A discreta mutação do CERA quanto ao pico petrolífero

por Aage Figenschou [*]

O Cambridge Energy Research Associates [ CERA ) ao longo dos anos tem sido extremamente optimista quanto à futura expansão da capacidade [de produção] de líquidos. Eles também tem insultado e ridicularizado aqueles de quem discordavam, particularmente com a noção de que dentro em breve veremos um cenário de Pico Petrolífero. É portanto com alguma surpresa que se lê cronologicamente os vários relatórios do CERA e percebe-se que está organização está actualmente a deslizar para longe das suas fortes crenças anteriores e a preparar o cenário para aderir à comunidade do Pico Petrolífero.

Espantosas revisões em baixa

Se se olhar para o relatório que apresentaram em Outubro último (Filling the Hopper), as suas tabelas de capacidade mostram um brusco crescimento de 92,4 milhões barris por dia em 2008 para 114,4 milhões b/d em 2015. A seguir eles projectam quase um planalto até 2020 (113,7 milhões b/d). Se se examinar só a produção de petróleo bruto, esta realmente declina entre 2015 e 2020. Isto certamente parece-se com um cenário de Pico Petrolífero.

Ainda mais espantoso é um relatório apresentado numa conferência em Londres em Dezembro último (Recession Shock) onde eles cortam os seus próprios números de Outubro. No relatório de Dezembro a capacidade global em 2008 foi reduzida da estimativa de 92,3 milhões b/d para 90,2 milhões b/d.

A capacidade global prevista para 2010 foi reduzida de 99,3 para 94,2 milhões b/d, para 2015 foi revista em baixa de 111,4 milhões b/d para 98,6 milhões b/d e para 2020 de 113,7 milhões b/d para 103,3 milhões b/d. No seu relatório de 2005, "Worlwide liquids", a sua previsão para 2010 era de 101,5 milhões b/d. Agora estão quase àquele nível 10 anos depois e o ano para o pico da produção de petróleo bruto deve-se ter movido para desde as previsões anteriores.

O código CERA

Para muitos tem sido difícil comparar os números do CERA com outras previsões uma vez que eles apenas apresentam "capacidade de produção" e isto é um bocado como maçãs e laranjas. No seu relatório de Outubro, página 2, eles indicam-nos o meio de decifrar os seus números.

Oferta e procura de petróleo. Começa-se com seu número para a capacidade global, 92,4 milhões b/d em 2008. Então deduz-se fechos de capacidade, os quais eles dizem que foi de 3,7 milhões b/d. Isto deve incluir também toda a capacidade que estava interrompida devido a guerras civis, más política e porque o petróleo é tão pesado que ninguém quer comprá-lo. Em Julho, quando o preço era de quase US$150 tínhamos capacidade global de reserva de 2,3 milhões b/d segundo a IEA. Alguém poderia chamar a isto "capacidade sobressalente (spare capacity) não existente".

O número líquido após a dedução da capacidade sobressalente, 88,7 milhões b/d, é então ajustado por falta de projecto/eficiência operacional, a qual o CERA diz que é de 4 por cento, dando-nos a produção real em 2008 de 85,2 milhões b/d. Deve-se então acrescentar 2 milhões b/d em ganhos de refinaria, o qual não é incluído na "capacidade global" do CERA, e atinge-se a produção de global de 87,2 milhões b/d em 2008 como na estimativa do CERA em Outubro.

Será de 100 milhões b/d o pico do CERA?

Com base no acima exposto, o que se pode esperar como produção em 2010, 2015 e 2020?

Para 2010 a sua nova previsão é de 94,2 milhões b/d. Com base na sua própria metodologia, devemos primeiro deduzir a capacidade sobressalente. Se assumirmos que a situação da oferta é de "US$150 firme" (para ilustrar plena capacidade de utilização real) deduzimos 2,3 milhões b/d e multiplicamos por 96% e acrescentamos ganhos de refinaria. Isto dá-nos 90,2 milhões b/d. Não é provável não é impossível e bem mais modesto do que nos títulos super optimista que o CERA habitualmente proporciona.

Em 2015 o cálculo semelhante indica uma capacidade de produção real de 94,5 milhões b/d e em 2020 de 99 milhões b/d. Nesse tempo poderá haver paz e harmonia geopolítica e o invendível petróleo bruto pesado pode ter encontrado um comprador; ainda assim, a capacidade máxima está em torno dos 100 milhões b/d, o que leva o CERA a alinhar-se à TOTAL e muitos outros.

Enquanto isso, a TOTAL mudou a sua posição. Segundo o seu presidente, de Margerie, falando na semana passada, o mundo nunca será capaz de produzir mais do que 89 milhões b/d de petróleo, de modo que o CERA pode ter de rever a sua posição outra vez.

Cobrindo as suas apostas

O CERA deve ter percebido que esteve a caminhar na direcção errada durante algum tempo e portanto está a tentar ajustar gradualmente a sua rota sem deixar que isto seja demasiado óbvio. Eles ainda usam uma prosa que recorda o velho CERA mas a linguagem ultimamente tornou-se cada vez mais cautelosa.

No relatório de Dezembro a sua previsão é de que a capacidade global sobressalente atingirá os 8 milhões b/d em 2012. Mas no sumário executivo eles dizem que "quando a economia começa a acelerar, o mercado petrolífero endurecerá na primeira metade da próxima década". Isto não é mais do que 12 meses a partir deste momento. Além disso, eles dizem que "se os preços caírem demasiado" a falta de investimento poderia acelerar o endurecimento" e o forte crescimento económico "poderia também acelerar o endurecimento". Com estas palavras o CERA poderia afirmar estar certo mesmo com um preço de US$100 neste Verão.

Será impressionante este registo de actuação?

É surpreendente a espécie de prestígio que o CERA tem entre os políticos e os media, dado o seu registo de actuação. Se se olhar para o relatório que publicaram em Maio de 2005 a sua previsão para 2005 era de uma capacidade de 87,85 milhões b/d. Mas na versão do relatório CERA de Outubro de 2008 o número de 2005 foi revisto para baixo em 1,4 milhão b/d, para 86,45 milhões b/d. Não é muito impressionante em termos de dados reais atempados.

O CERA faz uma grande propaganda da sua fantástica base de dados, razão pela qual as suas previsões seriam superiores a de todos os demais. Se elas se afastam longe das outras previsões a razão é simplesmente a sua afirmação de que têm dados muito melhores para apoiar os seus pontos de vista.

É portanto um experimento interessante avaliá-los com um país onde os dados são simples, transparentes e públicos e onde portanto "uma melhor base de dados" não é realmente uma vantagem competitiva. Vamos tomar a Noruega. No seu relatório de 2005 eles estavam à espera de que a Noruega produzisse 3 milhões b/d de líquidos em 2010. Na sua actualização de 2006 este número foi revisto para 3,15 milhões b/d.

De acordo com os números mais recentes da IEA e do Norwegian Petroleum Directorate espera-se que a Noruega produza cerca de 2,1 milhões b/d em 2010. Isto realmente significa que em 2006 o CERA estava mais de 50% demasiado elevado na sua estimativa para a capacidade dali a quatro para um país com relativamente poucos campos e as estatísticas mais transparentes e públicas do mundo.

O Reino Unido também é um país razoavelmente transparente. No relatório do CERA de 2005 o Reino Unido deveria ter uma capacidade de 2,1 milhões b/d em 2010. De acordo com a previsão mais recente da IEA a produção em 2010 será de 1,2 milhão b/d. Desta vez eles estão demasiado elevados em 75 por cento.

Quando se afastam tanto num futuro tão próximo em países transparentes como a Noruega e o Reino Unido, quão provável será que a sua previsão para países como o Azerbaijão ou Irão daqui a 10 anos sejam de todo significativas?

Infelizmente para o CERA, o tempo está a passar e as suas previsões loucamente optimistas agora podem, vagarosamente, ser reconhecidas como aquilo que são: optimismo desvairado. É possível que a dura percepção de quão errados eles têm estado tenha provocado a dramática revisão em baixa no seu relatório de Dezembro. Será interessante ver se a sua retórica será ajustada para se adaptar à realidade.

Talvez eles soubessem isto desde há bastante tempo e esta tenha sido a razão real porque o CERA não ousou aceitar o desafio da ASPO para uma aposta de US$ 100 mil no princípio de 2008 quanto ao acerto das suas próprias previsões.

23/Fevereiro/2009

[*] Jurista a trabalhar na indústria petrolífera norueguesa.

O original encontra-se em ASPO USA Newsletter, Vol. 4, Nº 7

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
29/Fev/09