Reflexões acerca da conferência
Pico Petrolífero:
Desafios e oportunidades para os países do CCG
Doha, Qatar, 2-4/Abril/2013
Tive a sorte de estar entre os poucos ocidentais convidados a comparecer e
falar nesta conferência sobre o "pico petrolífero" (PP)
a primeira desta espécie num país do Médio Oriente.
O facto de um grande exportador de petróleo do Médio Oriente
promover uma conferência sobre um até agora assunto proibido foi
bastante notável e uma mudança dramática em
relação a décadas de negação do PP. Os dois
dias e meio de reunião foram bem participados por pessoas do Conselho de
Cooperação do Golfo (CCG) bem como outros países da
região.
O pressuposto inicial era que o "pico petrolífero"
ocorrerá no futuro próximo. O prazo temporal do início
iminente do declínio da produção do petróleo
mundial não estava em causa na conferência, ao invés disso
o foco principal era o que os países do CCG deveriam fazer a curto prazo
para assegurar um futuro próspero a longo prazo. Para muitos de
nós que há muito sofre a negação vociferante do PP
por partes de países do CCG-OPEP, esta conferência representou uma
enorme mudança. Nas palavras de Kjell Aleklett, que resumiu os pontos
altos da conferência, a reunião foi "um evento
histórico".
Se bem que muitos adeptos do PP tenham-se centrado nos impactos e na
mitigação do "pico petrolífero" nos
países importadores, a maior parte dos que compareceram a esta
conferência estava preocupada com o impacto que reservas finitas de
petróleo e gás terão no futuro a longo prazo dos seus
próprios países exportadores. Eles encaram o esgotamento das suas
grandes mas limitadas reservas como a permitir aos seus países um
período de tempo no qual ou transformam seus países em entidades
sustentáveis capazes de continuar no futuro a longo prazo ou decaem
outra vez para a situação pobre e nómada que existiu antes
da descoberta do petróleo/gás. Consequentemente, grande parte do
foco da conferência era sobre como os países do CCG podem utilizar
sua riqueza actual e a curto prazo para construir futuros económicos e
governos sustentáveis.
Um sabor da conferência pode ser obtido a partir das seguintes
citações aleatórias, livremente traduzidas:
-
- Isto é uma conferência pioneira.
-
- Os organizadores foram corajosos ao organizar esta conferência.
-
- O pico petrolífero proporciona um incentivo para a
consideração de importantes questões nacionais e
regionais. O CCG actualmente está a trabalhar novos problemas com velhas
soluções.
-
- A receita petrolífera representa cerca de 93% do orçamento
saudita. Tudo agora é importado perícia estrangeira e a
maior parte do trabalho. Os sauditas não podem continuar na rota actual,
porque levaria a um "mau futuro". Precisamos mudança radical.
-
- Após o pico petrolífero, haverá grandes cidades ou as do
Médio Oriente acabarão como as cidades fantasmas da
mineração de ouro no velho Oeste dos EUA?
-
- Até agora temos desperdiçado a nossa oportunidade.
-
- O petróleo de xisto
(shale oil)
nos EUA é uma grande loucura e não invalidou o pico
petrolífero. Nós definitivamente temos de nos preocupar acerca do
pico petrolífero.
-
- As reformas políticas fracassaram em corrigir adequadamente nossa
falta de democracia e responsabilidade.
-
- Quando as pessoas são excluídas da política, elas ficam
incontroláveis.
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- Cidadãos no Médio Oriente preferem empregos no sector
público porque eles pagam melhor do que empregos no sector privado.
-
- Os estrangeiros são a maioria das nossas populações,
tipicamente 80%.
-
- As escolas estão a ensinar "coisas velhas" às
crianças. As escolas são um desastre.
-
- A cultura actual é do desperdício.
-
- Há empregos vagos na Arábia Saudita, mas as pessoas locais
não estão preparadas para ocupá-los. Os sauditas para o
estrangeiro a fim de obter licenciaturas avançadas mas não se
qualificam para empregos sauditas, de modo que a Arábia Saudita deve
importar trabalho estraneiro. A Aramco não fez um bom trabalho no treino
de nacionais sauditas.
-
- O CCG deve educar mulheres e dar-lhes maiores direitos e igualdade.
-
- Em muitos países dominadores absolutos obtêm os rendimentos e
receitas e não deixam muito para o povo. Um ditador egoísta
não desenvolve o seu país.
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- A globalização está agora a ser encarada amplamente de
modo mais negativo. Quando o pico petrolífero chegar, será
extremamente difícil manter.
-
- Preços altos do petróleo terão impacto sobre o mundo
mesmo antes do início do pico petrolífero.
-
- O sistema legal árabe está em maus lençóis e
precisa de atenção.
-
- O pico petrolífero é a questão mais importante nesta
parte do mundo.
- Pessoas lêem literatura religiosa quando deveriam estar a ler
literatura técnica.
-
- A região tem riqueza, pessoas ricas e pobres, pessoas pobres.
-
- Os governantes devem entender que o povo deve ser parte do futuro.
- - As gerações futuras devem ter direitos.
Ao encerrar, quero exprimir minha apreciação aos nossos
hospedeiros qataris. Eles foram hospitaleiros, cálidos, amistosos e
mostraram a espécie de determinação tranquila para fazer
do seu país um lugar melhor. Doha é uma cidade notavelmente bela.
Finalmente, do que pude ver, o emir está a tomar passos positivos e
agressivos para construir um vigoroso futuro esclarecido para o seu país.
[*]
Antigo conselheiro sénior sobre energia da Science Applications
International Corporation, e conselheiro sénior em energia no MISI e
consultor em energia, tecnologia e gestão. Participou de numerosos
comités relativos ao desenvolvimento energético e é o
autor principal do relatório Peaking of World Oil Production: Impacts,
Mitigation, and Risk Management, escrito para o Departamento de Energia dos EUA.
O original encontra-se em
http://aspousa.org/wp-content/files/por130415.pdf
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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