Imagens da carnificina em El Salvador
retomadas à luz da guerra do Iraque

por Bill Van Auken

Nas últimas semanas milhares de pessoas visitaram o International Center of Photography (ICP) de Nova York para a relançamento de uma exposição que o museu apresentara há duas décadas, mas que assumiu uma urgência renovada na sequência da guerra em curso no Iraque.

O "Trabalho de 30 fotógrafos em El Salvador" fora apresentado pela primeira vez em 1984, na altura da sangrenta luta que confrontava uma insurreição popular contra um regime apoiado pelos EUA que governava através de uma repressão militar selvagem e de esquadrões da morte.

. Vinte e um anos mais tarde, o impacto destas desoladoras imagens a preto e branco continua a ser poderoso e perturbador. Num certo número de casos, elas retratam as vítimas desta repressão — estudantes, trabalhadores, camponeses — cujos cadáveres horrivelmente mutilados foram deixados à vista do público como uma advertência contra qualquer um que ousasse opor-se ao regime e à oligarquia.

As fotografias foram montadas pelos foto-jornalistas Susan Meiselas e Henry Mattison, com 30 fotógrafos a contribuírem para o seu trabalho, incluindo John Hoagland, Eugene Richards, Eli Reed e James Nachtwey. Hoagland, que fez fotos para a revista Newsweek, foi um dos três colaboradores que morreu em El Salvador, abatido a tiros por tropas governamentais treinadas pelos EUA.

Ao explicar a necessidade da exposição quando ela abriu pela primeira vez, Meiselas disse: "Estamos a viver ali e acreditamos que o contexto mais amplo da guerra precisa ser sentido pelos americanos considerando o crescente envolvimento dos EUA".

Cornell Capa, foto-jornalista e irmão do famoso fotógrafo de guerra Robert Capa, que fundou o Centro, disse em 1984 que as fotos representavam um "urgente testemunho ocular" de uma guerra civil ocorrendo praticamente no nosso quintal... Estas fotografias, carregadas de horror e emoção, são um apelo visual à paragem do banho de sangue e de desumanidade".

A decisão de retomar a exibição foi tomada depois de toda a colecção ter sido recentemente doada ao ICP. O mais importante, contudo, é que ela também constitui um renovado "apelo à paragem do banho de sangue e desumanidade" pois Washington empenha-se novamente em massacres e torturas, desta vez no Iraque.

Na introdução aos fotógrafos, o Centro declara: "As lições de El Salvador são novamente relevantes, pois tanto os críticos como os defensores da administração Bush traçam paralelos entre o papel dos EUA em El Salvador no princípio da década de 1980 e a actual situação no Iraque e no Afeganistão. E apesar de o foto-jornalismo ser um campo muito alterado — com novas tecnologias, novas saída e muitos novos constrangimentos — o compromisso destes fotógrafos que trabalharam mais de 20 anos atrás para mobilizarem os seus concidadãos pode servir como um ponto de referência para os fotógrafos que hoje trabalham no Médio Oriente".

. Na verdade, o Pentágono está confirmadamente a trabalhar numa assim chamada "Opção salvadorenha" no Iraque. O plano, relatado pela primeira vez na Newsweek em Janeiro último, apela à constituição de esquadrões da morte para executar o assassínio de membros da resistência iraquiana e massacrar os seus apoiantes.

Desde então, emergiram provas substanciais de que a "Opção salvadorenha" está a ser implementada. O número de matanças estilo esquadrão da morte tem crescido continuamente. Apesar de serem frequentemente atribuídas à "violência sectária", há toda indicação de que eles constituem o trabalho de unidades especialmente treinadas extraídas das milícias xiitas e dos peshmerga curdos.

Em Maio último o New York Times Magazine informou que James Steele, que como coronel do Special Forces Armey dirigiu o Grupo de Aconselhamento Militar dos EUA em El Salvador de 1974 a 1986, foi enviado para o Iraque a fim de treinar nos mesmos métodos uma unidade conhecida como a "Brigada Lobo" ("Wolf Brigade") ou Comandos de Polícia Especial.

A crença de que a "Opção salvadorenha" proporcionará uma solução viável para o pântano no Iraque é outra das fantasias ilusórias de Washington. O suposto "êxito" em El Salvador consistiu em sangrar o país, com mais de 75 mil mortes — aproximadamente 2 por cento da população. No fim, a primeira administração Bush teve de chamar as Nações Unidas para negociar um acordo. O país continua devastado cerca de 15 anos após o fim do combate.

Há pouco material saído da guerra do Iraque que seja comparável à colecção de fotografias exibidas na exposição sobre El Salvador. As fotografias mais conhecidas que confrontam o povo americano com as atrocidades executadas em seu nome foram tomadas pelos próprios perpetradores em Abu Ghraib. Se bem que cenas de carros bombardeados em Bagdad sejam regularmente apresentadas na imprensa e na TV, raramente nos são mostradas as vítimas dos raids de bombardeamentos americanos, das mortes em barreiras nas estradas e da espécie de sítios militares em grande escala montados em cidades como Faluja.

As "limitações" a que se refere o texto introdutório da exposição incluem a imensa violência que arruina todo o país, as próprias severas restrições militares americanas — em alguns casos ataques assassinos — e a relutância dos próprios media em exporem os crimes de guerra no Iraque.

A exposição no International Center of Photography adopta uma forma cronológica, com fotografias afixadas nas paredes de duas grandes salas abarcando o período de três anos desde a abertura da crise revolucionária em El Salvador, em 1979, ao desencadeamento de intensa repressão urbana e o princípio da guerra de guerrilha em plena escala.

Ela principia com cenas da vida diária: um bairro de lata na vizinhança de San Salvador conhecido como "la Fosa" ("a Fossa") onde uma criança pequena sustem-se pela mão do pai nas brincadeiras de um grupo de crianças locais; um bebé nu a observar um porco trazido ao mercado na cidade de Sonsonate; um velho camponês a vender grãos de café secando ao sol; e uma mulher dançando ao som de guitarras num restaurante da praia em La Libertad.

Alguns dos fotógrafos também apontam para outra forma de vida quotidiana, aquela dos ricos, a residirem em casas relativamente opulentas cercadas por grandes e guardadas por guardas de segurança armados de espingardas.

O SANGUE DE UM ESTUDANTE

. O conjunto seguinte de fotos aponta para o movimento popular que se levantou contra a ditadura, e o banho de sangue que foi desencadeado para suprimi-lo. É mostrado um grupo de estudantes a panfletarem um distrito pobre da capital. Uma outra foto mostra o sangue de um estudante, morto a tiros por distribuir panfletos políticos. Três grandes manchas tingem um chão de pedra junto a uma parede de adobe. Mais uma vez, aqui, a multidão de crianças, mas parecendo sombrias, reflexivas, assustadas.

Outra fotografia mostra uma dúzia de caixões cobertos com bandeiras alinhados do lado de fora de uma igreja. As vítimas eram jovens membros de um teatro de rua, abatidos pela Guarda Nacional em Outubro de 1979 devido a uma actuação crítica ao governo. Outro instantâneo mostra a face de um dos jovens assassinados vista através de uma pequena janela de vidro no caixão. Sobre este há uma inscrição a giz — "Amo-o, nunca o esquecerei, contarei à minha filha acerca de si quando ela tiver crescido e puder entender".

Algumas das imagens são bastante habituais àquele período. Ela incluem a foto de Michel Philippot das tropas da Guarda Nacional com botas negras sentados sobre os corpos de suspeitos esquerdiestas atirados uns sobre os outros na caixa de carga de um camião; e as fotografias de Susan Meiselas dos cadáveres descobertos de três freiras americanas e um trabalhador assassinados pelos militares em Dezembro de 1980. Apesar de as mortes terem chocado o público americano, o então secretário de Estado Alexander Haig atribuiu-lhes pouca importância pois brincou acerca do assunto e insultou as mortas descrevendo-as como "freiras empacotadas a pistola" ("pistol-packing nuns") e afirmou mentirosamente que elas haviam fugido num bloqueio de estrada.

Também há fotografias das demonstrações maciças de Março de 1980 no funeral do Arcebispo Oscar Arnulfo Romero, assassinado quando oficiava uma missa numa conspiração organizada por um dos principais "activos" da CIA em El Salvador, o assassino psicopata Roberto D'Aubuisson. Atacado por militares com franco atiradores e explosivos, o funeral transformou-se num caos, com 39 mortos e mais de 200 feridos.

A acompanhar estas fotos há excertos do sermão de Romero apresentado no dia anterior à sua morte, apelando às tropas para cessarem de matar o povo. "Os camponeses que você mata são os seus próprios irmãos e irmãs", declarou ele. "Em nome de Deus ... imploro-lhes, suplico-lhes, ordeno-lhes que parem a repressão".

Outras fotografias são difíceis de ver. Isto inclui sobretudo aquelas tomadas por Hoagland, que proporcionam o mais resoluto retrato da morte e do sofrimento infligido por militares apoiados pelos EUA.

Uma mostra os corpos de duas garotas assassinadas por um esquadrão da morte, com as mãos atadas atrás das costas, deixadas penduradas sobre um muro baixo na rodovia para o aeroporto. Outra mostra a horrenda desolação de El Playon, uma cama de lava vulcânica que serviu como um bem conhecido vazadouro para os cadáveres mutilados dos desaparecidos. Cinco corpos de jovens vestidos apenas com as roupas de baixo, com os torsos fendidos, jaziam entre caveiras e ossos esbranquiçados das vítimas anteriores.

Além destas fotografias está o texto, escrito pelo poeta Carolyn Forché, provavelmente retirado de uma entrevista:

"Quando alguém adere a um esquadrão da morte, é para toda a vida. Se você o abandona, você pode falar, e ninguém quer ser denunciado depois por estes crimes. Da primeira vez que esse homem sai numa operação ele é testado pelos outros. Eles lhe dizem que deve violar a vítima à frente deles, a seguir cortar certas partes do corpo. Eles querem verificar se tem estômago para isso. Depois disso, ele é tão culpado quanto os outros e já está dentro.

"Por que não é suficiente matar uma vítma? Por que cada uma delas deve sofrer mutilação?

"Todos os membros do esquadrão da morte devem ser culpados de todo assassínio, assim um viola, outro distribui bofetadas, um outro usa o machado, e assim por diante, de modo que seria impossível determinar qual acção causou a morte, e os membros do esquadrão estão protegidos uns dos outros pela culpa mútua. Além disso, quando a simples morte já não inspira medo à população, as paradas devem ser elevadas. O povo deve ver não só que eles morrem, mas que morrem vagarosamente e brutalmente".

A exposição também inclui fotografias dos combatentes. Numa, as guerrilhas são vistas a organizarem uma dança numa base clandestina no interior do país. Outra mostra um soldado governamental ferido a ser carregado por três dos seus camaradas, todos eles a aparentarem não ter mais de 16 anos de idade.

A acompanhar as fotografias há um candente vídeo de 12 minutos que trata do massacre de El Mozote em Dezembro de 1981, no qual até 900 homens, mulheres e crianças foram assassinados pelas tropas de elite da Brigada Atlacatl, treinadas pelos EUA. O vídeo é narrado pelo único sobrevivente do massacre, Rufina Amaya. O seu testemunho, prestado sobre imagens de corpos e de esqueletos do tamanho de crianças desenterrados uma década depois por uma equipe argentina de medicina legal, é gélido e trágico.

Ela viu o seu marido, um lenhador de 29 anos, ser alvejado e decapitado pelos soldados e teve os seus quatro filhos, o mais novo com oito meses, arrebatados dela e abatidos. Os soldados levaram mulheres mais jovens e meninas, algumas com não mais de 10 anos, para uma colina próxima onde foram violadas e mortas a seguir.

Rufina conseguiu esconder-se por trás de um arbusto depois de sair com o último grupo de mulheres a serem abatidas. Do seu esconderijo ela podia ouvir os gritos das crianças, incluindo aquele do seu próprio filho, a chorar, "Mãe! Mãe! Eles estão a ferir-nos! Ajude-nos! Estão a cortar-nos! Estão a sufocar-nos!"

Também mostra o então sub-subsecretário de Estado para Assuntos Interamericanos, Thomas Enders, a testemunhar perante o Congresso que não existia "evidência para confirmar que forças do governo massacram civis sistematicamente". Dois dias após a matança em massa de El Mozote, a administração Reagan certificou que o governo salvadorenho continuava a fazer progressos nos direitos humanos. A certificação foi dada ao Congresso, o qual por sua vez assegurou que a ajuda militar americana continuava a fluir, tornando possível as matanças em massa.

No texto que acompanha as fotografias está a inscrição escrita por Francisco Goya junto aos seus desenhos que pintam as atrocidades da guerra napoleônica em Espanha: "Eu a vi ... vi-a, e isto, e também isto".

Através das imagens tomadas por estes 20 fotógrafos duas décadas atrás vemos também a brutalidade do militarismo americano e a perversão dos crimes que a elite dirigente americana está preparada para executar a fim de defender os seus interesses e a dominação global.

28/Outubro/2005
A URL do International Center of Photography é
http://www.icp.org/site/c.dnJGKJNsFqG/b.1026823/k.9432/El_Salvador.htm

O original encontra-se em http://www.uruknet.info/?p=17243&hd=0&size=1&l=x


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