A contra utopia de Huxley e o seu pessimismo
por Miguel Urbano Rodrigues
Admirável mundo novo
será talvez a mais conhecida obra de Aldous Huxley. Nela descreve uma
sociedade contra-utópica, esvaziada de verdadeira humanidade. A
burguesia tentou interpretá-la como uma expressão de
anticomunismo, opinião que Huxley nunca confirmou. O seu pessimismo
é de outra ordem. E é o imperialismo, nas suas diferentes formas
de dominação actuais e na sua agressividade global, aquilo que a
ficção huxleyana pareceu antecipar.
Foi há quase 70 anos.
Caíram-me nas mãos dois livros de Aldous Huxley:
Contraponto
[1]
e
Admirável Mundo Novo
[2]
. Devorei-os em poucas semanas.
A II Guerra Mundial terminara há pouco. O choque provocado pelas
hecatombes nucleares de Hiroxima e Nagasaki abalara a Humanidade.
Tensões inesperadas anunciavam o início de uma guerra diferente:
a chamada Guerra Fria.
Percebia-se que findara uma época e que o mundo ia mudar. Mas os
contornos daquilo que se pressentia surgiam envolvidos numa neblina
impenetrável.
Eu tinha 20 anos. Os romances de Huxley eram diferentes de tudo o que havia
lido. Mergulharam-me em estado de choque e profunda meditação.
Reli-os agora.
Não esqueci que tinha acompanhado em São Paulo uma
conferência de Huxley em 1958 quando ele visitou o Brasil. Estava quase
cego e sabia que o seu corpo principiara a ser destruído pelo cancro que
o mataria. A assistência tinha direito a perguntas e eu fiz uma.
Disse-lhe que o admirava muito, mas que não compartilhava o seu
pessimismo sobre o futuro da humanidade. Ele respondeu que era pessimista num
patamar do pensamento, mas otimista noutro. Confesso que não conseguia
enxergar o seu otimismo.
CONTRAPONTO
Sinto dificuldade em recordar o que senti ao ler
Contraponto
pela primeira vez. Ficaram gravados na memória os nomes das principais
personagens. Durante dias pensei nelas, vivi com elas, atravessando as
barreiras que separavam a sociedade do Portugal provinciano dos anos 40 da
burguesia intelectual da Inglaterra da década anterior.
A leitura de
Contraponto
suavizou, recordo, o mal-estar provocado pela contra utopia do
Admirável Mundo Novo.
Não há uma estória no livro. É um romance
praticamente sem ação. Nele o importante é o discurso das
personagens. Foi escrito em 1926 e publicado dois anos depois. As personagens
foram criadas para transmitir ideias, mas não é um romance de
tese. O autor expõe mundividências e reflexões muito
diferentes, com frequência incompatíveis, mas não toma
partido.
Duas obras musicais clássicas uma de Bach, a outra de Beethoven
chamam a atenção na narrativa como fundo sonoro de alguns
capítulos. Daí o título do romance,
Contraponto,
uma figura musical.
As personagens, intelectuais e artistas, são mostruário da
época de transição posterior à I Guerra Mundial,
anos em que na Inglaterra a vontade de mudança se chocava com
resistências muito fortes de uma sociedade conservadora, qualificada por
Rudyard Kipling como "raça de senhores".
Huxley descreve bem esse estranho zoo humano, que vai tomando forma pelo que
diz e não pelo que faz, porque repito o livro carece de
ação. Para o criar inspirou-se em destacadas personalidades da
época.
Mark Rampion, escritor e pintor, teria, segundo a crítica, como fonte de
inspiração David Herbert Lawrence. Phiip Quarles é um
intelectual, que ama a solidão, contemplativo, que seria o autorretrato
do próprio Huxley. A sua mulher, Elinor, resiste ao fascínio que
sobre ela exerce um político truculento, Webley, apontado por alguns
como uma caricatura de Oswald Mosley, o fundador da British Union of Fascists.
Walter Bidlake, um jornalista, engravidou uma amiga casada, mas está
apaixonado por Lucy Tantamount, beldade filha de um lord. Este e Lucy surgem
como "cópias" de uma poetisa famosa e de um cientista
também célebre, John Haldane, amigo de Huxley.
São apenas algumas das muitas personagens que, ao longo de centenas de
páginas, transmitem ideias que Huxley acredita contribuírem para
a compreensão de uma época de mudança acelerada rumo ao
desconhecido. Relendo hoje
Contraponto,
sinto que não atingiu o objetivo. Como leitor, identifico no conjunto
díspar não mais do que um retrato magnífico da elite
intelectual de uma classe social a burguesia inglesa dos anos 20 do
seculo passado cuja reflexão sobre a vida e o mundo era
tipicamente insular e foi desmentida pelo caminhar da História.
Sinto-me incapaz de encontrar resposta para uma pergunta: por que foi muito
importante para mim
Contraponto
há setenta anos?
Recordando, concluo que contribuiu para atrasar a minha tomada de
consciência dos problemas sociais do Portugal oprimido pelo fascismo.
UM GENTLEMAN ATÍPICO
Nascido numa abastada família aristocrática de intelectuais e
cientistas, Aldous Huxley foi educado nas melhores escolas da Inglaterra
pós vitoriana, ao tempo senhora do maior império que a
História regista.
O avô, Thomas Huxley, foi um biólogo célebre, íntimo
de Darwin; os irmãos, Julian Huxley e Andrew Huxley (Premio Nobel de
Fisiologia e Medicina) foram também cientistas famosos.
Na juventude, Aldous construiu amizade sólida com Bertrand Russell e DH
Lawrence.
Viajante infatigável, viveu na Itália ainda jovem quando
Mussolini implantou ali o fascismo. Essa experiencia, segundo alguns
críticos, contribuiu para a decisão de escrever o
Admirável Mundo Novo,
a contra utopia que o guindou aos píncaros da fama literária.
Redigido em apenas quatro meses, esse romance terá sido sobretudo
inspirado como ele esclareceu muitos anos depois por
Nous autres
[3]
, uma deslumbrante novela de ficção científica do russo
Yevgeny Zamyatin.
Inadaptado à vida na Inglaterra, Huxley fixou residência nos
Estados unidos em 1937. O cinema fascinava-o e escreveu na Califórnia o
roteiro de filmes inspirados em livros seus.
Nessa fase da vida consumiu drogas, sobretudo a mescalina e o LSD. Fez essa
opção, muito criticada, para estudar os efeitos dos
alucinogénios sobre a mente humana, porque acreditava que ampliavam as
potencialidades criadoras do cérebro. Mas nunca foi dependente.
Morreu em Los Angeles aos 69 anos, cego e tendo perdido a voz, no auge da
glória literária, inseguro quanto ao julgamento do significado da
sua contra utopia, alvo de muitas interpretações
contraditórias.
Para os intelectuais anticomunistas, o
Admirável Mundo Novo
é uma denúncia do estado que tomava então forma na jovem
União Soviética, um libelo contra o comunismo e uma apologia da
liberdade individual.
Não perfilho a opinião. Huxley, que eu saiba, não se
pronunciou alias sobre o assunto.
Historiadores e críticos literários prestigiados lembram que em
1931, quando escreveu o
Admirável Mundo Novo,
a sociedade soviética ainda refletia a imagem da geração
que conduzira à vitória a Revolução humanista de
Outubro e o país gozava de enorme prestigio entre a intelectualidade
progressista europeia.
SOBRE O
ADMIRAVEL MUNDO NOVO
Como obra literária, o
Admirável Mundo Novo (Brave New Word
no original inglês) é, pela estrutura, um romance mal
construído, sem a qualidade do livro de Zamiatyn. O segredo do seu
êxito é inseparável da originalidade do tema, novidade
absoluta.
Logo no prólogo, o leitor é arrastado para uma sala onde
são produzidos seres humanos num laboratório. A
procriação animal, há muito proibida, foi
substituída pela fecundação in vitro.
Os bebés desenvolvem-se em incubadoras que desde o início os
condicionam para uma integração harmoniosa, submissa, na
sociedade em que vão viver. Nela não há conflitos, sequer
tensões sociais.
É uma sociedade de castas, hierarquizada. No topo os alfas, seguem-se as
betas, os deltas, os gamas. Em baixo os ipsílones, disformes, pequenos,
feios, escravos de novo tipo. Mas todos são felizes, programados para
realizarem trabalhos diferenciados e aceitarem com alegria a sua casta.
O sexo é livre, sem fronteiras, todos pertencem a todos. Mas o amor
é encarado como aberração do passado. A literatura
limita-se à apologia da civilização perfeita, implantada
na Terra apos uma guerra apocalíptica que destruiu a antiga sociedade,
recordada como época de barbárie. Os livros de Shakespeare e de
todos os clássicos foram destruídos, apagados da memória
da nova humanidade.
A música é sintética, o cinema, a pintura, a escultura
concebidos para não provocar emoções.
A família como instituição desapareceu com o fim da
procriação animal. Mas as relações
monetárias sobreviveram, embora a sua função seja outra.
Veículos coletivos cruzam oceanos e continentes em tempo mínimo.
Helicópteros e carros individuais conduzem os alfas e os betas dos
locais de trabalho aos gigantescos edifícios onde residem, cada um no
seu apartamento.
Uma droga maravilhosa, o soma, tomada em comprimidos, é remédio
mágico contra tendências depressivas, mergulha as pessoas num
olimpo de felicidade artificial.
Os alfas e betas, castas superiores, têm apelidos estranhos que recordam
personalidades do mundo antigo: Marx, Trotsky, Napoleão, Engels,
Rothschild, Bakunin, etc.
Na cúpula da casta dominante, um núcleo de super-alfas governa a
Terra e é responsável pelo bom funcionamento do sistema. A sua
excecionalidade é assinalada pelo título de Sua Forderia, porque
a lembrança de Ford permanece quase divinizada.
Deus desapareceu, tornou-se desnecessário, porque a morte não
é temida.
Um ser genial, o Benfeitor, vela pela felicidade coletiva.
No sudoeste da América do Norte, onde existiram os Estados Unidos,
alguns milhares de homens e mulheres primitivos vivem em Reservas que podem,
com autorização especial, ser visitadas por alfas e betas em
férias.
Bernard Marx, um alfa invadido por dúvidas e interrogações
sem resposta supostamente por um defeito de fabrico visita, com
uma beta, Lenina, uma dessas Reservas.
Aí encontram Linda e seu filho John, cujo pai, um super alfa,
administrador influente, o gerou à moda antiga sem tomar sequer
conhecimento do crime.
Marx traz Linda e John consigo, no regresso a Londres.
A última parte do livro é dedicada ao choque de John, o Selvagem,
com uma sociedade que gradualmente lhe inspira repugnância. O Selvagem
persegue o amor puro, e a diferença entre os humanos, é
romântico, leu obras de Shakespeare num velho livro encontrado na
Reserva. Sente necessidade de Deus. O nojo que o invade é tão
insuperável que, isolando-se num farol, se suicida.
Em 1958, Huxley, já muito doente, escreve e publica
Regresso ao Admirável Mundo Novo
[4]
.
É uma serie de ensaios em que sublinha, com um sentimento de angustia,
que, transcorrido pouco mais de um quarto de seculo, muitas das
previsões da sua contra utopia estavam a ser concretizadas pelos
progressos da ciência e a desumanização da vida. Atribui
essa evolução assustadora às armas nucleares, ao aumento
galopante da população do planeta e à
superorganização das sociedades industriais do mundo
contemporâneo. Cita repetidamente Hitler num capítulo da obra.
O complexo industrial militar criado pelas gigantescas transnacionais do
armamento tinha atingido tamanho poder nos EUA que Eisenhower o denunciou como
um perigo. Mas muita agua correria pelo Hudson até que a engrenagem de
poder tivesse condições para impor à Casa Branca uma
política belicista, inseparável de uma cadeia de guerras de
agressão, erigindo o terrorismo de estado em instrumento de
ação de uma estratégia de dominação
planetária que exige na prática a alienação e
robotização de uma humanidade com afinidades com a descrita no
famoso romance huxleyano.
Em o
Regresso ao Admirável Mundo Novo,
o pessimismo de Aldous Huxley é inocultável.
04/Janeiro/2016
[1]
Contraponto
, Aldous Huxley, ultima edição portuguesa, Livros do Brasil, 2007
[2]
Le Meilleur des Mondes
, Aldous Huxley, Plon, Paris
[3]
Nous autres
, Yevgeni Zamyatin, escrito em 1920, foi editado pela primeira vez em 1929 pela
Gallimard, em França. A mesma editora lançou uma nova
edição em 1971
[4]
Regresso ao Admirável Mundo Novo
, Aldous Huxley, Editora Antígona, 2014, Lisboa
O original encontra-se em
www.odiario.info/?p=3879
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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