Agrava-se o perigo de um ataque contra o Irão (directamente pelo
Pentágono ou por Israel)
por Sara Flounders
O Primeiro-ministro israelense Ehud Olmert foi a Washington exigir que se pare
o programa nuclear iraniano "através de todos os meios
possíveis". Olmert e uma delegação de
políticos americanos dirigiram-se a uma plateia de elementos do American
Israel Public Affairs Committee (AIPAC). Os concorrentes à
presidência dos dois partidos imperialistas, bem como senadores
pertencentes às principais comissões do Congresso, repetiram a
mesma lenga-lenga em uníssono. Democratas e republicanos pareciam unidos
ao alinhar-se para expressar o seu apoio inequívoco a Israel e, para
ameaçar o Irão. Eles apresentaram o seu programa de
desenvolvimento de energia nuclear, que é totalmente legal, como uma
ameaça terrível para a "paz mundial".
Esta ameaça sabiamente orquestrada foi ainda mais reforçada
depois do regresso de Olmert a Israel após a convenção.
Passadas algumas horas depois do seu regresso, o vice-primeiro ministro, Shaul
Mofaz, qualificava de "inevitável" a guerra contra o
Irão. Mofaz, antigo chefe militar e antigo ministro da Defesa, foi o
representante israelense num diálogo estratégico sobre o
Irão com os oficiais americanos. Ele declarou que se o Irão
continuar com o seu programa nuclear, Israel passará ao ataque pois
não há escolha num período em que "as
opções estão a desaparecer e as sanções
já provaram ser ineficazes".
Os meios de comunicação internacionais desencadearam uma onda de
contestação por causa destas declarações
provocatórias e ameaçadoras. O preço do petróleo
disparou para 138 dólares por barril, o que é sem precedentes. O
primeiro-ministro Olmert atiçou ainda mais as chamas ao recusar
descartar a hipótese de uma ofensiva militar contra o Irão.
"Todas as opções, incluindo a militar, devem permanecer
sobre a mesa", disse ele, fazendo eco das políticas de Bush.
Este episódio só reforçou a ideia de que Israel é
um instrumento da política americana, quando as
administrações americanas não estão em
condições de agir directamente.
Por diversas vezes, Washington deu o seu pleno apoio político,
económico e militar aos crimes israelenses: nos anos 60 e 70, as guerras
repetidas de Israel para afastar a crescente onda do nacionalismo árabe;
em 1981, quando Israel bombardeou o reactor nuclear iraquiano; nos anos 80,
quando Israel levou esquadrões da morte para a América Central;
quando Israel apoiou o apartheid sul-africano; quando bombardeou o
Líbano em 2006 e no caso das recentes investidas contra a Síria.
O AIPAC serve o poder das grandes empresas americanas
O AIPAC transformou-se num poderoso lobby porque sempre seguiu uma linha
política propícia aos interesses financeiros da
secção mais poderosa das grandes empresas americanas as
indústrias militares e petrolíferas. O AIPAC opera em regime de
tandem com estas. Frequentemente, os gigantes da indústria militar
americana recorreram aos serviços do AIPAC para influenciar a
política mesmo no interior dos Estados Unidos. O grupo sionista foi uma
das principais forças de uma constelação de
instituições que incitaram os Estados Unidos a invadir o Iraque e
o Afeganistão.
Israel está totalmente ligado ao Pentágono e depende dele em
todos os aspectos. Durante 60 anos, milhares de dólares de ajuda
americana foram para Israel geralmente para comprar sistemas de
armamento americano, aviões a jacto, tanques, etc. Esta
situação, por sua vez, alimenta e justifica novas
aquisições de armamento por parte dos regimes árabes
dependentes dos Estados Unidos.
Empresas como Lockheed Martin, General Electric Co., Northrop Grumman e Boeing
estão mais do que dispostas a dar milhões de dólares aos
lobbyistas militares e ao AIPAC. Por sua vez, estes oferecem generosas
doações aos políticos, republicanos e democratas, para que
eles garantam contratos de milhares de milhões de dólares em
armamento e para que mobilizem os espíritos em favor de ofensivas
militares, do desenvolvimento de mais bases americanas no estrangeiro e de
guerras intermináveis.
A divisão no seio da classe dominante americana
Confrontados com o desaire da ocupação do Iraque e do
Afeganistão, assiste-se a uma profunda divisão no seio dos
círculos dirigentes americanos, inclusive entre a elite do
Pentágono, quanto ao fundamento de um ataque contra o Irão e ao
modo de o encetar. Esta oposição não se baseia em
preocupações humanitárias com o povo iraniano, nem com as
tropas ou os trabalhadores americanos. Não, a questão é
mais prosaica, e assenta no receio de uma explosão política na
região.
A indecisão e as rivalidades crescentes estão na ordem do dia. Os
dois últimos anos foram marcados por fugas de informação,
por revelações extensas e detalhadas de Seymour Hersh na revista
New Yorker
e por demissões de altos funcionários civis e militares. O
almirante William J. Fallon, chefe do comando central americano para o
Médio Oriente, a Ásia do Sul e a Ásia Central, foi
forçado a demitir-se depois de a revista
Esquire
ter exposto as suas profundas reservas quanto a um possível ataque
contra o Irão.
Há cerca de um ano atrás, um jornal londrino anunciava que alguns
dos altos responsáveis militares do Pentágono estavam preparados
para se demitirem no caso de a Casa Branca ordenar ataques militares contra o
Irão. (
Sunday Times,
25/Fevereiro/2007)
O ímpeto de guerra contra o Irão foi adiado quando, em Dezembro
passado, veio a público um relatório dos Serviços
Nacionais de Informação americanos no qual se defendia que o
Irão não dispunha de armas nucleares nem desenvolvia nenhum
programa nuclear há mais de cinco anos, pelo menos.
O abalo mais recente nas altas instâncias traduziu-se nas
demissões forçadas do secretário da Força
Aérea Michael Wayne e do Chefe de Estado-maior, general Michael Mosley,
alegadamente devido a uma "série de falhas" na
manipulação de armas nucleares americanas por parte da
Força Aérea. Conta-se que quatro componentes cruciais de armas
nucleares terão sido enviadas "por engano" para Taiwan. Para
além disso, diz-se também que um bombardeiro B-52 armado
"por engano" com seis mísseis de cruzeiro constituídos
por ogivas nucleares terá atravessado os Estados Unidos. Estes dois
enganos já eram conhecidos há mais de um ano. Será que o
abalo tem alguma ligação com o esclarecimento sobre o Irão?
Relatórios dizendo que a administração Bush prevê
lançar um ataque aéreo contra o Irão nos próximos
dois meses foram também apresentados, no dia 28 de Maio, no
Asia Times On-Line.
De acordo com o artigo, dois importantes senadores americanos falaram sobre o
ataque: Dianne Feinstein, democrata da Califórnia, e Richard Lugar,
republicano de Indiana, têm a intenção de tornar
pública a sua oposição a estes planos. No entanto, o
editorial destinado a sair no
New York Times
ainda se faz esperar.
Entretanto, o antigo ministro alemão dos Negócios Estrangeiros,
Joschka Fischer escreveu no quotidiano israelense
Haaretz
do dia 1 de Junho que Bush e Olmert parecem ter a intenção de
pôr um termo ao programa nuclear iraniano "mais através de
meios militares do que diplomáticos". Fischer teme que o
Médio Oriente embarque num novo e perigoso conflito militar.
O direito do Irão à energia nuclear
O enviado do Irão às Nações Unidas, Mohammad
Khazaee, apresentou um protesto junto do secretário-geral Ban Ki-moon e
do Conselho de Segurança a propósito das ameaças
israelenses. Khazaee insiste no facto de uma ameaça tão perigosa
contra um Estado soberano e membro das Nações Unidas constituir
uma violação das leis internacionais e de ir contra os
princípios fundamentais da Carta das Nações Unidas,
carecendo assim de uma resposta resoluta e clara, particularmente da parte do
Conselho de Segurança.
O Irão tem o direito, em conformidade com o direito internacional, de
desenvolver um programa de energia nuclear. Ele é signatário do
Tratado de Não Proliferação Nuclear. A Agência
Internacional de Energia Atómica já inspeccionou diversas vezes
as instalações nucleares do Irão.
Israel, todavia, nunca assinou o tratado de não
proliferação, e recusou o mínimo controlo sobre o seu bem
conhecido programa de armamento nuclear que engloba mais de 200 ogivas
nucleares.
O governo americano desenvolveu uma nova geração de armas
nucleares tácticas que violam igualmente os acordos e tratados que visam
limitar e restringir as armas nucleares.
Actualmente, a classe dirigente americana compreende, num estado de
pânico crescente, que é incapaz de controlar os acontecimentos.
São os acontecimentos que a controlam desde a crise
económica que se agrava e escapa a toda e qualquer solução
até a uma guerra na qual a vitória será impossível.
Tudo isto torna estes predadores planetários tendencialmente mais
desesperados, sujeitos a divisões e dispostos a aventuras militares
ainda mais precipitadas.
A única verdadeira oposição ao perigo crescente de uma
nova guerra virá dos cidadãos comuns e não do mundo
político. Espera-se que tais forças, numa escala mundial, comecem
a preocupar-se seriamente com esta propensão para a guerra e a
mobilizar-se.
11/Junho/2008
O original encontra-se em
http://www.workers.org/2008/world/iran_0619/.
A versão em francês em
www.michelcollon.info/
. Tradução de RM.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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