interna sobretudo sob a forma de
gigantescos contratos de obras públicas (sempre com pesadas
comissões para os políticos envolvidos) e duma maciça
evasão fiscal. A protecção do estado também abrange
a classe doméstica dos negócios, da indústria e da
finança no que se refere às violações das leis
laborais, à poluição ambiental, à
construção ilegal, etc. Na verdade, o termo "país
fora de lei" é um termo sucinto para perceber a natureza da cultura
política grega.
[36]
Indicador também de como a corrupção endémica e
aceite tem vigorado no sistema político grego, é o facto de que o
termo "corrupção", conforme o professor criminologista
grego Effi Lambropoulou assinala, nem sequer fazia parte da
legislação do país ainda há bem pouco tempo.
[37]
Os males e as anomalias da cultura política grega são realmente
espantosos quando pensamos que a Grécia é um estado membro da
União Europeia. A economia subterrânea da Grécia gera mais
de 40 por cento do produto interno bruto oficial; a evasão fiscal
está tão generalizada que cobre praticamente todos os aspectos da
sociedade, e a percentagem de pessoas com pensões de invalidez ou de
reforma antecipada por velhice excede em muito a de qualquer outro país
da UE. Os escândalos políticos e os crimes financeiros
muitos deles de proporções gigantescas e com
implicações legais e políticas tão graves que, em
qualquer outro país, levariam à queda de governos inteiros e a
pesadas condenações a cadeia para os culpados passam
rotineiramente sem qualquer punição.
O sistema político grego tem sido um insulto para a democracia e para os
princípios básicos da decência e da justiça. Em
grande medida, o sistema falhou desta maneira porque os dois principais
partidos políticos (socialistas e conservadores) têm governado
através de práticas clientelistas e princípios
absolutamente imorais. Os dirigentes políticos têm-se revezado a
comprometer os eleitores em relações de longo prazo baseadas
não na realização de bens públicos nem numa ordem
social justa, mas nas promessas de uma redistribuição de recursos
aos seus partidários fiéis. Os dirigentes políticos
têm tratado o estado não como um instrumento para concretizar
políticas sociais e económicas eficazes, mas como um instrumento
para realizar objectivos traçados pelo partido, para
relações de clientelismo, e puros interesses pessoais. Neste
contexto, a crise grega não é apenas uma crise económica
mas também uma crise política e moral. Assim, embora a
saída da actual crise económica seja uma prioridade nacional, a
reforma do sistema político e a instilação do sentido de
ética pública na cultura política da nação
são empreendimentos vitais para as perspectivas futuras de
sustentabilidade e governação democrática.
CRISE DA DÍVIDA, MEDIDAS DE "AUSTERIDADE" E INCUMPRIMENTO
Quando rebentou a crise global, a economia grega já tinha entrado numa
fase difícil, em que a expansão do PIB começou a abrandar
em 2008. Com efeito, o sector industrial tinha entrado numa fase de
recessão já em 2005. Em 2008, o indicador da
produção industrial tinha caído 4,2 por cento e atingira
um declínio de 10 por cento em 2009.
[38]
Contudo, quando a crise chegou à Grécia, toda a gente se
encontrava num aparente e inexplicável estado de negação,
incluindo importantes responsáveis da UE. Assim, em Outubro de 2008,
Kostas Karamanlis, na altura primeiro-ministro da Grécia e líder
do partido conservador Nova Democracia, declarou num discurso aos seus quadros
que a economia grega estava suficientemente "escudada" contra os
efeitos da crise económica graças aos ajustamentos estruturais
que o seu governo tinha iniciado. E o seu principal opositor político, o
líder do PASOK, George Papandreou (actual primeiro-ministro), garantiu
aos seus concidadãos que "havia muito dinheiro
disponível" e que, se fosse eleito, o seu governo iria exibir
"a vontade política" de arranjar o dinheiro para a
população trabalhadora, tal como tinha sido arranjado para a
salvação dos bancos. Mas o exemplo mais problemático da
falta de vontade por parte dos responsáveis públicos dirigentes
em reconhecer o problema que a Grécia iria enfrentar veio dos
próprios chefes da UE: assim, o Comissário da UE, Joaquim
Almunia, anunciou ainda em finais de Fevereiro de 2009 que "a economia
grega está em melhores condições em
comparação com as condições médias na zona
euro, que se encontra actualmente em recessão".
[39]
Porque é que as elites políticas gregas e da UE foram incapazes e
não quiseram enfrentar a gravidade da situação grega antes
de as coisas ficarem fora de controlo? Esta questão torna-se ainda mais
premente à medida que a crise grega se aprofunda, ameaçando de
colapso toda a zona euro, e as elites da UE se contentam em dar pontapés
à lata da crise da dívida da zona euro pela estrada afora.
Mas a crise da dívida soberana da Grécia não surgiu do
nada. Embora possa ter sido precipitada pela crise financeira global de
Setembro-Outubro de 2008 (o défice tinha saltado para 15,4 por cento do
PIB), já há muito estava na forja. Era, com efeito, uma bomba
relógio prestes a explodir. Tal como veio a indicar a análise do
contexto histórico da economia política da Grécia que se
seguiu, o modelo grego de crescimento económico estava profundamente
defeituoso e continha inúmeras contradições graves que
estavam prontas a explodir. Conforme já afirmámos, na
Grécia, as taxas de impostos sobre rendimentos estiveram sempre muito
baixas e a evasão fiscal era maciça, e o governo geria um
défice contínuo produzindo uma enorme provisão de
dívida nacional sempre bem acima de 100 por cento do PIB.
O nível da dívida da Grécia em breve ultrapassará
os 170 por cento do PIB. É nitidamente incontrolável, apesar de
os funcionários da UE continuarem a tratar o problema grego como se
fosse de liquidez em vez de insolvência.
O plano de salvação que entrou em vigor no verão de 2010
tem sido uma catástrofe social e económica para a Grécia.
Acelerou a espiral descendente da economia e tem submetido a
população grega (em especial aqueles que são menos
responsáveis pela crise) a medidas económicas extremas que
reduzem o poder de compra e aumentam a insegurança do emprego. A
lógica da economia dos ajustamentos estruturais neoliberais
(liberalização do mercado de trabalho, fortes cortes
orçamentais, fortes reduções em pensões e
salários, fortes aumento nas taxas do imposto de valor acrescentado,
privatização de património estatal) que fizeram parte do
maciço pacote financeiro (que, já agora, comportava inicialmente
uma taxa de juro usurária de 5 por cento muito mais alta do que a
que a Grécia podia ter obtido em empréstimos a mercados de
crédito internacionais antes de lhos terem sido fechados) está a
conduzir a um colapso devastador da base produtiva do país, a um
desemprego desenfreado, a uma pauperização acrescida e ao mal
estar social, ao descontentamento politico e ao crime.
O fracasso desmoralizante do plano de salvação e o acordo que o
acompanhou para reformas neoliberais extremas da economia grega provavelmente
reflecte-se melhor no facto de que, desde que entrou em vigor, a
dimensão da dívida tem aumentado substancialmente e todas
as projecções indicam que vai continuar a aumentar nos
próximos anos. Conforme informou o Gabinete Grego de Contas Gerais, no
final de 2010 a dívida pública da Grécia aumentou em 42,8
mil milhões de euros, ou 10 unidades de percentagem do PIB.
[40]
O desemprego sofreu a mesma sorte, aumentando 4,4 por cento num ano (de Maio
de 2010 a Maio de 2011) segundo os dados publicados pela
organização grega de estatísticas. O sector do pequeno
comércio também tem sido duramente atingido, porque a procura
afundou-se num recorde jamais visto. No centro de Atenas, conforme noticiou
recentemente o diário grego Eleftherotypia, uma em cada quatro casas
comerciais está a fechar a porta.
[41]
As medidas de austeridade, assim chamadas eufemisticamente (o termo
"austeridade" comporta uma conotação moral, como uma
coisa boa para o espírito e para a alma) não conseguiram cumprir
nenhuma das suas alegadas metas e objectivos. Segundo as
projecções iniciais UE/FMI, os ajustamentos estruturais ajudariam
uma recuperação imediata da economia grega, reduziriam os
défices e o endividamento, e permitiriam que a Grécia regressasse
aos mercados internacionais de crédito em meados de 2011. Todas estas
três projecções caíram completamente fora do alvo.
Em vez de recuperação, há uma recessão em
aprofundamento (o PIB está a diminuir a uma taxa média anual de
cerca de 4,5 por cento), os níveis de dívida estão a
aumentar, e a Grécia está agora excluída dos mercados
internacionais de crédito indefinidamente. Num mundo racional e justo,
todos os funcionários da UE, do FMI e do governo grego
responsáveis por terem imposto um programa económico fraudulento
seriam dispensados imediatamente dos seus cargos e forçados a
reformar-se. Claro que em eras históricas diferentes, líderes
destes, irresponsáveis e cruéis, acabavam muitas vezes com a
cabeça cortada!
Dito isto, não podemos subvalorizar o grau de cólera
pública que germina actualmente por toda a Grécia contra o actual
governo (que pode facilmente ficar registado na história como o governo
mais incompetente que jamais governou na Grécia moderna) e contra as
entidades da UE/FMI. A tendência por parte dos principais
funcionários da administração (incluindo Theodoros
Pagalos, vice-primeiro-ministro, e Andreas Loverdos, ministro da Saúde)
em culpar directamente os cidadãos, em especial os funcionários
públicos, pelo caos económico da nação, corresponde
a mais uma exibição inegável do grau de falência
política e moral da instituição política do
país, e atira lenha para a fogueira. Política e socialmente, a
situação pode tornar-se altamente explosiva, passando para
além das manifestações em frente do Parlamento grego e dos
acampamentos sentados de membros do Movimento de Cidadãos Indignados.
Como Costas Douzinas e Petros Papaconstantinou procuraram realçar num
artigo recente do jornal britânico
The Guardian,
os gregos estão "a confrontar-se com o neo-colonialismo da
UE".
[42]
Não é preciso aceitar esta interpretação bastante
intelectualizada dos dois analistas acima sobre a actual situação
política da Grécia para perceber que as políticas da UE
são contraproducentes e portanto impopulares (na minha opinião, a
análise subestima profundamente o grau de conservadorismo e de
passividade que a sociedade grega mantém nas suas raízes, ou a
falta programática do projecto de esquerda actual de modo a proporcionar
a base para uma mudança social e política a grande escala).
Até mesmo os banqueiros centrais, incluindo o Banco Central Europeu,
estão a ficar fartos da forma como os principais líderes da UE
estão a lidar com a crise da dívida grega e da zona euro.
[43]
A UE está de facto numa encruzilhada. Ou reestrutura a forma como gere
os seus assuntos económicos, provavelmente aproximando-se mais do modelo
dos EUA, ou enfrenta a dissolução da Eurolândia. A crise
é mesmo difícil e a escolha é bastante clara. Mas a UE
levará um tempo considerável a iniciar mudanças
arquitecturais a grande escala, o que equivale a dizer que a turbulência
do mercado e política vai provavelmente manter-se durante muito mais
tempo do que as pessoas gostariam. Isto também significa que a crise
grega tem poucas hipóteses de ser resolvida brevemente, aumentando assim
substancialmente as probabilidades duma falência e da saída da
Grécia da zona euro. Com efeito, isso é muito possivelmente um
cenário para um futuro próximo, visto que os chefes da UE
estão a analisar o tipo de mudanças estruturais que precisam de
implementar para uma maior coordenação económica e uma
união política mais forte. A Grécia é o elo mais
fraco da UE e é pouco provável que os cidadãos do norte da
Europa tolerem mais planos de salvação para Atenas.
Na verdade, o segundo plano de salvação acordado no final de
Julho deste ano já está posto em dúvida, com países
como a Finlândia a exigir cauções da Grécia em troca
da sua parte de fundos adicionais de salvação, e diversos
governos da UE a duvidar se os seus parlamentos aprovarão outro plano de
salvação. As autoridades da UE e do FMI também parecem
estar a perder a paciência com o governo de Atenas com aquilo que acham
serem tácticas de adiamento contra as políticas de ajustamento
estrutural; no entanto, isso poderá ser apenas uma tentativa de
diversão para encobrir os seus próprios falhanços, tais
como o projectado impacto que as medidas de austeridade iriam ter na economia
grega.
Portanto, a falência da Grécia é o cenário mais
provável. A única questão é se será um tipo
de falência suave ou duro. Um tipo suave de falência manterá
a Grécia na zona euro mas sujeitará o país a uma
recessão económica que durará décadas e ao
declínio do nível de vida. Um tipo duro de falência
forçará a Grécia a sair definitivamente da zona euro,
provocando assim um caos inegável de grande escala, mas será de
curta duração e poderá na verdade obrigar os gregos a
assumir o seu próprio destino e ajudá-los a ultrapassar os seus
problemas económicos particulares e os seus defeitos nacionais. Para um
país com uma necessidade vital de mudança, poderá ser este
afinal o melhor cenário possível de todos.
Setembro/2011
NOTAS
[1] Francois Duchene, Jean Monnet: The First Statesman of Independence (New
York: W. W. Norton, 1994), p. 188; citado in David Marquand, The End of the
West: The Once and Future Europe (Princeton, N.J..: Princeton University
Press), p. 31.
[2] Mark Lander, "The U.S. Financial Crisis Is Spreading to Europe,"
The New York Times
(1 de Outubro, 2009), p. C1.
[3] Citação em Vincent Browne, "Let's Own Up to Our Part in
the Burst Bubble,"
The Irish Times
(6 de Abril, 2011).
[4] Expressão usada no título de um importante artigo que
apareceu no blog londrino Telegraph em 28 de Abril 28, 2010. Ver
www.telegraph.co.uk/...
[5] Ver Terry McDonough and C. J. Polychroniou, "Ireland and Greece--A
Tale of the Good Twin and the Bad Twin and Their Common Fate," Progressive
Economy @TASK (7 de Fevereiro, 2011), 6.
[6] Podemos encontrar uma versão alargada da análise e
crítica do neoliberalismo que depois se seguiu no meu artigo online
"Europe in the Iron Grip of Neoliberal Fiscal Discipline and Anti-Labor
Measures," publicado em Truthout (8 de Junho, 2010).
[7] Ver
http://www.spiegel.de/politik/deutschland/0,1518,774925,00.html
.
[8] Citações de BBC News em 1 de Janeiro, 2001. Ver
http://news.bbc.co.uk/2/hi/business/1095783.stm
.
[9] Commissão da Comunidade Europeia, "One Money, One Market: An
Evaluation of the Potential Benefits and Costs of Forming an Economic and
Monetary Union," European Economy, Vol. 44 (Outubro 1990).
[10] Robert Gilpin, The Challenge of Global Capitalism: The World Economy in
the 21st Century (Princeton, N.J.: Princeton University Press, 2000), p. 205.
[11] "The Euro Proved to Be a Mistake," entrevista de C. J.
Polychroniou com Joachim Starbatty in
The Sunday Eleftherotypia,
Economy
Section (24 de Dezembro, 2010).
[12] Representativo desta linha de raciocínio foi Yiannis Stournaras,
To Vima
(2 de Janeiro, 2000). Director da Fundação para a
Investigação Económica e Industrial, Stournaras é
um dos economistas neoliberais mais convictos na Grécia actual e as suas
análises econométricas, normalmente baseadas num quadro
ilusório de referência para o mundo real da economia (as suas
projecções sobre o crescimento como resultado da abertura das
profissões fechadas da Grécia são um exemplo
típico), fornecem a lógica de raciocínio para diversas
alegações ideológicas sobre a necessidade de reformas
económicas neoliberais e a justificação de
políticas governamentais anti-populares.
[13] Uma óptima análise dos problemas que a economia grega ia
enfrentar por ter aderido à zona euro pode encontrar-se em livro de
Theodoros Pelagidis (Athens: Papazisis, 2001).
[14] Números citados num artigo de Alessandro Gavazza e Alessandro
Lizzeri intitulado "Transparency and Economic Policy", que apareceu
em
The Review of Economic Studies,
Vol. 76, No. 3 (Julho, 2009), p. 1025.
[15] Ver Costas Meghir, Dimitri Vayanos, and Nikos Vettas, "The Economic
Crisis in Greece: A Time of Reform and Opportunity" (5 de Agosto, 2010),
pp. 5-6. O artigo está disponível em
www.greekeconomistsforreform.com
.
[16] Números citados no diário grego
Eleftherotypia,
Kathimerini (6 de Maio, 2001).
[18] Os dados para níveis de emprego e taxas de desemprego nacionais
para 1999 são extraídos do The Economic Report of the Bank of
Greece, No. 16 (Dezembro 2000), pp. 8-9.
[19] Costas Lapavitsas, "Euro Exit Strategy Crucial for Greeks,"
The Guardian
(21 de Junho, 2011).
[20] Dimitris Malliaropulos, "How Much Did Competitiveness of the Greek
Economy Decline since EMU Entry?" Eurobank Research: Economy and Markets,
Vol. 5, No. 4 (Julho 2010).
[21] Ver
www.inflation.eu/inflation-rates/greece/historic-inflation/cpi-inflationgreece- 2011.aspx
[22] The CIA World Factbook (Setembro 2009).
[23] Parece, espantosamente, que a noção de André Gunder
Frank do "desenvolvimento do subdesenvolvimento" continua a ser um
conceito válido no final da primeira década do século XXI
quando se examinam as relações centro-periferia dentro da UE.
[24] Banco da Grécia, Statistical Report of Economic Concurrence, No. 82
(Fevereiro 2005).
[25] Banco da Grécia, Report of the General Director for the Year 2007
(Athens: Bank of Greece, 2008), p. 30.
[26] Ver Meghir, Vayanos, and Vettas, "The Economic Crisis in
Greece," pp. 5-6.
[27] Ibid., p. 7.
[28] ibid., p. 6.
[29] ibid., p.11.
[30] Kostas Vergopoulos, (Athens:
A. A. Livanis, 2005), p. 75.
[31] Vergopoulos, p. 85.
[32] Ibid.
[33] Ibid.
[34] Este é o subtítulo de um livro recentemente publicado sobre
a crise grega provavelmente a cobertura mais abrangente dos problemas
financeiros e económicos contemporâneos da Grécia
até agora. Ver Jason Manolopoulos, Greece's Odious Debt: The Looting of
the Hellenic Republic by the Euro, the Political Elite, and the Investment
Community (London: Anthem Press, 2011).
[35] Segundo a Transparency International que acompanha a
corrupção, dos 27 países que constituem actualmente a UE,
a Grécia disputa o lugar mais baixo com a Bulgária e a
Roménia, enquanto a nível mundial fica entalada entre a
Colômbia e o Lesoto. Com efeito, a corrupção na
Grécia pode ter aumentado ainda mais depois da adopção do
euro, visto que a nova divisa proporcionou oportunidades ainda maiores à
classe político/burocrática para se entregarem a práticas
corruptas.
[36] Jason Manopoulos usa este termo na sua análise pormenorizada dos
escândalos que têm infestado a classe política grega desde
os anos 80 até ao presente. Ver Manolopoulos, Greece's Odious Debt, pp.
95-108.
[37] Ver Effi Lambropoulou, "The Public Discourse on Corruption in
Greece,"
Internet Journal of Criminology
(2007), p. 3, em
www.internetjournalofcriminology.com
.
[38] Autoridade Estatística Grega (18 de Março, 2010). Ver
http://www.statistics.gr/
.
[39] Citado no website da embaixada grega em Washington, D.C. Ver
www.greekembassy.org/...
.
[40] Citado no semanário grego
To Pontiki
(22 de Fevereiro, 2011).
[41]
Eleftherotypia,
(9 de Agosto, 2011).
[42] Costas Douzinas e Petros Papaconstantinou, "Greece Is Standing Up
to EU Neocolonialism,"
The Guardian
(21 de Junho, 2011).
[43] Ver Liz Alderman and James Kanter, "Euro Zone Admonished to Act with
One Voice,"
The International Herald Tribune
(6 de Setembro, 2011), pp. 1, 17.
[*]
Economista. Autor de Marxist Perspective on Imperialism: A Theoretical
Analysis (1991), Perspectives and Issues in International Political Economy
(ed., 1992), e Discourse on Globalization and Democracy: Interviews with
Leading Thinkers of Our Time (em grego; 2002).
Seus artigos têm sido publicados em
New Politics, New Political Science, Socialism and Democracy, Economic and
Political Weekly, Theseis
e
Kyklos.
O original encontra-se em
http://www.levyinstitute.org/publications/?docid=1414
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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