Agências, rádios e televisões
A estratégia mediática estadunidense 1945-2005
Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos desenvolveram um
sistema de propaganda sem precedentes. Através de estruturas como o
Congresso para a Liberdade e a Cultura, eles corromperam as elites intelectuais
ocidentais. Depois, ao instrumentalizar a liberdade de
informação, afogaram o mundo no seu ponto de vista único,
graças a poderosas agências de imprensa e a uma gigantesca rede de
rádios profanas e religiosas, como nos revela René Naba no seu
último livro,
Aux origines de la tragédie arabe
[Nas origens da tragédia árabe], do qual reproduzimos
aqui um excerto.
Do bom uso dos princípios universais
Os grandes princípios universalistas raramente derivam de
considerações altruístas. Na maioria das vezes, eles
respondem a imperativos materiais. Foi assim com o princípio da
liberdade de navegação proclamada pela Inglaterra nos
séculos XVII e XVIII para assegurar a sua supremacia marítima, e
consequentemente a sua hegemonia comercial no resto do planeta. O mesmo
aconteceu com o livre-câmbio decretado pelos países ocidentais nos
séculos XIX e XX, de modo a coagir a China a escoar as mercadorias
ocidentais para os seus mercados internos em nome da "política da
porta aberta". E assim viria a ser com o "princípio da
liberdade de informação" firmemente defendido pelos Estados
Unidos, após a Segunda Guerra Mundial, com o intuito de estabelecerem a
sua supremacia ideológica nos quatro domínios que condicionam o
poder: político, militar, económico e cultural.
Na sua batalha ideológica pela conquista do imaginário dos povos,
garantia essencial da perenidade de uma nação, os Estados Unidos
desenvolveram uma argumentação baseada sobre uma dupla
articulação, um argumento intelectual, o princípio da
liberdade de circulação de informação e de
recursos, um argumento prático, o pressuposto de que os Estados Unidos
são a única grande democracia no mundo que não
dispõe de um ministério da cultura, nem de um ministério
da comunicação, prova irrefutável, segundo eles, de um
regime de liberdade.
Apresentado como o antídoto absoluto para o fascismo e para o
totalitarismo, o princípio da liberdade de informação,
constitui um dos grandes dogmas da política estadunidense do
pós-guerra, o seu principal tema de propaganda. É uma
formidável máquina de guerra que responde a um objectivo duplo.
Quebrar, por um lado, o cartel europeu da informação,
principalmente o monopólio britânico dos cabos
transoceânicos que assegura via
Cable and Wireless
a coesão do Império e confere uma posição
preponderante à agência britânica de
informação Reuters, e acessoriamente, a preeminência da
Agência francesa Havas, a futura Agência France Presse (AFP) na
América Latina, zona de interesse prioritário dos Estados Unidos.
Neutralizar, por outro lado, toda a crítica através da
eliminação de toda a concorrência europeia que pudesse
apresentar, aos leitores, os Estados Unidos em termos pouco elogiosos, a imagem
desvalorizada do cow-boy
americano mascando pastilha elástica, ou ainda mais grave, a
segregação racial e os linchamentos do Klu Klux Klan, ou ainda o
grande banditismo da época da proibição. Sob uma liberdade
aparente irrompia já o controlo. Toda a literatura vai teorizar sobre
esse princípio da liberdade de informação e dar uma
roupagem moral a uma política de expansão
[1]
.
Um dos mais eloquentes teóricos da matéria será William
Benton, antigo secretário de Estado adjunto do presidente democrata
Franklin Roosevelt, promotor do "New Deal". Benton que presidiu
à prestigiosa publicação
Encyclopaedia Britannica,
desde o fim da Segunda Guerra Mundial, convidará os Estados Unidos a
"fazerem tudo o que estiver ao seu alcance" para quebrar as barreiras
artificiais que se opunham à expansão das agências
americanas privadas, das revistas, dos filmes e de outros meios de
comunicação.
A liberdade de imprensa e a liberdade da troca de informação
fazem parte integrante da política estrangeira estadunidense, afirmava
ele, pensando que o controlo mundial das comunicações favorecia
os fluxos de exportação
[2]
. Sob os grandes princípios irrompem já objectivos materiais.
Quanto ao argumento prático sobre a ausência de estrutura
ad hoc
de propaganda, é um facto fundamentado, mas que deve ser bem analisado.
Certamente que não existe nem ministério da cultura nem
ministério da comunicação no governo dos Estados Unidos,
mas, nessa batalha ideológica, os Estados Unidos praticam, não o
ataque frontal mas o entrismo, uma estratégia de contorno
periférico, uma diplomacia multilateral instrumentalizando as
organizações internacionais de vocação universal ou
específica, replicada numa diplomacia paralela das suas agências
especializadas: a CIA (agência central de informação) e as
Fundações filantrópicas para o branqueamento de capitais
[3]
.
Quer seja a ONU, a UNESCO, o Conselho Económico e Social da ONU ou a
Organização de Estados Interamericana, todas terão
inscrito nas suas cartas "o princípio da liberdade de
informação". Todas, pouco ou muito, terão tido um
papel preponderante na propagação da doutrina estadunidense da
livre circulação de informação. Serão apenas
hipóteses? Não, a cronologia é suficiente para fundamentar
essas afirmações. Em Setembro de 1944, o Congresso dos Estados
Unidos oficializa essa política através de uma
moção proclamando "o direito mundial à
informação para as agências que recolhem e fazem circular a
informação, sem discriminação", um direito que
será protegido pelo direito internacional público.
Cinco anos depois da moção do Congresso, a Conferência
interamericana do México adopta por seu turno uma
resolução sobre o livre acesso à informação
(Fevereiro de 1945), seguida da Conferência de São Francisco,
quatro anos mais tarde, para a criação da ONU (Junho de 1945),
depois pelo Conselho Económico e Social da ONU que inclui a
resolução na sua carta em Fevereiro de 1946.
Depois, o princípio da liberdade de informação recebe uma
consagração oficial por ocasião da primeira sessão
da conferência geral da UNESCO em Paris (Novembro de 1946), seguida da
Assembleia geral da ONU, um mês mais tarde, que proclama "a
liberdade de informação, direito humano fundamental, implicando o
direito de reunir, de transmitir e de publicar as notícias sem
entraves" (14 de Dezembro de 1946). Os tempos ainda não eram os do
jornalismo
embedded,
ligado ao exército, imbricado nas fontes da
administração, praticado aquando da invasão
anglo-saxónica do Iraque em 2003, por razões de
"segurança nacional".
Em dois anos, a estrutura da diplomacia multilateral do pós-guerra fica
prisioneira desse princípio. Os Estados Unidos conseguem fazer com que
esse princípio conste da carta das cinco grandes
organizações internacionais (ONU, UNESCO, ECOSOC (Conselho
Económico e Social), Organização Interamericana de Estados
e Assembleia Geral da ONU). A ONU contava nesta época com 55 membros,
um quarto do número actual, com uma maioria automática pró
ocidental composta por países europeus e latino-americanos sob a
direcção dos Estados Unidos. Todos os grandes Estados do chamado
terceiro mundo estavam ausentes. A China continental era boicotada em proveito
de Formosa, a Índia e o Paquistão, as duas novas potências
nucleares da Ásia, estão sob o domínio britânico,
tal como a Nigéria e a África do Sul os dois gigantes de
África , novos candidatos ao título de membros permanentes
do Conselho de Segurança das Nações Unidas, enquanto o
Magrebe e a África ocidental se encontram sob domínio
francês.
Os Estados Unidos, que dispuseram, durante 15 anos, de uma maioria
automática, não a desprezam senão quando ela se junta ao
campo adverso, o bloco neutralista sustentado pelos soviéticos. Em
consequência, durante 10 anos, essa maioria recusa pagar a sua
cotização.
A extensão ao teatro euro-mediterrânico
Esse corpo doutrinal é animado pelo Congresso para a Liberdade e a
Cultura, replicado no terreno de uma estrutura de apoio da
disseminação temática, que aplica uma estratégia de
interligação planetária, dita "global
connection", constituída por uma rede de rádios profanas e
religiosas e de publicações periódicas, animadas por
prestigiadas personalidades nos principais teatros do confronto Este-Oeste, com
uma incidência particular no mundo árabe.
O Congresso para a Liberdade e a Cultura (1950-1967)
Instrumento da guerra ideológica anti-soviética, o Congresso
é constituído por um grupo heteróclito de dissidentes do
bloco soviético, de intelectuais ocidentais, antigos companheiros de
estrada do Partido Comunista ou de simples intelectuais desejosos de
reconhecimento social ou bem-estar material
[4]
. A sua propaganda visa denunciar o materialismo marxista e sensibilizar os
espíritos, no plano do conflito do Próximo Oriente, a uma
adesão de Israel ao sistema de aliança do mundo ocidental.
Utilizando 5% do orçamento do Plano Marshall, cerca de 200
milhões de dólares por ano, o Congresso financia a
publicação de dezenas de obras de sucesso sonante, como por
exemplo,
New Class,
um estudo sobre a oligarquia jugoslava realizado por um dissidente anti-Tito,
e
Doutor Jivago
do escritor russo Boris Pasternak ou ainda
L'Art de la Conjecture
do monárquico francês Bertrand de Jouvenel.
Entre os principais animadores do Congresso figuram Sol Lovitas, antigo
colaborador de Leon Trotski, o fundador do Exército Vermelho, depois
reciclado à cabeça da influente revista
Partisan Review,
Nicolas Nabokov, filho do músico Vladimir Nabokov, o escritor Arthur
Koestler, ao qual a CIA assegurou a promoção do livro de culto
O zero e o infinito,
ao comprar secretamente várias dezenas de milhares de exemplares para
fazer um êxito de vendas com as consequências editoriais inerentes.
E assim se fez a glória desse antigo comunista húngaro, antigo
kibbutznik israelense que se suicidou em Londres o último acto do
seu percurso atribulado.
O Congresso completa o seu trabalho de penetração através
de um tecido editorial que se estende a todos os continentes, financiando a
edição de quinze publicações nos postos
avançados da Guerra-fria. Em França, o Congresso beneficia
claramente do apoio de duas instituições: a Força
Operária (FO), e a formação sindical dissidente da CGT
(Confederação Geral do Trabalho), a principal central
operária comunista francesa da época, da equipa do jornal
conservador
Le Figaro
em torno de Pierre Brisson, amigo do sociólogo Raymond Aron
[5]
e de Nicolas Nabokov, bem como da ajuda de André Malraux, antigo
ministro da Cultura de Charles de Gaulle.
Annie Kriegel, editorialista do
Figaro,
passa de ultra-estalinista a ultra-sionista encontrando nesse quotidiano uma
tribuna apropriada às novas diatribes anticomunistas, bem à
medida dos panegíricos em favor da "Pátria dos
trabalhadores". Enveredando por um caminho intelectual semelhante,
Alexandre Adler
sucede-lhe trinta anos mais tarde nessa mesma
função tribunícia no seio desse mesmo jornal, fustigando
em longas colunas o novo inimigo público universal, o "fascismo
verde", que o seu colega editorialista Yvan Rioufol designa com o termo
estigmatizador de "nazislamismo"
[6]
.
Para além de Annie Kriegel, duas outras personalidades se distinguiram
nessa actividade durante meio século devido ao seu papel de orientadores
da opinião ocidental, particularmente, no que toca ao conflito
israelo-árabe e à questão palestiniana: Walter Laqueur e
Claire Sterling
[7]
. Nascido em Breslau em 1921 (actual Wroclaw na Polónia), naturalizado
inglês, colaborador das revistas
Commentary
e
The Public Interest,
fundada pelo seu amigo Irwing Kristoll, pai de William Kristoll
júnior, um dos teóricos do neoconservadorismo da
administração George Bush Jr., por altura da guerra do Iraque
(2003) e do "destino manifesto dos Estados Unidos", Walter Laqueur
representou em Tel-Aviv, durante os 17 anos do seu funcionamento, o Congresso
para a Liberdade e a Cultura. Ele contribui largamente para cimentar uma
parceria estratégica entre Israel e o "Mundo livre",
nomeadamente, os Estados Unidos e a Europa Ocidental, através de uma
série de obras disseminadas na rede das quinze publicações
do Congresso em todos os continentes. A Europa, nomeadamente, em Berlim e em
Viena os dois lugares de trânsito privilegiado do mundo
interpola dissidentes, expatriados e agentes duplos; em Roma, sede do partido
comunista mais importante da Europa Ocidental, o Partido Comunista Italiano
é animado por dirigentes lendários como Palmiro Togliatti e
Enrico Berlinguer; em Beirute, tradicional repositório das
turbulências árabes, a propagação das teses do
Congresso destinadas ao mundo árabe e muçulmano faz-se por via de
uma publicação em língua árabe, intitulada
Al-Hiwar (O Diálogo).
Autor de diversas obras, designadamente
La Génération Exodus
[A Geração Exodus],
Mourir pour Jérusalem
[Morrer por Jerusalém],
La Tentation neutraliste
[A Tentação Neutralista], Walter Laqueur co-preside, com 85 anos,
o Conselho de investigação internacional ligado ao CSIS de Nova
Iorque
[8]
. Os seus mais recentes escritos centram-se na nova temática
ideológica dos seus amigos neoconservadores:
Une Guerre sans fin: le terrorisme au 21ème siècle
[Uma Guerra sem Fim: o Terrorismo no século XXI], e ainda uma obra cuja
ambição escondida é analisar todos os aspectos de um dos
assuntos da actualidade mais violentamente discutidos:
Les Voix de la terreur: manifestes, écrits, Al-Qaïda, Hamas et
autres terroristes à travers le monde, à travers les ages
[As vozes do terror: manifestos, escritos, Al-Quaeda, Hamas e outros
terroristas do mundo, ao longo dos tempos].
Claire Sterling (1918-1995) reina durante meio século na
Reader's Digest,
um dos principais vectores subterrâneos da guerra cultural levada a
cabo pelos serviços americanos. Enquanto grande teórica da
criminalidade transnacional, ela assume uma função de
diversão, ao praticar com arte consumada a "técnica da
esfumagem", lançando notícias mediáticas para desviar
a atenção das suas próprias torpezas no seu campo.
Ela dedica-se, assim, a denunciar regularmente o polvo mafioso
[9]
, para ocultar melhor uma das maiores empresas criminosas do mundo, o sistema
Clearstream, um sistema de compensação bancária do
Luxemburgo encarregado do branqueamento das operações duvidosas
das grandes democracias ocidentais
[10]
, ou ainda para ocultar a instrumentalização da
comercialização da droga para o financiamento das
operações clandestinas dos serviços estadunidenses na
América Latina.
Difundida em dezassete línguas em 160 países, a
Reader's Digest
populariza as análises de Claire Sterling, auto-proclamada grande
especialista do terrorismo do Médio Oriente na sua obra
The Terror Network
(A Rede do Terror), exercendo dessa forma uma espécie de
monopólio da intimidação pela especialização
[11]
. Sob cobertura do profissionalismo, Claire Sterling e Walter Laqueur
terão alimentado as revistas especializadas, subvencionadas pela CIA, de
crónicas cujo conteúdo é ditado directamente pelo seu
fornecedor de fundos.
Prefiguração da endogamia contemporânea entre o poder
político e o poder mediático, o Congresso para a Liberdade e a
Cultura pratica em grande escala a auto-legitimação de um
pensamento homogeneizado em que o especialista não se reconhece pela
qualidade das suas investigações, mas pela sua frequência
assídua nos fóruns mediáticos; em que o intelectual
decretado como tal faz uma reflexão conforme a política editorial
dos meios de comunicação para os quais ele é convidado, a
fim de corroborar precisamente o pensamento que eles propagam.
Às custas de manipulações, falsificações,
prevaricações, uma grande fracção da elite
intelectual ocidental terá assim soçobrado nas falhas que ela
hoje denuncia como uma das chagas do chamado Terceiro Mundo. Da
autopromoção dos especialistas à auto-sugestão dos
temas e à intimidação por via de uma pretensa
especialização, "a América", arauto do
"Mundo livre", terá utilizado, com a cumplicidade europeia e a
conivência de certos líderes de opinião contra o
totalitarismo, os mesmos métodos do totalitarismo.
As rádios profanas: um bombardeio de saturação
O dispositivo mediático posto em acção para levar a cabo o
combate contra o comunismo, no plano internacional, e o combate contra o
ateísmo, no plano árabo-muçulmano, responde a um objectivo
que na terminologia militar se denomina "bombardeio de
saturação em todas as direcções". Se no plano
ideológico, a Radio Free Europe se encontra na primeira linha dos
instrumentos de guerra psicológica contra o bloco soviético, na
sua qualidade de retransmissora da produção intelectual do
Congresso para a Liberdade e a Cultura, a Voice of America é, por sua
vez, o vector de acompanhamento da diplomacia estadunidense, enquanto as
rádios religiosas servem de alavanca da sensibilização dos
grupos étnico-comunitários de confissão cristã na
zona euro-mediterrânica.
Por intermédio da Radio Free Europe, os Estados Unidos asseguram plena
cobertura da Europa Oriental e das repúblicas muçulmanas da
Ásia Central, servindo de amplificadora dos debates e grandes
manifestações artísticas ou culturais, editoriais e
análises confeccionadas nas publicações satélite.
Apoiadas intelectualmente e materialmente pela poderosa Freedom House
[12]
, braço armado da propaganda governamental e da direita conservadora
internacional, as Radio Free Europe e Radio Liberty Inc., sediada em Praga
(República Checa), dispuseram, durante 40 anos, de cinco locais de
emissão na Europa, designadamente três na Alemanha com 54
frequências. A Radio Free Europe
estende-se também ao continente latino-americano, e dá origem
à Radio TV Marti (anti-cubana) e na Ásia, à Radio Free
Asia.
Com a Voice of America (VOA), esses três vectores criam no seio da
administração americana o International Broadcasting Bureau
(IBB), dispondo de vinte locais de retransmissão no mundo, nomeadamente
três nos países árabes (Marrocos, Kuwait, Emirados
Árabes Unidos), bem como na Albânia, Grécia, Sri Lanka,
Alemanha, Portugal e Espanha.
A rádio Voice of America é o primeiro vector trans-regional em
termos de potência. Ela dispõe, para o sector
Mediterrâneo-Oceano Índico, de 24 emissoras totalizando uma
potência inigualável de 9.100 kW e de 83 frequências
repartidas por três locais de emissão. Dois deles (Rodes e Cavala,
norte da Grécia) destinam-se ao sector Médio Oriente/Ásia
Central; o terceiro, Tanger, ao Magrebe, Balcãs e ao Mediterrâneo
ocidental.
Esse dispositivo é completo por dois retransmissores instalados em dois
principados petroleiros, o Kuwait e os Emirados Árabes Unidos. A estes
juntam-se ainda os novos vectores criados por ocasião da segunda guerra
contra o Iraque em 2005, a Rádio Sawa [Juntos/Em Conjunto], e o canal de
televisão Hurra [Livre]. Sempre no Mediterrâneo, os Estados Unidos
instalam, tanto na Itália como na Grécia, dois centros regionais
radiofónicos para a produção de programas destinados
às tropas estacionadas no quadro da NATO em Heraklion, na Grécia,
sede da Armed Forces Radio e da TV Service Air Force European Broadcasting
Squadron, e em Vicenza (Itália), sede do Southern European Broadcasting
Service.
O Congresso funciona durante dezassete anos até à Terceira Guerra
israelo-árabe de Junho de 1967. Depois, passa os seus poderes para as
mãos dos pregadores electrónicos cujo zelo no proselitismo se vai
conjugar com o
lobbying
da política sionista das organizações judias
estadunidenses, com o intuito de conduzir Washington a empenhar-se num apoio
incondicional a Israel. Estadunidenses e israelenses dedicam-se agora a
promover uma "ideologia dos Direitos do Homem", segundo a
expressão do historiador Peter Novick
[13]
, como arma contra o totalitarismo islâmico, numa segunda etapa, depois
do afundamento do bloco soviético.
O proselitismo religioso: os pregadores electrónicos
Às rádios profanas sobrepuseram-se uma vintena de grandes
corporações radiofónicas religiosas dispondo de meios
financeiros e técnicos sem equivalente, nos dois terços dos
países do planeta, cujas motivações nem sempre pareceram
responder a considerações exclusivamente filantrópicas.
Empenhando-se em levar a "Voz do Senhor" ao mundo na esperança
problemática de ganhar novos crentes para a causa do seu próprio
deus, esses pregadores electrónicos nutrem uma predilecção
particular pelos focos de tensão (Sul do Líbano, Sul do
Sudão) e pelas minorias étnico-religiosas dos países
fragilizados por dissensões intestinas (arménios, curdos,
berberes) e, depois da invasão do Iraque, em 2003, pelo norte
curdófono iraquiano. É esse o caso da IBRA Radio (International
Broadcasting Radio) que anima no Médio Oriente, no Sul do Líbano
e na zona fronteiriça libanesa-israelense, uma antena local de onda
curta para as emissões da estação High Adventure, enquanto
o Sul do Sudão, povoado de cristãos e de animistas em
rebelião contra o governo islâmico de Khartoum, é
alimentado pelos programas da Radio Elwa, emitidos a partir da Monróvia
(Libéria) por missionários anglo-saxónicos.
Na primeira linha dessas corporações radiofónicas conta-se
a Trans World Radio
(TWR), seguida da Adventist World Radio (AWR), da FEBA Radio, da IBRA Radio, da
WYFR-Family Radio, Monitor Radio e Nexus IBD. À excepção
da Vatican Radio (1555 kW, 36 frequências, 33 línguas) e de uma
minúscula rádio ortodoxa, Trans Europe Radio, todas as grandes
rádios religiosas são de inspiração
anglo-saxónica.
Todavia, pela sua amplitude e capacidades, a Trans World Radio (TWR)
constitui-se como a primeira rádio planetária
transfronteiriça de temática religiosa. Pioneira na
matéria, a TWR assegura emissões em 100 línguas, em
idiomas negligenciados pelas rádios dominantes ocidentais, o que faz com
ela apareça nas novas terras de missão, nas zonas de
evangelização de África e da Ásia, como um
útil instrumento de apoio. Dispondo de nove retransmissores terrestres,
designadamente cinco na Europa (Albânia, Mónaco, Países
Baixos, Chipre e Rússia), dois na Ásia (Ilha de Guam e Sri
Lanka), um na África (Swazilandia) e um na América Latina
(Uruguai), a TWR gera as emissões de três locais
mediterrânicos (Albânia, Mónaco e Chipre), depois estende-se
a Viena (Áustria) e dispõe, só para a Europa, de uma
potência substancial (1500 kW, 14 frequências e emissões em
30 línguas) superior a um bom número de rádios ocidentais.
Nas margens sul do Mediterrâneo, a TWR assegura emissões em 21
línguas, entre elas, o curdo, o berbere, bem como outras línguas
dos países mediterrânicos. Em Chipre, na sequência dos
programas da RMC Médio Oriente e a partir de antenas da rádio
francesa
[14]
, a TWR assegura emissões religiosas nocturnas em três
línguas (árabe, farsi, arménio) através de
onda-média para os principais países muçulmanos. A partir
de Remoules (Sul da França) e do Cabo Greco (Chipre), graças
à sua cooperação com a RMC France e a RMC-MO, a TWR goza
da vantagem incomparável de poder transmitir ondas médias com um
bom nível auditivo numa zona que abriga o centro histórico do
Islão e as principais reservas energéticas mundiais. Duas outras
rádios religiosas participam desta hegemonia mediática: a
Adventist World Radio (AWR) e a Far East Broadcasting Association-Missionary
(FEBA): a Adventist World Radio dispõe, para a Europa, de 16
frequências para emissões em 17 línguas, entre elas, o
árabe (5 horas), o inglês (6 horas, das quais 3 são
dirigidas ao Médio Oriente), o francês (5 horas para o Magrebe e a
África), o farsi (2 horas), o urdu e o hindi (2 horas cada).
A título indicativo, as rádios religiosas anglo-saxónicas
asseguram 9000 horas de programas por mês, o equivalente a 10 vezes mais
que a Cairo Radio, o principal vector árabe do maior país
árabe, o Egipto, que comporta a mais forte densidade populacional (75
milhões). Em comparação, a The Friends of Israel Gospel
Ministry, igreja baptista estadunidense, difunde emissões a favor de
Israel para 700 estações estadunidenses e publica a revista
Israel My Glory
em 151 países, angariando, só em 2005, o montante de 8,5
milhões de dólares a favor do Estado hebreu
[15]
.
Contando todos os dias, sem interrupção, e apenas na zona do
Mediterrâneo, cerca de 2500 kW difundem programas numa vintena de
frequências em todas as línguas do puzzle humano da esfera
árabo-muçulmana, sem falar naturalmente da Vatican Radio, a
rádio oficial da cristandade católica. Retransmitindo os
programas religiosos nas emissões profanas dos vectores internacionais,
os meios de comunicação das grandes corporações
religiosas optimizam ondas e frequências saturando o espaço
hertziano, como que para o limpar de toda a poluição
anti-ocidental, ao ponto de dar a impressão a um passageiro de voo
nocturno de este ter sido propulsionado para os confins do paraíso,
embalado pelo
Cântico dos cânticos.
Muito antes da emergência dos
fedayins
palestinos na paisagem árabe, muito antes de Osama Ben Laden, muitos
decénios antes da designação "ameaça
islâmica" como o maior perigo do século XXI, quotidianamente,
invariavelmente, incansavelmente, tal como uma sinfonia pastoral, os
encantamentos divinos da liturgia ocidental tomavam já conta das ilhas
do Mediterrâneo, em direcção ao espaço
árabo-muçulmano, com uma meticulosidade monástica.
Em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as línguas, a
aspersão é contínua, a intensidade diluviana. Sem
excepção, todas as ilhas, de nomes tão evocadores de
férias paradisíacas como o Chipre, Malta, Rodes, Creta,
Sicília, são mobilizadas para pregar a boa palavra. Todas,
inclusive o promontório de Gibraltar e o sereníssimo enclave do
Mónaco. Para cumular de contentamento o soberano marroquino muito
rigoroso nas crenças dos seus fiéis súbditos, justificar
as imprecações dos argelinos contra o partido do estrangeiro ou
as dos teólogos de Qom contra o "Grande Satã americano"
ou as dos islamitas salafistas sobre "uma nova cruzada ocidental".
Assim se alimenta o imaginário colectivo de populações
tensas.
14/Dezembro/2006
Notas
[1] Entre as obras que preconizam a liberdade de informação,
citamos Barriers Down (Abattre les frontières) de Kent Cooper, director
executivo da agência estadunidense Associated Press, Farrar & Rinehart
éd., 1942; bem como a contribuição de James Lawrence Fly,
presidente da Federal Communications Commission (equivalente estadunidense do
CSA francês) «A free flow of news must link the nations», Free
World, Volume VIII, Août 1944. Bibliothèque du Congrès.
[2] «La propagande culturelle au service des Affaires», Herbert
Schiller, professor na Universidade da Califórnia, em San Diego, in
Manière de voir n°47 (Cinquante années qui ont changé
notre Monde), avril -mai 2004.
[3]
La Fondation Ford, paravent philanthropique de la CIA
e
Pourquoi la Fondation Ford subventionne la contestation
por Paul Labarique, Réseau Voltaire, 5 et 19 avril 2004.
[4]
Quand la CIA finançait les intellectuels européens
por Denis Boneau, Réseau Voltaire, 27 novembre 2003.
[5] «Raymond Aron, avocat de l'atlantisme» par Denis Boneau,
Réseau Voltaire, 21 octobre 2004.
[6] « Choc des civilisations : la vieille histoire du « nouveau
totalitarisme » » par Cédric Housez, Réseau Voltaire,
19 septembre 2006.
[7] Manufacturing Consent : The Political Economy of the Mass Media por Noam
Chomsky, linguista e filósofo, professor no Massachusetts Institute of
Technology (MIT) e Edward S. Herman. Versão francesa : La Fabrique de
l'Opinion publique, Le serpent à Plumes éd., 2003.
[8]
CSIS, les croisés du pétrole
, Réseau
Voltaire, 6 juillet 2004.
[9] La Pieuvre. La mafia à la conquète du monde, 1945-1989 et Pax
mafiosa, les multinationales du crime vont-elles s'emparer du pouvoir mondial ?
Robert Laffont éd., 1990 et 1993.
[10] Révélation$ par Denis Robert et Ernest Backes, Les
Arènes éd., 2001. M. Backes foi administrador da Réseau
Voltaire.
[11] Who paid the piper par Frances Stonor Saunders, produtora de
documentários históricos para a BBC, Granta Books éd.,
1999. Versão francesa: Qui mène la danse ? La Cia et la guerre
froide culturelle, Denoël éd., 2003.
[12]
Freedom House : quand la liberté n'est qu'un slogan
, Réseau Voltaire, 7 septembre 2004.
[13] Holocaust and Collective Memory por Peter Novick, Bloomsbury Publishing
éd., 2001. Versão francesa : L'Holocauste dans la vie
américaine, Gallimard éd., 2001.
[14]
L'audiovisuel extérieur français : cahoteux, chaotique et ethniciste
por René Naba, Réseau Voltaire, 6 décembre 2006.
[15] «Evangelized foreign policy?» por Howard LaFranchi,
The Christian Science Monitor,
2 mars 2006. Versão francesa : «Quand les
évangéliques dictent la politique étrangère
américaine»,
Le Courrier International,
n°803 du 23 mars 2006.
[*]
Escritor e jornalista. Autor de
Guerre des Ondes - Guerre des Religions, la bataille hertzienne dans le ciel méditerranéen
,
Du Bougnoule au sauvageon
e
Aux origines de la tragédie arabe
(se encomendar os livros através destes links resistir.info
poderá receber uma pequenas comissão).
O original encontra-se em
http://www.voltairenet.org/article144364.html
.
Tradução de Rita Maia.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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