Sair do Euro, para sair do capitalismo
por Maurice Decaillot
[*]
A zona em que o Euro foi imposto como moeda única hoje está
claramente em dificuldade profunda, ameaçadora, provocando entre as
populações inquietações gravosas. Generaliza-se a
exigência de nos desembaraçarmos do fardo de pressões
associados ao Euro.
Chegou o momento de olhar de frente as causas desta situação.
Estas ultrapassam amplamente as origens que são geralmente admitidas,
tais como a dominação dos mercados financeiros e suas crises, a
ambição alemã de dominação europeia,
às quais acrescentam-se as críticas, muitas vezes dirigidas aos
eurocépticos, de fuga egoísta ou de utopismo.
AS CAUSAS DESTA SITUAÇÃO
Uma primeira causa, fundamental mas muito frequentemente mascarada, é
procurar na prática generalizada da troca mercantil, cujos
desequilíbrios seculares provocam hoje as diversas
distorções económicas, sociais e políticas que se
verificam. Esta troca mercantil foi objecto de consagrações
institucionais sem precedente ao longo das últimas décadas,
particularmente a partir do Tratado de Roma assinado em 1957 pelos promotores
da Europa mercantil. Ele legitimou a concorrência livre descarada em toda
a actividade social, a qual foi retomada e agravada desde então pelos
outros tratados europeus, descrevendo como benéfica a pressão em
baixa dos preços que dela resulta, com desprezo para com o
reconhecimento social, humanamente fundamental, do trabalho das pessoas
activas, e reduzindo a transacção da troca a uma
relação entre o decisor poderoso e o destituído
subordinado constrangido à aceitação do
desequilíbrio.
Este desequilíbrio resultou, em cada país, ao longo dos anos, no
agravamento das distorções sociais. O mesmo desequilíbrio
resultou, nas relações entre países com
características económicas e sociais diferentes, no
aprofundamento das distorções económicas, afundando os
países desfavorecidos na dependência, em benefício de
oligarquias mundiais reforçadas.
Na mesma lógica, uma causa suplementar agravou a situação.
Na Europa, após décadas de reforço destas
tendências, o abandono das moedas nacionais e a passagem ao Euro
pôs em concorrência directa, brutal, as pessoas de países
com níveis de actividade visivelmente já diferentes, com a
concorrência acentuada conduzindo os mais fracos, nomeadamente no Sul da
Europa, a uma deterioração agravada da sua situação.
A concorrência mercantil não limita seus efeitos ao acentuar das
distorções entre actores sociais. Ela também tem como
efeito, ao desvalorizar amplamente as produções ditas
competitivas, promover a guerra de todos contra todos, reduzir os rendimentos
de actividades, sufocar produções, levar a reduções
de salários, às eliminações de actividades e de
empregos, ao enfraquecimento das remunerações e, assim, à
deficiência dos mercados solváveis e ao seu próprio
agravamento, ao esmagamento dos recursos necessários aos
indispensáveis serviços públicos, em seguida ao recurso
paliativo aos financiamentos especulativos considerados arriscados, às
monopolizações
(accaparements)
oligárquicas de mercados e de posições dominantes por
parte dos grupos poderosos. Recordemos desde já: longe da ideia por
vezes afirmada de uma "destruição criadora", a ligeira
vantagem momentânea de uma baixa de preço paga-se com pesados
danos em perdas de salário, de emprego, de rendimento, de solvabilidade;
cada ganho em partes de mercado, depois em tarifas de posição
dominante, tem como pesada contrapartida os numerosos perdedores da
competição mercantil capitalista.
Assim, a acentuação brutal pelo Euro da concorrência na
Europa mercantil aumentou fortemente em cada país os
desequilíbrios sociais. Ela também, de modo cada vez mais
visível, cavou os fossos entre os diferentes países.
Ainda na mesma lógica, uma causa suplementar foi acrescentada às
anteriores. A unificação da moeda foi acompanhada de uma
monopolização do controle da estratégia monetária
exclusivamente pelo Banco Central Europeu. Este, conforme um princípio
defendido há séculos pelos meios mercantis, escapa a todo
controle político e conforma a sua acção apenas às
expectativas do mundo comercial e financeiro. Devido a esta
aceitação, por parte das instituições europeias,
desta subtracção da moeda à vontade democrática, os
povos são assim privados de uma ferramenta essencial, que deveria ser a
adaptação da emissão monetária às
evoluções da actividade real que permite aos povos viverem. Assim
foi instituído o absolutismo mercantil, impondo automaticamente aos
Estados que conformassem sua acção às exigências do
mercado dos negócios.
Destas mesmas causas resultam as pressões que, ao comprimirem os
salários e as despesas públicas, pressionam à
intensificação da exploração dos trabalhadores, ao
seu despojamento e à sua dependência e, dessa forma à
acentuação em circuito fechado da própria
concorrência, inclusive entre trabalhadores, à escala nacional e
mundial. Já se vê, com a frequência e a amplitude acrescidas
dos protestos em diversos países, que esta evolução
não pode conduzir, sob formas diversas, senão a movimentos
sociais importantes, obscurecendo danosamente suas perspectivas.
Na mesma linha, uma quarta causa acrescenta-se às anteriores.
Abandonando o terreno europeu minado pela sua dominação, os
capitais europeus são investidos amplamente no exterior, tanto para os
países tornados "emergentes" e, para alguns,
excedentários por força (provisória) dos baixos
preços e baixos salários, como para a economia americana mantida
por uma bolha financeira em dólares alimentada por excedentes chineses
da mesma proveniência. Esta exportação de capitais europeus
multiplicou assim a concorrência mundial e dessa forma, entre outras,
sufoca a própria economia europeia.
Eis porque a saída do Euro deveria ter como objectivo não a
atracção de capitais vindos daqui e de outros lados em busca de
oportunidades de extorsão, mas sim a mobilização dos
trabalhadores de todos os domínios, com a perspectiva de dotá-los
dos meios necessários para realizar o aumento necessário das
actividades socialmente úteis.
Parece portanto necessário prever um escape aos desequilíbrios,
distorções e danos que hoje se agravam.
COMO ENFRENTAR?
Vamos mostrar que é necessário, como preconizam actores cada vez
mais numerosos, sair do Euro. Tentaremos também mostrar que isso estaria
longe de ser suficiente; que as apostas de hoje são mais importantes e
devem conduzir ao esboço a partir de agora das vias para uma
saída do capitalismo.
O objectivo de uma saída do Euro deveria ser permitir aos povos
reencontrarem aquilo que construíram na sua longa história e de
que foram privados pela sua imersão na guerra económica mundial:
sua capacidade social de assegurar duradouramente e solidariamente a sua vida.
Esta seria a verdadeira condição para um acesso do mundo
às cooperações necessárias, bem mais que
"governações" oligárquicas, para o futuro da
humanidade e do planeta.
Convém para isso que surjam as práticas que assegurem um
equilíbrio coerente entre os povos ou, disto de outra forma, uma
equidade entre povos. Evocaremos as exigências para tal.
A SAÍDA DO EURO O PERMITIRIA?
Esta saída, para o Franco ou para uma nova moeda, acompanhada da sua
desvalorização, por vezes proposta, não faria senão
recolocar o país na concorrência mundial, na mesma
posição que experimentam países em
"desenvolvimento" como a China e outros, onde os dominantes ganham
mercados e fazem lucros vendendo sob moeda fraca, e portanto a baixo
preço para os compradores, os produtos de assalariados fortemente
sub-remunerados, que trabalham arduamente para a exportação
desvalorizada, em detrimento das actividades úteis aos seus
concidadãos. O custo acrescido das importações evitaria,
é verdade, importações inúteis, injustamente
invasivas, mas encareceria também importações úteis
e assim impulsionaria as empresas capitalistas importadoras a procurar mercados
externos vantajosos, ao preço de uma compressão dos
salários nacionais.
As experiências passadas mostram que se as desvalorizações
competitivas puderam, nos tempos da concorrência ainda limitada, permitir
alguns períodos de ascensão capitalista em certos países
(Estados Unidos, Japão, Coreia, ...), elas relançaram a
concorrência no campo nacional, tendo por consequência
desequilíbrios sociais acrescidos. A estratégia de uma
desvalorização competitiva no contexto actual da
concorrência mundial intensificada não poderia senão
conduzir, sob formas modificadas, aos mesmos danos económicos e sociais
já sofridos.
Sublinhemos a propósito que as isenções de impostos e
encargos reclamados pelo patronato, não podendo nunca comparar-se aos
efeitos dos ganhos de produtividade dos rebaixamentos salariais, não
permitem senão vantagens concorrenciais marginais e momentâneas,
contribuindo para acelerar a corrida guerreira para uma competitividade
destruidora de rendimentos, em detrimento dos assalariados e das
populações, que arcam com o peso.
A dominação do Euro pelas actuais autoridades europeias serve de
base às estratégias europeias. Observam-se suas profundas
contradições internas.
Por um lado, são tomadas todas as disposições para impor
cada vez mais fortemente o dogma da concorrência, como se vê por
exemplo na obrigação estabelecida ao governo francês de
impor à EDF, por uma lei aplicada em 1 de Janeiro de 2011, a revenda a
baixo preço aos seus concorrentes, pretensamente desfavorecidos, de uma
parte da sua produção supostamente para restabelecer sua
capacidade concorrencial. As consequências, brutalmente destrutivas de
rendimentos, empregos, serviços público e por isso de riqueza
social, as quais muitas vezes são negadas, estão na origem dos
danos económicos e sociais constatados. Ao mesmo tempo, as autoridades
europeias, em nome do pretenso equilíbrio dos orçamentos
públicos nacionais de cujo controle se arrogam, recusam os meios para
reparar os desgastes assim provocados, nomeadamente aos membros mais fracos.
O autoritarismo europeu, de que o Euro é um meio essencial, cava o fosso
onde se afunda a Europa, impedindo qualquer saída do impasse. Um
federalismo europeu, acentuando o autoritarismo oligárquico, não
poderia senão endurecer.
Sublinhemos a respeito que o remédio por vezes preconizado a
alimentação por um orçamento federal de grandes obras
europeias que supostamente estimulariam um crescimento pós keynesiano
não poderia resultar, no ambiente concorrencial, senão num
desperdício suplementar faraónico não procurando, sob o
pretexto do "desencravamento", senão novos apoios aos fluxos
mercantis dominantes, bem distante das necessidades sociais.
A necessidade de sair do Euro está portanto bem presente, pelas
razões que se seguem. Diz-se: um efeito do Euro foi por em
concorrência directa e brutal os países europeus, num quadro que
faz deste estado de coisas um constrangimento incondicional para os Estados
participantes. A isto acrescentam-se os outros constrangimentos associados,
ligados aos tratados e às instituições da Europa mercantil
oficial. Uma conclusão a tirar de tudo isto é que uma
evolução eficaz para o equilíbrio viável entre os
povos deveria visar a saída das práticas mercantis
concorrenciais, para por no seu lugar modos de cooperação
internacional que visem a equidade.
DEIXAR O EURO, UMA RETIRADA NACIONAL ESTÉRIL?
Qual seria a situação de um país tendo deixado o Euro a
fim de equilibrar seus intercâmbios? O que deveria ele fazer para isso e
o que teria de enfrentar?
Ninguém hoje pode esperar quando os grandes fluxos internacionais
de riqueza são controlados pelos grandes grupos capitalistas mercantis
mundiais uma evolução mundial geral para a equidade
internacional num prazo visível.
Um novo actor que, por opção democrática, se orientasse
para a equidade deveria portanto, para enfrentar os problemas actuais,
avançar para as seguintes acções:
-
Aceitar encarar frontalmente o facto de que os eventuais parceiros dos
intercâmbios internacionais podem reagir com duas lógicas muito
diferentes. Certos parceiros, inteiramente acantonados na lógica
mercantil concorrencial e oligopolista, recusarão toda parceria,
afastando-se, e estarão prontos a aplicar aos seus adversários
procedimentos hostis: normas constrangedoras fortemente desequilibrantes,
recusa de parceira... Outros parceiros aceitarão acordos fundamentados
no equilíbrio de todos, definidos com reciprocidade, propondo
modalidades de intercâmbio específicas.
-
Tomar as disposições necessárias para que as medidas
hostis, mal intencionadas, fundamentadas no agravar do afrontamento comercial e
oligopolístico, sejam contrapostas por medidas em relação
a estes interlocutores. Estas disposições poderiam consistir
nomeadamente em direitos alfandegários modulados, se necessário
elevados, mesmo dissuasivos, em quotas por domínios, em controles
estritos dos fluxos financeiros de saída e de entrada com o parceiro em
causa.
-
Estabelecer com os parceiros favoráveis relações de
reciprocidade, de equidade, tendo como fim explícito o equilíbrio
dos intercâmbios e a possibilidade para cada parceiro de escolher
livremente, neste quadro, os intercâmbios que lhe forem úteis. Uma
tal opção poderia comportar, por acordo comum:
Um acordo monetário estabelecendo uma taxa de câmbio entre
parceiros, fundada na relação entre produtividades médias
dos conjuntos afectados, assegurando as condições médias
da equidade entre parceiros.
Em caso de défice com o parceiro, direitos alfandegários
adaptados a cada produto tendo em conta a importância e a utilidade
reconhecida do produto nos intercâmbios, e o peso do défice,
estimulando os actores a aproximarem-se da situação de
equilíbrio.
Um controle dos fluxos monetários entre parceiros, emitindo para
os actores, para um período definido, autorizações de
compra junto ao parceiro, tendo em conta vendas observadas ou previstas.
Ao contrário das alegações muito frequentemente repetidas,
tais disposições não conduziriam a um "recuo
egoísta" dos seus promotores, mas facilitariam ao mesmo
tempo que a renovação de actividades locais, nomeadamente
industriais, mas também outras a reequilibragem de todos os
participantes, em benefício de todas as populações locais
que poderiam ser melhor remuneradas e beneficiar de actividades que
correspondessem às suas necessidades. Assim seria reencontrado o caminho
real para o que constrói as nações: não primeiro a
"identidade" hoje reciclada, mas primeiro a solidariedade entre
cidadãos, de que os Estados nacionais se assumem como
responsáveis; devendo este ser apoiado na equidade entre parceiros
sociais, assim como entre povos. Poderiam assim dissipar-se as cegueiras que
hoje alimentam as opiniões de extrema-direita na Europa.
MAS SERIA ISTO SUFICIENTE?
Uma moeda nacional permitiria financiar as capacidades nacionais hoje sufocadas
para responder de modo equitativo às necessidades nacionais. Isto seria
indispensável, mas bastante insuficiente.
a) As lutas necessárias e as mudanças possíveis
É manifesto que os grupos dominantes mercantis capitalistas não
aceitarão nunca as regulações aqui encaradas e que,
enquanto mantiverem sua dominação, manterão igualmente as
pressões ideológicas inculcando nas populações a
ideia de que não há nenhuma alternativa.
Evocam-se certas esperanças por vezes exprimidas de um domínio da
moeda nacional que, por si só, permitiria um desenvolvimento dos
serviços públicos e, por isso, criaria empregos e assim
reanimaria um sector capitalista que se tornaria capaz de relançar o
crescimento e o emprego. Isto deixa de lado, como é o caso frequente, a
pressão concorrencial que alimenta os capitais e os seus efeitos
comerciais, sociais, orçamentais, financeiros na actual economia
capitalista mundializada.
Sublinhemos que, ao contrário de certos pontos de vista, muitas vezes
inspirados em Keynes, um domínio soberano da moeda é certamente
muito necessário ao acompanhamento das actividades, mas também
muito insuficiente para assegurar o equilíbrio dos intercâmbios, a
ausência de inflação ou de deflação. A moeda,
mesmo nacional, torna os bens em oferta aparentemente comparáveis entre
si, mas não assegura por si mesma a equidade das
transacções e portanto não sana as práticas
mercantis concorrenciais, fontes reais da violência dos negócios.
A este respeito, formulamos aqui algumas precisões breves sobre
questões de fundo. A vida humana pereniza-se permitindo a cada um viver
do trabalho dos outros na sua diversidade. Isto necessita de um
equilíbrio dos intercâmbios sociais, difíceis de encontrar
e de construir, procurado ao longo dos séculos e dos milénios. A
transacção mercantil é uma das ferramentas surgidas nesta
função. Ela é marcada por forte defeito, pois dissocia o
trabalho feito da sua avaliação, acantonada na estimativa
monetária aparente, sob a influência da potência dos
parceiros, dessolidarizando assim as pessoas e as sociedades. Apesar disso ela
pôde, nas sociedades antigas que viviam próximas umas das outras,
contribuir para manter, muitas vezes de modo caótico, vidas sociais
ainda fortemente convencionais. Contudo, no decorrer do tempo, e à
medida da complexificação da vida social, as práticas
mercantis provocaram ao longo da história crescentes
distorções económicas, sociais, políticas e as
crises associadas. No nosso tempo, quando a prática mercantil invadiu o
mundo inteiro, suprimindo as escapatórias de antigamente, e quando as
tecnologias aceleraram a ritmos sem precedente tanto as mudanças
técnicas como os intercâmbios sociais, as taras do afrontamento
concorrencial de todos contra todos tornam-se insuportáveis para as
sociedades humanas. Uma nova necessidade profunda é a de
avaliações dos bens e serviços, não mais privados,
subordinados às relações de poder dos parceiros mas sim
avaliações fundamentalmente equitativas, respeitando o trabalho
de cada um, admitidas em comum, para vantagem de todos.
Eis porque a colocação em prática de actividades
económicas novas, instalando a equidade nos intercâmbios e o
domínio dos seus meios pelos trabalhadores, é um elemento
essencial de uma transformação.
Eis porque se propõe aqui que sem esperar um consenso
internacional hoje visivelmente inacessível, e igualmente sem esperar
que triunfem, ao nível nacional, as ideias da possibilidade de uma
mudança profunda, e sem esperar tão pouco que seja adoptado o
conjunto, inevitavelmente complexo, das leis e regulamentos para isso
necessários, inclusive os novos "direitos" muitas vezes
reclamados sejam tomadas iniciativas, em proximidade com a
população, pelos actores motivados da vida económica
essencialmente da economia social, da vida associativa e mutualista, e da vida
política, nomeadamente local, que desemboquem, com os inevitáveis
limites iniciais, em realizações concretas, visíveis,
colectivas.
b) intervir não só nos intercâmbios mundiais mas
também nos intercâmbios interno ao conjunto nacional
Eis porque propomos que, desde já, sejam tomadas iniciativas populares
de estabelecimento de redes de vida económica e social solidária,
equitativa, democrática, concretizando para as populações
a possibilidade de uma outra vida social, desembaraçada das
devastações do afrontamento mercantil e da
exploração capitalista, reavivando a aspiração
humana multi-milenar à reciprocidade, a convivialidade, à
viabilidade social.
Sabemos pois que para alcançar o êxito não bastará
alimentar estas iniciativas em meios financeiros, ainda que saídos do
negocismo e modulados de acordo com boas intenções, mas que para
isso o estabelecimento de novos modos de intercâmbio é
indispensável. Isso implica que os intercâmbios internacionais
não sejam os únicos que devem se transformar, mas também
os intercâmbios internos, locais e nacionais, que deverão
também eles escapar à guerra concorrencial e aceder, sob formas a
elaborar em comum, à equidade respeitadora do trabalho feito.
Esta é igualmente a condição para que reapareça uma
moeda nacional emitida à medida das necessidade sociais democraticamente
definidas e geridas, não submetidas às flutuações e
inchaços especulativos, à inflação dos
preços, aos inchaços das bolhas financeiras e aos mergulhos dos
crashs financeiros, às distribuições tecnocráticas,
estatistas autoritárias, e que permita uma reavaliação
profunda das dívidas externas, incluindo a anulação de
todas as dívidas financeiras ligadas ao círculo vicioso do
endividamento financeiro tendo pretendido salvar o Estado, e também as
empresas públicas, dos défices induzidos pelo negocismo mercantil
e financeiro. Isto implica a utilização da economia de
critérios e objectivos sociais democraticamente definidos.
Estes novos intercâmbios são necessários para assegurar o
acesso a uma nova via das actividades económicas, e igualmente para
permitir, por uma justa valorização dos recursos criados pelo
trabalho, o avanço cada vez mais necessário de serviços
públicos democratizados, à medida das necessidades sociais.
É para aceder a esta nova via que é desde hoje necessário
sair do Euro, não só da ordem liberal mas, ainda mais, da lei de
ferro da concorrência mercantil agonística, do confisco
capitalista dos meios de actividade e da dominação exploradora
dos homens, da monopolização oligárquica dos poderes, do
sufocamento dos serviços públicos, da desumanização
da cultura, da subjugação negocista das
comunicações e dos lazeres, a fim de devolver ao povo da
França e de alhures a soberania que garante, através da equidade,
a solidariedade, a democracia, sua capacidade fundamental para construir sua
vida social, em benefício de toda a humanidade.
13/Agosto/2013
Economista, membro do PCF, autor de:
Le Juste Prix. Etude sur la Valeur-travail et les Echanges équitables.
Editions L'Harmattan, 2003;
L'Economie équitable, un nouveau Projet de Société.
Editions L'Harmattan, 2010.
O original encontra-se em
http://lepcf.fr/SORTIR-DE-L-EURO-OUI-POUR-SORTIR
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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