Partidos antissistémicos funcionais para o sistema
Um dos fenómenos ligados à profunda crise de legitimidade
sistémica é a eclosom de alternativas que, aparentando serem
novedosas, rupturistas e mais democráticas, na realidade nom passam de
fraudulentos
revivals
de modelos ensaiados noutros períodos históricos e coordenadas
geográficas.
O capitalismo senil conta com umha dilatada e intensa bagagem de conhecimentos
e experiências acumuladas na sua eficaz e exitosa implementaçom de
um sistema económico de opressom, dominaçom e exploraçom
que praticamente atingiu escala mundial.
Sabe pois que nalgumhas ocasions de caráter excecional é
necessário realizar cessons, aplicar mudanças e reformas,
exercitar repregamentos e mesmo ensaiar arriscadas medidas. Com elas, pretende
assegurar a perpetuaçom do sistema socioeconómico em que os meios
de produçom e distribuiçom som de propriedade privada, visando
exclusivamente o lucro.
A crise do regime pós-franquista superpom-se à crise do
capitalismo global, gerando um cenário mui delicado para os donos do
dinheiro e, portanto, dos titulares reais do poder político: os que
mantenhem a superestrutura que suprime e nega os direitos individuais e
coletivos da classe trabalhadora e da Pátria.
Existe um profundo desgaste dos partidos e das elites políticas
tradicionais que sustentárom o tránsito controlado do franquismo
para a democracia burguesa espanhola. Para assegurar a continuidade dos
privilégios oligárquicos, recorre-se a recámbios
funcionais para garantir, com outras formas e estilos a opressom nacional da
Galiza, a exploraçom do seu povo e a dominaçom de mais de metade
da força de trabalho, as mulheres.
Assim temos que interpretar a eclosom de múltiplas forças
promovidas e financiadas polo capital financeiro, embora algumhas delas
perdessem utilidade ou simplesmente fracassassem (UCD e CDS de Suárez,
PRD de Miquel Roca, Coaliçom Galega, entre outras). Outras fôrom
imediatamente susbtituidas por outras siglas muito mais fugazes, mas com
similares objetivos, ainda que nalguns casos como a SCD de Mário Conde
ou Vox nom chegassem a coalhar.
Porém, a situaçom excecional de enorme perda de legitimidade do
bipartidarismo representado polo PP/PSOE na conjuntura mais recente, tem
contribuído para que o regime prepare umha possível, mas nom
desejável substituiçom de siglas e elites. Os padrons
correspondem a experiências ensaiadas em latitudes da nossa área
geográfica ocidental, como o Bloco de Esquerda ou o Partido Livre em
Portugal, o Movimento Cinco Estrelas da Itália ou a Syriza na
Grécia.
Ideologicamente díspares em aparência, mas com o populismo como
elemento comum, tem o seu correlato na Galiza com a constituiçom de
Anova em 2012, e em Espanha com a fundaçom da UpyD de Rosa Díaz
em 2007. Mais recentemente, há só uns meses, com o Podemos de
Pablo Iglesias.
Para além das evidentes divergências e mesmo incompatibilidades
políticas e ideológicas, estes três projetos compartilham
diversos fios condutores.
No caso de Anova e de Podemos, pretendem questionar e fazer voar o cerne dos
modelos organizativos praticados pola classe operária com maior ou menos
sucesso, com mais ou menos erros na hora da sua aplicaçom, mas
imprescindíveis para garantir seguir sendo um instrumento de luita e
combate.
A defesa de abstratos horizontalismos e ingénuos assemblearismos que
susbtituiriam os "verticalismos", assim como a adulaçom de
lideranças incontestáveis supostamente herdadas da cultura
marxista-leninista, impregnada na "velha esquerda", provoca umha
enorme fascinaçom nalgumhas faixas dos setores sociais aos quais se
dirigem ambas forças.
A juventude dececionada e defraudada pola ausência de futuro, as camadas
intermédias empobrecidades polas receitas da Troika, deixam-se arrastar
por demagógicas interpretaçons da ofensiva burguesa. Tentam
reduzir as dificuldades da contraofensiva operária e popular às
carências e limitaçons dos modelos e ferramentas organizativas.
Porém, antes ou depois, a realidade sempre desmascara o oportunismo e a
manipulaçom.
Nas últimas semanas, pudemos constatar como ruíam alguns dos
fetiches promocionados por estas forças falsamente alternativas.
Referimo-nos à suposta maior democracia do sistema de listas abertas
sobre o proporcional e a retórica do pluralismo como um valor em si
mesmo, por cima da coesom e da unidade política-ideológica. Todo
isso, simplesmente implosionou quando mais de 40% da militáncia que
assistiu neste outubro à II Assembleia Nacional de Anova ficou
excluída da direçom.
Algo similar aconteceu na assembleia de Podemos, realizada em Madrid uns dias
depois. Pablo Iglesias ameaça com abandonar o partido cidadao da
indignaçom espanhola e dos defraudados polo regime se nom for aprovado o
seu modelo organizativo. Porque agora, após meses defendendo imprecisas
e calculadas ambigüidades do mais imaduro assemblearismo, promove um
modelo similar ao dos partidos da casta: direçom unipessoal com
capacidade para nomear "digitalmente" a executiva em base às
propostas das bases.
E a autoritária Rosa Díaz, que leva mais de sete anos mentindo e
divulgando a mais abjeta manipulaçom sobre as causas e objetivos das
luitas de libertaçom nacional como método sistemático de
construçom de um partido unitarista espanhol baseado no ódio. O
dela é um um partido de corte fascista, que nom permite que
ninguém lhe faga sombra. Se Hitler eliminou sem contemplaçons os
seus rivais internos na noite das facas longas, a ex-dirigente do PSOE purgou
Sosa Wagner, convertendo-o da noite para o dia no seu particular Ernst
Röhm.
Três exemplos díspares, mas que contribuem para esclarecer a
necessária desconfiança sobre os novos modelos organizativos que
a burguesia quer impor no movimento popular. E que @s comunistas devemos
combater sem trégua.
Nom nos deixemos manipular, porque o segundo passo é renunciar ao
programa e objetivos proclamados. Beiras leva dous anos facilitando na Galiza a
recomposiçom da enfraquecida social-democracia espanhola com o seu pacto
com a IU negadora da nossa naçom e dos direitos do nosso povo.
E Pablo Iglesias encenou exatamente 40 anos depois um novo Congresso de
Suresnes, no qual o dueto Felipe González/Alfonso Guerra purgou o PSOE
republicano e rupturista. Podemos nom passa de ser a quarta pata que necessita
o capitalismo hispano. O fervor espanholista proclamado, a vocaçom de
ocupar a centralidade política, e a "suavizaçom" do
já de por si descafeinado programa eleitoral com que concorreu às
europeias de maio, permitem alertar de que, sem dúvida, mas
também entre permanentes contradiçons, vai contribuir para
regenerar o sistema que falsamente afirma combater.
Umha vez mais, nós ao nosso!
Galiza, 25 de outubro de 2014
[*]
Secretário-geral de Primeira Linha, partido independentista galego.
O original encontra-se em
primeiralinha.org/home/?p=15197
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|