O tema da democracia, na Europa e na América Latina, requer creio
eu alguns comentários preliminares, a fim de dissipar certos mal
entendidos difundidos pelo "pensamento único".
Com toda a razão, fala-se frequentemente do vasto movimento de
democratização na América Latina. É certo que tem
havido um avanço generalizado das consciências e progressos reais.
Mas reconhecer o facto de que numerosos países da América Latina
deixaram para trás as ditaduras militares neofascistas não
significa por isso que a democracia exista na América Latina, salvo
excepcionalmente. Se é verdade que existe uma tendência para a
democratização, a democracia na América Latina não
existe pelo menos ainda não salvo em algum caso
excepcional.
Certos elementos formais da democracia representativa, chamemo-la
"burguesa", estão presentes mas estes elementos são os
instrumentos de uma mecânica política formalmente
democrática que funciona quase em exclusivo para os que têm
posses. Embora exista uma democratização, o poder permanece
salvo alguma excepção nas mãos de
oligarquias ricas, odiosas e totalmente submissas ao imperialismo dos Estados
Unidos.
O factor de unidade que agrupa os povos da América Latina é hoje,
como na época de Che Guevara, a realidade dessa aliança das
elites locais com as grandes finanças norte-americanas, a
submissão desses países ao imperialismo por parte das suas elites
consumidoras.
Perante o imperialismo todos os povos lutam dentro do respectivo quadro
nacional, pela conquista da democracia, mas são três os
países que apresentam um sério problema para o imperialismo:
Cuba, a Venezuela e a Colômbia.
Por este motivo, a nossa solidariedade deve voltar-se para todos os povos da
América Latina mas muito especialmente a estes três: o povo
colombiano que resiste ao Plano Colômbia cofinanciado por Bush e Uribe;
à revolução bolivariana, que resiste às tentativas
de desestabilização do governo do seu presidente, Hugo
Chávez; e a revolução cubana que resiste ao bloqueio,
às agressões de Miami e às sanções de toda a
espécie, das quais não surpreendentemente as nossas
elites europeias se tornaram cúmplices.
Digo "as elites europeias" em vez de Europa como deveria dizer
"as elites norte-americanas" em vez de os Estados Unidos, uma vez que
assistimos, com o drama do furacão Katrina, o fosso que separa o povo
dos Estados Unidos do
"establishment".
Este drama veio demonstrar que Bush não está só na guerra
contra os povos do Sul, mas que está também em guerra contra os
pobres do seu próprio país. Poder-se-ia pensar que a guerra
ilegal, ilegítima, horrorosa que o governo dos Estados Unidos leva a
cabo no Iraque poderia unir as minorias e os pobres norte-americanos em torno
da nação, da bandeira dos Estados Unidos. Mas são esses
mesmos pobres e essas mesmas minorias as que não querem esquecer
tão depressa a forma como Bush reagiu perante o desastre provocado pelo
ciclone: uma reacção de classe, uma reacção
racista, abandonando pura e simplesmente à sua sorte os milhares de
pobres, muitos dos quais negros, tanto na Luisiania como no Mississipi. A
única coisa que Bush soube fazer foi enviar o exército para
disparar sobre quem fosse suspeito de pilhagem. É esta a "primeira
democracia do mundo"?
Retornemos à Europa. Eu dizia que "as elites europeias" era
melhor que Europa, uma vez que se escuta frequentemente dizer que a Europa
é o lugar privilegiado da democracia. É certo que aqui existe,
quem sabe se mais na Europa do que noutros lados, espaços de direitos de
liberdades que foram, não o esqueçamos, conquistados, arrancados
ao capital através das lutas dos nossos camaradas e das
gerações que nos precederam.
Mas não creio que possamos dar lições aos outros,
já que é longo o caminho que falta percorrer antes que as nossas
elites europeias aceitem abrir aqui o debate sobre o que elas próprias
fazem aos povos, sobre como as nossas burguesias fizeram sofrer os povos do
mundo no passado: a escravatura e as guerras coloniais, o fascismo na Europa
que actuou como sustentáculo das ditaduras neofascistas da
América Latina. Falta, todavia, muito caminho para que se abra em
França o debate sobre como as nossas elites, os dirigentes das
transnacionais, os responsáveis da gestão do Estado fazem sofrer
os povos de França e do mundo: mantendo camadas inteiras da
população no desemprego e na pobreza, a pilhagem do Sul pelas
transnacionais (a corrupção) e pelo Estado (as bases militares em
África).
Enquanto a França continuar a comportar-se como um país
sub-imperialista não haverá verdadeira democracia em
França. Enquanto a Europa continuar a submeter-se aos ditames de
Washington, não será possível uma democracia verdadeira,
participativa na Europa.
Não se trata aqui de minimizar a importância do voto.
Votámos a 29 de Maio, votámos por um "não", um
não de classe, um não de esperança. Isto apesar de, para a
maioria dos franceses, a democracia reduzir-se a um passeio até à
mesa de voto um domingo por ano, ficar numa fila em silêncio
, acenar a cabeça à chamada do seu nome em
silêncio , depositar o voto na urna em silêncio
e regressar a casa em silêncio, sem que nada mude. Se isto
é democracia, é muito pouca coisa.
Será isto ter "o poder do povo, pelo povo e para o povo"?
Não, o que temos é uma explosão de lucros para as
finanças e para nós o desemprego, o desmantelamento dos
serviços públicos, as deslocalizações, a
competição entre os trabalhadores, a manipulação
das consciências através dos meios de comunicação
social, a alienação consumista, a pilhagem do Sul, as guerras
imperialistas das finanças. O que temos é um poder fora do povo,
contra o povo, é o poder financeiro e especialmente das finanças
estadunidenses. Isto que sofremos é o neoliberalismo, a forma moderna de
capitalismo. E se este regime chama-se a si mesmo "democracia",
não é outra coisa além de uma "democracia de
accionistas". O que o poder financeiro nos oferece não é um
sociedade democrática, não é um mundo democrático.
É democrática a Grã-Bretanha em que o governo, certamente
eleito, contra a vontade do seu povo, envia o exército para cometer
crimes no Iraque?
É democrática a Itália, dirigida por outro eleito, que tem
a comunicação social nas suas mãos e que também
colabora na matança de inocentes no Iraque?
E a Croácia, os países bálticos que reabilitam a
memória de velhos nazis da Segunda Grande Guerra?
E o FMI que impõe ao Sul, seguindo as ordens de Washington,
políticas de ajuste de uma violência inaudita, uma ditadura de
mercado, um
apartheid
mundial, um genocídio silencioso dos mais pobres?
Mas enfim, dir-se-á, a França é um país
democrático já que o seu presidente foi eleito pelo povo. E
eleito por 82 por cento! E hoje, 70 por cento dos franceses dizem não
ter confiança nele! Votou-se contra Le Pen, e Chirac beneficiou
prosseguindo com a mesma política neoliberal. Quando uma minoria
impõe à maioria uma política anti-social não
é uma democracia, é apenas uma ficção, uma
ficção de democracia.
Votar para que mude apenas o que faz falta para que nada mude, não
é uma democracia. Alternar sem alternativa não é
democracia mas uma convivência da direita com o Partido Socialista, ou
seja, a aliança da velha direita com a nova direita.
É um sistema político cada vez mais parecido com o dos Estado
Unidos, um bipartidismo na forma de um jogo entre os dois únicos
partidos que dissimulam o partido único, o partido do capital. A
democracia não chegará como uma prenda, mas deverá ser
conquistada.
Votámos "não" à
constitucionalização do neoliberalismo na Europa,
"não" à submissão atlantista das elites
europeias. Ganhámos. E o nosso voto foi escutado? Foi ouvida a nossa
voz? Não! Tudo prossegue mais ou menos da mesma maneira. O que ficou
demonstrado com o referendo foi o carácter fictício desta
democracia, burguesa, neoliberal. É por isto que nos devemos mobilizar,
sem desânimos ou divisões.
Devemos continuar a luta, juntos, com o espírito construtivo, tolerante
e democrático que tivemos durante a campanha do "não"
e onde o Partido Comunista Francês desempenhou, é
necessário dizer, um papel decisivo como eixo organizador e
logístico da esquerda do "não", porque a sua
direcção compreendeu o que as bases pretendiam, ou seja, uma
radicalização.
Radicalização das criticas e das lutas. Uma vez que para
avançar será necessário passar da critica do
neoliberalismo à critica do capitalismo; da critica da guerra à
critica do imperialismo; e da critica dever-se-á passar à
construção de alternativas. Será necessário um dia
tomar a decisão de aceitar a evidência: jamais haverá uma
verdadeira democracia, participativa e popular sem socialismo!
Não haverá democracia sem socialismo, tanto na América
Latina como na Europa. Mas é também claro que não
haverá socialismo sem democracia. A história ensinou-nos: um
socialismo sem a participação do povo está condenado, um
socialismo sem que o povo domine o seu próprio destino não tem
porvir. E uma das nossas tarefas será reconciliar socialismo e
democracia, revolução e participação.
Por estes motivos, o que está a acontecer na Venezuela é
tão importante, uma vez que é um laboratório
democrático para a América Latina. É dever de todos os
progressistas apoiar a revolução bolivariana, o seu povo, o seu
presidente, as suas missões sociais, a ALBA. Quanto aos nossos amigos
cubanos, creio que o governo francês não tem qualquer
lição de democracia para lhes dar. Lições de
quê? Da atenção aos idosos depois dos grandes calores de
Verão? Lições de solidariedade com os pobres, com os
milhares de pessoas sem habitação e com a quantidade de
famílias que vivem em condições lamentáveis?
Lições no acolhimento dos estrangeiros, quando as
expulsões dos "indocumentados" se multiplicam?
Lições de gestão pública, quando a direita
privatiza a EDF (Electricidade de França) que foi uma empresa modelo de
serviço público? Lições de liberdade de imprensa,
com uma imprensa vendida à indústria militar e aos patrões?
É certo que as liberdades de pensamento e de expressão devem ser
os pilares do socialismo. Mas de que liberdade de expressão falamos? Da
dos meios de comunicação na Europa e na França, que
mentem, que nos bombardeiam com propaganda, que manipulam as
consciências? Dos media na Colômbia, às ordens de Uribe e
dos paramilitares ao repetirem que as FARC nada mais são do que
bandidos sem fé nem lei? Da liberdade da máfia anti-cubana de
Miami que diz serem necessários "três dias de
impunidade", assim que os fuzileiros norte-americanos desembarcarem em
Havana para executar os "castristas"? Liberdade ou
incitação ao ódio? Falamos da "democracia" da
oligarquia de Caracas ao declarar livremente, na TV, que é
necessário extirpar o "tirano" Chávez do palácio
presidencial e matá-lo? Democracia ou apelo à morte? Esta
é a concepção de democracia que tem a extrema-direita de
Le Pen!!
Os inimigos que enfrentamos hoje são os mesmos de ontem, os que em 1954
sufocaram os sonhos de democracia na Guatemala, os que derrotaram a democracia
nascente no Chile de Allende, os que golpearam de morte a
revolução sandinista na Nicarágua, os mesmos que ajudaram
e até formaram, com oficiais franceses que participaram na guerra da
Argélia, torturadores durante o plano Condor, os mesmo que torturaram no
Brasil, na Argentina, no Uruguai, em El Salvador para impor as ditaduras
sangrentas do neoliberalismo que apelidam de democracia. Isto não
é mais do que uma farsa de democracia. O que hoje enfrentamos é
a aliança das oligarquias latino-americanas neoliberais com as elites
europeias neoliberais, com o imperialismo norte-americano numa guerra declarada
contra os povos do mundo, contra os pobres do Sul e contra os pobres do Norte,
os pobres dos seus próprios países. Para enfrentarmos estes
inimigos devemos unir-nos, organizar-nos, renovar a luta com tolerância
(aceitar as nossas diferenças) e com um certo radicalismo (um
espírito revolucionário).
Saibamos então unir-nos como aquando da vitória do
"não" de 29 de Maio permanecendo vigilantes para que as
bases imponham a democracia às direcções sindicais e aos
seus militantes contra eventuais núcleos direitistas como foi no caso da
CGT (Confederação Geral do Trabalho), quando a
direcção optou por um "sim" e as bases conseguiram
impor o seu "não".
Saibamos resistir às mentiras dos meios de comunicação
sobre as lutas populares na América Latina, sobre a Venezuela, Cuba, as
guerrilhas colombianas, como soubemos resistir às mentiras da campanha
do referendo em França.
Saibamos construir as bases de uma solidariedade com os nossos irmãos
latino-americanos e de um novo internacionalismo.
E saibamos voltar a falar de socialismo mas como uma necessidade
histórica de defesa da humanidade contra a barbárie imperialista.
Digo isto porque, da mesma forma que a ideologia do capitalismo soube
aperfeiçoar a democracia burguesa ao ponto de fazer crer que a
democracia é o voto (incluindo nas sociedades com maiores desigualdades
onde domina a alienação do mercado e que nem sequer possuem
soberania nacional), é esta mesma ideologia capitalista que dá a
ilusão de que o poder é a vitória eleitoral. Mas, depois
de Allende, sabemos bem que uma coisa é conquistar o governo e outra
é exercer o poder.
Muitas das nossas vitórias eleitorais, tanto na América Latina
como na Europa, são avanços da esquerda mas também e
talvez sobretudo reflictam a pujança das classes dominantes que optam
por líderes da chamada esquerda (Lula no Brasil, Fabius em
França) para neutralizar as lutas das organizações de
massas e prosseguir com as políticas neoliberais que a direita
não chegou a impor.
Uma vez que a reacção está sempre no Estado e na economia,
e porque o imperialismo domina o sistema mundial, partes inteiras do aparelho
do Estado continuam a evitar as forças de esquerda, apesar da conquista
do poder. O poder económico não estará nas mãos de
revolucionários enquanto a revolução não se tiver
radicalizado, enquanto não se tomarem medidas de
democratização da sociedade, de justiça social, de
libertação nacional e, sobretudo, com a
participação do povo, ou seja, enquanto a revolução
não consolidar as suas bases anti-imperialistas e anti-capitalistas.
É por isso que (voltar a) falar de transição para o
socialismo e de reforço da democracia, de reformas agrárias e
democráticas, de nacionalizações e democracia, de
planificação e democracia, de poder popular, é tão
importante e tão necessário.
É por isto que devemos multiplicar as lutas locais, pontuais, concretas
tecendo novas redes solidárias entre os trabalhadores, com os
desempregados, com os indocumentados, com um novo espírito
revolucionário e internacionalista.
É por isto que devemos continuar a resistir, continuar a esperar
sustentando os nossos sonhos. E em França e em todos os lugares,
confrontados com o capitalismo e o imperialismo, uma vez mais e sempre, dizer
NÃO!
Festa do
L'Humanité,
Setembro/2005
[*]
Investigador do Conseil National de la Recherche Scientifique, docente da
Universidade de Paris 1.
A versão em castelhano encontra-se em
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=21441
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Tradução de Luís Gomes
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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