"Mémoire algérienne",
de Henri Alleg
por Rémy Herrera
Henri Alleg é um revolucionário como já não
há muitos, pelo menos nas nossas latitudes; um daqueles que, durante
meio século, fizeram viver o sonho de uma Argélia fraternal; o
"exemplo de um tipo de humanismo em vias de extinção",
como disse o seu amigo fraternal, o escritor comunista português Miguel
Urbano Rodrigues. Onde quer que tenha podido escutar Henri, desde uma tribuna
na Festa do
L'Humanité
até uma sala de aula de colégio, de um anfiteatro de La Sorbonne
a
uma sala de curso para estudantes detidos da prisão da Santé, de
uma pequena sala de cinema do Quartier Latin ao imenso Palácio das
Convenções de Havana, sempre o vi, uma vez concluído o seu
discurso, rodeado de uma multidão de admiradores, a
abraçá-lo, a estreitar os seus braços, a agradecer-lhe.
Pois, desde
La Question,
Henri é, para os progressistas do mundo, e em primeiro lugar para os
comunistas, a própria figura da resistência à
opressão, a representação da coragem levada até aos
seus limites extremos, a expressão da ética revolucionária
mais consequente.
Che
Guevara não se enganava, ele que o visitou várias vezes em Argel.
Mémoire algerienne
,
publicado pela Stock, é o testemunho magnífico, comovente e
grave, cheio de humor e de modestia, destes anos de luta, antes, durante e
após a guerra de libertação da Argélia. Um
testemunho generoso, portador de esperança, que, contada simplesmente,
atinge profundamente o leitor e lhe faz atingir as raízes da
condição humana e o sentido da vida, isto é, para o autor,
as razões profundas do combate permanente pela revolução
social. O amor por este país e por este povo, a clandestinidade na
colónia sob Vichy, a militância no seio do Partido Comunista
Argelino, a direcção do diário anti-colonialista
Alger républicain;
a própria guerra da Argélia naturalmente, e depois a
prisão em casa de Maurice e Josette Audin, a tortura inflingida pelos
paraquedistas do general Massu através de métodos copiados
àqueles da Gestapo, a escrita e a saída clandestina, folha a
folha, de
La Question
cuja censura provoca a mobilização de Jean-Paul Sartre,
François Mauriac e Roger Martin du Gard , os anos de
aprisionamento em Barberousse na Argélia, depois em França, a
evasão da prisão de Rennes, a clandestinidade de novo, a chegada
à Checoslováquia, o retorno à Argélia independente,
a "missão" em Cuba, Ben Bella, depois o golpe de Estado de
Boumedienne... E a probição do Partido Comunista Argelino, com
uma reflexão lúcida e nuançada sobre as
relações, muito complexas e delicadas, entre a Frente de
Libertação Nacional e os Partidos Comunistas (argelino e
francês).
Quem transmitirá a todas aquelas e todos aqueles que são
demasiado jovens para terem vivido esta época tormentosa a
memória, o relato da verdade, aquela que desde 1954 as elites francesas
da V República minimisam, ou negam abruptamente, a verdade desta guerra
genocida no curso da qual quase um milhão de argelinas e argelinos
perderam a vida além dos europeus, na sua maior parte militantes
comunistas que combateram ao seu lado , a verdade sobre a tortura,
à qual Henri resiste nas condições que se sabe, neste
imóvel do boulevard Clemenceau em El Biar, a verdade dos crimes odiosos
que a burguesia francesa, sempre tão pronta a falar de
"democracia" e a dar ao mundo lições de "direitos
humanos", fez sofrer aos povos em nome da França? Quem pois
senão Henri, e seus camaradas da grande aventura do
Alger républicain
?
Nestes tempos de crise de civilização e de perda de referências, de
barbárie e do
"fascismo sorridente"
do imperialismo, de renúncia e também de desencorajamento de
tanto "antigos camaradas ou companheiros de estrada", por vezes mesmo
de covardia e de baixeza, este livro é seguramente uma lufada de
oxigénio, um hino à fraternidade humana, uma lição
de coerência na luta, um dom de confiança no futuro para todas
aquelas e todos aqueles que não querem render-se e permanecem fieis aos
princípios democráticos, humanistas e éticos do comunismo.
Paris, Setembro/2005
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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