Se é assim em França, o que dizer de Portugal?
Carta aberta a François Hollande
por Jacques Sapir
14 de agosto de 2014
Senhor Presidente da República,
O nosso país conhece, já há muitos anos, uma profunda
crise que está sempre a aprofundar-se. Os últimos números,
desastrosos, publicados pelo INSEE confirmam-no. Com um crescimento de 0% nos
primeiros 6 meses do ano, a situação é objetivamente
grave. Esta crise não desaparecerá enquanto não forem
tomadas as medidas necessárias nesse sentido. Estes números
representam um desmentido às diversas declarações e
proclamações que os seus governos, e o senhor, têm feito
desde maio de 2012. Não há nenhuma inversão da curva do
desemprego e o senhor ficará na História como o Hoover
francês, que aguarda o crescimento em cada esquina. É preciso
reconhecer a verdade. A França está hoje à beira da
deflação e esta provocará uma recessão ainda mais
profunda, com mais desemprego e mais miséria para a
população. Esta crise também tem consequências
políticas importantes. Vai limitar cada vez mais a sua margem de
manobras políticas. Além disso, a impopularidade que o atinge, e
que não é desmerecida, põe em causa a sua legitimidade e a
sua capacidade de exercer as funções presidenciais.
O resultado de erros estratégicos e táticos
Esta crise, em parte, é produto de erros praticados pelo governo de
François Fillon e pelo de Jean-Marc Ayrault, e neste momento pelo de
Manuel Valls. Para começar houve um erro estratégico, que foi
acreditar que era possível reduzir os défices com um crescimento
fraco e uma inflação em declínio. Só a
combinação de um crescimento
da inflação permite isso. Sabe-o bem (ou deveria sabê-lo).
A dívida só se reduz quando o défice (expresso em
percentagem do PIB nominal) é inferior à subida desse mesmo PIB
nominal. Igualmente, uma forte subida do crescimento nominal arrasta
mecanicamente a subida das receitas fiscais, o que permite reduzir o
défice orçamental. Olhe para os números: o défice
vai situar-se, no mínimo, em 4% do PIB em 2014. Com uma
inflação da ordem dos 0,5%
e
um crescimento real da ordem dos 0,5% (sendo otimista), seria
necessário baixar as despesas públicas em 3% do PIB para chegar a
uma estabilização da dívida. O choque recessivo que isso
provocaria mataria a economia francesa.
Este erro estratégico foi duplicado por um erro tático. Estava
errada a crença de que a baixa das despesas públicas
líquidas, quer pela subida das receitas, quer pela baixa das
prestações sociais, não teria impacto no crescimento. Esse
erro provém de se ter subestimado o multiplicador das despesas
públicas, que foi considerado na ordem dos 0,5 quando nessa época
se situava entre 1,4 e 1,6. Um erro subsidiário, que foi feito por
François Fillon, tal como no seu tempo por Alain Juppé, foi de
não ter compreendido que a degradação das reformas iria
levar as famílias a poupar mais e, portanto, a consumir menos, com um
choque negativo para o crescimento. Estes três níveis de erros
pesaram fortemente na conjuntura económica da França a partir de
2011.
Perante o drama que se adensa, o senhor julga encontrar uma
solução, saltando por cima da regra, inscrita desde o Tratado de
Maastricht, dos 3% de défice. Se conseguir lá chegar, isso
quererá dizer que o peso da dívida, já elevado hoje, vai
continuar a aumentar rapidamente. É um expediente de curta
duração, Senhor Presidente! Mais dia, menos dia, seremos
apanhados pelas realidades. Isso também terá consequências
profundas no funcionamento da União Europeia. Se não conseguir
lá chegar, se os nossos parceiros, cansados das
tergiversações contínuas dos sucessivos governos
franceses, se recusarem a repor esta regra, o senhor ficará isolado
politicamente. O que resta então das esperanças depositadas na
sua eleição, da sua vontade de federar os países da Europa
do sul? Enfim, o senhor estragou tudo isto, quando aceitou assinar, com um
codicilo ridículo, o pacto de estabilidade. Senhor Presidente, em
política, a falta de coragem paga-se caro.
O espartilho do Euro
[NR]
Mas a situação atual também tem raízes em causas
mais profundas, em que na primeira fila se encontra a união
económica e monetária, aquilo a que se chama a zona
Euro. A zona Euro obriga todos os países a ter a mesma taxa de
inflação. Ora, as condições estruturais da economia
francesa fazem com que ela tenha uma taxa de inflação
natural, ou seja, uma taxa de inflação
compatível com o pleno emprego dos fatores de produção,
superior à economia alemã. Também, em poucos anos forma-se
uma diferença importante de competitividade entre os dois países.
De resto, a taxa de câmbio do Euro convém à Alemanha, mas
não à França. Se a França quiser ter uma taxa de
inflação igual à da Alemanha, deverá ter um
crescimento muito inferior ao seu crescimento potencial. Ora, isso
implica também um fraco investimento e, por consequência, uma
perda de competitividade desta vez pelo desvio do progresso técnico e
não apenas pelo dos preços. Além do mais, é claro
que as relações entre a França e a Alemanha vão
degradar-se porque estes dois países têm necessidades opostas em
matéria de políticas económicas, mas também
demográficas. A Alemanha, cuja população diminui, pode
permitir-se ter um crescimento fraco. O PIB por habitante aumentará
sempre mais rapidamente que o PIB. Quanto à França, se ela quiser
que o seu PIB por habitante aumente, tem que ter um crescimento forte. A
incompatibilidade das necessidades em políticas económicas destes
dois países condena a zona Euro, ou condena que um se subordine à
política do outro. Esta situação contém o risco de
novos conflitos na Europa. O senhor, que frequentemente é
enfático aquando das comemorações do centésimo
aniversário da guerra de 1914-1918, devia ter consciência disso. O
Euro mata a França, mas matará a Europa também.
Disto tudo, o senhor foi informado desde o verão de 2012. Mas acreditou
ser possível um subterfúgio, quando os problemas exigiam a sua
decisão e coragem. Mais uma vez, em política, a falta de coragem
paga-se caro.
Olhe de frente para a realidade
Eis-nos perante a questão essencial: deveremos manter-nos na zona Euro?
O único argumento que lhe resta é político. O senhor
pretende que o fim do Euro significaria o fim da União Europeia. Mas a
UE está a agonizar diante dos nossos olhos. Onde é que ela estava
quando foi necessário intervir no Mali? Onde é que ela
está quando se trata de dar uma ajuda militar decisiva na região
autónoma do Curdistão? Encontramo-nos sós, como sempre, ou
com aliados que não têm nada a ver com a UE, para gerir estas
crises. No entanto, para fazer frente a estas crises, as nossas forças
diminuem e isso, em grande parte, por causa das consequências do Euro mas
também das políticas que foram escolhidas, segundo se diz, para
salvar a zona Euro. A nossa economia declina, a nossa
indústria desaba. As nossas forças armadas estão num
estado de pobreza trágica.
Senhor Presidente, tem que olhar de frente para as realidades. Mesmo que sejam
desagradáveis, mesmo que impliquem que certas coisas em que tanto
investiu se revelem falsas, não pode deixar de fazer um exame de
consciência. O senhor quis a posição que hoje é sua.
Dedicou-se, durante anos, a alcançá-la. A sorte ajudou-o na sua
ambição e o senhor foi eleito Presidente da República.
Esta posição implica, exige mesmo, que esteja disposto a
libertar-se dos fragmentos mortos da sua ideologia.
Escolhas radicais
Senhor Presidente, a gravidade da situação exige-lhe atos graves,
atos decisivos. Tem que reconhecer que o governo Valls é um desastre, e
tirar daí as consequências. Sobretudo, deve
colocar sem demora a Alemanha perante as suas responsabilidades. Nenhum
país, no seio de uma união económica e monetária,
pode ter o excedente estrutural que ela tem. Ela terá pois que sair da
UEM ou ficar ciente de que será a França a sair da zona Euro,
solução mais provável.
Tenha a certeza que não seremos os únicos a sair. Logo a seguir
ao anúncio da nossa saída e, como bem sabe, isso pode ser feito
muito rapidamente, a Itália, a Espanha, Portugal e a Bélgica
anunciarão que nos vão imitar. Seguir-se-á rapidamente a
Grécia.
O estilhaçar da zona Euro tornará possível que se
faça ouvir de novo a voz da França. Um acordo de
coflutuação dos câmbios poderá ser assinado com
alguns destes países. A desvalorização que
ocorrerá, tanto em relação à zona dólar como
em relação à Alemanha, voltará a dar as
forças necessárias à economia francesa para fazer face aos
desafios do século XXI.
Senhor Presidente, o senhor ainda pode retomar o controlo, mas não por
muito tempo. A escolha é sua. Quer nomeando um novo governo e,
sobretudo, um novo primeiro-ministro, um homem decidido mas também um
homem com experiência, tomará a decisão de confrontar a
Alemanha com as realidades e sair do Euro. Com esse gesto, o senhor
poderá voltar a ser a chave dirigente da Europa do sul. Ou, para evitar
o marasmo em que o senhor está a atolar-se um pouco mais de dia para
dia, reconheça o seu fracasso e peça a demissão. Seria um
ato de grandeza assumir a responsabilidade dos fracassos desde maio de 2012.
Mas fique sabendo que, se não fizer nem uma coisa nem outra, será
condenado a uma impopularidade cada vez maior, à perda de legitimidade
cada vez mais profunda que corrói a sua função e,
através dela, a República e na melhor das hipóteses
à sua partida coberto de vaias.
Queira aceitar, Senhor Presidente da República, a expressão dos
meus sentimentos amargurados mas ferozmente republicanos.
[NR]
Todos os sublinhados a vermelho são da responsabilidade de resistir.info.
O original encontra-se em
russeurope.hypotheses.org/2629
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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