por Miguel Urbano Rodrigues
Não são já somente os cérebros da Casa Branca e do
Pentágono que se esforçam por compreender as causas do crescente
prestígio internacional do presidente da Venezuela. Cientistas sociais
das grandes universidades dos EUA estão a dedicar uma
atenção especial ao estudo daquilo que nos meios
académicos é chamado "o fenómeno Chavez".
A fulgurante ascensão do líder caribenho como personalidade
mundial perturba sobretudo os intelectuais do
establishment.
Não encontram para ela explicação satisfatória.
Nos últimos meses, Hugo Chavez adquiriu uma projecção que
transcende amplamente o quadro da revolução bolivariana. As suas
tomadas de posição projectaram-no como um líder aclamado
pelas grandes maiorias na América Latina e respeitado e admirado em todo
o Terceiro Mundo e pelas forças progressistas dos países
desenvolvidos.
O escritor australiano John Pilger, em
lúcido artigo divulgado por resistir.info
, atribui a influencia e o fascínio exercido por Chavez à coragem
e imaginação com que tem assumido a defesa de grandes causas
humanistas. Enunciou uma evidencia.
Num mundo caótico submetido a um sistema de poder imperial que promove a
violência e o terrorismo de Estado na tentativa desesperada de encontrar
solução para a crise estrutural do capitalismo, Hugo Chavez, como
presidente de um pais rico em petróleo, mas cujo povo tem vivido
mergulhado na pobreza, emerge como um revolucionário puro, desafiador,
de uma autenticidade que comove e surpreende.
O seu carisma desconcerta os inimigos. Não conseguem incluir aquele
ex-oficial pára-quedista em qualquer modelo tradicional. Pela
personalidade, formação, estilo de actuar e ideário,
Chavez é um líder atípico. De origem social modesta, muito
religioso, preconiza a transformação da sociedade no âmbito
do funcionamento e rigoroso respeito das instituições existentes.
Como arma, exibe nos seus comícios a Constituição
bolivariana. Ao assumir a Presidência citava sobretudo Cristo e
Bolívar, o seu herói tutelar.
Para frustração do império e da oligarquia crioula, as
manobras e intentonas contra-revolucionárias, em vez de o levarem a
concessões, contribuíram para o fazer avançar. Dele se
pode dizer que caminhou com a Historia.
Grande tribuno- desde o jovem Fidel Castro que a América Latina
não produziu orador comparável Chavez radicalizou o
programa e o discurso após cada derrota infligida às
forças da direita que a tudo recorreram desde o golpe militar ao
lock out petrolífero na tentativa de o derrubar, incluindo o
referendo revogatório cujo resultado confirmou um apoio popular sem
precedentes.
Como Bolívar, Chavez proclama que o Exercito deve ser o povo em armas e
que estas jamais devem ser usadas contra o povo mas sim em defesa dos seus
direitos.
Foi sem surpresa que no final do último ano, cristão mas
bolivariano, sempre muito cauteloso quando esboçava os objectivos da
revolução, imprimiu uma dimensão continental ao seu
discurso. De repente, lançou uma ponte entre as bandeiras da unidade
latino americana e objectivos concretos que a pudessem concretizar. Foi assim
que surgiram a Petrocaribe e a Telesur e adquiriu forma e ressonância o
projecto da Alba como alternativa à Alca, anexionista e imperial.
Como era inevitável, a campanha anti-Chavez adquiriu maior agressividade
e amplitude. O dirigente venezuelano, satanizado, recebe de Washington o
tratamento de inimigo numero 1 na América Latina e sobre ele chovem
calúnias e ameaças.
Não funciona essa artilharia intimidatória.
Mar del Plata configurou uma humilhante derrota imperial. Bush chegou com
modos de cônsul romano preparando o triunfo. Contava impor ali a Alca. O
desfecho foi para ele uma decepção. Regressou de mãos
vazias. Não conseguiu sequer que o tema fosse incluído na Agenda.
Na Cimeira dos povos latino-americanos, paralela à dita das
Américas, Chavez, com a sua empolgante e desafiadora
intervenção destruiu o sonho imperial. Os governos do Mercosul,
sentindo a pressão dos povos, disseram Não a Bush. O argentino
Kirchner, conseguiu que um Lula, sempre cinzento e contraditório, o
uruguaio Tabaré e o paraguaio Duarte alinhassem com a
posição de Chavez.
Em Washington a inquietação aumenta.
A hipótese de uma intervenção militar parece remota,
não obstante o Pentágono ter elaborado planos já
denunciados por Chavez no seu programa semanal "Alô
Presidente!". Os EUA estão demasiado atolados em guerras perdidas
no Iraque e no Afeganistão para se lançarem numa agressão
à Venezuela que levantaria contra eles os povos da América Latina.
O facto de Chavez ter principado a levantar a bandeira do socialismo como
alternativa à globalização capitalista reforça os
temores de Washington. Na Casa Branca e no Departamento de Estado chegaram
à conclusão de que o venezuelano é imprevisível.
Chavez não é marxista. Nele são movediças as pontes
entre o discurso, a ideologia e a praxis. Mistura concepções
idealistas com citações de Marx, Lenine, Mao e Trotski. Admira
Fidel Castro a quem o liga uma sólida amizade. Mas é transparente
que o seu projecto de transformação da sociedade não se
inspira no cubano.
O que define bem a excepcionalidade da revolução bolivariana
é precisamente a sua originalidade. Não há precedente para
um processo de mudança social como o venezuelano que desafia a
lógica da história.
Lenine afirmava que não há revolução vitoriosa sem
partido revolucionário preparado para a levar adiante. Ora, na
Venezuela, desenvolve-se há meia dúzia de anos um processo que,
tendo principiado com a eleição para a Presidência de um
militar cristão e o esmagamento dos partidos da burguesia, se encaminhou
para uma confrontação explosiva com o imperialismo. Com a
peculiaridade de que não existia partido de massas revolucionário
nem foi ate hoje possível estruturá-lo apesar dos esforços
empreendidos nesse sentido. A pessoa do líder tem funcionado como o
factor decisivo para a concretização das medidas
revolucionárias e a sua defesa.
Essa é a fragilidade maior da revolução bolivariana: a
dependência de um dirigente carismático. Como mobilizador das
massas oprimidas pelo sistema capitalista, ele cumpre a função do
partido revolucionário inexistente. Nem o Movimento V Republica, nem os
Círculos Bolivarianos, nem as missões puderam na sociedade
venezuelana assumir harmoniosamente as tarefas da organização
revolucionaria. O mobilizador colectivo é Hugo Chavez.
As condições objectivas para uma ruptura com o sistema existiam
há muito. O Presidente tudo faz para criar as subjectivas,
substituindo-se à inexistente organização
revolucionária.
Chavez não emerge como os tradicionais líderes messiânicos.
E a sua desambição contribui para a projecção
continental alcançada. Numa América Latina efervescente, na qual
os povos recusam o neoliberalismo, o discípulo de Bolívar,
empunhando o estandarte da unidade das nações conquista a
confiança das massas, identifica-se com as suas aspirações
e angustias, e consegue o mais difícil. Ao enfrentar o imperialismo como
somente noutro contexto Fidel o fez, demonstra, pela palavra e
pela acção que se pode seguir, com dignidade, um caminho
próprio, resistindo às ameaças e
conspirações do gigante norte-americano.
Hugo Chavez tem consciência de que caminhou muito desde que entrou no
Palácio Miraflores. Assume os erros cometidos e sabe que incidirá
noutros.
Já o ouvi criticar entre companheiros por ter declarado ser amigo do
emir do Qatar e afirmado que Gorbatchov foi sincero ao dizer que pretendia com
a perestroika fazer regressar a URSS às origens do leninismo. Esses
desabafos insólitos são inseparáveis da sua personalidade
fascinante mas contraditória e de lacunas transparentes na sua
formação ideológica. Terá ido, por exemplo, longe
demais ao qualificar o presidente Fox (ex presidente da Coca Cola) como
"cachorro do imperialismo" ao apresentar-se em Mar del Plata como
defensor e porta-voz da Alca.
Mas os erros de Chavez não podem tapar a realidade: este soldado
venezuelano, desconhecido antes do primeiro brado de rebelde que o levou
às prisões de Carlos Andres Perez, aparece hoje no grande palco
da história como o revolucionário que empolga e mobiliza
milhões de latino americanos contra o imperialismo. Pela palavra e pela
acção ele aponta o caminho da luta e da resistência.
Serpa, 20/Novembro/2005
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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