Apontamento sobre a metamorfose de Pacheco Pereira
por Miguel Urbano Rodrigues
O 4º tomo da biografia política de Álvaro Cunhal é
[1]
, como os anteriores, uma obra semeada de contradições. É
entretanto indiscutível que Pacheco Pereira realizou um importante
trabalho de investigação, sem precedentes no tocante ao tema.
Contém erros, deturpações, omissões, juízos
de pessoas e análises (para mim inaceitáveis) de acontecimentos
históricos. Umas vezes por atribuir crédito a fontes que o
não justificam, outras por insuficiente ou deficiente
informação, como sucede nomeadamente com a posição
do PCP face à guerra colonial e o muito importante trabalho
político desenvolvido pelos antifascistas exilados no Brasil.
O 4º tomo da obra biográfica que Pacheco Pereira dedicou a
Álvaro Cunhal recebeu da intelectualidade burguesa um coro de elogios
muito superior ao que ela dispensara aos anteriores.
Uma nota prévia sobre o autor.
Conheci-o em casa de Manuel Sertório, em 1975. Apresentou-o como um
estudioso do marxismo muito talentoso. Estava ligado a uma
organização maoista, o PCPML, e era ainda quase desconhecido fora
do Porto.
Reencontrei-o quinze anos depois na Assembleia da Republica como líder
da bancada do PSD. Tinha trocado o maoismo pelo partido de Sá Carneiro
no qual ascendeu rapidamente como estrela. Muitas das suas
intervenções destilavam anticomunismo.
A sua metamorfose fora rápida e complexa. O admirador de Mao, Marx,
Lenin e Ho Chi Minh tinha aderido no final dos anos 80 ao PSD e assumira como
seu deputado a defesa e apologia do liberalismo rotulado de social-democracia.
Mas não era, ao contrário de outros companheiros da sua bancada,
um parlamentar truculento.
Na Assembleia da Republica, mantivemos relações frias, mas
corteses. Recordo que, para surpresa minha, contribuiu para viabilizar a ida a
Cuba de uma delegação multipartidária da Assembleia que
foi a primeira de um parlamento europeu a visitar a Ilha revolucionária.
Nos últimos anos, apos ter regressado a Portugal depois de
renunciar ao seu mandato de deputado no Parlamento Europeu passou a
criticar com dureza o governo de Passos Coelho-Portas, condenando como negativa
a sua política de austeridade. Mas permanece no PSD como militante.
É dos intelectuais da direita que conheço o mais inteligente e
culto.
CONTRADIÇÕES
O 4º tomo da biografia política de Álvaro Cunhal é,
como os anteriores, uma obra semeada de contradições, algumas de
compreensão difícil.
Os primeiros capítulos incidem sobre o esforço de AC para
reorganizar o Partido apos a fuga de Peniche. A clandestinidade rigorosa em que
viveu, mudando repetidamente de residência, não o impediu de
desenvolver uma atividade intensa, orientada prioritariamente para o combate ao
desvio de direita que caracterizara a estratégia do PCP sob a
direção de Fogaça.
Pacheco evoca os acontecimentos do ano 60 na perspetiva de historiador. Recorre
aliás às Obras Escolhidas para as transcrições de
textos de AC.
Essa tentativa de objetividade transparece nas páginas dedicadas
à instalação de AC em Moscovo, em 61, ao seu trabalho
politico na URSS e à sua vida familiar ali.
Pacheco Pereira, para escrever a sua biografia política de AC,
terá tido acesso a documentos desclassificados dos Arquivos
Soviéticos. Daí a minucia e o volume da informação
sobre os contactos de AC com as mais destacadas personalidades do PCUS.
Transcorrido apenas um ano, já era um dos dirigentes comunistas
estrangeiros mais respeitados e admirados pela hierarquia do Estado e do
partido soviéticos. O
Pravda
e outros órgãos da imprensa soviética publicavam com
frequência artigos seus e a televisão e a radio abriram-lhe as
portas.
Utilizando um passaporte checo, pôde visitar as democracias populares do
leste europeu, reforçando as relações do PCP com os
partidos da RDA, da Polonia, da Hungria, da Bulgária, da Roménia
e da Checoslováquia. Em Praga instalou membros influentes do PCP em
tarefas internacionalistas.
Fica transparente para os leitores que Pacheco, superando antagonismos
ideológicos, sente uma admiração grande por Álvaro
Cunhal, pela sua inteligência fulgurante, pela profundidade do seu
conhecimento do marxismo-leninismo, pela seriedade no respeito dos
compromissos, pelo rigor com que aplicava a teoria à prática, e
também pela amplitude da sua cultura humanista, pela sua enorme
capacidade de trabalho e uma abertura à arte pouco comum na URSS que
naqueles anos acusava ainda a herança pesada do jdanovismo.
O conhecimento dos clássicos do marxismo é identificável
no discurso de Pacheco e na sua escrita, diferentes do habitual nos
políticos anticomunistas.
Reservado no tocante à sua vida privada, mesmo em conversas com os
camaradas mais íntimos, Álvaro Cunhal refere Pacheco
Pereira mais de uma vez tinha um amor profundo pela filha, Anita, e
aproveitava as férias para a visitar na Roménia onde ela vivia
com a mãe.
Não é porem surpreendente que os intelectuais da burguesia,
incluindo escritores da direita, tenham recebido com entusiasmo este 4º
tomo da biografia política de AC.
Essa atitude não seria possível se o autor do livro, em muitos
capítulos, não deturpasse acontecimentos políticos
importantes, atribuindo a Álvaro Cunhal comportamentos, atitudes e
até opiniões incompatíveis com o seu pensamento, caracter
e mundividência de comunista.
O confuso capítulo relacionado com conflitos que precederam a
instalação em Argel da Frente Portuguesa de
Libertação Nacional-FPLN, como prólogo de cisões
que golpearam a oposição antifascista, deforma ostensivamente a
realidade.
Pacheco não esconde aliás simpatia e antipatia por alguns dos
participantes em acontecimentos que envolveram o general Humberto Delgado. Nos
capítulos em que aborda o tema do choque URSS-China e os seus reflexos
no movimento comunista internacional e a vaga de anti sovietismo que
então irrompeu, Pacheco Pereira, que é sempre benevolente nas
referências aos ex-comunistas portugueses que posteriormente se
deslocaram para a direita (como Silva Marques e o Chico da CUF), concede
espaço e atenção a intelectuais camaleónicos como
Manuel de Lucena (que anos depois elogiaria os coronéis gregos).
O tom de seriedade que se esforçou por imprimir ao texto é
prejudicado por afirmações grotescas como o disparate calunioso
de que a PIDE e o KGB trocavam presentes.
Mas é sobretudo no tratamento dos acontecimentos de 1968 na
Checoslováquia que Pacheco Pereira abandona a postura de historiador.
Deturpa a atitude de Álvaro Cunhal, atribui-lhe hesitações
imaginárias perante a grave crise gerada pela entrada na
Checoslováquia das tropas do Tratado de Varsóvia, crise que
abalou então o movimento comunista internacional e assinalou o
início da social-democratização do PCI, do PCF e do PCE.
Citando opiniões de gente sem credibilidade, insinua que Álvaro
Cunhal sentiu inicialmente muita simpatia por Alexandr Dubcek.
É uma inverdade. Julgo útil recordar que Dubcek, alguns anos apos
a desagregação da URSS, quando a Rússia era já uns
país capitalista, declarou em entrevista a um jornal francês
de Grenoble, se a memória não me atraiçoa
que nunca se sentiu marxista. Confissão esclarecedora do aventureirismo
e da ambição de um político que foi
secretário-geral do Partido Comunista da Eslováquia e, depois, do
Partido Comunista da Checoslováquia.
Os ataques a Álvaro Cunhal de Flausino Torres e de outros portugueses
residentes na Checoslováquia, que na época eram membros do PCP,
merecem atenção especial de Pacheco Pereira, que evoca com
simpatia a adesão desse grupo à chamada "Primavera de
Praga".
Recordo que a incompatibilidade de Dubcek com o socialismo não
pôde mais ser negada quando Ota Sik o seu super ministro da
Economia em conferências em capitais do Ocidente teceu tais
elogios ao capitalismo que até John Kenneth Galbraith o denunciou como
político reacionário.
A GUERRA COLONIAL
O capítulo sobre a Guerra Colonial e a atitude do PCP perante a luta dos
Movimentos de Libertação é aquele em que Pacheco Pereira,
independentemente do seu posicionamento, revela, por erros cometidos e
omissões, a insuficiência das informações de que
dispunha sobre o tema.
Fica óbvio que desconhece o importante papel que as
organizações da oposição democrática
portuguesa do Brasil desempenharam na luta contra o fascismo, nomeadamente na
solidariedade com os movimentos de libertação africanos.
Faz uma referência breve ao jornal
Portugal Democrático
e lembra que foi no Brasil que a
A Questão Agrária em Portugal
foi editada pela primeira vez. Cita com frequência a luta dos exilados
portugueses em França e noutros países, mas ignora a
dimensão do combate da diáspora portuguesa antifascista do Brasil.
Sem consulta à coleção do
Portugal Democrático
unitário, mas dirigido por um coletivo de comunistas
não é possível avaliar o significado e importância
desse trabalho. O jornal foi durante anos o polo aglutinador da
resistência da oposição antifascista em diferentes
países da América, do Canadá à Argentina.
A edição da
Resistência em Portugal,
da
Questão Agrária em Portugal,
de
Angola Cinco Seculos de Colonização Portuguesa
(de Américo Boavida),
A Guerra em Angola
(de Mário Moutinho de Pádua) partiu de iniciativas da
organização do PCP em São Paulo, coordenadas com o
Comité Central do Partido. Centenas de exemplares desses livros foram
introduzidos clandestinamente em Portugal.
Uma dessas iniciativas alcançou repercussão mundial: o Memorando
que as organizações de seis países do Continente Americano
enviavam todos os anos à Assembleia Geral da ONU, denunciando os crimes
do fascismo e exigindo o fim da guerra colonial.
Tendo, inicialmente, como primeiros signatários o general Humberto
Delgado e Rui Luis Gomes, esse Documento, era reproduzido por grandes jornais
da América. Incomodava tanto o fascismo que o embaixador de Salazar em
Washington promoveu uma conferência de imprensa no Waldorf Astoria de
Nova York para tentar responder ao memorando.
Álvaro Cunhal acompanhou sempre todas essas iniciativas.
Contrariamente ao que aconteceu em França, na Itália, e noutros
países da Europa Ocidental, o
Portugal Democrático
e a Unidade Democrática Portuguesa, organização que
desempenhou um papel importante na divulgação de documentos sobre
a guerra colonial e lutas em Portugal, permaneceram imunes ao vírus do
esquerdismo.
Na oposição portuguesa surgiram como era inevitável
problemas e conflitos pessoais, mais notórios apos a chegada ao Brasil
de Humberto Delgado e Henrique Galvão, mas não resultaram de
tensões no Movimento Comunista Internacional. O Partido Comunista do
Brasil, inicialmente maoista, e as organizações brasileiras que
preconizavam a luta armada, sob a forma da guerrilha rural ou da guerrilha
urbana, não conquistaram adeptos entre os antifascistas portugueses. As
clivagens que afetaram a unidade de ação tiveram
motivações diferentes. A queda de Salazar da cadeira e o advento
de Marcelo Caetano contribuíram para que se distanciassem do
núcleo do
Portugal Democrático,
recusando participar em ações unitárias com o PCP, entre
outras personalidades, o comandante Sarmento Pimental e os jornalistas Vitor da
Cunha Rego e Paulo de Castro. O marcelismo foi uma fonte de ilusões e o
discurso de Mário Soares nas suas visitas a São Paulo atraiu para
o Partido Socialista exilados seduzidos pela chamada democracia representativa.
Mas não houve agressividade, nem criticas ao PCP nesse distanciamento.
A INDEFINIÇAO ATUAL DE PACHECO PEREIRA
Os reparos críticos ao livro de Pacheco Pereira não afetam a
minha convicção de que este 4º tomo da sua ambiciosa
biografia do dirigente comunista reflete uma evolução positiva da
sua posição perante o PCP. Creio que a mudança resultou do
fascínio que sobre ele exerce Álvaro Cunhal, numa estranha
relação amor-ódio.
Registo que, não obstante erros, deturpações,
omissões, juízos de pessoas e análises (para mim
inaceitáveis) de acontecimentos históricos Pacheco Pereira
realizou um importante trabalho de investigação, sem precedentes
no tocante ao tema.
Sou levado a uma conclusão de cariz especulativo. O seu absorvente
interesse pela vida, personalidade e obra de Álvaro Cunhal terá
contribuído para um distanciamento progressivo do ideário que
durante anos o fez porta-voz no PSD de uma estratégia contra
revolucionária.
Pacheco Pereira não abdicou de uma postura anticomunista, da sua
tolerância perante o imperialismo, e de um anti sovietismo exacerbado.
Mas, a sua incompatibilidade com a política reacionária do PSD, a
sua reflexão sobre a obra devastadora de Passos, Portas, Maria Luis e
quejandos, e as consequências trágicas da "austeridade",
empurraram-no gradualmente para críticas lucidas e cada vez mais
profundas ao calamitoso desgoverno que estava a destruir o pais.
Os seus artigos em jornais e revistas, as suas entrevistas e
intervenções em mesas redondas da TV são hoje globalmente
positivos.
Não está próximo de uma rutura com o sistema. Mas
contempla-o agora com um olhar muito diferente. Como historiador e
académico.
Não sinto a tentação de prever o rumo de José
Pacheco Pereira. O político e o intelectual aparecem-me como
imprevisíveis pelas suas contradições e
indefinições.
Tive o privilégio de trabalhar com Álvaro Cunhal durante uma
dúzia de anos. O livro de Pacheco Pereira, apesar do muito de que
discordo, contribuiu para aumentar a minha admiração pelo
comunista e pelo homem.
14/Janeiro/2016
[1]
Álvaro Cunhal, uma biografia política
, Temas e Debates, 2015, 480 p., ISBN: 9789727598052
O original encontra-se em
www.odiario.info/?p=3888
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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