Bush: de mentira em mentira
por
La Jornada
O porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, admitiu ontem que o governo
estadunidense deu por concluída a busca das armas químicas,
biológicas ou nucleares iraquianas e que, após 20 meses de
trabalho inútil, período no qual morreu uma dezena dos seus
membros, o Grupo de Vigilância do Iraque (Irak Survey Group, ISG)
deixará de procurar gases venenosos e micróbios letais para se
concentrar em tarefas repressivas contra a insurgência. No
relatório final do ISG, dirigido por Charles Duelfer,
confirmar-se-á a avaliação preliminar apresentada por este
ao Congresso, na qual assinalou que "quase toda" a
informação de espionagem usada para alegar a existência de
armas de destruição maciça em poder do derrubado regime de
Bagdad, pretexto que por sua vez foi utilizado para invadir, destruir e ocupar
esse país árabe, era falsa. Mais de 100 mil iraquianos morreram
desde então, enquanto os países agressores sacrificaram, nessa
guerra que continua e se intensifica, mais de 1500 dos seus soldados, e mais de
10 mil ficaram feridos.
Para os contribuintes estadunidenses o custo da guerra cifra-se já em
centenas de milhares de milhões de dólares que, sem a mentira
pelo meio, poderiam ter sido destinados a programas educativos e de
saúde para os próprios cidadãos do país ocupante,
em investigação científica e em ajuda às
nações pobres. Para os iraquianos, a devastação
humana e material do seu país é incalculável e
irreversível em várias gerações. Os únicos
beneficiários desta aventura genocida são, até agora, os
accionistas das empresas da indústria militar e os empreiteiros
seleccionados para uma "reconstrução" que é,
evidentemente, outra mentira para cobrir o desvio de dinheiro público
iraquiano ou estadunidense para as contas privadas dos
negociantes que fazem parte do círculo de Bush.
Temos de salientar que até agora a única arma de
destruição maciça cujo uso foi documentado no Iraque
é o urânio empobrecido usado pelas forças agressoras em
projecteis perfuradores de blindagem. O doutor Ahmad Hardan, perito da
Organização Mundial de Saúde (OMS), calcula que na guerra
de 1991 as tropas de Washington dispararam naquele país árabe
cerca de 800 toneladas desses projecteis, cujos resíduos afectaram
gravemente a saúde de uns 300 mil iraquianos e a de um número
indeterminado de soldados estadunidenses afectados pelo "síndroma
da guerra do Golfo", fenómeno sistematicamente negado pelo
Pentágono. No ano de 2003 os agressores utilizaram, só em Bagdad
e seus arredores, outras 200 toneladas de balas de urânio empobrecido, e
aquele perito calcula que na presente década aumentarão 300 por
cento os casos de cancro nessa região e tornar-se-ão mais
frequentes as malformações congénitas, a esterilidade e o
crescimento retardado na população infantil.
De qualquer forma, o ISG não procurava armas de destruição
maciça estadunidenses, mas sim iraquianas. Não as encontrou e
agora a Casa Branca se afadiga em simular a realização de uma
mentira alternativa para justificar a atrocidade: a implantação
de uma "democracia" num país ocupado. Nessa lógica,
Washington insiste em que dentro de 17 dias se realizarão
eleições gerais no Iraque, projecto inverosímil e
disparatado se tivermos em conta as circunstâncias que atravessa essa
infortunada nação: mais de metade da sua população
habita em províncias que estão fora do controle dos ocupantes; a
rede de estradas está devastada ou não pode ser utilizada por
razões de segurança; o fornecimento de energia eléctrica
encontra-se, segundo os cálculos mais optimistas, a dois terços
dos níveis que tinha nos últimos dias do regime de Saddam; as
autoridades "nacionais" impostas pelos invasores têm uma
credibilidade quase nula e um poder meramente simbólico, e os
próprios efectivos estadunidenses cada vez se aventuram menos fora da
relativa segurança das suas fortalezas. Todos os dias têm lugar,
em média, uns 10 confrontos entre a resistência iraquiana e os
ocupantes e seus aliados locais, e todos os dias, há já um ano, a
insurgência causa uma média de quase três baixas mortais
às tropas ocupantes.
Bush e o seu governo caminham de mentira em mentira e é possível
que, apesar das advertências dos seus subalternos iraquianos, a Casa
Branca se obstine em realizar em algumas localidades do Iraque, no
próximo 30 de Janeiro, um arremedo de eleições. Se o
fizer, a simulação não mudará em nada o drama
iraquiano. Não se deterá nem atenuará a guerra em curso
nem a violência dominante nem a catastrófica insegurança
que afecta o país árabe. A pantomima servirá unicamente
para que Bush possa afirmar diante de próximos e estranhos que levou a
democracia ao Iraque, mas a afirmação será tão
evidentemente falsa como as armas de destruição maciça
inventadas por Washington há dois anos.
O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/edito.php
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Este editorial encontra-se em
http://resistir.info/
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