por Miguel Urbano Rodrigues
No novelo de contradições que é o Brasil neste
início do século XXI as assimetrias sociais são um
obstáculo ao avanço da luta de massas. Existem
condições objectivas muito favoráveis para a
condenação da política actual. Mas faltam as subjectivas.
Esforcei-me, sobretudo no diálogo fraterno com camaradas do PCB no qual
militei nos anos da ditadura para acompanhar o movimento da História e
da vida no Brasil contemporâneo, em vertiginoso, permanente, quase
alucinante processo de transformação.
A reflexão sobre o que vi, ouvi, estudei nestas semanas reforçou
paradoxalmente o meu optimismo.
No início dos anos 30 do século passado, o escritor
austríaco Stefan Zweig escreveu um livro polémico, "Brasil,
país do futuro". Deixara a Europa enojado com a ascensão do
nazismo na Alemanha. Ao desembarcar no Rio e viajar pelo interior, a paisagem
humana e física que o envolveu produziu nele um efeito estranho.
Não imaginava que pudesse existir uma sociedade como aquela no quadro
tropical que o fascinou.
No Brasil em acelerado processo de miscigenação anteviu uma
humanidade distante, fraterna, sem guerras, na qual o racismo teria
desaparecido.
Essa visão romântica, retomada pelo historiador Sérgio
Buarque da Holanda com o mito do "homem cordial brasileiro", foi
rapidamente desmentida. Em plena fase da industrialização, uma
cruel ditadura militar de duas décadas mergulhou o Brasil numa atmosfera
de violência. Ali, como em qualquer outro país, no homo sapiens o
apelo da barbárie coexistia com a capacidade de realizar prodigiosas
conquistas civilizacionais.
A previsão de Zweig foi desacreditada pelo andamento da História.
Os crimes da ditadura coincidiram com um aprofundamento da
dominação imperialista e da desigualdade social. O fosso entre a
miséria e a riqueza ampliou-se além do imaginável. O
Brasil tornou-se um país de párias e milionários.
Em 1957, quando desembarquei em São Paulo, a cidade tinha 2,3
milhões de habitantes e uma única favela; ao regressar a Portugal
em 1974, após um exílio de 17 anos, a área metropolitana
da gigantesca megalopolis ultrapassara já os 10 milhões e um
gigantesco cinturão de miséria alastrava pela periferia. Hoje
são 18 milhões.
Finda a ditadura, ao revisitar São Paulo em 88, não foi
fácil ambientar-me. O conflito entre a modernidade e o arcaísmo
ampliara-se extraordinariamente. Recordei que Levy Strauss definira o Brasil
como a terra da "decadência do inacabado", impressionado pelo
ritmo das transformações capitalistas marcadas pela dicotomia
construçao-desconstruçao. O novo ali envelhece vertiginosamente
sem estar terminado.
A vida ofereceu-me a possibilidade de voltar ao Brasil com muita
frequência no último quarto de século. Ali sinto-me
brasileiro, ali deixei filhos e netos, na tradição da
diáspora portuguesa.
Foi no Brasil, participando nas lutas do seu povo, que me descobri como
revolucionário e me tornei comunista, me transformei, na aprendizagem da
breve aventura da vida, no homem que sou.
O distanciamento físico, a partir do 25 de Abril, não afectou o
amor pela terra e aqueles que a povoam.
Mas a mutação da vida nas grandes cidades brasileiras, nas
selvas, sertões e cerrados do país é tão profunda e
vertiginosa que em cada regresso sinto com força o choque do novo, do
inesperado.
Voltei agora. A convicção de que não atravessarei mais o
Atlântico terá contribuído para que
sensações, imagens e ideias entrassem em mim ora em desarrumada
invasão, ora reabrindo na memória alamedas que a poeira do tempo
fechara. Joyce e Proust foram meus companheiros em três semanas de um
reencontro com amigos e camaradas que se movem em cidades que, revisitadas, me
tocam como seres vivos em diálogos imaginários.
Uma ausência, para mim longa, de quatro anos, imprimiu a estes dias
brasileiros a marca de um tempo de revelações, porque o contacto
com o real tido por íntimo era recebido e arquivado como novo.
Caminhando por São Paulo, ao levar a minha companheira a bairros e
lugares que eu não via há décadas, senti-me muitas vezes
numa cidade desconhecida. Aquilo era simultaneamente, repito, íntimo e
novo.
MEGALÓPOLIS ALUCINATÓRIA
Por São Paulo circulam hoje 7 milhões de carros e camiões.
A cada semana milhares de veículos novos aparecem nas ruas saídos
das fábricas das grandes transnacionais do automóvel instaladas
no país. O Brasil é actualmente o quinto produtor mundial de
carros, com três milhões de unidades por ano.
Os táxis são caríssimos, os restaurantes também. O
preço dos apartamentos de qualidade é três a quatro vezes
superior ao de Portugal.
Um abismo separa na pirâmide salarial os de cima dos de baixo. O
salário mínimo é inferior ao português, mas os
parlamentares e os professores universitários de topo dois
exemplos têm vencimentos muitíssimo superiores. Os
banqueiros e gestores das grandes empresas também ganham muito mais.
O tráfego em São Paulo envolve a cidade numa atmosfera
angustiante. O quotidiano é marcado pela imprevisibilidade de
engarrafamentos monstruosos. Em algumas avenidas, os corredores reservados aos
transportes públicos geraram esperanças ilusórias. Os
rodízios também não resolveram os problemas de um
trânsito infernal até porque muitas famílias têm
três e quatro carros para fintar a proibição de circular em
determinados dias. A dificuldade para estacionar, inclusive nos parques,
é inimaginável para os estrangeiros, porque a dimensão do
desafio supera muito a das grandes cidades europeias e norte-americanas.
O gigantesco caos de São Paulo, diferente do que modela o quotidiano
das megalópolis africanas e asiáticas, assusta o forasteiro. A
sensação de quem chega é a de que aquilo não pode
continuar como está e que viver ali é um pesadelo.
Mas os bairros ricos de São Paulo superam pela modernidade e luxo, no
Jardim Europa, no Jardim América, no Pacaembú, no Morumbi, o que
no género conheço de Caracas, do México, de Nova Iorque e
Paris. Porque a grande burguesia paulista, ao invés das europeias, gosta
de exibir ostensivamente a sua prosperidade insolente, ao lado da
miséria degradante que a envolve.
Mas, passados dias, o forasteiro repensa, medita nas
contradições, hesita, tenta compreender e principia a assimilar o
lado invisível da vida. É tocado pelo feitiço brasileiro.
Os absurdos perturbam. Na grande cidade, nos espaços verdes, há
mais aves do que nas europeias. A violência, filha da desigualdade,
indigna e intimida, mas as pessoas, nas ruas, nas lojas, nos transportes,
são amáveis, cordiais. O desconhecido, ao contrário do
habitual na Europa, surge, logo no primeiro contacto, com o perfil de um amigo
potencial.
Em São Paulo como no Rio, a alegria de viver, mesmo nos bairros
degradados, em favelas imundas, paira na atmosfera, brota dos sorrisos, dos
gestos. Por mais sombrias que sejam as perspectivas do amanhã, o
paulista, como o carioca, enxerga luz no fundo do túnel, cultiva o
humor, o futuro próximo é para ele marcado pela esperança
e não pelo medo.
O debate de ideias é não apenas efervescente, mas criador. Isso
acontece no Teatro, no Cinema, na Pintura, na Arquitectura, na Literatura, nas
Ciências Sociais.
CONTRADIÇÕES
No Rio, a cintura de praias, num cenário paradisíaco, deslumbra,
é uma festa para os sentidos.
Mas à beira do Atlântico, quase subindo das areias, encastoadas em
morros verdes, crescem como cogumelos gigantescas favelas misérrimas que
exibem o rosto de uma desigualdade social afrontosa da condição
humana.
Os media internacionais dedicaram milhares de palavras à
ocupação pelo exército e pela polícia militar de
algumas das favelas mais famosas para erradicar o crime organizado e o
tráfico de droga. Houve quem acreditasse que essas
operações tinham assinalado o fim de uma era. Engano. Muitos
bandidos regressaram, o tráfico persiste com a cumplicidade dos
militares.
O crime está enraizado no submundo das favelas, povoadas de gente boa, a
dois passos dos esplendores de Copacabana e da Tijuca.
O governo de Dilma Roussef repete incansável, que a desigualdade social
está a diminuir rapidamente no Brasil. Mente. Na
estratificação de classes as clivagens são muito mais
acentuadas do que na Europa. E aprofundaram-se nos últimos anos.
O estamento superior da classe média toma como modelo os EUA. Na sede de
modernidade, na maneira de vestir, no estilo de vida, nos lazeres.
Na juventude com acesso ao ensino superior a obtenção de um
diploma confere status, mas a maioria da classe média alta manifesta um
interesse mínimo pela compreensão dos grandes problemas do
país e da humanidade. Julga-se culta, mas está distanciada da
cultura nas suas múltiplas vertentes.
Numa ronda pela noite paulista impressionou-me na Vila Madalena a
transformação da área que eu conhecera há um quarto
de século como bairro em que predominavam modestas casas de uma pequena
burguesia anémica.
Agora exibe o rosto de um Soho brasileiro, um Greenwich Village paulista. Em
bares, cafés e restaurantes, em galerias de arte onde transparece o bom
gosto, desde a fachada à decoração, convive alegremente
uma juventude para mim desconhecida.
Certamente é heterogénea. Mas, a avaliar pelo bairro e o que
sobre ele li, o interesse da brilhante Vila Madalena pela
transformação humanizada da sociedade brasileira será
escasso, para não dizer nulo.
Não era possível, com o ruído do ambiente, formar sequer
uma ideia do rumo das conversas. Porventura a crise de
civilização que a humanidade enfrenta seria assunto em algumas
mesas?
Consciente de que pertenço a outro mundo, senti que Marx, redivivo, se
por ali passasse, concluiria que o conceito de alienação, por ele
definido, mantém plena actualidade.
A LUTA DO MST
Tive a oportunidade retomar contacto com o Movimento dos Sem Terra.
Falei durante horas, num convívio familiar, com João Pedro
Stedile e outros dirigentes do MST. Duas palestras sobre a conjuntura
internacional, uma na Escola Florestan Fernandes, em Guararema, São
Paulo, outra em Santa Tereza, no Rio de Janeiro, permitiram-me durante os
debates avaliar a qualidade de quadros de diferentes Estados que demonstraram
um nível de informação elevado sobre a crise global do
capitalismo e disponibilidade para lutar contra o sistema de opressão
imperial.
A consciência de classe nos militantes do MST é uma
exigência das duras condições em que o Movimento luta pela
Reforma Agrária. Sem ela não teria sobrevivido.
Mais de quatro milhões de camponeses têm fome de terra num
país onde o latifúndio é responsável pela
existência de dezenas de milhões de hectares de terras
improdutivas.
Lula comprometeu-se no programa da campanha que o levou à
Presidência em 2002 a levar adiante a Reforma Agrária. Mas logo
esqueceu a promessa.
O latifúndio mais insolente e desumano do mundo permanece no Brasil como
ofensa aos excluídos do campo. No Norte há empresas cujas
fazendas têm a dimensão da Bélgica.
A destruição da floresta amazónica, pulmão da
humanidade, prossegue com a cumplicidade dos governos do PT. No Estado de
Rondónia a mata virgem quase desapareceu, devastada pelos plantadores de
soja e os criadores de gado. No Mato Grosso, em municípios com o de
Barra do Graças duas vezes maior do que Portugal a
situação é similar. Há meio século, quando
ali estive, era um paraíso verde; hoje a desertificação
avança em amplas áreas da bacia do Rio das Mortes e do Araguaia.
O MST cresceu amparado pelas comunidades de base ideadas pela Teologia da
Libertação.
A confiança que os seus líderes depositavam nos sentimentos
cristãos de Lula era ilusória. Em 2011,apenas 22.021
famílias obtiveram lotes em assentamentos, o que representou 51% dos
conquistados em 1995 no governo de Fernando Henrique Cardoso. O recuo
acentuou-se com a chegada de Dilma Roussef à Presidência (menos
61% do que os lotes atribuídos em 2003, na época de Lula).
Diferentemente de Fernando Henrique, Lula e Dilma não desencadearam a
repressão contra o MST. Mas ela prossegue através dos governos
estaduais, de juízes e autarcas corruptos, aliados aos terratenentes.
A organização dos assentamentos assumiu facetas de epopeia nas
vertentes social, económica e politica. O MST criou um movimento de
massas com bases sociais em todo o país, instalou escolas, forma
quadros, criou inclusive uma universidade popular.
Mas o avanço torrencial do agro-negócio, da agro-industria,
estimulado pelos governos do PT, paralisou é a palavra a
Reforma Agrária. O número de assentamentos caiu muito nos
últimos anos. Sem ajuda oficial, hostilizado pelo grande capital e pela
maioria dos partidos do sistema, o MST bate-se com a tenacidade dos gregos
antigos cantados por Homero.
Uma das suas frentes de batalha é agora a luta contra o Código
Florestal, aprovado pelo Congresso sob pressão dos grandes senhores do
latifúndio. O MST, como milhões de brasileiros, exige que a
Presidente Dilma Roussef vete esse diploma monstruoso que, a ser promulgado,
reforçaria privilégios do latifúndio e deixaria as portas
abertas para a destruição do que resta da mata amazónica.
O OUTRO BRASIL
Uma imagem distorcida da política de Lula corre mundo.
Com um estilo e um discurso diferentes, ele deu continuidade à
política neoliberal de Fernando Henrique. É uma inverdade
repito que a desigualdade social tenha diminuído durante os seus
dois mandatos. Com as suas medidas assistencialistas reduziu a pobreza e a
miséria, o que lhe garantiu uma enorme popularidade entre os
excluídos. Mas o fosso entre os de cima e os de baixo não
diminuiu, é hoje mais profundo. A estratégia
neodesenvolvimentista de Lula e da sua sucessora, ao engavetar o programa
social-democrata, favoreceu o grande capital e as transnacionais. Contou e
conta com o apoio do imperialismo, não obstante alguns aspectos
positivos da politica exterior.
O prestígio de Lula entre aquilo a que Marx chamou o lupemproletariado
tem funcionado internamente como um anestésico. Dificulta
extraordinariamente a luta contra a exploração de que os
trabalhadores são vítimas. Lula foi um sindicalista corajoso que
desafiou a ditadura, contribuindo para lhe apressar o fim. No poder neutralizou
a combatividade do movimento sindical e passou a utilizá-lo como
instrumento passivo da sua política. O controlo da principal Central
Sindical, a CUT, é hoje uma arma que o PT utiliza bem, favorecido pelo
baixo nível de consciência social da maioria dos trabalhadores,
sobretudo no Nordeste e no Norte.
No novelo de contradições que é o Brasil neste
início do século XXI as assimetrias sociais são um
obstáculo ao avanço da luta de massas. Existem
condições objectivas muito favoráveis para a
condenação da política actual. Mas faltam as subjectivas.
À passividade dos excluídos soma-se a alienação da
esmagadora maioria da pequena burguesia, sobretudo dos estamentos preocupados
apenas a com a sua ascensão social.
Neste panorama confuso, os desafios enfrentados pelas forças
revolucionários assumem extrema complexidade.
No Brasil surgiu uma intelligentsia brilhante. Das suas grandes universidades
a de São Paulo e a Unicamp, de Campinas figuram na lista das
melhores do mundo saíram nas últimas décadas
sociólogos, economistas, historiadores e cientistas políticos que
pelo valor e criatividade das suas obras conquistaram prestígio mundial.
No campo específico da política, a diversidade de
formações ideológicas traduziu-se em discursos por vezes
antagónicos e de assimilação difícil o que,
semeando a confusão, sobretudo após o tsunami que implantou o
capitalismo na Rússia, não contribuiu para a
mobilização das massas contra o sistema.
Comunista, foi sobretudo no diálogo fraterno com camaradas do PCB no
qual militei nos anos da ditadura que me esforcei para acompanhar o movimento
da História e da vida no Brasil contemporâneo, em vertiginoso,
permanente, quase alucinante processo de transformação.
A reflexão sobre o que vi, ouvi, estudei nestas semanas reforçou
paradoxalmente o meu optimismo.
Aproveitei um fim-de-semana para rever Paraty, uma cidade colonial, no litoral
fluminense, que não lembra qualquer outra por mim conhecida.
Ali era embarcado para Lisboa o ouro que descia em tropas de muares das
serranias das Minas Gerais.
Caminhando sobre lajes musgosas em ruelas belíssimas entre
casarões do século XVIII, com o pensamento navegando do passado
ao presente e no sentido inverso, a meditação sobre as pontes que
ligam o tempo morto ao tempo vivo fez-me subir à memória o
polémico livro de Stefan Zweig. A Historia, creio, vai transformar em
realidade a previsão que lhe valeu uma chuva de críticas.
Antevejo o Brasil como um país que anuncia dramaticamente a humanidade
futura.
Vila Nova de Gaia/ Abril/2012
O original encontra-se em
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