Um novo New Deal, com Obama?

por John Bellamy Foster [*]
e Robert W. McChesney [**]

. Com o capitalismo atolado numa crise económica de uma tal severidade que cada vez mais faz lembrar a Grande Depressão dos anos 1930, não deveria surpreender que assistamos a um apelo generalizado por "um novo New Deal" [1] . A nova administração Obama tem apontado para um amplo programa de estímulo económico de mais de 850 mil milhões de dólares durante dois anos, com o objectivo de resgatar a nação da profunda crise económica [2] .

A possibilidade de um novo New Deal deve ser saudada por quem se posiciona à esquerda, na medida em que faz prever algum alívio para a população trabalhadora bastante sacrificada. Porém, há questões importantes que se colocam. Quais são as reais perspectivas actuais de um novo New Deal nos Estados Unidos? Será essa a resposta para a actual crise económica? Qual deve ser a atitude da esquerda? Uma análise profunda destas questões exigiria um grande volume. Aqui, confinamo-nos a alguns pontos que ajudarão a tornar claros os desafios que temos pela frente.

O New Deal não foi, inicialmente, uma tentativa de estimular a economia e provocar a recuperação através da despesa pública, uma ideia que pouco estava presente no início da década de 1930. Pelo contrário, consistiu em medidas de salvamento e resgate ad hoc, motivadas sobretudo pela ajuda aos negócios, associada a programas de apoio ao emprego. A parte de leão das despesas do New Deal foi, no início, canalizada para operações de salvamento. Como explicou Alvin Hansen, economista de Harvard e um dos primeiros seguidores de Keynes nos Estados Unidos, no seu Fiscal Policy and Business Cycles [Política fiscal e ciclos de negócios],

Maioritariamente, o governo federal [no período do New Deal] empenhou-se num programa de salvamento, e não num programa de expansão positiva. O programa de salvamento tomou a forma de refinanciamento da dívida urbana e rural, reconstruindo a enfraquecida estrutura de capital dos bancos e apoiando companhias férreas em falência ou próximas disso […] A Reconstruction Finance Corporation, a Home Owner's Loan Corporation e a Farm Credit Administration despejaram 18 mil milhões de dólares nessas operações de salvamento. O governo federal chegou-se à frente e apoiou os muito debilitados governos federais e locais – mais uma vez uma operação de salvamento […]

Que um programa de salvamento dessa magnitude era necessário devia-se, evidentemente, à profundidade sem precedentes que a depressão atingiu em 1933 […] Nessas circunstâncias, a economia seca como uma esponja. Os amplos gastos governamentais, pensados para fazer a "esponja" flutuar a um nível de prosperidade mais elevado, são, no entanto, absorvidos pela própria esponja. Os gastos parecem perder-se. Isso é uma operação de salvamento. Só quando a economia se tornou globalmente líquida puderam os fundos fazê-la flutuar em níveis mais elevados. Uma depressão profunda exige amplos gastos de salvamento antes de um vigoroso processo expansionista poder desenvolver-se. [3]

As despesas federais com o emprego público, que se tornou quase sinónimo de New Deal na cultura popular, cresceram quase todos os anos de 1929 a 1938 (ver Tabela 1). Ainda assim, o total da despesa pública em emprego não regressou ao nível de 1929 antes de 1936, devido às quedas dos gastos estatais e locais com emprego que compensaram em baixa os aumentos federais. No início, os governos estatais e locais responderam à crise profunda aumentando os seus gastos com emprego. No entanto, durante a maior parte da década da depressão, "o governo federal", como observou Hansen, "só ajudou a conter a maré vazante". Não obstante o facto de as despesas federais nesta área terem aumentado quase 500 por cento, a sua totalidade cresceu apenas 12 por cento durante o período, insuficiente para proporcionar o necessário estímulo a toda a economia.

Foi apenas numa fase mais tardia da década da depressão, a que os historiadores chamam "segundo New Deal", culminando na vitória esmagadora de Roosevelt nas eleições de 1936, que a ênfase virou decisivamente das operações de salvamento para os programas de apoio ao emprego e outras medidas que beneficiaram directamente a classe trabalhadora. Foi a era da Works Progress Administration (WPA), liderada por Harry Hopkins, juntamente com outros programas e medidas progressistas, como o subsídio de desemprego, a Segurança Social e o Acto Wagner (que conferiu o direito de jure à organização). Esses avanços foram possíveis como decorrência de uma grande "revolta a partir de baixo" do trabalho organizado, nos anos 1930 [4] . A WPA gastou 11 mil milhões de dólares e empregou 8 milhões e meio de pessoas. Financiou a construção de estradas, auto-estradas e pontes. Mas fez muito mais que isso. O programa federal do almoço na escola começou com os dólares da WPA. Na verdade, o que distinguiu a WPA de outros programas de emprego foi o facto de que, dessa vez, as pessoas eram empregadas para fazer coisas necessárias em todas as áreas da sociedade, trabalhando em empregos para os quais tinham já capacidade. A WPA financiou mais de 225 mil concertos. Pagou a artistas para pintarem murais e a actores para produzirem espectáculos [5] .

Tabela 1. Despesas com emprego público (milhões de dólares), 1929–38
Ano Obras públicas federais
& ajuda a unidades locais
Obras públicas
estaduais e locais
Total de obras
públicas do governo
1929 357 2952 3309
1930 445 3288 3733
1931 540 2884 3424
1932 590 1949 2539
1933 785 1133 1918
1934 1266 1208 2474
1935 1433 1125 2548
1936 2180 1316 3496
1937 1938 1391 3329
1938 2099 1612 3711
Fonte: Alvin H. Hansen, Fiscal Policy and Business Cycles, W. W. Norton, Nova Iorque, 1941, p. 86.

Nada disto se conformava com os preceitos posteriores da economia keynesiana. Em 1937, a administração New Deal de Roosevelt ainda não tinha desistido do objectivo de equilibrar o orçamento federal – um objectivo essencial do secretário do Tesouro Henry Morgenthau Jr. –, mesmo no meio da Grande Depressão. Começou, então, a refrear as despesas federais, com os gastos a serem reduzidos nos orçamentos para os anos fiscais de 1937 e 1938. Em simultâneo com o novo sistema de Segurança Social, aprovado em 1935, começou a taxar os trabalhadores no ano fiscal de 1936 com base em impostos regressivos sobre os rendimentos, sem começar a pagar reformas, o que deveria ocorrer até 1941, gerando, desse modo, um efeito deflacionário maciço [6] .

Estas e outras contradições vieram ao de cima na recessão de 1937-38, durante a qual a recuperação que havia ocorrido desde 1933 parou antes de se completar plenamente, com o desemprego a subir de 14 para 19 por cento. Foi apenas em resposta à estagnação económica profunda que a administração Roosevelt foi finalmente induzida a afastar-se decisivamente da tentativa de equilibrar o orçamento federal, virando-se para uma estratégia promovida pelo presidente da Reserva Federal (FED), Marriner Eccles, de utilizar um forte investimento público e o financiamento do défice para reerguer a economia. Essas medidas coincidiram com a publicação de An Economic Program for American Democracy [Um programa económico para a democracia americana], assinado por Richard V. Gilbert, George H. Hildebrand Jr., Arthur W. Stuart, Maxine Y Sweezy, Paul M. Sweezy, Lorie Tarshis e John D. Wilson – um grupo de jovens economistas de Harvard e Tufts, representantes da revolução keynesiana. Este trabalho foi um bestseller em Washington D.C. e tornou-se imediatamente uma defesa intelectual, após os acontecimentos, das políticas expansionistas do New Deal de 1938-39 [7] . Não obstante as medidas de estímulo adoptadas nessa fase terem sido demasiado magras para contrariar as condições de depressão que prevaleciam na altura. O que resgatou a economia capitalista foi a Segunda Guerra Mundial. "A Grande Depressão dos anos 1930", escreveu John Kenneth Galbraith, "nunca terminou. Simplesmente, desapareceu na grande mobilização dos anos 1940" [8] .

Mas isto coloca algumas questões. Como Paul Baran e Paul Sweezy questionaram em Monopoly Capital [Capital monopolista], em 1966, "Por que é que um tal aumento [da despesa pública] não aconteceu durante todo o período da década da depressão? Por que é que o New Deal não conseguiu concretizar o que a guerra provou ser concretizável? A resposta a estas perguntas", sustentaram, "é que, dada a estrutura de poder do capitalismo monopolista dos Estados Unidos, o aumento da despesa [pública] civil ficou perto de atingir os seus limites em 1939. As forças que se opunham a uma maior expansão eram demasiado fortes para serem superadas".

A tese de Baran e Sweezy de que a despesa pública civil tinha ficado "perto de atingir os seus limites" no final do New Deal referia-se principalmente às compras totais fora do sector da Defesa em percentagem do PIB. Isso constitui a quase totalidade da contribuição directa do governo para o bem-estar da população, abrangendo a educação pública, estradas e auto-estradas, saúde, saneamento básico, serviços de água e electricidade, comércio, conservação, recreação, protecção policial e de bombeiros, tribunais, prisões, legisladores, o ramo executivo, etc. Em 1939, como argumentaram Baran e Sweezy, esses elementos críticos do governo tomados em conjunto atingiram a sua parcela máxima do PIB, dada a estrutura de poder do capitalismo monopolista norte-americano [9] .

. Espantosamente, a tese do limite máximo da despesa pública civil de Baran e Sweezy tem vindo a ser demonstrada, mais de 40 anos depois de ter sido formulada (ver Gráfico 1). As despesas de consumo e de investimento do governo civil em percentagem do PIB cresceram para 14,5 por cento do PIB em 1938 (14,4 por cento em 1939), desceram durante a década de 1940 em razão da grande expansão dos gastos militares durante a Segunda Guerra Mundial e, depois, voltaram a ganhar terreno nos anos 1950, 1960 e início dos anos 1970. As despesas de consumo e investimento do governo civil atingiram o seu ponto máximo, 15,5 por cento do produto nacional, em 1975 (descendo em 1976 para 14,9 por cento) e, depois, estabilizaram em cerca de 14 por cento desde o final dos anos 1970 até ao presente. Em 2007, essas despesas constituíram 14,6 por cento do PIB, quase exactamente o mesmo nível de 1938-39 !

As razões para isto são fáceis de compreender. Para lá de um nível mínimo, os interesses do sector imobiliário opõem-se à habitação pública; os interesses dos cuidados de saúde e dos profissionais do sector privado de saúde opõem-se ao serviço público de saúde; as companhias de seguros opõem-se aos sistemas públicos de segurança social; os interesses da educação privada opõem-se à educação pública; e assim por diante. As grandes excepções a este quadro são as auto-estradas e as prisões dentro da despesa pública, conjuntamente com os gastos militares. Como referiram Baran e Sweezy,

A questão pode ser elucidada considerando dois itens do orçamento em simultâneo, por exemplo, a habitação e a saúde. Hoje em dia, poucas pessoas se opõem a um programa de habitação pública modesto e, evidentemente, todos são favoráveis a despesas de saúde, pelo menos suficientes para controlar epidemias. Mas, a partir de certo ponto, a oposição começa a acumular-se em cada caso, em primeiro lugar a partir dos interesses do sector imobiliário e do sector privado de saúde aos programas públicos de assistência médica. Mas os interesses do sector imobiliário não têm, presumivelmente, razões especiais para se oporem aos cuidados médicos, bem como os médicos não têm especiais razões para se oporem à habitação. No entanto, uma vez colocados em oposição a aumentos nas suas próprias esferas, rapidamente combinam forças para se oporem a mais habitação e saúde pública. A oposição em cada item individual consolida-se, por conseguinte, rapidamente quando dois itens estão em consideração e mais rapidamente ainda quando se trata de aumentos no orçamento como um todo. Podemos dizer, em sentido figurado, que se um item for considerado, a oposição cresce em proporção à quantidade do aumento; ao passo que se todos os itens forem considerados, a oposição cresce em proporção ao quadrado do aumento. [10]

O facto de o limite à despesa pública no sistema norte-americano ser uma barreira política e não económica demonstra-se pelos níveis bastante diferentes da despesa pública em percentagem do PIB nos países capitalistas avançados. A Tabela 2 dá-nos dados comparativos para o G-7 mais a Suécia, em 2007. A despesa pública total (coluna 1) inclui as compras públicas directas, que contribuem directamente para a procura agregada total, e as despesas que realocam rendimentos e capital no interior da economia, como os pagamentos de juros, transferências para a segurança social, subsídios à agricultura e subsídios ao investimento [11] . As despesas de consumo final (coluna 2) constituem a maior componente da porção de compras públicas da coluna 1 e incluem consumo para propósitos militares. As transferências para a segurança social (coluna 3) contemplam a totalidade dos esquemas de segurança social que cobrem a comunidade como um todo, a maior fatia de gastos com o bem-estar social. Os dados sobre os gastos militares (coluna 4) são retirados da Base de Dados dos Gastos Militares , do Instituto de Pesquisa para a Paz Internacional de Estocolmo (dados de 2006). Note-se que as colunas 2, 3 e 4 não se somam à coluna 1, mas mostram componentes seleccionadas desta. Algumas das outras componentes da despesa pública total não incluídas são a formação de capital, pagamentos de juros e outros pagamentos de transferência.

Examinando estes dados, torna-se claro que os Estados Unidos têm o consumo final público (o que inclui consumo militar) mais baixo em percentagem do PIB e estão próximos do fundo nas transferências para a segurança social em percentagem do PIB. Os Estados Unidos também gastam uma fatia muito maior do seu produto nacional no sector militar. As despesas de consumo, retirando o consumo militar, chegaram apenas a 11,8 por cento do PIB, em 2007. É óbvio, então, que há muito espaço para a expansão da despesa pública civil e das transferências para a segurança social. O tecto para essas despesas em relação ao produto nacional é mais um reflexo da estrutura de poder da sociedade norte-americana, incluindo o estado relativamente fraco de organização dos trabalhadores e a força relativa do grande capital. Os Estados Unidos, apesar do seu carácter formalmente democrático, estão firmemente ancorados na oligarquia rica, provavelmente a classe dominante mais poderosa da história.

Tabela 2. Componentes seleccionadas de despesa pública em percentagem do PIB. Países do G-7 mais Suécia, 2007
  Despesa pública
em % PIB a)
Consumo final público
em % PIB b)
T ransferências para Segurança Social
em % PIB
Gastos militares
em % PIB (2006)
Suécia 52,6 25,9 15,3 1,5
França 52,4 23,1 17,4 2,4
Itália 48,5 19,8 17,3 1,8
Reino Unido 44,6 21,6 12,8 2,6
Alemanha 43,9 18,0 17,3 1,3
Canadá 39,3 19,3 9,9 1,2
EUA 36,6 16,0 12,1 4,0
Japão 36,0 17,7 11,4 1,0
a) Dados da OCDE para o Canadá, Japão e Estados Unidos desde 2006.
b) Os dados do consumo final incluem despesas de consumo militar.
Fontes: (colunas 1-3) OCDE, OECD in Figures, OCDE, Paris, 2008, pp. 57-58; (coluna 4) Instituto de Pesquisa para a Paz Internacional de Estocolmo, Base de Dados dos Gastos Militares do SIPRI , http://www.sipri.com .


Tudo isto é inseparável do papel dos Estados Unidos enquanto poder imperial e dos efeitos que isso tem na estrutura de poder interna. Os gastos militares totais norte-americanos em 2007 (de acordo com o Gabinete de Gestão e Orçamento) chegaram aos 553 mil milhões de dólares (4 por cento do PIB), ao passo que, actualmente, esses gastos atingem 1 bilião de dólares (7,3 por cento do PIB). O consumo federal e as despesas de investimento fora do sector militar em 2007 foram, de acordo com o mesmo Gabinete de Análise Económica, menos de metade do consumo federal e das despesas de investimento no sector militar [12] .

O nosso argumento é, portanto, simples. Dado que o tecto da despesa pública civil em percentagem do PIB nos Estados Unidos persistiu por mais de sete décadas, não é provável que esse cenário se altere sem uma luta maciça, e mesmo sociotransformadora, apesar da existência de uma administração relativamente progressista e da pior crise económica desde a Grande Depressão. Mesmo à maior crise ambiental da história da civilização, que ameaça a vida em todo planeta, é improvável que corresponda uma resposta dos governos suficientemente vigorosa, sem que o sistema norte-americano seja alterado de cima a baixo. As forças que controlam a despesa pública civil são demasiado poderosas para serem afectadas por algo menor que uma insurreição na sociedade.

Obviamente, a história dos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial pode sugerir que o recurso mais provável dos que estão no poder nestas circunstâncias terríveis será tentar estimular a economia através de um aumento extraordinário nos gastos militares. O facto de administração Obama já ter anunciado os seus planos para manter o actual orçamento de guerra e expandir a intervenção no Afeganistão só incendeia esta preocupação [13] . Por essa razão, é imperativo para a esquerda redobrar os seus esforços para se opor ao militarismo e exigir que os recursos tenham uma utilização civil.

Ao mesmo tempo, a noção de que os gastos militares podem assegurar um estímulo económico efectivo nas presentes circunstâncias é duvidosa, mesmo para sectores da classe dominantes. Desde logo, os gastos militares norte-americanos já estão num nível de guerra aberta e pesam metade (ou mais) dos gastos militares globais. Teríamos que regressar à antiga Roma para encontrar uma situação comparável de dominação militar. Não estamos como em 1939-41, quando os gastos militares norte-americanos tiveram que ser construídos virtualmente para corresponder às expectativas. Duplicar ou triplicar os gastos militares neste momento significaria que os Estados Unidos gastariam duas ou três vezes mais o que gasta o resto do mundo na guerra ou na preparação para a guerra (assumindo que outras nações manteriam os seus níveis actuais de despesa militar). Isso seria politicamente muito difícil, quer globalmente com as outras grandes potências com que os Estados Unidos têm que trabalhar, que estão já alarmadas com o unilateralismo norte-americano, quer internamente, onde mesmo os media seguidistas teriam dificuldade em explicar a racionalidade de desviar ainda mais a economia para o militarismo enquanto a qualidade de vida se degrada.

Talvez mais importante, a noção de que o nível crescente de gastos militares poderia estimular o equilíbrio da economia com eficácia tem vindo a ser rejeitada pelos economistas, mesmo os mainstream, que sublinham que aumentos marginais nas despesas com a "defesa" têm bastante menos impacto positivo no emprego que a despesa pública civil, dada a natureza tecnológica-intensiva dos gastos militares modernos e o facto de que uma grande parte desses gastos ocorre no estrangeiro.

Assim, o principal impacto de duplicar os gastos militares norte-americanos seria aumentar a probabilidade da ocorrência de guerras maiores e mais vastas e da destruição da civilização humana. Como escreveu C. Wright Mills, "a causa imediata da Terceira Guerra Mundial é sua preparação militar" [14] . Mesmo membros da classe dominante recuam perante a ameaça de um recurso crescente à guerra e à preparação para a guerra na era da proliferação nuclear.

Se estivermos correctos neste aspecto, e pensamos estar, então, o aumento da despesa pública em resposta à actual crise será principalmente uma questão de expansão das despesas civis. Essas despesas serão, inicialmente, dedicadas principalmente a operações de salvamento. Esses esforços, absolutamente cruciais para o capital, serão legitimados por programas de emprego mais pequenos direccionados para a população de mais baixos recursos. Os aumentos na despesa pública como um todo serão, no essencial, concebidos como medidas temporárias, de alavanca, e não aumentos permanentes ao nível do governo. Apesar dos aumentos da despesa federal assentarem, provavelmente, em termos orçamentais, é improvável que venham a ficar próximos de compensar os declínios no consumo, investimento e despesa pública estatal e local. Com a economia a secar como uma esponja, uma boa parte da despesa pública pensada para a fazer flutuar em níveis mais elevados de rendimento será absorvida pela própria esponja, como sucedeu nos anos 1930, deixando pouco efeitos visíveis. Consequentemente, a recuperação será lenta e a economia, já profundamente atravessada por problemas de estagnação e debilidade financeira, continuará fraca [15] .

Um regresso ao género de medidas de programas sociais como os do New Deal, o real ou o segundo, pode ser expectável apenas mais tarde, após o esforço inicial de salvamento. Além disso, é improvável que isso se materialize em resposta a algo próximo da escala de revolta a partir de baixo que se verificou em meados da década de 1930. O movimento do trabalho tem que renascer das cinzas. Só uma mudança muito radical na política norte-americana, resultante de um grande levantamento a partir de baixo, será capaz de mover o tecto da despesa pública civil.

Nessas circunstâncias, é da exclusiva responsabilidade da esquerda impulsionar não apenas a organização militante da população mais desfavorecida, mas também os tipos de mudança, indo contra a lógica do sistema e assentando numa expansão da despesa pública que contribua substancialmente para melhorar as condições de vida. Em termos de exigências, um programa deveria incluir, para começar, que: (1) o governo assuma a responsabilidade de assegurar trabalho útil e com salários decentes a todos os que necessitam, recorrendo às competências existentes; (2) seja alargado o subsídio de desemprego para lá dos seus inadequados limites actuais; (3) os que estão em perigo de perder os seus empregos sejam protegidos pela assistência pública; (4) seja iniciado um programa de habitação de choque a favor dos que não têm casa ou vivem em casas degradadas (incluindo o alívio das hipotecas e o apoio aos arrendatários); (5) seja estabelecido um sistema fiscal verdadeiramente progressivo, incorporando um imposto sobre a riqueza; (6) sejam alargados programas alimentares e vales alimentares para os pobres, juntamente com outras provisões de bem-estar, facilitando o acesso; (7) seja facultado a toda a população acesso nacional a cuidados de saúde (um sistema de pagador único); (8) seja garantido pelo governo o financiamento das reformas; (9) seja aumentado o financiamento da Segurança Social e eliminados os impostos regressivos; (10) sejam eliminadas as leis que restringem a sindicalização; (11) seja aumentado o salário mínimo federal; (12) seja introduzida a semana de trabalho das 35 horas; (13) seja promovido a nível nacional um programa de transportes públicos de massas; (14) sejam muito alargados os sistemas de comunicações de propriedade ou controlo público e estendidos por toda a nação; (15) seja bastante aumentado o financiamento público da educação; e (16) seja bastante aumentada a protecção ambiental, em linha com a revolução ecológica hoje necessária para salvar o planeta [16] .

Evidentemente, dada a estrutura de poder existente na sociedade norte-americana e o tecto da despesa pública civil em percentagem do PIB que dura há sete décadas, tudo isto pode parecer ilusório. E a nossa mensagem é que isso é verdade, a não ser que a estrutura de poder na sociedade norte-americana seja alterada. Só um movimento de reforma tão radical que pudesse parecer revolucionário no contexto da ordem económica e social nos Estados Unidos, reduzindo fundamentalmente o campo de actuação do mercado capitalista, tem alguma hipótese de melhorar substancialmente as condições de vida da maioria das pessoas. Desnecessário será dizer que, para que uma tal luta tenha sucesso, as pessoas terão que ter um sentido da realidade para combater por o que afectará materialmente as suas vidas.

Esses ganhos só terão sucesso através de uma enorme luta de classes a partir de baixo. Se a luta for ganha, esses ganhos, sublinhamos, não eliminarão os males do capitalismo ou os perigos que coloca para o mundo e para as pessoas. No fim de contas, não há resposta real possível que não seja destruir, tijolo por tijolo, o próprio sistema capitalista, reconstruindo toda a sociedade a partir de princípios socialistas. Isto é algo que a grande maioria da população aprenderá, indubitavelmente, no decurso das suas lutas por um mundo mais sustentável, igualitário, humano e colectivo. Até lá, é necessário organizar a revolta contra o tecto de classe imposto sobre a despesa pública civil e pelo bem-estar social na sociedade norte-americana.

21/Dezembro/2008

Notas:
1 A questão de um "novo New Deal" face ao aprofundamento da estagnação do capitalismo norte-americano não é nova. Ver Harry Magdoff e Paul M. Sweezy, "A New New Deal?", Monthly Review 33, n.º 9, Fevereiro de 1982, pp. 1-10. Sobre a actual crise económica, ver John Bellamy Foster e Fred Magdoff, The Great Financial Crisis, Monthly Review Press, Nova Iorque, 2008.
2 Associated Press, "Obama Team Weighs Up to $850 billion Economic Jolt", 18 de Dezembro de 2008.
3 Alvin H. Hansen, Fiscal Policy and Business Cycles, W.W. Norton, Nova Iorque, 1941, pp. 85-87.
4 David Milton, The Politics of Labor: From the Great Depression to the New Deal, Monthly Review Press, Nova Iorque, 1982.
5 Harry Magdoff e Paul M. Sweezy, "The Responsibility of the Left", Monthly Review 34, n.º 7, Dezembro de 1982, pp. 6-9; Nick Taylor, American-Made, Bantam, Nova Iorque, 2008; "FDR's New Deal Blueprint for Obama", CBS News, 14 de Dezembro de 2008, http://www.cbsnews.com.
6 Allan H. Meltzer, A History of the Federal Reserve, vol. 1, University of Chicago Press, Chicago, 2003, p. 521; Dean L. May, From New Deal to New Economics, Garland, Nova Iorque, 1981, pp. 91-113, 122; Hansen, Fiscal Policy and Business Cycles , p. 88.
7 May, From New Deal to New Economics , pp. 147-48; John Kenneth Galbraith, Money: Whence It Came, Where it Went, Houghton Mifflin, Boston, 1995, pp. 232-36; Richard V. Gilbert, George H. Hildebrand, Jr., Arthur W. Stuart, Maxine Y. Sweezy, Paul M. Sweezy, Lorrie Tarshis e John D. Wilson, An Economic Program for American Democracy, Vanguard Press, Nova Iorque, 1938. Houve outros autores de An Economic Program for American Democracy que não puderam assinar a obra por diversas razões, como o receio de perder o emprego, incluindo Alan Sweezy e Emile Despres. "Interview of Paul M. Sweezy", The Coming of Keynesianism to America , ed., David C Collander e Harry Landreth, Edward Elgar, Brookfield, 1996, p. 81.
8 John Kenneth Galbraith, American Capitalism, Houghton Mifflin, Boston, 1952, p. 69.
9 Paul A. Baran e Paul M. Sweezy, Monopoly Capital , Monthly Review Press, Nova Iorque, 1966, pp. 151-61.
10 Baran e Sweezy, Monopoly Capital , p. 164.
11 Estas duas categorias de despesa pública são referidas como despesas exaustivas e não exaustivas. Sobre isto, ver Francis M. Bator, A Question of Government Spending, Collier Books, Nova Iorque, 1960, pp. 17-46. Sobre a construção dos cálculos da OCDE, ver François Lequiller e Derek Blades, Understanding National Accounts, Organization of Economic Co-operation and Development, Paris, 2006.
12 Ver John Bellamy Foster, Hannah Holleman e Robert W. McChesney, "O triângulo imperial norte-americano e os gastos militares", Monthly Review – edição portuguesa , n.º 6, Outubro de 2008; Gabinete de Análise Económica, National Income and Product Accounts, Tabela 3.9.5.
13 "A Fighter Jet's Fate Poses a Quandary for Obama", The New York Times , 10 de Dezembro de 2008.
14 C. Wright Mills, The Causes of World War Three, Simon and Schuster, Nova Iorque, 1958, p. 85.
15 Deve ser sublinhado que os restantes países do G-7 (e a Suécia) aqui referidos enfrentam problemas análogos, partindo de níveis mais elevados de despesa pública em percentagem do PIB. Também eles foram apanhados na armadilha da estagnação e poderiam utilizar aumentos na despesa pública para levantar as suas economias, mas também têm forças de classe poderosas no topo da sociedade que limitam a magnitude e a direcção dessa despesa.
16 Ver Harry Magdoff e Paul M. Sweezy, "The Coming Crisis and the Responsibility of the Left", Monthly Review 39, n.º 2, Junho de 1987, p. 5.


[*] Editor da Monthly Review e professor de Sociologia na Universidade de Oregon. É co-autor, com Fred Magdoff, de The Great Financial Crisis: Causes and Consequences (Monthly Review Press, Janeiro de 2009), entre muitos outros trabalhos.
[**] Professor no departamento de Comunicação da Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign. O seu livro mais recente é The Political Economy of Media: Enduring Issues, Emerging Dilemmas (Monthly Review Press, 2008).
Os autores agradecem a Hannah Holleman e a Fred Magdoff pela sua assistência na redacção deste artigo.

O original encontra-se em http://monthlyreview.org/090201foster-mcchesney.php .
Tradução gentilmente cedida por Zion Edições .


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
23/Fev/09