Eleições iraquianas sob ocupação
:
A cumplicidade com uma paródia de democracia
por 70 personalidade do Quebec
[*]
Como realizar eleições livre e justas quando a maioria dos
candidatos não podem sequer fazer campanha? Quando
populações inteira não podem participar na
votação? Quando a própria eleição serve em
primeiro lugar e antes de tudo uma "agenda" americana de
domínio sobre toda uma região do globo?
As eleições previstas para 30 de Janeiro no Iraque se for
mesmo possível realizá-las nas condições actuais de
ocupação militar americana, de violência e no contexto de
um boicote importante por parte da comunidade sunita não visam
senão legitimar a ocupação militar estadunidense e
justificar a invasão do Iraque pelos Estados Unidos sem a
autorização do Conselho de Segurança das
Nações Unidas.
O Canadá, mesmo não tendo participado da coligação
dos invasores estadunidenses, presta hoje, pelo seu apoio ao "processo
eleitoral" (que não é nem "independente", nem a
expressão de qualquer verdadeira soberania iraquiana), mão forte
ao empreendimento de legitimação desta guerra que se tem tentado
justificar por tantos pretextos, mesmo pela desinformação e pelas
mentiras. O Canadá aceita assim ser cúmplice de uma agenda bem
precisa e de uma campanha de relações públicas para
reerguer a imagem da administração Bush no Iraque que, apesar de
uma transferência (fictícia) de soberania a uma
instituição "interina", mantem entretanto efectivos de
150 mil soldados neste país pretensamente "soberano".
Com efeito, depois de o primeiro-ministro Martin ter oferecido uma
contribuição canadiana ao presidente Bush em Abril último,
e depois do encontro Bush-Martin do princípio de Dezembro, o
Canadá foi o hospedeiro, em 19 e 20 de Dezembro últimos, do
"Forum 04", uma conferência a portas fechadas dita
"internacional" respeitante às eleições
iraquianas. O fórum foi parido pela Missão internacional sobre
as eleições no Iraque, e o Canadá garantirá o
secretariado. Todos os países implicados na missão de
observação são ou foram membros da
coligação, com excepção do Canadá, do
México e do Yemen.
A implicação canadiana no Iraque nada terá a ver com a
democracia ou a promoção dos direitos humanos. Ela visa, pelo
contrário, legitimar no Iraque as estruturas impostas pela
ocupação militar americana, e isto com todo o conhecimento de
causa. Jean-Pierre Kingsley, director geral de eleições do
Canadá, descreve assim a função das missões de
observação eleitorais: "A participação de
actores internacionais junto de um país em vias de
democratização ou que deseja consolidar seus fundamentos
democráticos desempenha um papel fundamental de
legitimação a vários níveis". Se, segundo
Kingsley, o papel fundamental é de legitimar, no caso do Iraque o que
deve ser legitimado e justificado é a invasão e a
ocupação assassina de que o país foi vítima!
Assim, o Iraque "ganha" em democracia aquilo que perdeu em vidas
humanas (100 mil segundo a revista
The Lancet
), em infraestruturas (a serem reconstruídas a golpes de milhões
por empresas americanas) e quanto à soberania do seu território,
ou do que dele resta. Além disso, segundo Kingsley, uma
participação numa missão de observação
constitui um reconhecimento da validade de um processo eleitoral no terreno e
serve para comunicar esta mensagem de "reconhecimento".
"Dito de outra forma, aceitar uma missão eleitoral é
reconhecer em primeiro lugar que o exercício eleitoral é
legítimo, que os elementos essenciais estão presentes e que os
objectivos são realizáveis. Esta mensagem de reconhecimento joga
tanto na cena internacional como na nacional, ou seja, junto aos intervenientes
locais".
O exercício eleitoral é ilegítimo porque ele serve
objectivos principalmente americanos, e objectivos verdadeiramente
democráticos são irrealizáveis num contextos de
insegurança que impede as populações de várias
regiões, no Iraque, de ir votar. Além disso, é
inaceitável "legitimar" uma invasão e uma
ocupação que viola os princípios fundamentais
estabelecidos, há meio século, pelo Tribunal de Nuremberg que
qualificava a agressão de "crime supremo" nos seguintes termos:
"A agressão é o crime de guerra supremo. Ele distingue-se
dos outros crimes de guerra somente pelo facto de que contem e si o mal
acumulado de todos os outros".
E quanto aos outros crimes de guerra cujo "acesso à
democracia" serviria de alibi com a cumplicidade de Élections
Canada, e do seu parceiro na missão de observação, a
International Foundation for Electoral Systems (IFES), eles estão entre
os mais graves à luz do direito internacional. Não é um
acaso que o IFES, qualificado por Élections Canada como "não
partidário" e "independente", retire o seu financiamento
e o seu mandato do governo americano, pela intermediação da USAID.
A invasão do Iraque pelos Estados Unidos constitui em primeiro lugar uma
violação da Carta das Nações Unidas, que
proíbe formalmente aos Estados o recurso à força para
regularem os seus diferendos. A ocupação do Iraque ilustrou-se
por violações importantes das Convenções de Genebra
sobre o tratamento da população civil, e da
Convenção contra a tortura na prisão de Abu Ghraib. Os
iraquianos são o objecto de violações maciças dos
seus direitos no quotidiano. A ocupação americana não
garante de forma alguma a segurança de uma população civil
terrificada.
O Canadá não tem nenhum mandato que lhe permita legitimar, de
qualquer maneira que seja, estes crimes e estas violações dos
direitos humanos no Iraque. Ainda menos ao empenhar o Canadá num
empreendimento valorizar uma guerra americana ilegal e ilegítima. E
como, segundo o parecer de Kingsley, as missões de
observação são poderosas ferramentas de
legitimação, não é oportuno, segundo ele, dela
participar.
"Esta função de legitimação não deveria
entretanto ser incondicional. Assim, quando as condições
essenciais para a democracia não estão presentes, a principiar
pela possibilidade de eleições livres e justas, dever-se-ia
recusar participar numa missão ou ainda dele se retirar quando estas
condições não forem preenchidas".
Como efectuar eleições livres e justas quando a maioria dos
candidatos não estão mesmo em condições de fazer
campanha? Quando populações inteiras não podem participar
no voto, mesmo quando é fácil fazê-lo como para a
diáspora iraquiana no estrangeiro, uma forma de eleições
"a duas velocidades"? Quando a própria eleição
serve primeiro e antes de tudo uma "agenda" americana de
domínio sobre toda uma região do globo? Não poderia
existir um exemplo mais eloquente de uma missão para a qual "as
condições essenciais à democracia não estão
presentes" do que a Missão internacional sobre as
eleições no Iraque. Nem um exemplo mais eloquente de uma
política estrangeira canadiana que em nada serve os interesses da vasta
maioria da população do Canadá e do Quebec.
Lista dos signatários:
Omar Aktouf, professeur, HEC Montréal, Sébastien Aubé,
Élaine Audet, écrivaine, Normand Baillargeon, Vivian Barbot,
Stéphane Batigne, auteur Louky Bersianik, écrivaine Judith
Berlyn, Francine Brault, Raymond Legault et Maria-Luisa Monreal, pour le
Collectif Échec à la guerre, Louky Bersianik, écrivaine,
Daniel Bouchard, Directeur général, 7e Art/distribution inc.
Roméo Bouchard, Dir. gén. de l'Union paysanne, Isabeau Bergeron,
Anne-Marie Brunelle, David Chicoine, Michel Chartrand, syndicaliste, Michel
Chossudovsky, professeur, Centre de recherche sur la mondialisation (CRM), Paul
Cliche, Véronique Couture, Françoise David, Option citoyenne, Yan
Desjardins, Richard Desjardins, Auteur-interprète et réalisateur,
Christian Dessureault Tiphaine Dickson, avocate, Avocats contre la Guerre,
rédactrice du document, Robert Dickson, écrivain, prix du
Gouverneur général, Jean-Luc Dion, Bruno Dubuc, Le Couac, Gilles
Dubuc, Pierre Dubuc, l'aut'journal, Rezeq Faraj, co-president et co-fondateur
du PAJU ( Palestiniens et Juifs Unis), Andrée Ferretti., auteure,
Normand Fleury, Benoit Foisy, Sherbrooke, Fernand Foisy, auteur Anne-Marie
Fragasso, Jean-Claude Germain, dramaturge, Jean-Louis Grosmaire,
écrivain et géographe, Clôde de Guise, Isabelle Hayeur,
réalisatrice, Christine Hudon, professeure d'histoire et de sciences
politiques, Université de Sherbrooke, Amir Khadir et Denise Veilleux,
Union des forces progressistes (UFP), Robert Lachance, syndicaliste Micheline
Ladouceur, géographe Eve Lamont, cinéaste, Julie Lavallée,
Nathalie Lefebvre, Paul Lévesque, MD, Suzanne Loiselle, Directrice,
L'Entraide missionnaire, Sophie Maheu, professeure, David Marquis, Yves
Michaud, Serge Mongeau, écrivain, Julie Mongeau, Christian Nadeau, Sam
Noumoff, professeur de science politique, Université McGill, Lorraine
Pagé, Julie Perron, Martin Poirier, André Poulin, Suzanne Renaud,
Monique Richard, Claude Rioux, Collectif d'À bâbord! Normand
Robert, Table d'aménagement du quartier Hochelaga-Maisonneuve (TAQHM),
Paul-Émile Roy, auteur, Isabelle Senécal, psychologue, Sophie
Thouin, Éric Vachon, Michel van Schendel, professeur et écrivain,
Eric Waddell, professeur de géographie, Université Laval.
Esta declaração é apoiada também pelas seguintes
organizações:
L'aut' journal, Avocats contre la guerre (LAW), Centre de recherche sur la
mondialisation (CRM), Collectif échec à la guerre, l'Entraide
missionnaire, Option citoyenne, Union des forces progressistes (UFP), l'Union
paysanne.
Este texto foi redigido por Tiphaine Dickson, advogada especializada em direito
internacional, em colaboração com o Centre de Recherche sur la
Mondialisation (CRM).
O original encontra-se em
http://globalresearch.ca/articles/CRM501A.html
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Este protesto encontra-se em
http://resistir.info/
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