Petróleo: até onde poderá chegar o seu preço?
A pesca à baleia no século XIX como modelo para o esgotamento
do petróleo e a volatilidade dos preços
Aqui há alguns anos apareci na TV pela primeira vez na minha vida. O
petróleo tinha acabado de ultrapassar os 38 dólares por barril e
fui convidado para falar num canal nacional financeiro na qualidade de
presidente da recém-formada secção italiana da ASPO
[Associação para o Estudo do Pico do Petróleo e do
Gás]. Quando eu disse que previa que o petróleo iria subir dentro
em breve muito acima dos 40 dólares por barril, toda a gente no
estúdio da TV olhou para mim como seu eu tivesse acabado de dizer uma
grande piada. Depois, todos os outros especialistas se apressaram a
contradizer-me e afirmaram que os 38 dólares por barril não
passavam de um pico, de especulação, e que os preços em
breve voltariam ao "normal".
Olhando para trás, era fácil prever que o preço do
petróleo ia subir. Bastava conhecer um pouco a teoria de Hubbert. Ao
escrever estas linhas, o preço do petróleo anda à volta
dos 120 dólares por barril e pode continuar a subir. Mas por quanto
tempo? O problema com o modelo de Hubbert é que é bom para prever
a produção, mas nada nos diz quanto aos preços.
Há todo o tipo de modelos económicos que tentam prever
preços, mas têm uma eficácia muito fraca. Assim, talvez
possamos encontrar uma resposta em exemplos históricos. Se descobrirmos
no passado um recurso que tenha atingido o pico e entrado em queda até
ao zero ou próximo do zero, talvez a história dos seus
preços nos possa dar uma ideia do que é de esperar quanto ao
petróleo.
Há muitos recursos que atingiram o pico e entraram em queda a
nível regional; o petróleo bruto nos Estados Unidos é um
bom exemplo. Mas o preço do petróleo americano não depende
apenas da produção dos Estados Unidos, é afectado pelas
importações de outras regiões do mundo. Portanto
não serve para entender a tendência dos preços a
nível global. Do que precisamos é de um recurso global que tenha
atingido o pico a nível mundial ou, pelo menos, numa região
economicamente isolada.
Depois de muito procurar, o melhor exemplo que consegui arranjar não foi
de um recurso mineral mas de um recurso biológico: a pesca à
baleia no século XIX. As baleias são, obviamente, um recurso
renovável, mas se forem caçadas mais depressa do que se
reproduzem, comportam-se como um recurso não renovável; tal como
o petróleo. Temos bons dados sobre a pesca da baleia compilados em
livros como "History of the American whale fishery" (História
da pesca à baleia americana), de Alexander Starbuck (1878). Na
época de Starbuck não havia nada parecido com um "mercado
global" para os produtos da baleia. Mas o alcance dos barcos baleeiros
situava-se a nível mundial e os efeitos da redução
drástica das baleias sentiram-se de igual modo em todos os mercados
mundiais. Por isso, podemos considerar os preços referidos por Starbuck
como sendo afectados directamente pelo comportamento da curva de
produção.
Assim, aqui ficam os resultados para dois produtos da baleia: o óleo de
baleia e os "ossos de baleia". O óleo de baleia era utilizado
como combustível nos candeeiros, os ossos eram um reforço para o
vestuário das senhoras, como era moda no século XIX.
Os resultados são claros: a pesca da baleia seguiu a "curva em
forma de sino" de Hubbert, parecida nos gráficos com uma curva de
Gauss. As baleias comportaram-se como um recurso não renovável e
alguns estudos afirmam que, nos finais do ciclo de pesca do século XIX,
restavam no oceano apenas 50 fêmeas da principal espécie pescada:
a baleia genuína.
Ora bem, olhando para os preços históricos, vemos uma subida
próximo do pico tanto para o óleo de baleia como para os ossos de
baleia. Para o óleo de baleia vemos uma subida de preços em
flecha após o pico de produção, no caso dos ossos de
baleia a subida é mais suave. Em ambos os casos, o aumento verificado na
curva é quase exponencial. Podemos apreciar essa tendência
exponencial nos dados da curva.
Parece que temos assim um paralelo para o petróleo nestes dados
históricos do óleo de baleia e dos ossos de baleia. Também
notamos algumas diferenças; por exemplo, os preços do óleo
de baleia não subiram tanto como o petróleo tem subido nos
últimos tempos. Em média, vemos que o óleo de baleia
duplicou o preço, seguindo-se uma paragem. Quanto aos ossos de baleia,
vemos um aumento muito maior, superior a um factor de 10 desde o início
até ao fim do ciclo da pesca à baleia. Este aumento é
comparável ao que assistimos hoje para o petróleo.
Há uma explicação razoável para estas
diferenças. Primeiro que tudo, nem o óleo de baleia nem os ossos
de baleia eram tão indispensáveis à vida do século
XIX como o petróleo é hoje para todos nós. Havia
combustíveis alternativos para os candeeiros: gordura animal ou
óleo vegetal, um pouco mais caros e considerados como produtos
inferiores, mas utilizáveis. Depois, a partir da década de 70 do
século XIX, o petróleo passou a estar acessível em toda a
parte como combustível para os candeeiros. Provavelmente teve como
efeito manter em baixo o preço do óleo de baleia. Quanto aos
ossos de baleia, não existia um verdadeiro substituto a não ser o
aço, que provavelmente era muito mais caro no período que estamos
a considerar. Mas reforços para o vestuário feminino eram uma
coisa que as pessoas podiam facilmente dispensar.
Em comparação, o petróleo é um bem tão
indispensável no mundo actual que não é de admirar que os
preços tenham subido tão gravosamente. Por exemplo, as companhias
de aviação não têm possibilidade de escolha entre
irem à falência ou comprarem jet fuel, seja a que preço
for. Quanto às outras actividades, as possibilidades de escolha podem
não ser tão drásticas, mas mesmo assim não podemos
sobreviver sem o petróleo. Se a subida exponencial do preço do
petróleo continuar a fazer-se sentir durante mais uns anos, de certeza
que iremos assistir a uma verdadeira razia na procura.
Mas os dados históricos para a pesca da baleia informam-nos que a subida
exponencial dos preços não é a única
característica do mercado pós-pico. A característica mais
importante é, pelo contrário, a presença de
oscilações muito fortes. Podemos atribuir estas
oscilações à característica geral dos sistemas
dominados pela retro alimentação e pelos adiamentos temporais.
Supõe-se que os preços são estabelecidos entre a oferta e
a procura, mas há uma tendência para serem corrigidos
artificialmente para um lado ou para o outro. O resultado é uma
alternância entre o desencorajamento da procura (preços altos) e o
desencorajamento da oferta (preços baixos).
Aquilo a que assistimos actualmente com o petróleo, muito provavelmente,
é um destes picos de preços. Pode acontecer que ultrapasse a sua
missão de fazer baixar a curva da procura e acabe numa queda de
preços. Podemos imaginar que, nessa possível fase de queda, toda
a gente comece a gritar que a "crise do petróleo" das
primeiras décadas do século XXI não passava duma fantasia,
tal como aconteceu com a crise dos anos 70. Depois, verificar-se-á uma
nova subida de preços.
A TENTAÇÃO DOS SUBSÍDIOS
Também aqui a história da pesca à baleia nos pode ensinar
qualquer coisa quanto à dificuldade que as pessoas têm em aceitar
a escassez. No livro de Starbuck, nunca encontramos qualquer referência
ao facto de as baleias estarem a escassear. Pelo contrário, a queda da
pesca era atribuída a outros factores, como à "timidez"
das baleias e à falta de "coragem dos homens contratados".
Parece que Starbuck acha que a crise da indústria da pesca da baleia na
sua época podia ser resolvida através de subsídios do
governo. Há coisas que nunca mudam.
No final, a história da pesca à baleia diz-nos que o que
está a acontecer hoje ao petróleo não nos deve
surpreender. O futuro pode não ser exactamente igual ao que se
prevê, mas pelo menos pode ser compreendido pelas lições do
passado. Uma dessas lições, porém, parece ser que nunca
conseguimos aprender nada com o passado.
_____
Dei conta dos resultados deste estudo sobre a pesca à baleia pela
primeira vez na
conferência da ASPO em Lisboa em 2005
. Posteriormente, publiquei um artigo completo em "Energy Prices and
Resource Depletion: Lessons from the Case of Whaling in the Nineteenth
Century", de Ugo Bardi,
Energy Sources part b. Volume 2, Issue 3 July 2007 , pages 297 - 304. Podem
consultá-lo on-line
aqui
.
Se quiserem deliciar-se com os dados de Starbuck, podem ver aqui o
conjunto completo
.
O original encontra-se em
http://europe.theoildrum.com/node/3960#more
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|