Pico petrolífero:
Um ponto de viragem na espécie humana
por Collin J. Campbell
A expressão
Pico petrolífero
entra agora no dicionário, quando a importância da questão
atinge finalmente os media principais. A Agência Internacional de
Energia, que é o cão de guarda da OCDE, há muito está
consciente disto e em 1998 emitiu uma advertência de que a procura
ultrapassaria a oferta por alturas de 2010 se não houvesse a entrada de
um misterioso elemento denominado Não Identificado Não
Convencional
(Unidentified Unconventional),
o qual evidentemente era uma expressão codificada para escassez. Mas
declarações recentes à imprensa sugerem que ela finalmente
está em vias de se tornar clara na edição de 2008 do World
Energy Outlook, a ser publicada em Novembro, e de explicar a verdadeira
posição do problema em termos não incertos.
Dado o papel central do petróleo e do gás na economia moderna, o
pico da produção provavelmente virá a ser um ponto de
viragem para a espécie humana, de magnitude sem paralelo. Ele estimula
considerações acerca da evolução histórica
de sociedades como base para avaliar o que podem ser as reacções.
Parece que a propriedade da terra foi o determinante crítico durante os
primeiros 17 séculos do último milénio. Podemos tomar o
caso britânico como um exemplo. Foi invadida em 1066 por vikings
reciclados da Normandia, e o novo rei concedeu terras aos seus barões,
que por sua vez controlavam o campesinato que trabalhava a terra.
Alguém pode supor que eles assim fizeram com satisfação
pois era a única vida que conheciam.
No princípio do século XIX chegou a mineração de
carvão que proporcionou a energia para a Revolução
Industrial, conduzida pela Grã-Bretanha. A estrutura social mudou
quando a importância da propriedade da terra diminuiu, e os camponeses
tornaram-se trabalhadores industriais a ganhar salários e a viver em
pavorosos bairros miseráveis. O poder mudou do barão para uma
nova elite administrativa e financeira. O aumento da longevidade e outros
factores evidentemente ocasionaram um crescimento insustentável da
população, conduzindo à emigração
maciça da Europa para os Estados Unidos, o Canadá e a
Australásia, onde os povos indígenas foram expropriados e em
grande medida exterminados.
Os bancos de modo crescente emprestavam mais do que tinham em depósitos,
confiantes em que a expansão industrial de amanhã serviria como
colateral para a dívida de hoje. O Império Britânico
floresceu quando a libra esterlina tornou-se uma divisa global para o
comércio, proporcionando um maciço tributo oculto aos bancos de
Londres, os quais posteriormente formaram o Federal Reserve Bank em Nova York
para controlar a economia. A Grã-Bretanha, como uma ilha, tinha
fronteiras naturais, o que não era o caso da Europa continental onde
disputas territoriais e busca por novos mercados e impérios levou a duas
guerras mundiais de gravidade sem precedentes. Tudo indica que a
expansão económica encorajou o nacionalismo quando diferentes
países perseguiram fortalecimentos competitivos pelo reforço da
sua identidade. A Primeira Guerra Mundial surgiu de tensões quando a
Rússia procura controlar sua rota comercial para o Mediterrâneo a
qual ela sentia estar a ser ameaçada pelos movimentos da Alemanha para
exercer uma influência comercial e militar sobre a Turquia, controlando
portanto grande parte do Médio Oriente sob o Império Otomano. A
Segunda Guerra Mundial foi essencialmente uma continuação da
primeira, embora alguns países tenham mudado de lado.
O petróleo e o gás gradualmente substituíram o
carvão como a força condutora da expansão
económica, o que permitiu à população mundial
crescer de uma forma sem precedentes.
As pressões sociais desenvolveram-se pois os trabalhadores industriais
reivindicavam uma maior compensação pelos seus esforços.
Isto levou à ascensão do socialismo sob o qual esperava-se que o
Estado assumisse o papel de um proprietário bondoso que proporcionasse
uma distribuição correcta da riqueza. Uma variante mais extrema
desenvolveu-se na Rússia em 1917 com a revolução que levou
os comunistas ao poder. Outra variante ainda foi o movimento nacional
socialista da Alemanha, o qual nos anos entre guerra tentou unificar a
identidade alemã sob uma forma de social darwinismo a fim de obter
competitividade, rompendo o domínio da fraternidade internacional dos
banqueiros.
A Grã-Bretanha do pós-guerra enfrentou uma situação
económica difícil com a perda do seu império e a
rendição da libra esterlina ao dólar americano, o qual
tornou-se a divisa do comércio mundial. A princípio, ela adoptou
princípios socialistas com altos níveis de
tributação para a elite. Mas apesar de ter um governo
simpático, os sindicatos pressionavam sempre por mais, provocando muita
inquietação industrial, especialmente por parte dos mineiros de
carvão, que controlavam a oferta de energia do país
[1]
. Mas o desenvolvimento do Mar do Norte rompeu o poder do mineiros de
carvão, e levou a uma época de riqueza, muita da qual foi
canalizada para uma elite financeira que construiu um novo império
através do mercado de acções. A imigração
aumentou rapidamente para ajustar a força de trabalho a uma sociedade
definhante e a envelhecer. A América por sua vez construiu o seu poder
militar na chamada Guerra Fria quando procura fortalecer sua hegemonia
económica e financeira global, apesar de a sua base industrial em grande
medida ter-se transferido para além mar a fim de utilizar trabalho quase
escravo.
A produção de petróleo da Grã-Bretanha atingiu o
pico em 1999 antes de cair a uma taxa relativamente alta de aproximadamente 7%
ao ano graças à alta eficiência e tecnologia
avançada das suas operações offshore. Ela produziu seu
petróleo e gás à taxa máxima possível sem
sequer pensar no futuro, exportando seu excedente num tempo de preços
baixos do petróleo antes de se tornar uma importadora num tempo de
preços em ascensão: uma estratégia que dificilmente seria
do interesse nacional, quaisquer que fossem os ganhos a curto prazo. Agora, o
mundo como um todo chega ao pico da produção. Os preços
do petróleo elevaram-se quase dez vezes. Os aumentos provocaram a
ascensão dos preços de alimento, o que disparou tumultos em
muitos lugares. Uma vez que o custo médio da produção de
petróleo não mudou em paralelo, a ascensão de
preços reflecte principalmente o aproveitamento
(profiteering)
da escassez pelos governo do Médio Oriente, o que por sua vez tem
contribuído para a instabilidade financeira mundial, a recessão
crescente e um colapso no valor do dólar.
Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha invadiram o Iraque sob um falso
pretexto, sem dúvida ambos à espera de obterem mais controle do
Médio Oriente, o qual possui cerca da metade do petróleo e
gás remanescente no mundo, e em reacção a pressões
israelenses. Isto não foi um êxito irrestrito pois forças
convencionais, treinadas para batalhas campais, estão mal preparadas
para enfrentar combatentes dedicados da Resistência que estão
mesmo dispostos a efectuar missões suicidas. Sob os princípios
do globalismo, os recursos de qualquer país são supostos
pertencer ao que faz o lance mais alto, mas tal conceito agora parece estar
ultrapassado quando países, liderados pela Rússia, movem-se para
conservar seu petróleo e gás para o seu próprio uso, vendo
pouco mérito em subsidiar seus competidores industriais com energia
barata.
A crescente recessão económica pode bem evoluir numa Segunda
Grande Depressão. Como tem base no declínio fundamental da
crítica oferta de energia, ela provavelmente será muito mais
severa do que a primeira Grande Depressão, a qual foi pouco mais do que
a explosão em 1929 de uma bolha especulativa do mercado de
acções. Na Grã-Bretanha já vemos movimentos para
uma transferência de autoridade, quando a Escócia, e em menor
extensão Gales, procuram maior controle dos seus destinos. Os conflitos
industriais retornam quando o custo de vida levanta voo. Enquanto
trabalhadores imigrantes da Europa do Leste agora voltam para casa, as
principais comunidades imigrantes permanecem, de modo que agora há mais
muçulmanos do que cristãos praticantes no país, cujo
carácter está a mudar rapidamente. O governo actua para
fortalecer o seu controle com maior vigilância quando as tensões
começam a subir, sendo em parte acompanhadas pelo aumento de
assassínios e guerras de gangs em cidades outrora tranquilas.
Aparentemente, pode-se considerar, os últimos dois séculos de
expansão rápida do mundo foram construídos sobre a busca
do dinheiro o que veio a ser aceite como o motivo primário para
viver, embora ele por si próprio não proporcione qualquer grau
particular de felicidade correspondente.
Mais um dia mais um dólar,
era o slogan do entendimento corrente. Agora, enfrentamos um século de
contracção económica durante o qual a busca por dinheiro
tornar-se-á cada vez menos realista. Isto pode por sua vez disparar
novas atitudes, as quais poderiam ser positivas. Cuba é uma anomalia
interessante onde aparentemente há um forte sentimento de igualitarismo
comunal e uma compensação justa pelo trabalho, afastada da busca
pelo dinheiro como tal. Na Grã-Bretanha, encontramos um eco no
Transition Town Movement, pelo qual comunidades sobretudo rurais são
encorajadas a uma nova auto-suficiência e cooperação, mesmo
a adoptar divisas locais para facilitar as trocas, rompendo com isso a
hegemonia dos banqueiros.
O
Homem do petróleo (Petroleum Man)
estará extinto no fim deste século, mas pode haver sobreviventes
que descobrirão um novo caminho para viverem felizes com os recursos
do planeta. Isto presumivelmente significa reverter a uma
condição rural tradicional. Mas a transição, ainda
que moderada pelas novas energias do nuclear, do carvão, do
petróleo não convencional e do gás, e de várias
fontes renováveis, é provável que venha a ser um tempo de
grande tensão a menos que o povo venha a apreender que a
contracção é ordenada pela natureza. Com toda a
probabilidade, a população mundial terá de cair para um
novo nível sustentável, sendo o maior desafio atingir isso com o
mínimo de sofrimento. Historiadores futuros poderão olhar para
trás e descrever o
Homem do petróleo
em termos menos que positivos, pois ele foi responsável pela
alteração do equilíbrio natural e provocou uma
destruição maciça de espécies e ambientes.
É um assunto vasto e complexo que é difícil de agarrar ou
resumir, mas tudo indica que os ventos da mudança estão a
assoprar cada vez mais forte.
____________
[1] resistir.info não tem de concordar com tudo para publicar um artigo.
Este texto é apresentado devido à relevância dos problemas
que levanta, mas as considerações geopolíticas e outras
são da responsabilidade do autor. Pode-se afirmar que Margaret Thatcher
encerrou as minas de carvão britânicas por razões
estritamente políticas (destruir a vanguarda mais organizada da classe
operária britânica), uma vez que do ponto de vista
económico foi uma medida extremamente discutível e até
irracional. Hoje, quando o petróleo do Mar do Norte está a
acabar, a Grã-Bretanha já não dispõe nem de
petróleo nem do antigo carvão. A destruição
das minas de carvão confirma a mentalidade curto-prazista da
extrema-direita.
Atlas do esgotamento do petróleo e do gás
Ao longo de anos esta newsletter analisou o estado de esgotamento nos
principais países produtores, listados no índice da página
1, alguns dos quais foram devidamente revistos. Também foi mantido um
modelo do esgotamento mundial, actualizado com a melhor
informação disponível a fim de avaliar o evoluir da
situação.
Estes estudos foram compilados num novo documento:
Atlas of Oil & Gas Depletion
, de C. J. Campbell e Siobhan Heapes. Uma edição executiva
especial está a ser impressa. Ela pretende proporcionar a executivos na
indústria e nas finanças, políticos, responsáveis e
investigadores institucionais a estrutura essencial para a
investigação. Reconhece-se que os únicos números
seguros são os números das páginas, tamanha é a
inconfiabilidade dos dados públicos. Mas, dito isto, os resultados
podem ser apresentados com confiança como reveladores de perfis de
produção válidos por país, região e para o
mundo como um todo, o que é suficiente para finalidades de planeamento.
O atlas descreve um ponto de viragem para a Espécie humana de magnitude
e importância sem precedentes.
O livro pode na verdade ser útil para avaliar o
ainda não publicado World Energy Outlook da Agência Internacional
de Energia que, espera-se, referir-se-á ao Pico petrolífero e
tratará das suas terríveis consequências. Ele está
disponível directamente junto a C.J.Campbell (
aspotwo@eircom.net
) a
£160 [202] (inclui correio).
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is expressly granted.
O original encontra-se na
ASPO Newsletter
, nº 91, Julho/2008
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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