por Miguel Urbano Rodrigues
Declarações abstrusas de Mário Soares e do Presidente da
Republica aqueceram o frio quadro político português no
período final da quadra festiva.
Ambas vão pesar negativamente na campanha eleitoral, pela
confusão criada.
O primeiro descobriu subitamente que o Pais não poderá sair da
actual crise sem "um governo de salvação nacional!". O
segundo enxerga a salvação numa reforma do sistema eleitoral que
"permita a estabilidade", através de maiorias absolutas. Por
outras palavras, descobriu as virtudes democráticas do bipartidarismo.
Não compartilho o espanto da maioria dos analistas políticos.
Identifico em Mário Soares e Jorge Sampaio dois políticos
empenhados, com níveis de consciência diferentes e discursos
também diferentes, na defesa de um sistema de exploração
que na juventude criticaram, mas ao qual se sentem umbilicalmente ligados: o
capitalismo.
Mário Soares, pelas suas piruetas, apresenta uma trajectória
mais sinuosa, e embora não se lhe conheça uma só obra
séria (os seus livros são, no terreno do pensamento, antologias
de lugares comuns) de criatividade ideológica, adquiriu como
político notoriedade internacional por ser um comunicador e projectar a
imagem do dirigente que pôs fim à Revolução
Portuguesa.
Dele têm sido traçados perfis contraditórios que sugerem um
percurso desconcertante que resultaria de ao longo da vida o seu corpo haver
sido habitado por seres diferentes e ate incompatíveis.
Não o vejo assim. As contradições são aparentes.
A ultima metamorfose, posterior à agressão dos EUA ao povo
iraquiano, impressionou muita gente. Mário Soares, que nunca havia
condenado a estratégia imperial de Washington e, como primeiro
ministro e Presidente da Republica, se comportara sempre como um aliado
dócil de sucessivas administrações norte-americanas,
apresentou-se inesperadamente como um critico duro de George Bush e da sua
política criminosa.
É inegável que os efeitos dessa tomada de posição
foram positivos. O mesmo ocorreu com a atitude assumida por Freitas do Amaral,
não obstante a reflexão crítica deste sobre as
consequências da estratégia irracional dos EUA ser muito mais
elaborada e profunda do que a do fundador do Partido Socialista.
Não faltou quem interpretasse como guinada à esquerda a
condenação por Mário Soares do genocídio iraquiano
e os seus alertas sobre os perigos para a humanidade de um neoliberalismo
globalizado que a pode levar ao abismo. Houve quem estranhasse também
a sua súbita defesa de alianças à esquerda do PS.
Alguns dos comentadores de serviço na TV e nos jornais não
hesitaram em falar de um "regresso às origens". Não
cabe entrar no tema das origens de Mário Soares nem comentar as
consequências nefastas das alianças que fez quando no poder.
O que se me afigura útil, sim, é lembrar que nas suas
oscilações pendulares de superfície, Mário Soares
somente preconizou aproximações com forças progressistas
consequentes -- nomeadamente o PCP -- em situações
históricas em que estas não dependiam dele.
Em momentos cruciais do processo revolucionário iniciado em Abril, a
sua posição foi outra. No governo, mais tarde, fechou sempre a
porta a acordos que traduzissem a vontade de mudança do povo, expressa
nas urnas, ao levar à Assembleia da Republica uma maioria de deputados
do PS e do PCP. Não hesitou então em aliar-se primeiro com o
CDS, depois com o PSD.
A perda da memória é sempre negativa na história dos
povos.
As criticas a Bush de Mário Soares não devem fazer esquecer que
a sua opção ideológica de fundo permanece inalterada.
O general Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal, personagens que deixam
marcas na história profunda do nosso pais, caracterizaram com rigor e
serenidade em livros importantes o papel negativo que Mário Soares
desempenhou na contra-revoluçao portuguesa.
Por si só, a amizade assumida do ex-presidente com Frank Carlucci
é bem mais esclarecedora da sua ideologia e atitude perante a
história do que as suas críticas de circunstancia à
extrema direita bushiana.
Recordo aqui, apenas, o que Mário Soares respondeu à TSF
[1]
quando, depois de afirmar que Álvaro Cunhal não merecia a Ordem
da Liberdade, defendeu a entrega de uma condecoração ao
ex-director da CIA.
Nesse dia, o 26 de Abril de 1997, ao jornalista com quem falava disse entre
outras enormidades, que "o Carlucci bateu-se pela liberdade (...) e os
comunistas que vivem em total liberdade devem um pouco esse facto ao
contributo que Carlucci deu para isso".
Sem comentários.
Poderá alguém estranhar que o admirador do "trabalho"
realizado por Carlucci em Portugal, venha agora a público (enquanto faz
criticas a Bush) lançar um apelo para a formação daquilo a
que chama "um governo de salvação nacional", o que na
prática seria a renovação da santa aliança que
ele, Mário Soares, cimentou com a direita nos anos em que concebeu e
comandou a ofensiva contra as conquistas de Abril?
Diferentes são as máscaras que Mário Soares utiliza. Mas,
sob elas, o político do sistema não muda.
De algum modo a necessidade de protagonismo do actual Presidente da Republica
levou-o, agora, a debitar asneiras que funcionam como complemento da
opção de Mário Soares por um governo de
"salvação", obviamente reaccionário. Em
vésperas de um período eleitoral, a apologia do bipartidarismo
confirma a caminhada para o direita de um pequeno político que na
juventude julgou ser de "esquerda". Já ouvi qualificar
Jorge Sampaio de Carmona do século XXI. Não me parece adequado
o paralelo. O actual Presidente faz-me pensar num misto de Acácio e
Abranhos.
Não me preocupa, entretanto, pelo tamanho do disparate, a sua fome de
reformas que conduzam a "maiorias absolutas".
As ideias salvadoras de Mário Soares encerram maiores perigos, porque
esse camaleão experiente continua a confundir gente ingénua.
Como comunista, desejo que o povo português conduza ao Parlamento muitos
deputados do meu partido, para que o utilizem como tribuna de combate ao
sistema vigente, uma ditadura da grande burguesia (sob a tutela da União
Europeia) de fachada democrática. Pelo PCP farei campanha. Mas
não tenho ilusões sobre o futuro imediato. Destas
eleições sairá mais um governo de direita, porque com a
actual direcção do Partido Socialista, que é de direita, o
povo é olhado como inimigo e a política a ser executada
será incompatível com as suas aspirações
mínimas.
Não confundo os eleitores que têm votado no PS com Sócrates
& Cia. Ltda. Centenas de milhares, a maioria, são cidadãos
honestos, muitos acompanharam com esperança a arrancada da
Revolução de Abril, e um grande numero desejaria ver o pais
mudar de rumo.
Ajudar esses portugueses a compreender que neste ano de 2005 contribuir para
evitar que um PS hegemonizado por políticos de direita mantenha e
agrave a
política de catástrofe e capitulação que aí
está é uma tarefa difícil mas também um
grande desafio a assumir. Porque o voto autenticamente negativo, pior do que
inútil, será o voto na continuidade do sistema.
A esperança não está para os comunistas na conquista do
governo, impossibilidade absoluta. Ela se concentra num combate lúcido,
sem ilusões românticas, um combate na fidelidade aos
princípios que reforce nos trabalhadores a consciência de que o
povo é o sujeito transformador da história e a certeza de que o
capitalismo não é reformável, que está condenado,
e a alternativa, sem data no calendário, é o socialismo.
________
[1]
Citado por Álvaro Cunhal em "A verdade e a mentira na
Revolução de Abril -- a contra revolução
confessa-se", Ed. Avante, pag.242, Lisboa, 1999.
Este artigo é publicado em simultâneo no semanário
Alentejo Popular
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Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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