O fim do capitalismo racional
por John Bellamy Foster
[*]
O mito dominante do século XX foi o de um capitalismo
racional. Os dois economistas que mais promoveram esta ideia foram John
Maynard Keynes e Joseph Schumpeter. Ambos reagiram à grande crise
histórica do capitalismo que se manifestou na Primeira Guerra Mundial,
na Grande Depressão, e na Segunda Guerra Mundial. No seguimento do maior
conjunto de horrores que o mundo jamais vira, acompanhado também pelo
aparecimento duma alternativa, o sistema rival na União
Soviética, o capitalismo que se seguiu à Segunda Grande Guerra
precisava de se restabelecer tanto ideológica como materialmente. Quanto
à exigência ideológica, os dois econonomistas que mais
eficazmente cumpriram esta tarefa foram Keynes e Schumpeter não
só porque compendiaram o melhor da ideologia económica burguesa,
mas também porque eram os principais representantes da ciência
económica burguesa. Nas suas análises expuseram os requisitos dum
capitalismo racional e a esperança mínima de que seria
possível alcançar tais requisitos.
Consideremos Keynes em primeiro lugar. Situado em Cambridge na Inglaterra, foi
Keynes quem deu corpo ao capitalismo racional. Não só apreendeu
as contradições do sistema, como também acreditou que as
mesmas podiam ser geridas racionalmente. Isto era verdade quanto às
relações entre estados capitalistas e à
regulação das contradições internas do processo de
acumulação. No seu
Economic Consequences of the Peace (Consequências Económicas da
Paz)
(1919) criticou o tratado de paz de Versailles por causa das
reparações de guerra predatórias impostas a uma Alemanha
derrotada, as quais poderiam conduzir, como previa, a uma outra guerra mundial.
Em resposta à Grande Depressão, Keynes escreveu a sua obra magna
The General Theory of Employment, Interest and Money (Teoria Geral de Emprego,
Juros e Dinheiro)
(1936) demolindo a Lei de Say (a visão ortodoxa
supply-side
de que a oferta cria a sua própria procura). Pela primeira vez na
literatura económica do 'establishment' deu-se uma atenção
séria à natureza da crise económica estrutural sob o
capitalismo e àquilo que os Estados podiam fazer quanto a isso. Para
Keynes, a questão chave era conseguir que o Estado interviesse para
assegurar uma procura efectiva suficiente para garantir o pleno emprego. Como
assinalou Paul Sweezy na Universidade de Istambul há dez anos
atrás (ver
The Triumph of Financial Capital
(O Triunfo do Capital),
Monthly Review,
Junho de 1994), Keynes acreditava também que a escalada do
domínio do capital
financeiro como acontecera nos anos 20, demonstrava o fim da racionalidade
capitalista, transformando as empresas produtivas, conforme as suas palavras,
numa bolha dentro dum redemoinho de especulação.
Apelava, portanto, à eutanásia daquele que vive dos
rendimentos
(rentier).
Defendia a moderação do comércio livre e um certo grau
de auto-suficiência nacional, como resposta às influências
globalizantes da época. Foi um dos principais arquitectos do sistema
Bretton Woods, concebido para estabilizar o comércio e as
finanças mundiais através da criação do Acordo
Geral sobre Tarifas e Comércio, do Fundo Monetário Internacional
e do Banco Mundial. Dum modo geral, considera-se que o keynesianismo apontou o
rumo da social-democracia e do Estado Providência
(welfare state)
como manifestações da racionalidade capitalista. Parecia
anunciar uma reforma com raízes num compromisso político entre o
capital e o trabalho.
No princípio da Grande Depressão em 1930, Keynes escreveu um
ensaio intitulado
Economic Possibilities for Our Grandchildren
(As Possibilidades Económicas para os Nossos Netos) no qual declarava
que o problema económico, entendido como a satisfação das
necessidades de subsistência de toda a gente nas sociedades ricas, podia
ser resolvido num prazo de cem anos. A questão passaria a ser
então como lidar com o tempo livre quando a semana de trabalho
diminuísse para três horas por dia, num total de quinze horas por
semana. Nessa altura, afirmava, poderia surgir um novo código moral que
tirasse a sociedade do túnel da necessidade para a plena luz do
dia. Até lá, no entanto, o mundo teria que se contentar com
um código moral alienado segundo o qual vale tudo (
fair is foul and foul is fair
), ou seja, um código baseado na ganância e na
exploração associadas à acumulação do
capital.
Schumpeter, em Harvard nos Estados Unidos, foi uma figura mais conservadora
oposta a Keynes e ao keynesianismo. Promoveu a noção de que o
empresário racional constituía a essência do capitalismo,
insistindo em que o crescimento ulterior dos
monopólios/oligopólios, embora inevitáveis, podiam
conduzir à eventual morte do capitalismo. Argumentava contra a
noção duma crise económica estrutural do capitalismo,
utilizando a teoria do ciclo longo o ciclo de cinquenta anos de
Kondratieff para racionalizar o prolongado marasmo associado à
Grande Depressão. Nada era mais discutível para Schumpeter do
que os argumentos de Alvin Hansen, o principal seguidor de Keynes nos EUA, de
que o capitalismo estava a pender para uma estagnação
económica por razões
económicas.
Schumpeter acreditava que os problemas do capitalismo eram
sociológicos:
a morte das condições externas necessárias para o livre
desenvolvimento da função empresarial. Num dos capítulos
de
Crumbling Walls
(Desmonoramento dos muros) na sua grande obra
Capitalism, Socialism and Democracy (Capitalismo, Socialismo e Democracia)
(1942) explicava como a propriedade desmaterializada, desfuncionalizada e
absentista juntamente com a mecanização do
progresso sob o regime do capital concentrado desvitalizava a iniciativa
empresarial, minando a sua função vital e, com ela, o sistema
capitalista.
Schumpeter também defendia que o capitalismo, enquanto sistema
económico racional estava em oposição ao imperialismo, o
qual ocorre, tanto na época contemporânea como no passado,
através do desenvolvimento duma máquina de guerra e, em
termos de factores económicos, através do aparecimento de
corporações monopolistas. O capitalismo, observava em
The Sociology of Imperialisms
(A Sociologia dos Imperialismos) (1919), é por natureza
anti-imperialista... O que não é fácil de deduzir perante
as tendências imperialistas que existem de facto, as quais têm que
ser encaradas obviamente apenas como elementos estranhos, trazidos do exterior
para o mundo capitalista, e apoiados por actores não-capitalistas da
vida moderna.
Nem Keynes nem Schumpeter eram tão ingénuos que pensassem que o
capitalismo se poderia desenvolver sem constrangimentos segundo a sua
própria lógica um ponto de vista associado ao mito do
mercado auto-regulador, que agora destronou o mito do capitalismo racional no
interior da ideologia dominante e está associado ao nome de Friedrich
Hayek e do neoliberalismo contemporâneo. Nas palavras de Schumpeter,
nenhum sistema social pode sobreviver eternamente se o deixarem funcionar
segundo a sua própria lógica. Basta ver-se a
situação actual. Não há nenhuma empresa, nenhuma
indústria, nenhum país que possa viver segundo as regras em que
certamente viveriam se os deixassem.
[1]
O mesmo se passa quanto ao capitalismo como um todo. Se fosse deixado ao seu
livre arbítrio, imporia a fundo a sua lógica económica em
tudo o que existisse, o que minaria os elementos sócio-culturais sem os
quais a sua continuidade seria impossível. No balanço pessimista
de Schumpeter o capitalismo estava destinado a destruir-se por esta forma,
já que as tentativas de o regular, de o proteger contra si
próprio, também conduziriam ao mesmo desfecho e nem sequer numa
forma mais lenta. O capitalismo, concluía ele, não poderia
sobreviver. Ainda assim, Schumpeter, tal como Keynes, articulou algumas das
condições daquilo que entendia por capitalismo racional.
Claro que a nova mitologia dum capitalismo racional não saiu apenas das
cabeças de dois economistas. Reflectiu o espírito duma
época de capitalismo restaurado sob a égide dos Estados Unidos,
nação que emergiu praticamente incólume da Segunda Guerra
Mundial com metade da produção mundial, 60% das suas
manufacturas, uma divisa considerada tão boa como o ouro, e o
monopólio das armas nucleares. Os Estados Unidos, de longe a mais
poderosa força económica, política e militar a seguir
à Segunda Grande Guerra, pareciam ser os mais bem preparados para serem
os responsáveis por esta nova racionalidade capitalista. A
construção do sistema de Bretton Woods para o comércio e
as finanças internacionais, e a localização em Nova Iorque
das novas Nações Unidas, prometiam um capitalismo diferente, mais
estável. A aproximação à Alemanha e ao Japão
ocupados relativamente benevolente e a introdução do Plano
Marshall para ajudar os estados da Europa ocidental a reconstruir as suas
economias parecia indicar a boa vontade da nova potência mundial. Os
Estados Unidos fundaram a Aliança Atlântica e, além disso,
uma aliança entre a tríade dos Estados Unidos, da Europa
ocidental e do Japão. Na social democracia da Europa ocidental floresceu
uma parceria com o capital aparentemente confortável e mutuamente
reforçada. O crescimento da prosperidade tornou-se o emblema do novo
capitalismo organizado.
As economias europeias e japonesa foram rapidamente reconstruídas. O
rápido crescimento económico trouxe uma nova era dourada, fazendo
lembrar os melhores anos da juventude do capitalismo. O colonialismo europeu
recuou frente aos movimentos e revoluções anticolonialistas no
terceiro mundo. Os Estados Unidos, apresentando-se como uma potência
anticolonialista, assumiu a liderança na divulgação de uma
nova ideologia de desenvolvimento para exportar para a periferia.
Nos próprios Estados Unidos foram adoptadas medidas
anti-monopólio para assegurar uma concorrência contínua. A
afinação fiscal e monetária foram consideradas chaves
mestras para a gestão da economia. Pouco mais de duas décadas
após a Segunda Guerra Mundial, importantes economistas americanos, como
Paul Samuelson, galardoado com o primeiro Prémio Nobel de economia,
proclamavam o fim da flutuação cíclica das actividades
comerciais. Nos Estados Unidos,
os iluminados adoptaram a expressão Pax americana para
descrever a nova era da hegemonia americana supostamente bemfazeja. Noutras
alturas, designavam-na por século americano. Os cientistas
sociais, por toda a América, festejavam a nova ordem capitalista
racional-funcional.
Tudo isto ocorria num ambiente de Guerra Fria, incluindo duas guerras quentes
na Ásia. Nos Estados Unidos, utilizava-se a caça às
bruxas anticomunista, conhecida por McCartismo, para partir a espinha da
coligação 'New Deal' dos defensores dos direitos civis dos
trabalhadores e dos pequenos agricultores. No
An Essay for Our Times
(Ensaio para os Nossos Dias) (1951) o historiador cultural crítico H.
Stuart Hughes apelidou os Estados Unidos de nova Bisâncio, em
detrimento de nova Roma. Procurava dar ênfase à
natureza conservadora e religioso-moralista do seu império, assim como a
noção de que os Estados Unidos se tinham tornado no último
bastião duma civilização decadente. Washington interveio
em todo o mundo, e espalhou a morte e a destruição sobre
milhões para apoiar regimes ditatoriais que elogiava como baluartes do
mundo livre. Mas a ideologia dominante justificava tudo em nome da
defesa necessária de uma nova civilização capitalista
racional e não para a reafirmação do velho
império capitalista.
Claro que nem todos os economistas sucumbiram à ideia de um novo
capitalismo racional. As críticas foram especialmente duras dentro da
linha marxista. O ponto de vista mais discordante surgiu vindo daquilo a que se
chama frequentemente a teoria do capital monopolista, com Paul Baran e Paul
Sweezy e a
Monthly Review
nos Estados Unidos, mas que se desenvolveu a partir das críticas
económicas elaboradas na Europa por Michal Kalecki e Josef Steindl. No
auge da era dourada do capitalismo pós Segunda Guerra Mundial, em 1966,
foi publicado o
Monopoly Capital
(Capital Monopolista) de Baran e Sweezy, argumentando que a prosperidade dos
anos a seguir à Segunda Guerra Mundial, longe de ser um reflexo dum
capitalismo mais racional e mais organizado, era pelo contrário um
produto transitório de factores de desenvolvimento especiais que deviam
ser encontrados num ambiente histórico mais alargado. A tendência
normal do capitalismo, na sua fase monopolista era a estagnação
económica dada a sua incapacidade de absorver os enormes excedentes
existentes e potenciais à sua disposição. Perante a
tendência à estagnação no capitalismo monopolista, o
que era necessário explicar era sobretudo a prosperidade e não a
estagnação. Daí que tenham focado a atenção
nas forças contrárias à estagnação que
serviram para impulsionar a economia capitalista. Algumas dessas forças
foram meramente transitórias, tais como:
1- A acumulação de liquidez entre os consumidores nos Estados
Unidos
durante a Segunda Grande Guerra, a qual alimentou uma explosão dos
gastos em consumo imediatamente após a guerra.
2- A segunda grande vaga de expansão do automóvel nos Estados
Unidos
durante a Segunda Grande Guerra, que esteve associada ao crescimento dos
subúrbios e à construção de um sistema de
auto-estradas inter-estaduais e que alimentou as indústrias do
aço, do vidro e da borracha.
3- A reconstrução das economias europeias e japonesa a seguir
à guerra.
4- A estabilidade associada à hegemonia sem rival dos Estados Unidos
sobre
a economia mundial, marcada pelo domínio absoluto do dólar.
No entanto, a somar a estes factores mais transitórios, também
houve mudanças estruturais de longo prazo no funcionamento do
capitalismo, em especial no capitalismo dos Estados Unidos. Incluem:
5- O aparecimento de gastos militares maciços e continuados nos Estados
Unidos, justificados inicialmente pela corrida ao armamento da Guerra Fria, mas
motivados principalmente pela manutenção do sistema imperialista.
6- O desenvolvimento do moderno esforço de vendas -- ou seja
uma economia dirigida para o consumismo, e apoiada pela publicidade e pelo
desenvolvimento de um sistema de crédito ao consumidor ou endividamento
das massas.
7- O nascimento de uma super-estrutura financeira qualitativamente nova que
funcionava de certa forma independentemente da base produtiva da economia
capitalista, e que se traduziu numa explosão financeira.
Para Baran e Sweezy, este novo regime de acumulação era, em
contraste com o mito dum novo capitalismo racional, um Sistema Irracional
(Irrational System)
(foi o título que deram ao capítulo final de
Monopoly Capital).
No capitalismo de monopólio não existem nenhumas ou quase
nenhumas das características do capitalismo racional, tal como concebido
por Keynes e Schumpeter. O capitalismo não se tornou menos
imperialista, mas, pelo contrário, o militarismo e o imperialismo foram
construídos no próprio cerne das suas operações
diárias integrados no seu funcionamento económico como
nunca tinha acontecido antes. A hegemonia dos Estados Unidos só se
manteve por meio de guerras na Ásia e noutros locais. A
promoção estatal duma procura efectiva através das
despesas civis governamentais e da gestão fina dos impostos e da moeda
as bandeiras da política keynesiana revelou-se
inteiramente inadequada para contrariar a tendência para a
estagnação sob o capitalismo. O Estado Providência
(welfare state)
anunciado pelos keynesianos e pelos sociais democratas foi o
subdesenvolvimento no mais desenvolvido e mais estável Estado
capitalista os Estados Unidos bloqueado pelos interesses
adquiridos. Os supostos êxitos no crescimento e na estabilidade
económica, foram apenas um resultado de circunstâncias
históricas fortuitas e de estimulantes económicos artificiais. O
sistema, em vez de assentar principalmente sobre o investimento produtivo,
ficou dependente do esforço de vendas e da expansão financeira
para crescer. O empresário de Schumpeter deixou de estar no centro do
sistema e foi afastado pela corporação gigante e monopolista. O
limitado
quid pro quo
do capitalismo o seu sistema idealizado de trocas iguais
desmoronou-se quase completamente sob a política de preços
monopolista e sob os arranjos da produção. Mantiveram-se altas
margens de lucro mesmo quando havia baixa na procura, mantendo inactivas as
fábricas e as maquinarias, em vez de baixar os preços, o que
resultou em permanentes altos níveis de excesso de capacidade. A
exploração salarial, em vez de diminuir, o que conduziria a mais
tempo de lazer como Keynes havia idealizado, tornou-se mais feroz. Entretanto,
o próprio lazer tornou-se numa outra forma de exploração
-- entretenimento de absorção passiva -- com a
intenção de reforçar um sistema económico que,
embora contasse com uma enorme capacidade produtiva, era incapaz de permitir
uma transformação significativa da existência humana ou de
aliviar as cadeias do trabalhador individual.
No centro da análise de Baran e Sweezy estava o entendimento de que o
sistema do capitalismo monopolista, apesar de todos os meios maciços e
irracionais utilizados para o justificar, não podia continuar sem uma
crise. As forças de estagnação ameaçavam impor-se
constantemente. Nos princípios dos anos 70, poucos anos após a
publicação do seu livro, os Estados Unidos foram de novo
atingidos por uma grave crise económica. Este regresso da crise
económica foi agravado pelo facto de ter coincidido com a crise
energética devida à actuação da OPEP em resposta
à Guerra de Yom Kippur, e pelo declínio da hegemonia americana,
à medida que os Estados Unidos enfrentavam maior
competição económica do exterior. Todo o sistema global
económico centrado nos Estados Unidos se revelava instável.
A crise do princípio dos anos 70 foi agravada ainda mais pela derrota
dos Estados Unidos no Vietnam. A guerra contribuíra para graves
desequilíbrios na posição do dólar, resultando numa
sangria de dólares para o exterior, e no aparecimento de um enorme
mercado de dólares na Europa. Em resultado disso, Nixon desligou o
dólar do ouro em 1971, acabando com o regime dólar-ouro. Ao
mesmo tempo, a derrota no Vietnam pôs restrições à
capacidade de os Estados Unidos continuarem a utilizar a sua máquina de
guerra para solucionar os seus problemas económicos através do
aumento do seu ascendente no exterior.
No início da crise económica, Paul Sweezy em conjunto com Harry
Magdoff, o seu co-editor na
Monthly Review
e autor de
The Age of Imperialism
(A Era do Imperialismo) (1969), não só realçou todos os
factores apresentados anteriormente no
Monopoly Capital
de Baran and Sweezy, como insistiu ainda mais duramente em que a
estagnação era o estado normal do capitalismo monopolista, e por
isso o que era preciso explicar eram as bases do rápido crescimento que
havia desaparecido, ao invés da própria estagnação.
O facto de que a estagnação reaparecera apesar de todos os
enormes meios utilizados para apoiar a economia, demonstrava a imensidão
da contradição. A crise era portanto irreversível dentro
da estrutura actual das coisas.
Agora, quase quatro décadas após a publicação do
Monopoly Capital
não restam dúvidas de que esta afirmação era
correcta no seu essencial. A taxa de crescimento per capita da
produção mundial (PIB mundial) foi obviamente mais lenta nos anos
70 do que nos anos 60. Mas o problema não acabava aqui: foi mais lenta
nos anos 80 do que nos anos 70, mais lenta nos anos 90 do que nos anos 80, e
até agora tem sido mais lenta nos primeiros anos de 2000 do que nos
anos 90 (ver The Stagnation of Employment (A Estagnação do
Emprego),
Monthly Review,
Abril de 2004). Neste aspecto, a economia americana e as de outros Estados
ricos é semelhante à economia mundial como um todo, com
décadas de aprofundamento da estagnação.
A resposta dos Estados capitalistas avançados ao reaparecimento da
estagnação foi quase imediata e uniforme e, pelos finais dos anos
70, assumiu uma forma definida tanto a nível nacional como global. Se o
capitalismo racional (na versão keynesiana) tivesse sido mais do que uma
simples miragem ideológica, teria havido uma tentativa para adoptar
programas keynesianos mais radicais e social-democratas como resposta para a
crise. Presumivelmente, isso teria resultado numa redistribuição
da riqueza e do rendimento social de cima para baixo, no relançamento do
Estado Providência, na promoção do pleno emprego e da
segurança económica em geral mesmo naquilo que por vezes
foi idealizado como um plano Marshall global concebido para ajuda
ao terceiro mundo. É eloquente por si mesmo que nada disto tivesse sido
tentado e o tão gabado keynesianismo tenha desaparecido instantaneamente
sem luta contra a pressão sentida pelo capital nessa altura.
Tal como Joyce Kolko observou no seu
Restructuring the World Economy
(A Restruturação da Economia Mundial) em 1969, o capitall
restrutura-se por acréscimo (accretion), e não por
estratégia. O que surgiu rapidamente foi um discurso de
substituição que reflectiu a tentativa do capital para purificar
a sua lógica de acumulação, abandonando todas as
tentativas anteriores para dominar e regulamentar o sistema. Assim, nos anos 70
e 80 assistiu-se ao aparecimento de uma legião de termos que são
hoje bastante familiares: rigor, restruturação,
desregulação, privatização, sistema de mercado
livre, globalização e (de um ponto de vista mais cínico)
neoliberalismo. A meta passou a ser forçar a baixa dos salários,
aniquilar os sindicatos, eliminar os apoios estatais aos trabalhadores e os
subsídios aos consumidores, remover as barreiras à mobilidade do
capital, redistribuir o rendimento e a riqueza de baixo para cima, e tomar
medidas como estas em todo o globo. Impuseram-se os princípios de um
capitalismo sem barreiras em áreas tão fundamentais como o
emprego, a saúde, a educação, a reforma, a disponibilidade
de alimentos, o ambiente, etc. A presunção de racionalidade,
associada a pensadores como Keynes e Schumpeter e antes deles ao
sociólogo Max Weber, que descreveu o capitalismo como o tempero
racional dum impulso irracional de repente passaram a
ser uma lembrança distante, a retórica de uma era já
ultrapassada.
[2]
Apesar do abrandamento continuado das economias capitalistas, o fetichismo do
mercado não passou a ter menor ascendente do que nas décadas
anteriores. Com o capitalismo a um ritmo bem abaixo do que existia logo a
seguir à Segunda Grande Guerra, e com uma organização das
classes baixas bem mais fraca do que antes, o sistema degenerou numa forma de
exploração mais directa, a qual, se bem que não tenha
contribuído muito para promover as fortunas de todas as
nações, conseguiu no entanto reforçar a riqueza no topo.
As ideias dominantes, ou seja, a ideologia da classe dominante, fizeram a
respectiva viragem. Com uma fé renovada na auto-regulação
do sistema, Hayek passou a ser de repente mais importante que Keynes.
Não só reapareceu o capitalismo cru como também,
após a queda do bloco soviético, se desenvolveu subitamente o
imperialismo nu, quando os Estados Unidos se aproveitaram do vazio criado pela
morte da União Soviética, para tentarem restabelecer e até
expandir a sua hegemonia global. Se, para Schumpeter, o imperialismo era um
subproduto de uma máquina de guerra e da monopolização,
mais do que uma propriedade intrínseca do capitalismo, a realidade de
hoje prova que esta distinção é irrelevante ou é
falsa. O Estado mais poderoso do sistema capitalista global e aquele que
apregoa representar melhor a sua lógica, os Estados Unidos, adoptou
abertamente uma estratégia para preservar a sua hegemonia
económica e política pela via dos meios militares e chegou
ao ponto de anunciar isto mesmo ao mundo inteiro na
Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos
dada a conhecer em 2002. Em simultâneo com esta
declaração Washington começou a rufar os tambores para a
invasão do Iraque o país que provavelmente detém a
maior parte das reservas petrolíferas mundiais não exploradas e
portanto o maior potencial para a expansão da produção
petrolífera sob o pretexto de se defender contra armas de
destruição maciças que não existem. Em poucos
meses deu-se a invasão seguida por uma prolongada ocupação
e pela continuação da guerra. Neste caso o exercício do
poder tornou-se na sua própria justificação. Agora, o
Império tinha que ser glorificado. Os ataques terroristas de 2001
transformaram a maior parte do mundo em ninhos de bárbaros, que podiam
ser dominados à vontade pelos Estados Unidos em
coligação com aqueles países menores desejosos
de se subordinarem aos seus interesses.
Economicamente, a estagnação global deu origem a uma economia
global de casino, onde o capital procurava uma saída para os seus
excedentes. Em vez da eutanásia para aquele que vive dos
rendimentos, de Keynes, o sistema presenciou o relativo declínio
da produção nos Estados capitalistas avançados, onde foi
subordinada a um processo de financiarização. Embora isso fosse
mais um efeito do que uma causa da estagnação, gerou uma
verdadeira transformação na forma de dominação do
capital financeiro e um capitalismo mais instável e
incontrolável. Como Sweezy observou em
The Triumph of Financial Capital
(O Triunfo do Capital Financeiro), Outrora ninguém,
incluindo Keynes, teria sonhado que o capital especulativo, um
fenómeno tão antigo como o próprio capitalismo, pudesse
crescer ao ponto de dominar a economia nacional, para não falar do mundo
inteiro. Mas pôde. Em consequência, segundo Sweezy, o poder
saiu dos gabinetes das gigantescas corporações e foi entregue aos
mercados financeiros (uma esfera onde os principais actores são essas
mesmas corporações). Os Estados acabaram também por ficar
cada vez mais prisioneiros dos mercados de capital. Daí que, a
mão invisível de Adam Smith, afirma Sweezy, esteja a
encenar um regresso a uma nova forma muito mais musculada. No entanto, o
resultado não foi um capitalismo mais racional, mas um menos racional.
A mão invisível é agora a do capital financeiro que gira
em volta do globo, em consequência de um capitalismo monopolista
globalizado.
Estas mesmas décadas de estagnação económica e
explosão financeira foram também décadas na quais o
capital se tornou cada vez mais parasita do ambiente global. O sistema de
acumulação sob o capitalismo monopolista globalizado está
a minar os processos bio-geoquímicos básicos do planeta pelo
incentivo a grandes desperdícios e ao crescimento desigual. Nos anos
80, surgiu a maior ameaça jamais vista à bioesfera, e o pior
é que o problema tem vindo a piorar rapidamente. É hoje muito
improvável a perspectiva de uma subida muito limitada na temperatura
média mundial a que a sociedade se poderia facilmente adaptar.
Dentro em breve enfrentaremos uma subida da temperatura média global
2ºC acima dos níveis pré-industriais um crescimento
que se considera separar os níveis do aquecimento global entre
não-catastróficos e catastróficos. Além disso,
há um receio crescente entre os cientistas quanto a um aquecimento
global descontrolado devido aos efeitos acumulados associados à perda
das capacidades de absorção do carbono dos oceanos e das
florestas uma consequência provável do próprio
aquecimento global. Na Antártida os glaciares estão a
derreter-se e as placas de gelo a diminuírem de espessura, apontando
para uma subida mundial do nível dos mares. Todos os ecosistemas do
planeta estão hoje em declínio. Há espécies em
vias de extinção a níveis nunca vistos há 65
milhões de anos. Aparece o espectro da falta de água
potável a nível global. A toxicidade da terra está a
aumentar. Tudo isto e mais ainda é de esperar agora que a
regulação racional do ambiente sob o sistema capitalista se
revelou ser uma perigosa fantasia. Além disso, em vez de qualquer
tentativa directa para fazer parar estas tendências, dizem-nos hoje na
época da globalização neoliberal que tais tentativas
não resultam veja-se a recusa dos Estados Unidos em assinar o
Protocolo de Quioto. Em vez disso, pedem-nos para confiar na magia do mercado
para salvar o ambiente. No entanto, não há nada na natureza de
uma sociedade capitalista, que não tem outra lógica senão
a da acumulação, que possa produzir um resultado desses.
Tudo isto impõe-se claramente frente à expectativa de Keynes de
que o problema económico (e o problema material em geral) poderia ser
resolvido num prazo de cem anos. Por um lado, é o próprio
capitalismo que perpetua e, em muitos aspectos, piora o problema
económico a existência de fome e de desigualdades. Por
outro lado, a pretensão de que vale tudo, defendida por
Keynes, está a resultar numa rápida deterioração
das condições materiais da existência. Hoje, como Jared
Diamond explica no seu recente livro
Collapse
(Colapso), é realista considerar a possibilidade de um colapso
ecológico da sociedade capitalista global, com aspectos análogos
aos colapsos ecológicos de civilizações mais antigas.
Em resumo, num mundo em que tudo se virou para o mercado, ou seja, para a
acumulação do capital, os problemas fundamentais que dividem e
põem em perigo a sociedade humana e o planeta estão condenados a
piorar.
O significado político do que se passa é aparente quando
reconhecemos que a política do pós guerra da esquerda ocidental
se afirmou desde o princípio dentro da ideia do capitalismo racional.
Isto aconteceu tanto no caso da social democracia como no chamado
eurocomunismo. O que se propunha era uma reforma radical no contexto de um
capitalismo novo, estável, organizado, consensual e racional. Lucien
Goldmann, um importante intelectual marxista europeu, exprimiu a sua
crença: Pela expressão capitalismo organizado
entendemos o período contemporâneo que, através da
criação de mecanismos reguladores introduzidos por
intervenção estatal, possibilite um crescimento económico
continuado e a diminuição, para não dizer a total
eliminação, das crises políticas e sociais geradas no seu
interior
[3]
No entanto, a afirmação material sublinhando esta via estava
completamente errada, como já vimos. Keynes e Schumpeter apresentaram
as contradições perigosas da ordem capitalista
entrelaçadas com as esperanças de um capitalismo racional, mas
foram perigosas contradições que prevaleceram no final. O
capitalismo na sua fase monopolista, quando confrontado de novo com a
estagnação, revelou a sua natureza essencial: a impiedosa
procura da acumulação a qualquer preço. Esquecido de
quaisquer promessas significativas de melhoria social para a grande maioria,
recorreu simplesmente à linguagem do poder: não há
alternativa.
Em resultado desta mudança de posição, assistiu-se a um
dramático declínio da social democracia enquanto movimento
político. Em 1981 foi eleito François Mitterrand, o primeiro
presidente socialista de França. Mas a sua estratégia social
democrata clássica de nacionalização e
promoção da procura caiu rapidamente frente à
oposição do capital. Poucos anos depois, ainda com Miterrand no
poder, a França virou-se para o liberalismo. O fracasso de Miterrand
foi largamente considerado como um fracasso do socialismo, mas o que na verdade
revelou foram as barreiras que existem hoje à política social
democrata, agora que esmoreceu a explosão do pós Segunda Guerra
Mundial e o capitalismo regressou à sua forma elementar. Sem uma
mobilização do movimento de massas extraído da
força do povo, a política de esquerda limita-se a implementar
reformas racionais compatíveis com um capitalismo racional. Só
que o espaço para reformas significativas aceitáveis para o
sistema já quase não existe.
A queda do bloco soviético piorou a situação, na medida em
que aparentemente deixou de haver obstáculos para a
universalização do capitalismo e, portanto, o sistema deixou de
vestir a pele de cordeiro. No começo dos anos 80 o mundo assistiu a uma
viragem ainda mais dramática para um capitalismo nu e cru, impiedoso no
tratamento dos trabalhadores e na dominação dos países que
estão na base da hierarquia global. Intensificou-se quer a luta de
classes desses países quer o imperialismo, na esteira do triunfo do
capitalismo na Guerra Fria.
Claro que nem tudo está perdido. A Europa continua agarrada aos restos
do Estado providência e à social democracia. Estas conquistas
históricas da classe trabalhadora estão, contudo, a desaparecer
rapidamente perante o assalto neoliberal. À medida que a União
Europeia (UE) se expande, os países que a integram ou que pretendem
fazê-lo, tal como a Turquia, ainda julgam que estão a aderir a uma
ordem capitalista mais racional, temperada pela social democracia. No entanto,
a própria UE está a mover-se rapidamente noutra
direcção: em direcção a um capitalismo mais
elementar. Forjar uma estratégia construída sobre a
adesão à social democracia europeia é adoptar um credo
amputado dos seus atractivos e tentar alcançar um conjunto de promessas
que já não podem ser cumpridas, mesmo momentaneamente. O
resultado está condenado ao fracasso. A persistência da
estagnação tornou impossível um meio caminho (como a
Terceira Via inglesa), excepto o caminho de facilitar o próprio
neoliberalismo. A social democracia enquanto política racional para um
capitalismo racional tornou-se numa política capitalista desenfreada
para um capitalismo desenfreado.
A conclusão óbvia é que não há espaço
para uma política racional de esquerda, alinhada com a lógica do
capital. Todas as pretensões em contrário provaram ser uma
ilusão. Mas também é verdade que o capitalismo é
incapaz de aceitar o que poderia considerar-se uma política racional de
direita. Com o regresso da estagnação, e o reforço da
restruturação global neoliberal, o conservadorismo foi reduzido
à tarefa de fazer funcionar o capitalismo de mercado livre
eliminando todas as barreiras à acumulação do capital a
todos os níveis. O resultado é a
transformação em produtos de consumo de todos os aspectos da vida
social e cultural, criando profundas crises na família, na comunidade e
na sociedade. Para além disso, o sistema continua a estagnar sem
saída visível, exigindo sempre maiores cortes na infraestrutura
social que o apoia e maiores sacrifícios humanos. Nenhum sistema
económico tem possibilidade de sobreviver, principalmente o capitalismo,
quando deixado à sua lógica sem restrições, como
sublinhou Schumpeter. Acabará por se minar a si próprio. A ideia
de um capitalismo de mercado livre é uma ilusão
perigosa numa época de crescente polarização de classes,
monopolização, especulação, militarismo e
imperialismo. A política de direita, sem qualquer base substancial ou
racional, virou-se cada vez mais para uma cultura predatória de
barbarismo aberto: o renascimento do racismo aberto, da guerra, do
imperialismo, do sexismo, do fundamentalismo religioso. Possivelmente, uma tal
sociedade, encurralada na estagnação e livre para seguir a sua
própria lógica suicida, acabará por se destruir a si
própria e a tudo o que está em seu redor não
através de um colapso económico mas por meio da
intensificação da barbárie a uma escala global.
Isto faz-nos regressar à verdade essencial de que o problema é o
capitalismo. A única solução, por mais difícil que
seja encará-la no momento presente, é o socialismo; o socialismo,
entendido como o movimento socialista sempre defendeu: revolucionário,
democrático, igualitário, ambiental, exigindo a
participação e a mobilização das massas. As
dificuldades em criar uma tal sociedade são enormes. Mas
enormes
como Daniel Singer disse certa vez, não é
sinónimo de
impossíveis
[4]
Se queremos um mundo estável, justo, igualitário,
sustentável no qual o livre desenvolvimento de cada um seja a
condição para o livre desenvolvimento de todos não
temos alternativa senão a de uma longa marcha para o socialismo
impulsionada por um movimento socialista em crescimento. Já há
sinais de um novo amanhecer uma imagem que perpassa desde o movimento
antiglobalização até à corajosa juventude
revolucionária nas montanhas do Nepal. É a esta nova linha da
revolução que agora nos temos de dedicar e prestar o nosso apoio.
Notas
[1] Joseph Schumpeter,
The Economics and Sociology of Capitalism
(Princeton, New Jersey: Princeton University Press, 1991), 194, 301;
Capitalism, Socialism and Democracy
(New York: Harper and Brothers, 1950), 13142. A
argumentação de Schumpeter sobre o monopólio em
Capitalism, Socialism and Democracy
é muitas vezes interpretado erradamente como uma defesa simples e
directa da concentração económica. Schumpeter defendeu
até um certo ponto a base económica das empresas gigantes, embora
considerasse que elas minavam as fundações sociológicas da
sociedade capitalista.
[2]
The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism
(New York: Charles Scribner's Sons, 1958), 17.
[3] Citado em István Mészáros,
The Power of Ideology
(New York: New York University Press, 1989), 63.
[4]
Is Socialism Doomed?
(New York: Oxford University Press, 1988), 277.
[*]
Este artigo foi reconstruído a partir das notas para uma palestra
realizada durante a conferência anual da Associação de
Alunos do Departamento de Economia da Universidade de Istambul, Turquia, em 18
de Dezembro de 2004.
Tradução de Margarida Ferreira
O original encontra-se em:
http://www.monthlyreview.org/0305jbf.htm
.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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