À procura de académicos para o Império:
A "Iniciativa de Investigação Minerva" do
Pentágono
por James Petras
Os estrategas militares do Pentágono reconheceram que sofreram derrotas
políticas, com consequências estratégicas nas suas recentes
invasões militares do Iraque e do Afeganistão. O apoio militar
dos EUA à invasões israelenses do Líbano e de Gaza, a
ocupação etíope da Somália, apoiada pelos EUA, as
tentativas de golpes na Venezuela (2002) e na Bolívia (2008)
também não conseguiram derrotar os regimes populares no poder.
Pior ainda, as redes nacionais civis, familiares, comunitárias e
nacionais reforçaram os movimentos anti-colonialistas fornecendo apoio
logístico essencial, informações, recrutamento e
legitimidade.
Os estrategas do Pentágono, reconhecendo as bases sociopolíticas
dos seus fracassos, viraram-se para cúmplices voluntários no
mundo académico para fornecerem informações, sob a forma
de relatórios etnográficos, de povos seleccionados, e
tácticas e estratégias a fim de dividir e destruir fidelidades
locais e nacionais. O Pentágono está a contratar cientistas
sociais para traçarem 'mapas sociais' a fim de identificar
líderes e grupos susceptíveis de serem recrutados para o
serviço do império. Por exemplo, a 'pesquisa de terreno'
académica contratada pelo Pentágono pretende demonstrar os modos
como as práticas e os rituais religiosos tradicionais podem ser
manipulados para facilitar a conquista imperial através da guerra
cultural que desencoraje os povos subjugados de apoiarem os movimentos de
libertação nacional. Em vez de confrontar o ocupante imperial com
o objectivo de restabelecer a soberania nacional, as estratégias de
'guerra cultural' orientam a população para se concentrarem em
problemas locais'. Estes são alguns dos 'projectos de
investigação' financiados pelo Pentágono a que se dedicam
os 'académicos de uniforme'.
O Pentágono está profundamente empenhado nesta estratégia
militar-académica de construção do império,
atribuindo-lhe verbas de quase 100 milhões de dólares para a
contratação de colaboradores académicos e para o
financiamento de múltiplos projectos de 'investigação' em
todo o mundo contra estados, movimentos e comunidades seleccionados.
A 'Iniciativa de Investigação Minerva' (MRI)
O maior, embora não seja o único, dos programas de
investigação para a construção do império,
financiados pelo Pentágono, nas ciências sociais, tem o nome de
código de
Iniciativa de Investigação Minerva
(MRI). A MRI contrata grande número de académicos nos seus
habituais bordéis académicos prestigiados, incluindo os chulos
académicos veteranos e neófitos ambiciosos entre os assistentes
pós-graduação e graduados. Estes 'estudiosos para o
império' estão actualmente empenhados em pelo menos catorze
projectos O dinheiro da MRI foi buscar às universidades um amplo sortido
de psicólogos, cientistas políticos, antropólogos,
economistas, professores de estudos religiosos, especialistas de
relações públicas, economistas do trabalho, e até
mesmo físicos nucleares do MIT, Princeton, Universidade da
Califórnia em San Diego e da Universidade Estadual do Arizona, entre
outras. Esta generosidade do Pentágono constitui o que a
Science
(30/Jan/2009, p. 576) (revista oficial da Associação Americana
para o Progresso da Ciência) chama 'um banquete para uma área
habituada a viver de migalhas.
Todas as regiões e grupos especificamente seleccionados para a
investigação 'académica do Pentágono' estão
presentemente em conflito com o império dos EUA ou com o seu aliado
israelense e incluem o sudoeste asiático, a África ocidental,
Gaza, a Indonésia, o Médio Oriente. O parâmetro
ideológico do Pentágono, que define a MRI, é a
"guerra contra o terrorismo" ou as suas 'Operações de
Contingência Ultramarina', o novo fac-simile com o Presidente Obama.
A MRI tem um interesse especial em académicos que podem visar a
área das organizações e actividades
muçulmano-árabes, a fim de estudar e desenvolver métodos
para "difundir e influenciar o discurso muçulmano
contra-radical". Por outras palavras, a MRI está a contratar
investigação académica, que irá permitir que o
Pentágono penetre nas comunidades muçulmanas, co-opte os
líderes e os transforme em colaboradores imperialistas.
A MRI não é um mero mecanismo de "poder ligeiro"
uma batalha de ideias envolve académicos americanos nalguns dos
aspectos mais brutais de guerra colonial. Por exemplo, as Equipas de Terreno
Humano, financiadas pelo Pentágono, que operam no Afeganistão,
estão profundamente mergulhadas na identificação e
interrogatório/tortura de suspeitos combatentes da resistência,
simpatizantes civis e membros de grandes famílias e clãs. Um
professor de psicologia contratado pela MRI com antigas ligações
às operações contra-insurreição do
Pentágono, está profundamente envolvido no "estudo de
emoções em alimentar ou reprimir movimentos motivados
ideologicamente". Operações de ocupação dos
serviços secretos têm estado profundamente envolvidas em
"fomentar" a hostilidade entre as comunidades xiitas e sunitas no
Iraque, no Líbano, no Irão e no Afeganistão. As torturas e
as técnicas de interrogatórios duros, utilizadas no Médio
Oriente e no Afeganistão, baseiam-se em estudos académicos e
vulnerabilidades culturais e emocionais dos muçulmanos e são
utilizadas pelos interrogadores militares americanos e israelenses para
"quebrar" ou provocar profundos esgotamentos mentais nos activistas
anti-ocupação ("repressão de movimentos
ideológicos).
Esta versão contemporânea do Dr. Strangelove com a sua
versão de fórmulas contra-insurreição imediatas
cozinhadas por uma rede mundial de académicos de uniforme pode envenenar
o ambiente académico de modo muito semelhante ao que o Professor
'Bermans' no estado do Michigan, MIT, Harvard, e noutros locais desenvolveu
técnicas para investigar e destruir missões contra movimentos de
base durante a Guerra do Vietname. O perigo e a atracção para os
académicos do financiamento do Pentágono é especialmente
agudo actualmente, dada a depressão económica e a imagem
pseudo-progressista do regime Obama. As operações de salvamento
da Wall Street e a queda do mercado de acções dos EUA têm
reduzido as dotações às universidades o que provoca fortes
reduções nos orçamentos académicos, salários
e fundos para investigação, especialmente na
investigação não relacionada com os militares ou com os
negócios. O discurso duplo do regime de Obama que fala de paz e aumenta
os orçamentos militares, reforçando as tropas no sudoeste da
Ásia e alargando as sanções ao Irão, pode levar os
académicos a justificar estas últimas citando as primeiras. Para
arranjar recrutas académicos para o estábulo da MRI, o
Pentágono organizou um seminário em Agosto de 2008, sob a fachada
ideológica de "total abertura e estrita adesão à
liberdade e integridade académica". Subsequentemente o
Pentágono afirmou ter recebido 211 pedidos de académicos
procurando um lugar na gamela imperialista.
Apesar da afirmação do Pentágono sobre o êxito da
contratação de académicos, há sinais
contrários que aparecem no mundo académico, principalmente
à luz dos altamente publicitados raptos, tortura e
interrogatórios de milhares de muçulmanos e activistas em todo o
mundo inclusive nos Estados Unidos, feitos por Forças Especiais.
Fora da extrema-direita tem havido uma ampla relutância entre
académicos em se associarem a um governo identificado com os abusos nas
prisões de Abu Grahib e de Guantanamo, a destruição das
protecções constitucionais dos EUA e as guerras coloniais de
ocupação.
Mesmo no caso em que poderosos académicos pró-Israel e grupos de
pressão tiveram êxito em conseguir a demissão de
professores muito conhecidos por serem críticos do estado hebreu, estas
purgas vingativas foram contestadas abertamente por muitos professores em todo
o país, incluindo várias dezenas de académicos judeus.
Mais recentemente, centenas de intelectuais e investigadores nos EUA, no Reino
Unido e no Canadá, horrorizados com os crimes israelenses em Gaza,
apelaram às universidades para boicotar as instituições
académicas e os indivíduos israelenses que colaborem com as
Forças de Defesa de Israel e com o Mossad para a
destruição das instituições palestinas, e em
especial o bombardeamento de universidades em Gaza.
Intimidação
O grupo de académicos com princípios, críticos da
política de Israel e dos EUA, académicos distintos que desafiaram
substancialmente o império através da sua
investigação e publicações, não está
livre da retaliação destinada a desencorajar outros intelectuais.
Um caso recente é a suspensão do epidemiologista médico, o
académico Dr. Gilbert Burnham da Escola de Saúde Pública
Bloomberg da Universidade John Hopkins. O Dr. Burnham foi repreendido
publicamente e suspenso da direcção de qualquer
investigação envolvendo 'pessoas humanas' por cinco anos por
causa de 'quebras éticas de confidencialidade' (
Science,
06/Março/2009, vol. 323, p. 1278). Estas 'violações
éticas' referiam-se à sua co-autoria do primeiro estudo
epidemiológico rigoroso de larga escala sobre a mortalidade no Iraque
durante a invasão e ocupação americana. Estudos locais
exaustivos em todo o Iraque chegaram à conclusão de que morreram
mais de 600 mil civis iraquianos de morte violenta entre a altura da
invasão americana em Março de 2003 e o verão de 2006. Os
resultados deste estudo sobre a morte e destruição induzidas pela
guerra, publicados na prestigiada revista médica
Lancet
em Outubro de 2006, foram desmentidos por um Pentágono furioso mas
confirmados por estudos subsequentes. As chamadas 'violações
éticas' referiam-se a uma questão técnica menor: a
codificação incompleta de alguns dos nomes das famílias
iraquianas entrevistadas nas folhas de inquérito de língua
árabe. Para instituições imperialistas, como a
Universidade John Hopkins, a utilização do falso pretexto de
'protecção da privacidade' de centenas de milhares de mortos sem
nome numa guerra americana de agressão para punir um distinto
epidemiologista, é o mesmo que enviar uma mensagem de
intimidação a intelectuais para que se abstenham de documentar as
consequência genocidas de guerras imperialistas sobre um povo colonizado.
Ao punir publicamente o Dr. Burnham com base nestas acusações
idiotas, o Pentágono-Universidade John Hopkins estão a enviar uma
clara mensagem aos académicos para não investigarem e revelarem
os reais custos humanos da construção do império militar.
Uma coisa é certa, as identidades dos que foram torturados ou
expropriados com base nas políticas desenvolvidas pelos
'académicos' Minerva patrocinados pelo Pentágono, vão
manter-se certamente 'confidenciais' e muito provavelmente escondidas
nas sepulturas em massa.
O facto de a Escola de Saúde Pública Bloomberg ter imposto um
castigo tão extraordinariamente pesado sobre um dos epidemiologistas da
sua própria faculdade, por causa de um erro técnico
metodológico (o procedimento habitual é uma repreensão em
privado), e o facto de as sanções terem merecido a maior
divulgação pública, indica a natureza fortemente
política de todo o processo. O que não é claro é se
os apoiantes financeiros da Escola Bloomberg (juntamente com a sua Agenda do
Médio Oriente) tiveram uma palavra a dizer nesta decisão punitiva.
Podemos esperar que o regime Obama, com a sua retórica 'mísseis
para a paz' e imagens populistas, proporcione uma cobertura para o recrutamento
do Pentágono de académicos liberais para 'trabalhar para uma
mudança a partir de dentro'. Desmascarar o papel da Iniciativa de
Investigação Minerva do Pentágono como parte integrante da
escalada militar de Obama é uma missão para todos os
académicos que se opõem à construção do
império e que apoiam a reconstrução duma república
americana que apoia os direitos internacionais da
auto-determinação.
O original encontra-se em
http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=12990
Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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