Aprender em Portugal com a experiência dos outros

Fúria sem sentido: Porque tanto os políticos alemães como os gregos cometem um erro ao ficarem raivosos

por Yannis Varoufakis [*]

Então, alguns políticos alemães puseram no jornal o que têm estado a pensar desde há algum tempo: A Grécia tornou-se um fardo insuportável e, se se resignarem a continuar a colocar o seu dinheiro naquele buraco negro particular, eles podem muito bem ter uma palavra a dizer sobre a forma como é administrado no terreno. Previsivelmente, a fuga deste documento deu a políticos gregos, e ao infeliz ministro das Finanças em particular, uma grande oportunidade para flexionar músculos, declamar a sua fúria quanto ao pisotear da soberania nacional grega pela Alemanha, etc.

Conversa fiada, digo eu!   De ambos os lados.

Do lado grego, o que sobre a terra esperávamos nós? Uma vez que um país aceita a lógica de empréstimos maciços na condição de austeridade que aprofunda a insolvência do país, requerendo portanto mais empréstimos, chegará o momento em que os prestamistas internacionais exigirão poderes executivos directos. Em linguagem corporativa isto é conhecido como tutela (receivership). Os políticos gregos que apuseram suas assinaturas na linha pontilhada dos vários acordos de "salvamento" ("bailout") estão a violentar a credulidade quando protestam pela perda da soberania nacional. Os cavalos fugiram meses atrás.

Quanto aos políticos alemães, estou receoso de que o julgamento da história não será meigo. Eles obstinadamente despejaram gigantescos novos empréstimos sobre uma nação insolvente, em condições de austeridade que contraem o rendimento nacional a partir dos quais estes empréstimos (mais os pré existentes) teriam de ser pagos. E então, quando a economia social da Grécia murcha e morre, eles tornam-se raivosos porque as "reformas" não funcionaram, porque as receitas fiscais contraíram-se, porque não há compradores para os activos do estado grego. A minha mensagem para eles é: vocês impuseram uma política errada à Grécia – e à periferia do resto da Europa – e agora devem arcar com as consequências.

Durante meses, através das páginas deste blog (e alhures), tenho argumentado que a tragédia dos "salvamentos" gregos, na verdade da estratégia geral para tratar da crise do euro, tem sido uma comédia de erros. Não será tempo de os nossos políticos (gregos e alemães) reconhecerem o erro da sua idiotice contínua? Não terá chegado o tempo de parar com o jogo da culpabilização e da dissimulação?

Como nota final, tenho uma mensagem para políticos da Alemanha: Como cidadão grego privado, entendo a vossa fadiga com as coisas gregas. Mas se estão certos de que o vosso plano é tão bom (e que o problema é a sua implementação pelas autoridades gregas), eu saudaria a vossa vinda para Atenas a fim de assumir o comando da sua execução. Mas com uma condição:

Se tiverem êxito em fazer com que a austeridade funcione no meio de um ciclo de dívida com características deflacionárias, fico feliz em que indiquem vosso preço. Por exemplo: se dentro de cerca um ano o PIB grego começar a crescer outra vez e o desemprego diminuir para abaixo dos 10%, vocês podem ficar com a nossa rede eléctrica (que a Siemens sempre cobiçou), nossas companhias de águas e quaisquer activos que mencionem previamente. Mas se falharem, então devem pagar um preço. Por exemplo: pagar totalmente os empréstimos pendentes da Grécia para com a troika.

Então, o que acham disso? Querem apostar?

30/Janeiro/2012

[*] Autor de The Global Minotaur – America, The True Origins of the Financial Crisis and the Future of the World Economy , Zed Books, Londres, 2011, 252 pgs., ISBN 978178032014

O original encontra-se em yanisvaroufakis.eu/... . Tradução de JF.


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01/Fev/12