Sair do euro, a melhor opção
por Pedro Montes
[*]
entrevistado por Miguel Riera
Entre os economistas começam a ouvir-se vozes que apresentam o abandono
da moeda única como a única saída realista e
dolorosa para a crise. Pedro Montes foi um dos primeiros, senão o
primeiro, a advertir das graves consequências que a Espanha enfrentaria
após a adopção do euro e a forma exclusivamente mercantil
com que se estava a construir a União Europeia. Está à
vista que a Europa constitui o nó da questão da complexa crise
espanhola. Esta entrevista tem um carácter polémico, mas muito
necessário.
Há anos, numa entrevista publicada na revista
El Viejo Topo,
assegurou que a Espanha se encaminhava ou para o caos ou para a
catástrofe. Naquela época, num artigo, também utilizava a
expressão "beco sem saída". Pergunto o que pensa agora a
respeito. Caos, catástrofe, ou beco sem saída?
Não fazem tantos anos, Miguel, foi em Março de 2010. O que
acontece é que a crise económica é voraz e anda muito
depressa. Tentei dizer naquela ocasião que, tendo em conta a
evolução da economia espanhola após a
criação do euro, quando já se havia incorrido num
défice enorme da balança de pagamento em conta corrente e,
portanto, havia-se acumulado uma dívida externa insustentável, o
país enfrentava um dilema: ou se mantinha no euro e encaminhava-se para
o desastre ou assumia o passo convulsivo de se desligar da moeda única.
Caos e catástrofe, ou catástrofe e caos. Dizer então que o
país se encontrava num beco sem saída era uma forma de destacar a
situação angustiante. É claro que as sociedades sempre
encontram uma saída, por dramáticas que por vezes possam ser as
soluções. O dilema continua em vigor, mas o seu carácter
peremptório é mais agudo e agora tudo se clarificou. Em Maio de
2010, como toda gente sabe, Zapatero deu uma guinada radical na sua
política, com cortes e ajustes, um reforma laboral e a frágil
reforma das pensões, que contou, não se deve esquecer, com o
apoio das direcções das Comisiones Obreras (COO) e da UGT.
Posteriormente, e apenas em
poucos meses, burlando os cidadãos, o governo do PP empreendeu um
conjunto de reformas que, além de acentuar a política do PSOE,
são de uma agressividade, poder-se-ia dizer crueldade, que dinamitaram o
pacto social surgido da transição após a morte do ditador.
Sobreveio um desastre económico, social e também político,
de modo que a disjuntiva neste momento é se continuamos directos pelo
caminho para o inferno, a Grécia já está nele, ou
recuperamos uma moeda própria e um banco central próprio para
enfrentar a crise. A UE traçou-nos uma rota sinistra que se a
aceitássemos isso implicaria uma espécie de suicídio
colectivo.
Vamos por partes. Parece evidente que as forças políticas
maioritárias (para não dizer todas, porque ainda não se
ouve nenhuma delas exigir a saída do euro) estão [dispostas] a
engolir o que haja a engolir para se manter na moeda única. Se
finalmente se decidir continuar na eurozona, que futuro fica reservado aos
espanhóis? Quantos anos de sofrimento nos esperam?
Com efeito, há muitos dados, declarações e factos
não esqueçamos a nocturna e infame reforma da
Constituição que deixam assente que tanto o PP como o PSOE
consideram o euro como irreversível, o que constitui o fundamento da
estratégia política que seguem. É o acordo básico
que compartilham entre si, ao qual se somam sem restrição alguma
fora das manobras políticas diante de tal ou qual assunto
a CiU e o PNV. A partir daí entramos num grande problema
político: a posição da esquerda diante do dilema da crise.
E digo da esquerda nela incorporando os sindicatos maioritários.
Nosso país não pode sobreviver no euro e, independentemente do
que queira o centro direita e pense a maioria da esquerda e muitos dos seus
dirigentes, a desvinculação da moeda única é
inexorável.
Não se deram conta do que implicava, económica e socialmente, a
moeda única e continuam sem querer saber as consequências que
terá. Vivem a pensar que a crise actual é um acidente que
terá pronto remédio, que o passado voltará e que tudo o
que é necessário é aplicar-lhe um bocadinho de
política social à política económica estrita
necessária para diminuir o défice público, como se isso
fosse a questão fundamental. A Izquierda Unida, que teve a honra de se
opor a Maastricht com um debate muito dilacerador no seu seio, defende agora
uma saída progressista para a crise. Mas permanece sem resposta, como
aconteceu no debate da investidura, quando Rajoy contestou que está bem,
mas que os investidores estrangeiros não nos emprestavam dinheiro se
não efectuassem ajustes e recortes. Se a saída progressista da
crise, que também desejam os sindicatos, fosse possível e simples
de praticar, alguém pensa que o PSOE não a teria aplicado? E
inclusive o PP, ainda que neste caso seja preciso introduzir outras
considerações políticas? As perspectiva, do meu ponto de
vista, são muito negras, ao ponto de que chegue a escrever um artigo
afirmando que a crise ainda não começou.
Pois...
Estamos não à beira e sim a cair por um precipício cuja
profundidade não se conhece. Não é possível fazer
prognóstico sobre o tempo, de modo que todos os anúncios de
rebentos verdes são mentira. Pois bem, tenho a convicção
de que o nosso país não pode sobreviver no euro e que,
independentemente do que queira o centro direita e pense a maioria da esquerda
e muitos dos seus dirigentes, a desvinculação com a moeda
única é inexorável. Como e quando se verificará,
não sei. Já deixei de discutir se a alternativa melhor da
esquerda é procurar uma Europa que corrija os principais defeitos e
carências de Maastricht. A unidade construída não é
reformável e as consequências que comportou não são
superáveis. O tempo, creio que em breve, dirimirá a
questão.
Tentemos ver do ponto de vista dos que querem continuar no euro. Imaginemos que
fosse possível. Qual seria o custo? No fim, há que pagar as
dívidas... Quanto nos tocaria por cabeça?
O núcleo do problema é o endividamento de todos os agentes
económicos, ou o seu alto "alavancamento", como também
se diz. As famílias devem muito em relação ao seu
rendimento disponível. As empresas têm uma relação
muito desequilibrada entre o seu capital próprio e alheio. A banca tem
muitas dívidas contraída e seus activos, muito ligados à
habitação, solo e promotores estão sobrevalorizados,
são muito ilíquidos, têm pouca rentabilidade e seus prazos
de amortização estão desajustados ao calendário dos
seus passivos. As instituições públicas não
têm rendimentos suficientes para cobrirem seus gastos e os compromissos
das dívidas que contraíram. E o país no seu conjunto,
resultado dos grandes défices da balança de pagamentos e de uma
actividade financeira global disparata, tem um passivo frente ao exterior que
superar os 2,3 milhões de milhões de euros, isto é, quase
2,3 vezes o PIB.
E como chegámos a isso?
A origem desta situação tem a ver com o euro. Uma vez implantado
e conectados aos mercados financeiros obtinha-se financiamento em torrente nos
mercados internacionais e a taxas de juro muito baixas, uma vez que todas as
emissões faziam-se numa moeda comum que não fazia
distinções por países, pois já não havia que
cobrir os riscos de desvalorização das moedas dos países
mais fracos. As taxas de juros da dívida pública alemã e
da dívida pública espanhola eram parecidas. Esta
situação durou até a explosão da grande crise
financeira internacional que desencadeou a quebra do banco de investimentos
norte-americano Lehman Brothers. Durante esse tempo ninguém deu
atenção a que se estavam a verificar desequilíbrios muito
profundos nas relações económicas dos países euro
e, portanto, que alguns deles estavam a acumular dívidas
insustentáveis. Os mais iludidos, e houve muitos, chegaram a pensar que
com o euro havia-se inventado algo maravilhoso: podia-se crescer e acumular
défices porque com a moeda comum não havia problemas de
financiamento.
Havia-se encontrado a lâmpada de Aladim...
Tudo mudou radicalmente com a crise financeira. Os canais de financiamento
fecharam-se, os mercados deixaram de operar, do clima de euforia passou-se a
outro tormentoso e a situação de cada agente económico e
de cada país passou a ser examinada à lupa. Os prémios de
risco da dívida soberana dos países do euro começaram a
ampliar-se, dependendo da solvência que os mercados atribuíam a
cada um deles. E, naturalmente, os mais endividados tiveram a existência
complicada, uma vez que lhes foi encarecido brutalmente o financiamento. Tudo
é conhecido, Grécia, Portugal, Irlanda... Espanha. Há um
momento na dívida dos devedores em que a dívida os devora. Por
ser elevada e custa já não podem fazer-lhe frente e isto vale
para famílias, empresas, bancos, Estados e países. Na minha
opinião, nosso país já está devorado pela
dívida e, por isso, não consigo imaginar que continuemos no euro
com normalidade. Repare b em que para enfrentar a dívida externa, para
pagá-la pouco a pouco seria preciso que o nosso país tivesse um
excedente da balança de pagamento em conta corrente, e ainda temos um
défice apesar do afundamento da economia e dos milhões de
desempregados acumulados.
Do mesmo modo, o sector público para reduzir a sua dívida
precisaria ter superávite e já se vê como é
difícil reduzir o défice e o círculo vicioso em que se
entra quando se impõem os ajustes e cortes, pois aprofunda-se a
recessão e diminui-se a arrecadação fiscal. Agora,
enganosamente, a política económica está destinada e
equilibrar as contas públicas e contam-nos até à saciedade
que a redução do défice é condição
necessária para ultrapassar a crise e, como não, para
começar a criar emprego. Digo enganosamente, porque sendo verdade que
há problemas para financiar o défice e que enquanto existir se
agrava o endividamento do sector público, as quantidades em que se pode
reduzir são insignificantes em relação à
dívida acumulada. O debate entre o governo da União Europeia
quanto à fixação do montante do défice
público uma décimas acima ou abaixo, que acabou por ficar nos
5,3% do PIB neste ano, é ridícula quando se pensa que o
endividamento público equivale mais ou menos, os números
reais são um mistério ao PIB anual. Algo assim como
discutir de 10 mil euros quando se deve 1 milhão de milhões.
Tenho a impressão de que as pessoas sabem que estamos perante uma crise
grave, mas que desconhecem a magnitude da tragédia
É evidente que se manipula a opinião pública e que se
aproveita o problema marginal do défice público para justificar a
brutal política de cortes que se está a executar e que é
inútil porque deixa o problema de fundo intacto, se não agravado.
Tudo isto que conto torna sem interesse a pergunta de quanto teremos que
contribuir para a dívida, cada um de nós. A crise não
é um quociente, com um numerador que, além disso, não
saberíamos qual é: os passivos externos? a dívida
pública? Isso do "per capita" em sociedades tão
profundamente desiguais é uma
enteléquia
.
. A crise é um clima, uma situação, onde o sofrimento
pessoal atinge uma casuística tão enorme que não há
comparações possíveis. Um desempregado pagará pouca
dívida. Um despejado da sua casa é possível que se livre
da hipoteca, mas ficou sem casa. Um imigrante irregular não teria que se
preocupar com o défice público, mas pode morrer na rua sem
assistência. Mais vale ver a crise com este prisma do que fazer
operações aritméticas cujos resultados não dizem
nada. Disseste-me antes isso de que afinal há que pagar as
dívidas. A dívida abre questões cruciais nestes momentos,
que certamente desejas que comentemos. Avanço já: as
dívidas há que pagá-las se se puder.
Mas não se pode, isso depreende-se nitidamente do que acabas de dizer.
Avance com essas questões cruciais...
Vejamos. A economia espanhola não pode gerar os recursos para fazer
frente à sua posição devedora externa, já te
indiquei que seria preciso registar superávite da balança de
pagamentos. O Estado a duras penas corrige o seu défice e cada vez lhe
é mais difícil encontrar financiamento para tapar os muitos
buracos que deve cobrir para que o país não seja declarado em
bancarrota (aí está o caso do Bankia e os 23 mil milhões,
ou mais, para resgatá-lo). As emissões de muitas comunidades
autónomas estão valorizadas como títulos lixo.
O sistema bancário está em quebra. A qualificação
das emissões dos títulos e acções das empresas
importantes rebaixa-se a cada dia. A mora cresce e os despejos também.
Este é o quadro actual, mas longe de ser estático tende a piorar
com a recessão e porque a desconfiança que a economia espanhola
provoca é completa, dentro e fora do país. O prémio de
risco da dívida pública cresce de forma incontível e com
isso as taxas de juros aplicadas às empresas e entidades espanholas, que
são as que suportam a maior parte da dívida externa. Dos 2,3
milhões de milhões que citei, 2 milhões de milhões
cabem ao sector privado.
Com esta perspectiva, os defensores da permanência no euro, entre eles a
cúpula do governo para Rajoy o euro é irreversível,
para o ministro das Finanças, Montoro, a solução é
mais euro e mais Europa , buscam desesperados fundos, pela Europa e
agora também por Washington, para sustentar a situação.
Mostram-se renitentes em utilizar a palavra resgate, mas no fundo sabem que
qualquer contribuição financeira significa estar sob
intervenção e submeter-se às directrizes que provenham dos
prestamistas. De facto, desde Maio de 2010 a política económica
depende das instituições europeias e das pressões dos
mercados, e tudo indica que se acentuará no imediato. Sermos resgatados
não é fácil pela enorme quantidade de euros que são
precisos mas, fazendo da necessidade virtude, é possível, com o
argumento de que a Espanha é demasiado grande para deixá-la cair,
que transitoriamente se evite a catástrofe.
Transitoriamente?
Transitoriamente, porque a palavra resgate é enganosa ou,
mais duramente, falsa. Aí está outra vez a Grécia como
caso pioneiro. Quando "resgatam" um país não o salvam
da sua precariedade e angústia, prendem-no, manietam-no, aprisionam-no e
submetem-no a todo tipo de humilhações e barbaridades, inclusive
a de passar por cima dele e desprezar as instituições
democráticas. Sempre ameaçados, continuamente vigiados, os
países resgatados vão-se afundando económica e socialmente
num abismo que não parece ter fundo. Não terá que se
diferente no caso da Espanha e cabe acrescentar uma nuance a esta
degradação.
O melhor para o nosso país, para a imensa maioria dos cidadãos,
seria desvincular-se do euro e recuperar soberania e instrumentos de
política económica.
O país "resgatado" não se liberta das suas
dívidas, que na verdade aumentam e tornam-se mais onerosas. O
"resgate", por assim dizer, implica uma agonia sem fim. A outra
alternativa, a de desligar-se do euro e recuperar muitos dos instrumentos com
que historicamente contava a política económica para executar as
políticas necessárias que pede a sociedade, sem dúvida
alguma abalará o país.
É muito difícil calibrar todas as consequências que essa
saída desencadeará, mas frente ao resgate, após um
período difícil, muito difícil e complexo se se quiser,
não podemos nos enganar, abrem-se todas as oportunidades para recuperar
e refazer o país. Algum leitor sagaz perguntará imediatamente: e
o que acontecerá com a dívida externa que além disso se
elevará consideravelmente em termos da nossos nova peseta após a
desvalorização que terá lugar? Pela minha parte,
não posso afirmar outra coisa senão que a saída do euro
implica inevitavelmente o não pagamento da dívida, com as nuances
que possam incorporar-se. Palavras de peso, um grave problema, mas
irresolúvel de outra forma.
E qual seria o impacto na UE de uma saída do euro por parte da Espanha?
Seria seguida por outros países? Poderia significar o fim do euro?
Sem dúvida muito importante pelo peso económico e financeiro do
nosso país. As peças do dominó não são todas
iguais e, após a Grécia, Portugal e Irlanda, a queda da Espanha,
seja na versão resgate seja com a saída do euro, abalaria os
fundamentos da união monetária, tanto mais quando se sabe que
quando o nosso caso for resolvido aguarda-se o da Itália. O disparatado
projecto do euro ainda dará muitas dores de cabeça aos dirigentes
europeus. Acabo de ler uma entrevista com
Jacques Sapir
, um crítico reconhecido da união monetária e um defensor
da "desglobalização", cujas palavras a uma pergunta
sobre se a crise financeira da UE poderia afectar a França podem ser
compartilhadas e são as seguintes (resumo): "A crise financeira
já contaminou a França. O prémio de risco com a Alemanha
atinge agora mais de 1,3% ou 130 pontos básicos. É uma
diferença idêntica, e inclusive superior, à que existia
antes de ser criada a zona euro. De facto, a única vantagem do euro
poder pedir emprestado a taxas globalmente equivalente às
alemãs desapareceu.
A cadeia de contaminação da crise é bem conhecida. A
situação na Grécia exerca uma influência directa
sobre Portugal. Uma degradação da situação
portuguesa tem consequências nefastas para a Espanha e isso implica a
degradação da situação financeira da Itália.
Contudo, as situações nesses países são muitos
diferentes e essas diferenças fazem que, estruturalmente, não
deveria haver contaminação porque os problemas dos países
são diferentes, inclusive ainda que tenham a mesma origem: o euro. O
euro foi o causador do facto de a Espanha se haver desindustrializado e
especializado nos serviços e na construção; e de que a
Itália padeça uma taxa de câmbio sobrevalorizada. As taxas
de juros são importantes na Espanha e cruciais para a Itália. Por
isso os mercados financeiros reagem, percebem essas diferenças e surge a
cadeia de contaminação". Sapir conclui: "Está
claro que quando a Espanha e a Itália tomarem dinheiro emprestado acima
dos 6%, terá chegado o momento de questionar a França. Todos
sabem, ainda que agora não se diga, que se a Espanha e a Itália
se virem forçadas a sair da zona euro, a França tão pouco
nela poderia permanecer". Creio que a pergunta fica assim respondida.
Podem-se fazer muitas hipóteses sobre como decorrerão os
acontecimentos, mas talvez a única coisa certa é que
ninguém nem nenhum país está em condições de
controlá-los e que com a tormenta desencadeada a zona euro não
sobreviverá com a configuração actual, podendo chegar a
desaparecer.
O desaparecimento do euro ou de uma eurozona não qual o Sul houvesse
sido podado, que efeitos produziria no dólar e na economia
estado-unidense?
Entramos num terreno mais especulativo e sigo uma regra que seria: quanto
melhor vá o euro e as moedas mais fortes que o formam pior irá o
dólar americano. Não é algo surgido de nenhuma lei
mecânica e sim da interpretação de que o capitalismo
está a sofrer um desequilíbrio económico-financeiro
mundial que será resolvido por um reequilíbrio que terá
consequências geopolíticas. Por outro lado, os Estados Unidos em
particular, devido às enormes emissões de dívida
pública financiadas pela Reserva Federal para enfrentar a crise
terrível que a quebra do Lehman abriu nas finanças e na
indústria do país, alimentou uma bolha dos seus títulos
que em algum momento terá de explodir.
Dizendo isso de outra maneira, está pendente uma crise do dólar
cuja explosão pode acontecer por diversos motivos, um dos quais
naturalmente é como se resolva a crise do euro. Os Estados Unidos
são de longe o primeiro país devedor externo líquido do
mundo o segundo, certamente, é a Espanha , e quando se
têm passivos brutos que superam os 18 milhões de milhões de
dólares é para ficar intranquilo, eles como país e o resto
do mundo pelos contágios possíveis.
Os principais credores externos líquidos do mundo são
Japão, China e Alemanha, este último um país que, pela sua
força económica, pode ter veleidades de todo tipo e não
é descartável que o euro implique um estorvo para os seus planos,
se bem que, como especulamos, haverá quem sustente que é o
primeiro país interessado em manter o euro como uma moeda débil
que facilite suas exportações e o excedente da sua balança
comercial. Digo para concluir: havia uma corrida entre o euro e o dólar
para ver a qual moeda a crise chegava antes e nós, os europeus, nos
adiantámos. Alguns perversos opinam inclusive que os norte-americanos
açulam a crise do euro até se cita o professor Krugman
pelas suas análises críticas sobre a união
monetária para distrair os mercados.
Voltemos às consequências de permanecer no euro. Os
eurotítulos, a união bancária, a cessão de mais
soberania, uma mudança na política do BCE, a
concepção europeia de políticas de crescimento, o resgate
bancário... Tudo isso seria suficiente para que a crise que atravessa a
Espanha fosse resolvida a médio prazo?
Reafirmo minha opinião. Creio que o melhor para o nosso país,
para a imensa maioria dos cidadãos, seria desligar-se do euro e
recuperar soberania e instrumentos de política económica. Confio
além disso em que isto acontecerá inevitavelmente e seria muito
conveniente que a Izquierda Unida e os sindicatos maioritários
adoptassem como estratégia essa alternativa. A sociedade tem muito medo,
a opinião pública está muito manipulada, ao ponto de que,
apesar dos grandes sofrimentos que já padecemos e das ameaças que
se discernem no horizonte, ainda se sente pânico perante a ideia de
abandonar, não a Europa e sim a união monetária. Passa-se
aqui e está a passar-se na Grécia.
Contudo, os inquéritos já falam de quase um terço da
população que culpa o euro pela crise e desejariam dele se
desligar. Ninguém representa politicamente essa minoria significativa
que poderia ampliar-se com facilidade com uma boa explicação do
que acontecer e se se trabalhasse com seriedade nessa alternativa. Todos
estamos a opinar acerca da crise europeia quando, nas actuais
circunstâncias, seria conveniente e legítimo que nos
dedicássemos a pensar, ainda que fosse como hipótese
improvável, no cenário de não permanecer no euro. Quero
acrescentar que o tempo é um dado da situação que é
preciso levar em conta. Quanto mais se prolongue a queda nesta fase destrutiva
do tecido produtivo, do desaparecimento de empresa, de ruína
económica, de acumulação de desemprego um problema
terrível sob todos os pontos de vista e de
degradação social, será muito mais difícil e
complicado de todos os pontos de vista recuperar o país e
refazê-lo. Pois bem, esta é uma versão espanhola,
considerando o mais desejável para o nosso país e nossa gente.
Mas cabe perguntar o que pensa a Europa da crise do euro, dos perigos que a
Espanha provoca e do que conviria fazer. Há muito ruído,
propostas, ocorrências, disputas e controvérsias, o que prova que
também há muito desespero e poucas ideias claras.
Queiramos ou não, a união monetária é formada por
um conglomerado de países, com diferentes forças, interesses
contrapostos, situações económicas, sociais e
políticas muito diferentes e todos, em geral, com problemas
sérios, cujas sociedades reclamam aos seus governos
soluções que no fundamental respeitem os interesses nacionais.
Acrescente-se que há regras, compromissos, pactos e quase uma
constituição para compreender que nem tudo é
possível e que algumas mudanças que se reclamam contradizem a
essência do projecto de Maastricht, que é uma união
monetária sem fiscalidade comum. O aparecimento de Hollande agravou os
contrastes existentes e a divisão potencial entre França e
Alemanha, se bem que possamos estar de acordo em que a quebra do euro seria um
grande fracasso da burguesia "europeia" que está a apostar
neste projecto da Europa há mais de 30 anos.
De modo que o fiasco é inevitável
Sim. O fracasso abre uma variante especulativa na qual não entro. Mas
apanha a Europa numa posição fraca perante as mudanças
mundiais que se estão a verificar. Suponhamos, pois, que se quer
conseguir com os meios disponíveis o "resgate" do nosso
país, para além do actual resgate bancário. Isso significa
que os países fortes estão dispostos a pagar os custos de
"salvar-nos" nestes momentos.
Com os eurotítulos, para a Alemanha, o país em melhor
posição, seriam encarecidas suas emissões actuais de
dívida pública, coisa pela qual não sentem nenhuma
paixão. E como se distribuem os fundos obtidos com os
eurotítulos? Quanto para a Espanha, quanto para Portugal, quando para a
França? E por que? Mais para a Espanha uma vez que o seu défice
pública é maior porque os espanhóis em média pagam
muito menos impostos que os franceses e os alemães? E se o BCE oferecer
liquidez generosamente no estilo do Federal Reserve, ainda que contradizendo os
fundamentos do Tratado de Maastricht e passando por cima da vontade da
Alemanha, novamente: Que critérios se seguem ou que limites para cada
país, tendo em conta que os mais incumpridores fiscalmente são os
que mais necessitam ou que a banca espanhola alimentou uma bolha
imobiliária disparatada que enriqueceu muitos, dentre outros os
próprios bancos? Não continuo, isto é uma entrevista e
não um livro.
Simplesmente direi que não sei em que consiste a "unidade
bancária" e algo fundamental: mesmo que se superem estes momentos
de extrema tensão em Espanha, se for resgatada, ainda assim o problema
da sua enorme dívida como país permanece intacto e a
dívida pública continuará a crescer na parte designada dos
eurotítulos ou monetizada pelo BCE. Como vê, tudo muito simples,
rápido e sem contra-indicações. Para terminar: isso da
austeridade e do crescimento é outra ocorrência, um engana tolos:
é impossível, com os brutais ajustes e cortes decretados e os que
serão determinados para que a UE nos "resgate", pensar no
crescimento. Exactamente ao contrário: os números do desemprego
continuarão a aumentar de modo pavoroso durante muito tempo.
A ideia de sair do euro, contudo, provoca o pânico tanto entre a classe
dirigente como na imensa maioria da população. Como seria preciso
fazer, quais seriam os passos?
Sim, é verdade. Mas dá muito mais medo à classe dirigente
do que aos cidadãos, como comentei ao referir-me aos inquéritos.
E isto por vários motivos: tanto o PSOE como o PP fizeram e continuam a
fazer do tema da Europa a espinha dorsal da sua política, sem nunca
avaliar o seu significado e as suas consequências, quando estava claro
que Maastricht era a chave de abóbada de um modelo neoliberal extremo da
construção europeia. Competitividade sem limite e, ao mesmo
tempo, sem taxa de câmbio para enfrentar as diferenças entre
países, portanto condições imelhoráveis para cortar
salários, desmontar o estado previdência... Enquanto o PP se
sentia no seu meio natural, entende-se menor que o PSOE tenha acabado por estar
abraçado com a mesma paixão à união
monetária daí a crise ideológica da
social-democracia e o ridículo que acabar por fazer entre os eleitores.
As camadas dirigentes não se inclinam a reconhecer erros e menos ainda a
desaparecer quando se equivocam tão radicalmente. Outro motivo
está implícito no que acabo de comentar: que maravilha de
projecto! Uma década a impor políticas regressivas no
económico e no social para cumprir as condições de
convergência e poder fazer parte da zona euro desde o princípio, a
seguir a necessidade imperiosa de efectuar cortes para não perder
competitividade e já com a crise o sonho tornado realidade, com o PP a
travar uma guerra económica contra os trabalhadores e as camadas sociais
mais desfavorecidas com laivos fascistas.
E todo o mundo calando...
Surpreende, certamente, o silêncio cúmplice que mantiveram muitos
peritos e analistas perante o que ocorreu, bem como o pânico que se
instalou na sociedade. Há uma covardia manifesta, como se não se
quisesse afrontar a realidade e se preferisse descer aos infernos ao
invés de parar e ver se há outra alternativa. Todos os que
compõem a ordem estabelecida as tertúlias são um
bom indicador falam da necessidade inevitável dos ajustes e da
redução do défice público como se fossem
obrigações impostas pela natureza, como se o mundo acabasse onde
eles conseguem ver, quando basta só olhar um pouco e compreender que
há outra opção que consiste em voltar à
situação anterior ao euro tal como a conhecíamos há
apenas 14 anos.
Tenho confiança em que a luta e a necessidade de oferecer uma
alternativa acabem por tornar evidente que romper com a união
monetária é inevitável. Estamos na barbárie.
Não é a volta à idade média nem à autarquia.
Posso reconhecer que as mudanças verificadas complicam essa volta, mas
não ao ponto de que a sociedade se condene a um período
indefinido de sacrifícios e desolação por não
querer rectificar uns passos em falso. A complexidade técnica disso
é inegável, mas do mesmo modo que as dificuldades técnicas
não impediram de adoptar o euro, tão pouco agora poderiam impedir
a implantação da peseta. A nova moeda teria que sofrer uma
desvalorização e o Banco da Espanha poderia recuperar o seu
prestígio perdido voltando às suas velhas tarefas de emitir e
distribuir a moeda nacional. Se a Grécia tiver sorte, sempre
poderá servir-nos de modelo.
Ao passar do euro para a peseta, as dívidas em euros cresceriam devido
à desvalorização?
Sim, a montanha da dívida aí está e vejo dois problemas
fundamentais. Um é se poderá fazer frente à dívida
externa que tem fundamentalmente o sector privado da economia ainda que
também haja uns 300 mil milhões de euros de dívida
pública em mãos de estrangeiros , sobretudo depois de o seu
montante ser elevado com a desvalorização indicada da peseta. Os
euros que se devem valerão mais peseta. Não será
possível e aqui, numa economia de mercado, cada credor e devedor
terá que incorrer com as consequências de suas decisões no
passado. Haverá muita agitação nos mercados,
desconfiança generalizada no país e sem dúvida muitos
não pagamentos, razão pela qual se pensa que o nosso país
não a deixará cair.
19/Julho/2012
Acerca da saída do euro, ver também:
Que alternativa à não saída do euro?
, Octávio Teixeira
Os Hamlets portugueses e a saída do euro
, João Carlos Graça
Acerca dos custos e benefícios da saída do euro
, Jorge Figueiredo
A armadilha do crescente endividamento do Estado, das empresas e do país com o governo PSD/CDS e com a "troika", e a opção de sair do euro
, Eugénio Rosa
Sair do euro é preciso
, Octávio Teixeira
O euro e as escolhas
, Daniel Vaz de Carvalho
Ficar ou sair da zona euro?
, Daniel Vaz de Carvalho
Sair do euro e depois?
, Rudo de Ruijter
Um espectro assombra a Europa: a saída do euro!
, Jacques Nikonoff
[*]
Economista, catalão, foi membro do Serviço de Estudos do Banco de
Espanha, autor de
Historia inacabada del Euro
e de
Però
no seria millor sortir de l'euro?
. Actualmente é presidente de
SocialismoXXI
.
O original encontra-se em
http://www.espai-marx.net/admin?id=7384
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
.
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