A "promoção da democracia" e a resistência

Ilusões imperiais

por Tariq Ali

Secção eleitoral em Bagdad. Pode-se ver a quantidade de votos nas urnas translúcidas. Os Estados Unidos, ao contrário dos impérios da velha Europa, sempre preferiram exercer a sua hegemonia indirectamente. Eles confiaram nos intermediários locais — déspotas uniformizados, oligarcas corruptos, políticos serviçais e monarcas obedientes — ao invés de ocupações prolongadas e de construção de nações com formas de elite cuidadosamente controladas, democracia de baixa intensidade. Era só quando rebeliões a partir de baixo ameaçavam tumultuar esta ordem que os Marines eram despachado e as guerras eram combatidas.

Apesar da mutação do mundo que se verificou durante os anos novecentos, exigindo uma mudança nas prioridades americanas e no consenso estabelecido em Washington, a elite imperial ainda é alérgica a ocupações a longo prazo. Se, durante a guerra fria, ao dinheiro era fornecido indiscriminadamente a todas as forças anti-comunistas (incluindo a actual liderança da al-Qaeda) os recipiendários do século XXI são escolhidos mais cuidadosamente. O objectivo é substituir lentamente as elites tradicionais nas velhas satrápias por uma nova geração de políticos neoliberais geneticamente programados, os quais foram treinados e educados nos Estados Unidos. Esta é a função primária do dinheiro concedido aos programas de 'promoção da democracia' nos EUA. A lealdade, sendo uma mercadoria, pode ser comprada aos políticos, partidos e sindicatos. E o resultado, como se espera, é criar uma nova camada de janízaros políticos que sirvam Washington.

Por que será isto necessário? Porque na ausência de um sistema pelo qual os benefícios financeiros do investimento estrangeiro se acumulem directamente no Tesouro americano, os custos de manutenção do Império devem ser amplamente financiados pelas satrápias. O orçamento militar americano já alcançou alturas astronómicas. Os EUA gastam mais dinheiro com armas do que os quinze países seguintes somados. O petróleo do Iraque é vital para ajudar a manter as bases militares americanas que agora existem em 138 países de todo o globo.

Isto é o que pretende a 'promoção da democracia'. Sua variante mais recente foi agora aplicada no Afeganistão e no Iraque e atingirá o Haiti (outro país ocupado) em Novembro deste ano. Criar uma nova elite, dar-lhe fundos e armas para construir um novo exército e deixá-los tornar o país seguro para as corporações. As eleições afegãs de 2004, mesmo de acordo com alguns comentadores pro-EUA, foram uma farsa completa e o muito elevado comparecimento de 73 por cento uma fraude. Se assim não fosse o pro-consul americano não se teria empenhado em reconstruir uma nova aliança com as facções Taliban próximas à inteligência militar paquistanesa.

No Iraque o comparecimento (segundo a DEBKA, o sítio web totalmente leal à inteligência israelense) esteve mais próximo dos 40 por cento e em Bassorá (subcontratada a Tony Blair) não foram mais de 32 por cento. Os seguidores de Sistani votaram para agradar o seu Ayatola, mas se ele for incapaz de proporcionar a paz e um fim à ocupação eles também podem abandoná-lo. A única força confiável no momento são as tribos curdas. O 36º batalhão de comandos curdos combateu lado a lado com os marines americanos em Faluja, mas os chefes tribais querem alguma forma de independência (mesmo como um protetorado americano-israelense) e algum petróleo. Se o aliado leal da NATO e aspirante à UE, a Turquia, vetar tal possibilidade, então os curdos também podem aceitar dinheiro de outra parte. A batalha pelo Iraque está longe de superada. Ela simplesmente entrou numa nova etapa. Apesar de fortes desacordos acerca do boicote às eleições, a maioria dos iraquianos não entregará de boa vontade o seu petróleo ou o seu país ao Ocidente. Os políticos, barbudos ou não, que tentam e pressionam por isto perderão todo apoio e tornar-se-ão totalmente dependentes dos exércitos estrangeiros acampados no seu país. A resistência popular continuará. Os tempos mudaram. Muitos no Norte acham difícil apoiar esta resistência. Os argumentos por e contra são velhos. Nas últimas décadas do século XIX o socialistas inglês William Morris celebrou a derrota do general Gordon pelo Mahdi: "Cartum caiu nas mãos do povo que a ela pertence". Morris argumentou que o dever dos internacionalistas britânicos era apoiar todos aqueles que estavam a ser oprimidos pelo Império Britânico apesar dos desacordos quanto ao nacionalismo ou ao fanatismo.

O coro triunfalista dos media corporativos e do Estado do ocidente reflecte um facto simples: as eleições iraquianas foram concebidas não tanto para preservar a unidade do Iraque mas para restabelecer a unidade do ocidente. Após a reeleição de Bush os franceses e alemães já estavam à procura de uma ponte de retorno a Washington. A França colaborou na ocupação do Haiti sem qualquer resmungo dos media franceses. Os alemães podem agora reunir-se ao grupo. Será que as tropas francesas e alemãs se juntarão agora aos seus sovados colegas britânicos, americanos e mercenários privatizados? E se assim o fizerem os seus cidadãos objectarão ou aceitarão a propaganda que apresenta a eleição ilegítima (o Carter Centre que monitora eleições em todo o mundo recusou-se a enviar observadores) como justificadora da ocupação. E se as tropas francesas e alemãs forem despachadas serão elas proibidas de utilizar cameras digitais para registar a tortura que ainda prossegue em evidente desafio à Convenção de Genebra?

A ocupação do Iraque envolveu tanto uma invasão militar como económica tal como preconizada por Hayek, o pai do neoliberalismo. A visão essencial da potência imperial estava entranhada firmemente na doutrina original. Foi Hayek, afinal de contas o pioneiro da noção de ataques aéreos relâmpago contra o Iraque em 1979 e a Argentina em 1982. A recolonização do Iraque te-lo-ia agradado muito. Ele desprezava piedades. Políticos a mascararem os seus verdadeiros objectivos com palavras de duplo sentido acerca da 'humanidade' te-lo-iam irritado muito.

Os seguidores de Hayek em Washington, contudo, não previram uma resistência no Iraque. Nem tão pouco a maior parte do mundo ocidental, onde a maioria dos intelectuais, jornalistas da TV e devotos de sítios web está tão desiludida, amarga e cínica que assume estar a maior parte do mundo tal como eles. Eles não gostam que se lhes recordem casos em contrário. Esquecem que o gráfico da história é sempre torcido. Nele nunca há uma linha de progresso ininterrupto. E assim aconteceu que a ocupação do Iraque produziu uma resistência. Ao contrário da maioria dos relatos na imprensa ocidental, esta resistência NÃO é dominada por Zarqawwi ou o seu pequeno bando. Se assim fosse já teriam sido esmagados há muito.

Há uma resistência popular no Iraque, tanto armada como não-violenta. O grosso da resistência armada é constituída por soldados e oficiais desmobilizados, muitos dos quais estavam desgotosos com a corrupção e crueldade de Saddam e o seu fracasso em defender o país. A estes deve-se acrescentar tanto nacionalistas seculares como grupos religiosos que odeiam a ocupação. A esquerda é fraca no Iraque porque o Partido Comunista Iraquiano apoiou a ocupação e prestou-se a participar no governo fantoche.

A dimensão e escala da resistência iraquiana (e, incidentalmente, ela também existe no sul xiita e as células de resistência são numerosas em Bassorá) apanhou o mundo de surpresa. Os iraquianos foram como o raio, em comparação com a resistência europeia contra o III Reich. Em França, o regime de Vichy foi popular junto a uma ampla maioria. Não foi assim no Iraque. Na Holanda ocupada a resistência era pequena e muito dependente do apoio britânico. Não é assim no Iraque onde a resistência recebe apoio nulo dos seus vizinhos árabes. No Vietnam, a resistência nacionalista aos impérios francês, japonês e americano foi conduzida pelo Partido Comunista. No Iraque ela é completamente descentralizada. Em todos os casos acima houve colaboradores que trabalharam estreitamente com o poder ocupante. Aqui no Iraque é diferente.

É uma resistência perfeita? Não. Como poderia uma resistência ser bonita quando a ocupação é tão brutal e feia? A violência sem sentido infligida ao povo iraquiano pela ocupação resulta numa resposta violenta. Não foi diferente quando os argelinos combatiam o franceses no princípio dos anos sessenta do século passado. Quando perguntaram a um líder da resistência argelina porque eles muitas vezes punham bombas em cafés e matavam civis, ele replicou: 'Dê-nos aviões e helicópteros e então alvejaremos só as tropas francesas'.

Durante uma primeira fase da ocupação, jornais americanos relatavam acerca de garotos em Bagdad a apertarem as mãos de Marines. O que estes jornais não relatavam (porque os jornalistas não falavam árabe) era que os garotos, com um sorriso, diziam aos Marines: 'Nós odiamos você, motherfucker'. Estas fotografias acabaram há muito. Muitas crianças sorridentes foram mortas a tiro.

E o que dizer dos media, o pilar de propaganda da nova ordem? Em 'Sala de controle', um documentário canadiano sobre a al-Jazeera, uma das imagens mais significativas e desgostantes é aquela de jornalistas ocidentais embebidos na tropa a saltarem e berrarem de alegria quando foi anunciada a captura de Bagdad. A cobertura das eleições no Afeganistão e no Iraque é pouco mais do que propaganda vazia.

A simbiose da política neoliberal e dos media neoliberais ajuda a reforçar a perda de memória colectiva que sofre hoje o ocidente. A insistência em que a totalidade da política contemporânea é acompanhada pelas categorias essenciais de 'amigo' e 'inimigo' tem um longo pedigree. Foi Carl Schmitt, talentoso teórico legal do Terceiro Reich, que primeiro desenvolveu esta visão a fim de justificar os ataques antecipativos (preemptive) de Hitler contra Estados vizinhos. Após a Segunda Guerra Mundial os escritos de Schmitt foram adaptados pelos conservadores locais às necessidades dos Estados Unidos e actualmente são o fundamento do pensamento neo-con. A sua mensagem é linear: se o seu país não servir às nossas necessidades ele é um inimigo do Estado. Ele será ocupado, os seus líderes removidos e sátrapas acomodatícios colocados no trono. Mas quando as tropas se retiram as satrápias muitas vezes desmoronam. Ocupação, rebelião, retirada, ocupação, auto-emancipação constitui um padrão na história mundial.

Só no norte a morte de mais de 100 mil civis iraquianos é ignorada pelo complexo político-media predominante. As vidas iraquianas não importam para as brigadas de direitos humanos no ocidente. É isto que ajuda a alimentar uma raiva contra o ocidente como um todo. A demonização do Islão alcançou tais alturas que os muçulmanos mortos não têm de ser contados. E a fonte desta demonização é o governo dos Estados Unidos, um país inundado de religião: 95 por cento dos americanos acreditam em Deus, 70 por cento em anjos, 67 por cento no diabo. 'Quem acredita no Diabo", escreveu Thomas Mann no Doutor Fausto, 'já começa a pertencer-lhe'. Contra o terrorismo de minúsculas células islâmicas é desencadeado o terrorismo todo poderoso do Estado americano e dos seus aliados. Mas David sempre foi mais popular do que Golias. Foi isto que tentei explicar no meu livro, 'Choque de fundamentalismos: Cruzadas, Jihads, Modernidade' (Clash of Fundamentalisms: Crusades, Jihads, Modernity) . Durante a maior parte do século XX o Islão conservador foi, mais frequentemente do que o contrário, apoiante do Império Britânico e do seu sucessor americano. O Islão era visto como uma força social conservadora, a agitar as cadeias da superstição e do fanatismo para asfixiar mesmo os mais frágeis tremores de revolução social. O ocidente estava deliciado em ter um tal aliado. Os tempos mudaram.

Estive no Brasil na semana passada, para o Fórum Social Mundial. Neste tempo de frustrações e derrotas, quando o avanço social parece abandonando sobre os bancos de areia do consenso de Washington, foi animador ouvir um líder latino-americano — Hugo Chavez, da Venezuela — dirigir-se a uma grande multidão de 15 mil participantes e defender a resistência no Iraque. Os Estados Unidos fizeram três tentativas para derrubá-lo. Elas fracassaram. 'Se eles tentarem pela força, resistiremos tal como os iraquianos', declarou ele. Ele apelou ao estabelecimento de uma Frente Anti-Imperialista à escala mundial. A cortina ainda cobre os principais actos do drama que é a história, mas as interrupções e intervalos também estão cheios de tensão e de conflito.

Durante o julgamento de Nurembergue o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Von Ribbentropo, também foi acusado de crimes de guerra. Por que? Porque ele havia proporcionado a justificação política e ideológica para o ataque antecipativo contra a Noruega.

Se este precedente tiver de ser seguido num imaginário banco dos réus de algum futuro tribunal, então Colin Powell, Condoleeza Rice, Tony Blair e o seu grande patrão na Casa Branca poderiam enfrentar uma acusação semelhante. É improvável, mas desejável.

07/Fev/2005

O último livro de Tariq Ali, Bush in Babylon: The Re-colonisation of Iraq , foi publicado pela Verso.

O original encontra-se em http://www.counterpunch.org/ali02072005.html . Tradução de JF.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
10/Fev/05