Taxas de juro, empreendedores e rentistas
Um debate absurdo tem estado a decorrer na Índia. De um lado
estão aqueles que culpam Raghuram Rajan o governador do Banco de
Reserva que acaba de decidir não pedir uma extensão do seu
mandato por manter taxas de juro elevadas e dessa forma empurrar a
economia para a estagnação (e eles enfeitam a sua
argumentação com imagens dos sofrimentos dos desempregados). Do
outro lado estão aqueles que aplaudem a sua coragem por manter taxas de
juro elevadas e assim manter à distância o flagelo da
inflação.
DEBATE ABSURDO
O absurdo deste debate reside no facto de que minúsculas mudanças
na taxa de juro (que é do que estão a falar os participantes
deste debate) têm pouco efeito tanto sobre o crescimento como sobre a
inflação. Se uma queda na taxa de juro do seu nível actual
em 0,25 ou 0,5 ou mesmo 1 por cento pudesse estimular crescimento na economia,
então os Estados Unidos não teriam sido assolados pela
estagnação e por uma taxa de desemprego que ultrapassa os 10 por
cento, mesmo em estimativas conservadoras, uma vez que a sua taxa de juro a
longo prazo, que é a que importa para as decisões de investimento
dos capitalistas, está próxima de zero. (Isto em linhas gerais
continua a ser o caso, mesmo depois de o Fed tê-la elevado recentemente).
E o facto de que a inflação no retalho ter começado outra
vez a aumentar na Índia, apesar da firmeza de Rajan em manter altas as
taxas de juro, sugere que outros factores além da taxa de juro
estão a actuar e, por inferência, estavam a actuar quando a taxa
de inflação veio abaixo anteriormente. Toda esta algaraviada
acerca da taxa de juro é realmente bastante irrelevante.
Isto não significa sugerir que taxas de juros não importem de
todo, mas sim que elas importam de um modo muito diferente daquele que é
habitualmente imaginado. Para entender isto, devemos distinguir entre
"empreendedores" e "rentistas": os primeiros fazem
investimento físico e operam activos físicos, ao passo que os
últimos apenas possuem direitos financeiros sobre tais activos. Entre os
"rentistas" devemos mais uma vez distinguir entre aqueles que possuem
direitos financeiros devido aos fluxos de rendimento que obtêm de tais
direitos (dentre os quais estão "viúvas e
órfãos" e aposentados) e "especuladores", os quais
compram activos financeiros não para "manter" mas sim para
vendê-los na primeira oportunidade para ganhos de capital. Na verdade, a
distinção entre "empreendedores" e
"especuladores" é invariavelmente turva com os primeiros
também a empenharem-se na especulação. Mas uma
distinção entre estas duas
actividades
é no entanto importante.
Agora, uma queda na taxa de juro supõe-se que estimule a procura e
portanto a produção e o emprego, primariamente através de
maior investimento, o qual se supõe que ocorra devido ao crédito
mais barato. Um efeito secundário é através de despesas de
bens duráveis com maior financiamento pelo crédito. Mas o
investimento não depende só do custo do crédito; ele
depende acima de tudo das expectativas dos "empreendedores" quanto ao
crescimento do mercado, o qual por sua vez depende do desempenho do crescimento
da economia. E o mesmo é verdadeiro quanto às despesas com bens
duráveis, uma vez que a incerteza acerca das perspectivas de emprego e
de fluxos futuros de rendimento desencoraja tais despesas, mesmo que haja
crédito barato disponível.
Numa situação de expectativas negras, cortes na taxa de juro
têm portanto pouco impacto sobre a actividade e o emprego
razão pela qual os EUA ainda estão a vegetar na
estagnação. Com a economia mundial em calmaria e a crise global a
propagar-se para países "recém-emergentes" como a
Índia, actualmente as expectativas empresariais são tão
negras que nenhum montante de cortes nos juros ajudaria a estimular a economia.
Na verdade, uma redução da taxa de juro poderia actuar
através de um caminho diferente (o qual tem sido a rota realmente mais
praticada neste últimos tempos), nomeadamente, através do
comportamento de
especuladores
e não de empresários: isso poderia provocar uma
"bolha" de preços de activos os quais estimulam maiores gastos
por parte dos proprietários dos mesmos por se sentirem mais ricos. Mas
também aqui, no contexto da actual crise mundial, provocada
originalmente por um colapso da "bolha" habitacional nos EUA e
agravada a seguir por colapsos em "bolhas" de preços de
activos chineses e indianos, um corte nos juros dificilmente geraria qualquer
nova "bolha". Portanto, um corte assim não teria proporcionado
qualquer estímulo à actividade na economia indiana através
desta rota ou de outra. Culpar Rajan pela estagnação que a
economia indiana está a experimentar é portanto absurdo: equivale
a culpar um indivíduo pela crise do sistema.
Do mesmo modo, entretanto, louvar Rajan pelo mergulho verificado na taxa de
inflação da Índia é igualmente absurdo. O modo pelo
qual supostamente a taxa de juro deita abaixo a inflação é
reduzindo a despesa numa situação em que a inflação
é provocada pela procura excessiva. A recente inflação
indiana, entretanto,
não
foi provocada por procura excessiva. Ao contrário, ela verificou-se em
meio a uma estagnação industrial e de uma
acumulação maciça de stocks de cereais. Esta
inflação foi de custos
(cost-push),
provocada pela retirada de subsídios a um certo número de bens e
o consequente aumento dos seus preços, os quais então foram
"passados adiante". E a razão básica porque esta
inflação se verificou em certa medida precocemente (apesar de
agora estar a subir outra vez) é primariamente devido à queda nos
preços do petróleo.
Rajan em suma é tão pouco responsável por controlar a
inflação quanto por provocar estagnação na
economia. Todo o debate em torno da política monetária e do papel
de Rajan na sua formulação é portanto uma tentativa de
desviar atenções
(red herring).
E o absurdo da actual situação jaz na intensidade com que
participantes neste debate prosseguem neste desvio de atenções.
A posição de Rajan sobre as taxas de juro, se bem que tenha pouca
relação com crescimento ou inflação na economia
indiana, atraía fundos de especuladores que serviam para financiar o
défice em conta corrente da balança de pagamentos da
Índia. Apesar de em 2013, logo após a posse de Rajan no RBI, ter
havido um colapso súbito da rupia devido a uma retirada de fundos por
especuladores estrangeiros da economia indiana, isto foi logo ultrapassado
através de uma combinação de controles directos sobre as
importações de ouro que haviam disparado e de altas taxas de juro
(para atrair a finança estrangeira de volta à Índia). De
facto, com o défice corrente em declínio desde então,
devido aos preços baixos do petróleo (apesar de uma queda nas
remessas pela mesma razão), o influxo de fundos para dentro do
país foi suficientemente grande para aumentar as reservas cambiais da
Índia após a cobertura do défice corrente e mesmo para
fazer com que a rupia
valorizasse
em relação a várias outras divisas do terceiro mundo.
(Este é um dos factores por trás da queda contínua, em
relação ao valor correspondente do ano anterior, das
exportações de mercadorias da Índia durante 17 meses
consecutivos, até agora). A insistência de Rajan sobre altas taxas
de juro tem portanto mais a ver com a gestão da balança de
pagamentos do que com o crescimento ou a inflação.
Sendo este o caso, a razão para a hesitação do governo
acerca de uma extensão do seu mandato o que levou à sua
decisão de não solicitá-lo (de modo que a
hesitação por parte do governo tornou-se efectivamente um
despedimento implícito) não pode ser atribuída
à sua posição sobre taxas de juro. Esta razão
está mais estreitamente ligada à sua atitude não
simpática para com o Hindutva
[NT]
, de que não fazia segredo (a acusação de Subramaniam
Swamy de que ele não é um "indiano de
coração"
refere-se precisamente a isto, uma vez que a visão de
"indianidade" de Swamy é sinónima da
aceitação do Hindutva).
Assim, o "despedimento" de Rajan é significativo não
tanto devido à perda de "perícia económica" que
supostamente implica (o neoliberalismo sob a actual administração
seguiria o seu curso pouco importando quem estivesse ao leme do RBI). Ela
é significativa porque mostra que as forças Hindutva não
podem tolerar mesmo a mais ligeira crítica implícita de um
intelectual liberal, não importando quão elevado é o seu
estatuto na comunidade financeira global.
CONCESSÕES AO INVESTIMENTO DIRECTO ESTRANGEIRO
Mas precisamente por causa do seu prestígio, o governo Modi anunciou uma
enorme quantidade de concessões ao investimento directo estrangeiro
quase na mesma manhã da declaração de Rajan, de modo a que
a "confiança" dos especuladores na economia indiana
permanecesse incólume e não houvesse fuga significativa de
capital. Permitir 100 por cento de propriedade estrangeira nas
indústrias de defesa, farmacêuticas e aviação civil
é um importante conjunto de concessões. Embora no imediato possa
ter reduzido quaisquer consequências adversas da saída de
Rajan, isso equivale a um retorno aos tempos do colonialismo.
Com grande dificuldade e determinação o país pretendera
livrar-se da situação em que se encontrava no momento da
independência, quando várias
commodities
importantes eram ou importadas do exterior ou produzidas internamente pelo
capital estrangeiro. A tecnologia nestes sectores em ambos os casos estivera
sob o monopólio proprietário de companhias estrangeiras, as quais
utilizavam este facto para espoliar o povo indiano. Construir o sector
público como uma fortaleza contra o capital estrangeiro e desenvolver
auto-suficiência tecnológica através de I&D financiada
publicamente foi um esforço penoso. Ele foi concebido para assegurar que
a independência política fosse acompanhada por um grau de
liberdade em relação ao braço de ferro económico do
capital estrangeiro.
Isto, não obstante as conhecidas limitações do regime
dirigista
sob cuja égide se verificou, trouxe benefícios palpáveis
para o povo e também construiu a base produtiva e tecnológica do
país. Um mundo no qual o controle sobre a tecnologia está com os
países avançados enquanto os países em desenvolvimento
meramente proporcionam locais para fábricas onde o seu trabalho barato
pode ser explorado pelos capitalistas destes países avançados
continua a ser um mundo altamente desigual, não importa quão
rapidamente o PIB nos países em desenvolvimento cresça em
consequência. O regime económico
dirigista
na Índia procurou mudar este mundo desigual. O imperialismo, por outro
lado, foi sempre implacável nos seus esforços para empurrar o
país para trás, para este relacionamento desigual. E a
imposição de políticas neoliberais desiguais
através de agências como o Banco Mundial e o FMI faz parte deste
esforço. O governo liderado pelo
BJP
tem mostrado cumplicidade total com este projecto imperialista.
O que revela este episódio, envolvendo o despedimento de Rajan e as
declarações a seguir sobre o Investimento directo estrangeiro,
é que para impulsionar o
Hindutva
este governo está mais do que desejoso de fazer concessões ao
imperialismo. Se Rajan tem de ser despedido porque as forças Hindutva
não gostam dele (pois querem acólitos do
Hindutva por toda a parte) então ele
será
despedido. E se o capital estrangeiro exige um preço
ao país
por tal despedimento, então as forças Hindutva
farão
o país pagar esse preço. É irónico que aqueles que
continuam a entoar cânticos ao "orgulho nacional" estão
perfeitamente dispostos a tornar o país economicamente, tecnologicamente
e militarmente subserviente ao imperialismo.
26/Junho/2016
[NT]
Hindutva
: Ideologia indiana de nacionalismo xenófobo que tende a um espécie de
fascismo de
base comunal. O actual governo Modi perfilha essa ideologia.
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2016/0626_pd/rajan's-exit
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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