por Miguel Urbano Rodrigues
Em Portugal, nas últimas semanas, escreveu-se e falou-se sobre
Álvaro Cunhal mais do que recordo ter-se escrito e falado desde o 25 de
Abril sobre qualquer outro português.
Li alguns textos muito belos e inteligentes sobre o grande desaparecido. Mas,
com poucas excepções, a qualidade, nessa produção
torrencial, não correspondeu à quantidade.
Um sistema mediático perverso, dominado por uma grande burguesia que
identificou sempre em Álvaro Cunhal um inimigo irredutível do
sistema capitalista tinha todo o interesse em que a personagem, o seu
pensamento e a sua intervenção na historia surgissem deformados
na imagem projectada após a morte.
Esse objectivo foi atingido. Mas o povo português, comparecendo
maciçamente no maior funeral de que há memória, rejeitou a
deformação. Comunistas e não comunistas desfilaram ombro a
ombro no adeus a um revolucionário exemplar que entrou pela porta grande
no panteão dos heróis permanentes.
Álvaro Cunhal foi uma personagem irrepetível.
Tinha a marca do diferente sem que para isso fizesse o menor esforço.
Apareceu-me desde que o conheci como um daqueles seres raros vocacionados para
fazer
bem
tudo o que empreendem no caminhar pela vida.
Foi um grande revolucionário. A memória mais densa que dele vai
perdurar é a do dirigente e ideólogo comunista de
prestígio mundial. Mas o êxito acompanhou-o sempre em todas as
frentes de intervenção. Escreveu um romance notável
Até Amanhã Camaradas
e contos, ensaios e narrativas de elevada qualidade literária. A sua
tradução do
Rei Lear,
de Shakespeare, para alem da intimidade profunda com dois grandes idiomas,
deixa entrever a complexidade da sua reflexão sobre a obra do genial
inglês. Como artista plástico os
Desenhos da Prisão
anunciam o talento criador do grande pintor que poderia ter sido.
A sua obra teórica será pelo tempo afora de consulta
indispensável para a compreensão do Portugal do século XX.
Ninguém como ele ilumina as lutas do tempo do fascismo e desce
tão fundo na compreensão das estruturas sociais do povo que foi
sujeito da breve mas luminosa saga da Revolução de Abril.
Como ideólogo ele tinha a capacidade muito incomum de fazer a ponte
entre a teoria e a pratica. Fazia nos recordar Marx pela maneira como do
estudo e do conhecimento profundo da história retirava conclusões
que o empurravam para a inovação.
Duas gerações de simuladores de cultura que vociferam contra
Lenine sem nunca o terem lido teimam em exorcizar Álvaro Cunhal pela sua
firme defesa do marxismo-leninismo.
Um partido revolucionário é sempre uma obra colectiva. Mas
é transparente que foi decisiva a contribuição de
Álvaro Cunhal para a transformação do PCP num grande
partido de massas preparado para assumir tarefas históricas que
não era possível prever em Abril de 74.
Lenine dizia que sem organização revolucionária não
há revolução possível. A sua teoria do Partido
combatida pelos mencheviques aparece como a coluna vertebral do
leninismo.
Obviamente, o PCP não cresceu como partido moldado pelo figurino do
partido bolchevique, tal este se apresentava na Revolução de
Fevereiro de 17. Mas o leninismo, em Portugal o fantasma que feriu a
sensibilidade de "dissidentes" e "renovadores" ansiosos por
aderir a um capitalismo "reformado" e "humanizado"
funcionou como a seiva que permitiu ao PCP manter uma organização
e uma firmeza sem as quais não poderia ter respondido a exigências
da historia. O centralismo democrático, tal com Lenine o concebia,
é infinitamente mais democrático do que os mecanismos de falsa
participação montados pelas ditaduras da burguesia de fachada
democrática.
Em artigo que escrevi para
resistir.info
e
Alentejo Popular
no 91º aniversario de Álvaro Cunhal recordei que "a grande e
generosa vaga inicial (de Abril de 74) marcada pelo espontaneísmo, teria
baixado rapidamente se o PCP não tivesse conseguido com êxito
canalizar, através de uma participação organizada, a
combatividade das massas, nas cidades, nas áreas industriais e nos
campos do Alentejo e do Ribatejo, para objectivos estratégicos que
ultrapassavam largamente as reivindicações conjunturais."
Atrevo-me a afirmar que a poderosa criatividade de Álvaro Cunhal, como
estratego se afirmou sobretudo nos anos da escalada
contra-revolucionária. Repito aqui o que então escrevi: "Se
é um facto que as grandes conquistas de Abril se concretizaram sobretudo
no breve período compreendido entre o malogro da intentona da
"maioria silenciosa" e o 25 de Novembro, cabe recordar que a tenaz
defesa dessas conquistas, quando principiou a contra-revolução,
não teria sido viável se na época uma percentagem
importante dos trabalhadores não houvesse resistido com lucidez e
firmeza à ofensiva restauradora das forças da direita tradicional
dirigida pelo Partido Socialista".
A intervenção pessoal de Álvaro Cunhal na
estruturação de um colectivo partidário mobilizado para
uma luta permanente e dificílima aparece-me como determinante naqueles
anos. A sua capacidade de estratego, servida por uma sensibilidade que lhe
permitia adoptar as inflexões tácticas indispensáveis com
uma rapidez impressionante tornou possível aquilo que desesperou sempre
o PSD e o PS: a vitalidade revolucionária do PCP como partido que num
batalhar ininterrupto havia adquirido, no quadro de uma democracia já
castrada, a estrutura e o perfil que o projectaram no mundo como paradigma de
organização que na luta utilizava como guia para a
acção o marxismo-leninismo, não com o breviário
escolástico a que fora reduzido nos países do Leste e na URSS,
mas como teoria (e praxis) criadora em permanente renovação. Tal
como Lenine o imaginara.
A atenção dedicada à morte de Álvaro Cunhal como
acontecimento atenção inseparável da ambiguidade
que caracteriza a actuação dos dirigentes da burguesia portuguesa
não pode esconder uma evidência: nenhum português
contemporâneo (com excepção de Vasco Gonçalves) foi
tão caluniado e injuriado como o ex-secretário-geral do PCP.
A sua grandeza feria os inimigos da Revolução.
Em mesas redondas aflitivas pela perversidade e mediocridade da maioria dos
analistas, falou-se muito do mito Cunhal. Aventureiros da política,
alguns ex-comunistas, esboçaram dele retratos fantasmáticos, como
se fora um actor de Hollywood ou um cavalheiro do jet set.
A vida proporcionou-me a oportunidade de trabalhar durante mais de uma
década com Álvaro Cunhal. Sempre o vi e senti como um camarada
que se assumia, no relacionamento, como alguém que não suportava
privilégios, sequer deferências especiais.
O seu talento em debates na TV, a finura no trato e a capacidade de usar o
sorriso como arma de resposta a eventuais grosserias terão
contribuído para generalizar a ideia do "sedutor".
A lembrança mais forte que conservo dos contactos com ele é a de
um camarada que estabelecia uma fronteira muito nítida entre a atitude
assumida no trabalho e a adoptada em momentos de convívio.
Álvaro era de uma extraordinária exigência, seco, a
roçar pela dureza quando o encontrava para tratar de assuntos a que
chamarei políticos. Nesses diálogos nada havia de sedutor no seu
estilo. Poucas vezes ouvi dele elogios. E não sinto enleio em revelar
que as críticas eram muito frequentes e por vezes severas. Quase sempre
justas. Não magoavam, porque, fraternais, elas eram inseparáveis
da confiança que transmitia simultaneamente no seu jeito
inconfundível.
Finda uma reunião, quando, raramente, sobrava tempo, transmutava-se e,
para mim era encantatório ouvi-lo falar de pintura, de história,
ou emitir opiniões sobre temas ideológicos que eu colocava.
A minha admiração pelo dirigente e pelo homem cresceu com o
tempo. Não foi minimamente afectada pelo seu afastamento da
função de secretário-geral.
Nos últimos oito anos, porque vivi longe do pais, só tinha a
oportunidade de o rever em breves visitas a Portugal. Visitava-o sempre na sua
casa dos Olivais. Impressionava-me a maneira serena com que assumia o
envelhecimento e sobretudo a cegueira progressiva. A última conversa
prolongada que mantivemos ocorreu na semana em que as torres do World Trade
Center, em Nova York ruíram. Recordo que Álvaro, bem informado e
muito lúcido, previu a escalada de violência e irracionalidade que
o imperialismo estadunidense iria iniciar com a agressão ao povo do
Afeganistão.
Lastimo que em Portugal, o sistema mediático que tanto o caluniou em
vida não tenha divulgado alguns dos artigos que em dezenas de
países foram dedicados ao autor de
O Partido com paredes de vidro.
Impressiona o contraste entre muitos desses textos e o tom e o conteúdo
da maioria dos depoimentos de políticos da burguesia portuguesa. Li
trabalhos sobre Álvaro Cunhal agora publicados no México, no
Brasil e noutros países da América Latina que deixam transparecer
uma profunda e comovida admiração pelo revolucionário e
pelo cidadão. Admiração que se expressa também
pela reprodução de paginas dos seus livros e de ensaios e artigos
da última fase da sua vida.
Em Portugal os comentários desrespeitosos não me surpreenderam.
Prefiro recordar artigos inesperados como o da jornalista São
José de Almeida. Sem esconder a sua posição de
anticomunista indefectível, o seu artigo sobre Álvaro Cunhal fica
como lição de dignidade oferecida a gente que viu na morte do
dirigente comunista uma oportunidade para fazer baixa politiquice.
Li textos que, sendo berros de ódio, mancharam os jornais que os
divulgaram. Os autores ficam nus na praça pelo seu primarismo.
Considero mais negativos depoimentos como os de Mário Soares e Manuel
Alegre. O primeiro toca o realejo do Cunhal que sonharia com a
implantação de uma "democracia popular" nos moldes das
existentes na Europa do Leste. E retoma, desastradamente, a antinomia
vencedor-vencido.
Mente conscientemente. Álvaro Cunhal tinha uma opinião muito
crítica sobre o funcionamento desses regimes e o trabalho neles
desenvolvido pelos partidos ali no poder. Aliás, nunca defendeu para
Portugal o partido único.
Mário Soares contempla a historia como campo de um jogo de futebol. E
claro, apresenta-se como vencedor, mirando de cima Álvaro Cunhal, o
derrotado.
Que pobreza de reflexão, para não dizer indigência!
O 25 de Novembro não foi uma vitória pessoal de Mário
Soares. Permanecerá na história como uma derrota do povo
português tornada possível pela ruptura da unidade entre o
movimento popular e a heterogénea vanguarda militar (abalada por
múltiplas divisões) que tornara possível o 25 de Abril.
É um facto que Mário Soares desenvolveu uma intensa actividade
contra-revolucionaria desde o 11 de Março, mas foi a mudança da
relação de forças na sociedade portuguesa que pôs
fim ao projecto de Abril. Ao enfeitar-se com as penas de pavão de um
vencedor exibe uma imagem bem pequenina da sua dimensão política
e humana.
Quanto ao artigo de Manuel Alegre publicado na revista
Visão
aparece como exemplo de uma atitude de desrespeito. O texto é, na
aparência elogioso. Mas a técnica é perversa. O autor
atribui a Álvaro palavras e opiniões que ele, morto, não
pode desmentir.
Quem conheceu o comunista que foi secretário-geral do PCP sabe que
algumas dessas opiniões são incompatíveis com o seu
pensamento sobre os temas em causa.
Álvaro Cunhal foi, alias, sempre avesso a confidencias políticas
e pessoais.
Nesta homenagem tão insuficiente que se destina também a leitores
estrangeiros, recordo com saudade a sua maravilhosa e raríssima
faculdade de, usando uma linguagem muito simples, acessível a qualquer
pessoa, transmitir ideias e conceitos de elevado conteúdo
ideológico.
Muitos anos passarão até que volte a nascer entre nós um
homem com a dimensão de grandeza de Álvaro Cunhal. Foi a
enterrar o maior português do século XX. Essa evidencia
não pode ser apagada. O seu grandioso funeral foi simultaneamente uma
herança carregada de lições para o Partido
revolucionário que conferiu sentido à sua existência.
Oxalá os comunistas portugueses saibam colectivamente
interpretá-las, levando-as à prática nas grandes lutas que
se esboçam no horizonte.
Serpa, 26 de Junho de 2005
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