Os jornalistas e a reportagem da crise da eurozona:
Lições da frente grega
por Yannis Varoufakis
[*]
Ao longo dos últimos dois anos, a crise económica que afundou a
Grécia também me lançou para a frente de microfones e
cadernetas de anotações da miríade de jornalistas que
aterrou em Atenas para relatar o drama em desdobramento. Neste sentido, tenho
sido não só testemunha da evolução do colapso da
Grécia (e da eurozona) como também da luta dos media mundiais
para o compreenderem. Neste artigo resumo o que considero três
importantes lições a serem retiradas desta experiência no
interesse de jornalistas que tentam atingir o difícil equilíbrio
entre (a) a necessidade de produzir matérias que tenham eco com os seus
editores, leitores, público, espectadores e (b) a quase infinita
complexidade da história subjacente. As três lições
que desejo focar chamarei, respectivamente, como o erro da
generalização, a falácia da agregação e os
perigos da compartimentação.
O erro da generalização
O Crash de 1929, e a Grande Depressão que se seguiu, devia nos ter
ensinado uma lição importante: que uma cascata de bancarrotas
tanto privadas como públicas (as quais começam com o colapso dos
grandes bancos, a seguir propagam-se à dívida pública dos
países mais fracos e, posteriormente, infecta a economia real com o
vírus da recessão) acaba não só por ameaçar
a divisa comum da era (o Padrão Ouro em 1929, o euro hoje) como
também por engendrar uma ruptura da visão da prosperidade
partilhada. Na ausência de algum Leviatã supranacional (como o que
Keynes propôs em 1944) para "nos manter todos em respeito" e
portanto manter a cooperação transfronteiriça na
sequência de uma crise, surge uma guerra Hobbesiana de "todos contra
todos".
A guerra de palavras arranca no momento em que emitimos sentenças a
começaram com "Os gregos fazem isto" ou "Os
alemães pensam aquilo". Em 1929, aquela guerra de palavras, o
"jogo da culpa" se quiserem, levou-nos a um outro tipo de guerra a
qual, paradoxalmente, matou milhões e a própria crise.
Alguém pode ter tido a esperança de que, desta vez, teremos
aprendido a nossa lição. Pois enquanto as forças armadas
não se movimentaram (e esperançosamente permanecerão nos
seus quartéis), a guerra de palavras agora está viva e
próspera na Alemanha e na Grécia, na Holanda e na Espanha, na
Áustria e na Irlanda.
Na nossa própria geração, 1929, o Esmagamento do
Crédito (Credit Crunch) de 2008 e a Grande Recessão que se
seguiu, provocaram muita conversa na Europa acerca de Os alemães, Os
gregos, mesmo Os britânicos (especialmente depois de David Cameron ter
decido romper com a União Europeia na questão recente das
mudanças do Tratado). A nossa tarefa colectiva, e em particular aquela
de jornalistas esclarecidos, é gritar do alto dos telhados que
não existe tal coisa como Os gregos ou Os alemães ou Os
britânicos. Todos nós somos indivíduos, como Brian de forma
memorável lutou para convencer seus auto-nomeados discípulos. E
temos mais diversidade entre nossos povos, tanto em termos de visões
como de carácter, do que temos entre nossos países.
Assim, quando informam a partir das linhas de frente do colapso
económico, os jornalistas têm o dever de destacar a amplitude de
opiniões dentro da Grécia, da Alemanha, da Grã-Bretanha,
ao invés de encobrir essa diversidade optando pela confortável,
mas potencialmente destrutiva, familiaridade dos estereótipos nacionais.
Manter uma resistência saudável à
generalização é não só o dever
humanitário do jornalista como, também, um pré-requisito
para a reportagem precisa das causas da crise.
Tomemos, mais uma vez, o caso da Grécia. Os jornalistas precisam de
metáforas, com as quais ajudam o seu público a entender um
colapso económico, suas causas e natureza. Uma alegoria que tem sido
utilizada extensamente a fim de narrar o drama da eurozona é a
fábula de Esopo da Cigarra e da Formiga. A formiga alemã é
contraposta à cigarra grega no contexto de um conto moralista que
combina a indústria do Norte, a preguiça do Sul e alguma fraca
análise económica da deslocação monetária
que se segue.
O perturbador com metáforas desta espécie é que elas
são quase irresistíveis. Assim, jornalistas pressionados a
produzir uma matéria que faz um belo eco aos preconceitos do seu
público acabam por reproduzir servilmente a lógica da
metáfora; ex.: alemães são retratados como trabalhadores
árduos que devem salvar os gregos perdulários, tal como as
formigas, etc, etc. É como se, no momento em que a metáfora foi
escolhida, a matéria já estivesse escrita antecipadamente sem se
dar qualquer pensamento sério ao seu valor analítico.
Entretanto, sou a favor de metáforas. Não há nada como
elas para transmitir histórias complexas a um leitor, ou um
público, que lhes concede uma quantidade de tempo severamente limitada.
No entanto, cabe ao jornalista utilizar a metáfora para abordar a
realidade, o que é o oposto de ser "utilizado" pela sua
própria metáfora para, efectivamente, distorcer a realidade. Para
ter êxito nesta tarefa, o jornalista deve adequar a sua escolha de
metáfora às exigências da verdade a ser contada. Resistir
ao isco da generalização é essencial.
No caso aqui examinado, da Grécia e da Alemanha, o facto é que
formigas e cigarras estão distribuídas através da
divisão que na eurozona separa países com excedente de
países com défice. Uma vez que reconheçamos que tanto a
Alemanha como Grécia, na verdade toda a eurozona, contém formigas
abandonadas e cigarras super-mimadas, subitamente temos os ingredientes para
uma história mais subtil. Uma história que nos permite perguntar
questões mais profundas acerca do modo como tanto as árduas
trabalhadoras da Alemanha e da Grécia se sentem irritadas e ludibriadas
pelas cigarras gregas e alemãs as quais, durante os "bons"
tempos delas viveram parasitariamente e agora, durante os anos
"magros", outra vez, tentam novamente exigir, das formigas, dinheiro
para salvamento e impostos mais altos.
Em suma, metáforas são cruciais para contar uma história e
para objectivos analíticos. Mas devemos aperfeiçoá-las de
maneira a que ajude, ao invés de atrapalhar, nossa apreensão das
causas subjacentes. E isto significa escapar ao erro da
generalização.
A falácia da agregação
Ao visitar um país em colapso económico (sendo a Grécia um
caso útil para exemplo) é importante vir equipado com uma
percepção simples, mas contra-intuitiva. Receitas para enfrentar
a dívida não adiantam! Com isto quero dizer que jornalistas devem
sempre interrogar suas visões instintivas sobre as causas da crise que
estão a cobrir e, em particular, do que o "senso comum"
prescreve como remédio.
Por exemplo: que receita o senso comum receita para uma pessoa, uma
família ou uma firma saírem da perturbação
financeira? A resposta é certamente reduzir as despesas a fim de
controlar o défice no seu balanço. E trabalhar mais arduamente e
mais diligentemente. Contudo, quando esta receita é levada a um
nível de agregação mais alto, ela simplesmente não
funciona. Para ver isto, suponha que, numa tentativa de reduzir nossa
dívida individual e colectiva durante uma crise (a que economistas
financeiros chamam desalavancagem), cada um de nós siga a mesma receita e
ao mesmo tempo. O resultado, eu diria, pode ser exactamente o oposto do
pretendido. Na verdade, a dívida agregada real pode subir!
Para ver porque estas receitas individuais não funcionam numa
estratégia de eficácia colectiva, considere a grande
diferença entre a sua família (ou firma) e a economia em geral.
No caso da sua família, se o seu rendimento declinou e está a
enfrentar um défice ao fim de cada mês, cortar despesas é
uma rota de acção sensata por uma única razão: O
seu rendimento é independente das suas despesas. Por exemplo: se
não comer fora esta noite (e, em vez disso, cozinhar em casa), o seu
rendimento não sofreu e, como reduziu suas despesas, seu balanço
fica mais saudável.
Em contraste, o rendimento da economia agregada não é
independente da sua despesa. Na verdade, ambas são uma e a mesma coisa!
(O rendimento agregado do país equivale exactamente à sua despesa
agregada). Para ver porque isto importa, suponha que todo o país
está a apertar o seu cinto proverbial, com famílias e firmas a
"desalavancarem" em simultâneo. A despesa privada
estará, naturalmente, a cair (em agregado). Agora, se, no topo, o
governo também reduz a sua despesa (num esforço para reduzir seus
défices), então a soma da despesa privada e pública
declinará. Mas o que é o resultado desta soma? A resposta
é: Rendimento Nacional! Quando o rendimento nacional contrai, a receita
fiscal do estado cai, as famílias têm menos dinheiro para pagar
dívidas e a capacidade total do país para reembolsar suas
dívidas diminui. Portanto, todos nós caímos colectivamente
na armadilha do "senso comum", da falácia da
agregação; do pensamento equivocado de que uma receita que
é boa para famílias e firmas deve ser boa em agregado para um
país endividado.
Durante muitos meses, desde a irrupção da saga grega da
dívida, estive a lutar para explicar este ponto simples a muitos
jornalistas que encontrei. Foi um trabalho difícil. A falácia da
agregação estava profundamente arraigada nas suas mentes. Quando
me perguntavam questões acerca dos empréstimos de
"salvamento" da Grécia, e a importância das
condições de austeridade que estavam ligadas a estes
empréstimos, minha afirmação de que toda a ideia era
defeituosa não encontrava eco junto deles. Por mais arduamente que eu
tentasse explicar a lógica enviesada, os jornalistas pareciam amarrados
à ideia de que quando um país como a Grécia tem um grande
défice, e uma dívida enorme, uma redução
substancial no gasto do governo e um aumento na tributação devem
ser a resposta.
Meses mais tarde, quando a despesa do governo diminuiu e os aumentos de
impostos levaram a recessão a aprofundar-se e o rácio da
dívida/rendimento nacional a inchar, percebi que o estado de
espírito entre jornalistas mudou. Infelizmente, nesse meio tempo, eles
haviam escrito artigos e mais artigos que desinformavam seus leitores e
desorientavam os seus públicos.
Tendo isto em mente, e como a crise continua a tecer a sua teia venenosa
através de países e sectores, espero que jornalistas mesclem nas
suas reportagens um mínimo de dúvida de que as
"receitas" económicas fazem o sentido que a "sabedoria
convencional" lhes atribui.
Os perigos da compartimentação
Durante a minha "permanência" como interlocutor frequente da
imprensa internacional que ia a Atenas, percebi uma divisão de trabalho
interessante. Equipes de reportagem de televisão e rádio cairiam
em três categorias mais ou menos distintas: A equipe das notícias
brutas, a missão de informação de retaguarda e, menos
frequentemente, o ângulo do interesse humano.
A abordagem dos rapazes das notícias brutas era do tipo
"durão", reacção rápida, tipo prosaico.
Eles queriam os "factos" e os números, a
informação de dentro, a previsão instantânea do que
o governo faria ou como o mercado reagiria em resposta. Os grupos da
informação de retaguarda eram mais descontraídos, operavam
sob prazos mais longos e, portanto, tinha o tempo e o espaço para
perguntar questões semelhantes mas de uma maneira que dava, aos
entrevistados, mais espaço para deslindar alguma narração
sobre os antecedentes, os aspectos não vistos da história.
Finalmente, jornalistas a trabalharem sobre artigos de interesse humano
não tinham tempo para as "causas" das crises
económicas, nem tão pouco qualquer interesse para a subjacente
tectónica das placas cujos movimentos provocaram rupturas na economia
social. O que eles queriam eram contos de desgraças, imagens de
sofrimento, sons de desespero, as matérias-primas que lhes permitiriam
reunir num texto curto que, suspeito, desempenharia o papel de equilibrar a
dureza dos factos e números de alguma reportagem anterior de uma das
outras equipes.
A compartimentação do enredo de um colapso económico em
três diferentes tipos de reportagem causa duas falhas: Primeiro,
enfraquece a própria capacidade analítica do jornalista para
mostrar o sentido da crise. Segundo, diminui o valor de cada uma das suas
partes. Deixem-me explicar ambas as afirmações no contexto da
derrocada da eurozona. Qualquer conta das experiência e
atribulações de, digamos, uma família grega a que falte
uma conexão analítica entre o seu sofrimento e a angústia
de uma família alemã equivalente (cujos padrões de vida
têm estado a cair menos mas durante muito mais tempo) certamente
fracassará em dar conta para ambos (tão bem quanto possa) de: (a)
da profundidade do sentimento de danos que experimentam famílias gregas
e alemãs e (b) das causas da crise. Dito simplesmente, quando a
análise "durona" é mantida separada do ângulo do
interesse humano, então a análise torna-se "molenga" e
a estória de interesse humano troca o humanismo pelo melodrama.
Epílogo
A linguagem e o seu caso de amor com a metáfora muitas vezes nos atrai
para a armadilha de generalizar o que é melhor deixar não
generalizado. Nossa língua é inclinada a falar acerca de um povo
"estrangeiro" como se este fosse capaz de ter um carácter
único cujos defeitos morais pudessem explicar seus apuros; como se, por
exemplo, Margaret Thatcher e Harold Pinter fossem amalgamados num único
carácter cuja falha pudesse explicar as aflições
económicas da Grã-Bretanha. Então, como se isto não
fosse bastante, nossa mente dá a deformação resultante de
uma outra volta ao mover-se na direcção oposta, confundindo o
particular com o geral, por exemplo, assumindo que o que é prudente para
uma família deve ser prudente para uma economia. Finalmente, seguindo um
erro secular na mentalidade ocidental, estamos convencidos de que
"factos" económicos e financeiros são zonas livres de
sentimento.
Estas três falhas surgem como naturais para nós quando voamos para
um país que subitamente entrou em colapso com o objectivo de preparar,
dentro de constrangimentos apertados, uma peça jornalística do
que está a acontecer, porque aconteceu e como se sente quem nela
é apanhado. Deve-se resistir a eles. Meu argumento tem sido que
jornalistas lançarão muito mais esclarecimento útil sobre
o desdobrar de uma crise económica numa terra estrangeira se conseguirem
evitar o erro da generalização, a falácia da
agregação e os perigos da compartimentação.
[*]
Autor de
The Global Minotaur America, The True Origins of the Financial Crisis and the Future of the World Economy
, Zed Books, Londres, 2011, 252 pgs., ISBN 978178032014. Este artigo
será publicado pelo jornal da British Journalism Association.
O original encontra-se em
yanisvaroufakis.eu/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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