Venezuela: Dicionário de eufemismos da oposição liberal
por James Petras
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Nos nossos tempos, os discursos e os escritos políticos são em
grande medida a defesa do indefensável... Assim, a linguagem
política tem de consistir sobretudo de eufemismos, de
circunlóquios e de imprecisões absolutamente turvas... Tal
fraseologia é necessária se alguém quiser nomear as coisas
sem apelar aos respectivos quadros mentais.
George Orwell, "Politics and the English Language", em Why I Write.
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O processo político venezuelano no período pós-referendo
(após 02/Dezembro/2007) experimentou um debate de largo alcance, no qual
têm participado tanto críticos como apoiantes do caminho
venezuelano para o socialismo. A extrema-direita e o Departamento de Estado
dos EUA têm focado exclusivamente aquilo a que chamam a
reacção popular contra o "autoritarismo" do Presidente
Chavez, a sua "agenda radical" e têm procurado explorar a
ocasião a fim de desacreditar o Presidente através da sabotagem
dos esforços de Chavez (apoiado pela França e a maior parte dos
regimes latino-americanos) para negociar uma troca de prisioneiros entre as
guerrilhas das FARC-EP e o regime de Uribe na Colômbia. Duas semanas
após o referendo, o Governo Federal [dos EUA] fabricou um processo
ligando o governo venezuelano a uma tentativa de financiar as
eleições presidenciais na Argentina. A ofensiva de propaganda
dos EUA e da extrema-direita falhou e atear qualquer resposta no interior da
Venezuela e fracassou completamente.. Todos os principais aliados americanos na
Europa (excepto a Inglaterra) e na América Latina (excepto o
México e o Chile) repudiaram os ataques americanos contra Chavez.
O discurso político anti-Chavez que tem tido alguma repercussão
na Venezuela e em outros países, especialmente entre liberais,
políticos, activistas progressistas e académicos
social-democratas, tem sido articulado por académicos venezuelanos
ligados a ONGs financiadas por fundações estrangeiras e que se
posicionam como "centro-esquerda".
Uma leitura crítica textual dos escritos da centro-esquerda revela uma
narrativa repleta de eufemismos, restrita à linguagem e retórica
dos movimentos sociais mas que quando desconstruída revela uma
hostilidade básica para com a análise de classe e a
transformação social. Tal como George Orwell escreveu outrora,
os intelectuais políticos são os mestres dos eufemismos,
utilizando linguagens que obscurecem o significado de políticas
reaccionárias. "A linguagem política é concebida
para fazer com que mentiras soem verdadeiras e o assassínio
respeitável, a fim de dar uma aparência de solidez ao simples
vento" (George Orwell, Why I Write).
A RETÓRICA
LIGHT
Os ideólogos académicos de centro-esquerda da Venezuela dominaram
todo um repertório de eufemismos, os quais põem em
acção para atingir objectivos políticos
específicos: Unir tecnocratas e liberais incrementalistas no governo
Chavez com a oposição liberal a fim de bloquear qualquer
transformação social igualitária das
relações de propriedade e da transição para o
socialismo. Como declarou um dos mais ilustres estadistas e antigo ministro da
Cultura de Cuba, Armando Hart, "A batalha de ideias é parte
integral da luta pelo socialismo".
Um primeiro passo para desmistificar a retórica da centro-esquerda
corporificada na sua narrativa contra-revolucionária é aplicar a
análise crítica a alguns dos eufemismos políticos chave
que eles utilizam para atacar o governo Chavez e as suas políticas.
Eufemismos são abusos de linguagem utilizados pelos professores
anti-Chavez para obscurecer interesses ideológicos e de classe e as suas
lealdades.
Para os objectivos deste ensaio, seleccionei um texto de Edgardo Lander, um
eminente sociólogo venezuelano e crítico das tendências
revolucionárias no governo chavista. O seu ensaio "El Proceso
político en Venezuela entra en un encrucijada crítica"
é um exemplo excelente da utilização da linguagem
política a fim de ofuscar as realidades políticas, confiando em
eufemismos para dar "uma aparência de solidez ao que é puro
vento".
No período pós-eleitoral, os críticos de centro-esquerda
pediram um retorno ao "pluralismo" como um antídoto ao
"autoritarismo". "Pluralismo" é um eufemismo para
uma sociedade de classe (múltiplas classes = plural), na qual a classe
capitalista domina o sistema eleitoral ("partidos plurais" =
dominação pelos capitalistas que os financiam).
"Pluralismo" é um eufemismo comum utilizado pelos
académicos burgueses porque é um conceito vago e abstracto que
obscurece as questões dos donos da propriedade e da
concentração dos meios de produção e de
comunicação. Na realidade, não há nada
"plural" quanto às democracias capitalistas, por qualquer
medição de poder e riqueza. A existência de
múltiplas classes, políticos e partidos conta-nos pouco ou nada
acerca das relações sociais, concentração de poder
e desigualdades de acesso ao Estado.
DE QUEM É INDEPENDENTE UM BC?
Os críticos académicos de Chavez escrevem acerca da
"independência do Banco Central". Esta noção
vaga e abstracta implora a pergunta: independência de quem e para que
interesses e propósitos? Bancos Centrais que não prestam contas
a responsáveis eleitos respondem aos mercados financeiros, ou mais
precisamente aos banqueiros internacionais e locais e aos investidores. Isto
é obviamente o caso em quase todas as democracias capitalistas onde a
selecção dos governadores do Bancos Centrais é baseada nos
seus laços, histórias e relacionamentos favoráveis
("confiança") com o capital financeiro internacional. Em
contraste, um Banco Central sujeito ao controle de responsáveis eleitos
pode ser influenciado pelos eleitores, pela opinião pública e por
movimentos sociais que os pressionem por políticas monetárias
favoráveis.
Quando liberais objectam ao aumento do acesso das classes populares ao governo
e à perda do monopólio da classe média em
relação às verbas orçamentais do governo, eles
recorrem a apelos a "políticas abertas". Isto é
nomeadamente a reabertura das portas da frente da decisão
política a conselheiros académicos liberais e social-democratas.
"Políticas abertas" é um refrão apregoado
frequentemente pelo Estado imperial americano quando as suas ONGs financiadas
por fundações e redes políticas que pressionam pela
"mudança de regime" consideram difícil avançar
devido à maior vigilância para frustrar as suas
operações de desestabilização. A questão
evitada pelos críticos académicos é "aberta"
para quem e "para que interesses políticos"? No caso da
Venezuela, a "falta de abertura" real é em grande medida uma
função do controle monopolista da oposição sobre
90% dos media electrónicos e impressos e do predomínio
ideológico de académicos da oposição em
universidades públicas e privadas e nas salas de aula (incluindo a
Universidade Central da Venezuela). Em contraste, os sindicatos,
associações comerciais, movimentos da sociedade civil de todas as
tendências têm florescido durante a década Chavez no
que é talvez a mais vibrante expressão de "políticas
abertas" no Hemisfério Ocidental.
Nestas condições, o que significa então o apelo pelo
recurso a "políticas abertas"? É simplesmente uma
"defesa do indefensável" a manutenção do
controle monopolista privado dos mass media contra quaisquer tentativas de
expandir e aprofundar o acesso popular e o controle sobre os meios de
comunicação. Os académicos liberais não podem
declarar simplesmente: "Não democratizem os media, nós
defendemos o direito de os grandes conglomerados privados controlarem os media,
incluindo o seu direito a incitar e defender golpes militares". Ao
invés disso eles recorrem a eufemismos vazios como
"políticas abertas" com o efeito de desarmar o governo
popular e minar suas tentativas de abrir o acesso dos mass media às
classes populares e aos seus interesses.
Uma das formas mais insidiosas dos esforços das classes dominantes
americanas e europeias para minarem movimentos de massa autónomos
é o financiamento, treino e proliferação das enganosamente
auto-etiquetadas "Organizações Não
Governamentais" (ONGs). Os críticos académicos liberais
(CAL) do governo democraticamente eleito de Chavez reflectem e imitam a
retóricas das ONGs acusando a Venezuela de falta de
participação popular e desencorajando "o debate aberto e
democrático".
Os CAL nunca consideram a anomalia de que os líderes das ONGs nunca
sejam eleitos, que as suas propostas de financiamentos externos nunca sejam
debatidas ou votadas pelos seus auto-designados beneficiários e que elas
moldem as actividades a fim de induzir os doadores das elites estrangeiras a
financiarem os seus salários em divisas duras e veículos 4x4,
computadores portáteis e a sua "equipe de secretárias",
etc... Os maiores inimigos da responsabilização
democráticas são as ONGs que nunca são criticadas ou mesmo
mencionadas nos escritos políticos dos CAL no "processo
político" venezuelano. A influência difusa e a
proliferação de ONGs não é um factor menor no
"processo político", menos ainda na Venezuela. À
escala mundial há mais de 100 mil ONGs a receberem mais de US$20 mil
milhões de dólares/euros dos centros imperiais.
Ao contrário das auto-nomeadas ONGs e dos seus líderes e
conselheiros académicos liberais, o Presidente Chavez consultou o
eleitorado uma dúzia de vezes em eleições livres e
abertas. Os seus programas são financiados pelos contribuintes
venezuelanos e sujeitos à aprovação ou
rejeição de legisladores eleitos. Os académicos liberais
ao invés de exprimirem abertamente a sua objecção ao
crescimento radical do apoio de massa organizado e ao debate referente aos
programas socio-económicos do Presidente Chavez, recorrem a eufemismos
acerca do estilo "plebiscitário" de governação
esquecendo as autoritárias lições ditadas nas suas
salas de aula estimuladas por administradores "eleitos" por um
estreito círculo de professores com emprego vitalício.
ESTRANHA AMÁLGAMA
Alguns dos eufemismos mais em voga dos críticos académicos
liberais são "anti-estatismo", "sociedade civil" e
"economia de mercado". "Estatismo" evoca e está
associado com uma poderosa estrutura vertical insensível que oprime e
empobrece o povo, e que responde apenas a burocratas autoritários.
Apesar de não haver dúvida que várias agências do
Estado na Venezuela são ineficientes e falham na execução
dos programas do governo (especialmente políticas redistributivas),
apesar da propriedade pública e das políticas fiscais,
especialmente a política energética tem conduzido a um vasto
aumento do financiamento de serviços públicos (saúde,
educação e distribuição de alimentos) para os 60%
de venezuelanos com rendimento mais baixo. A oposição ao
"estatismo" traz consigo uma estranha amálgama de liberais
autoritários da extrema-direita (Hayek, Friedman), neoliberais
social-democratas (Blair, Giddens, Lula, Sarkozy e seus seguidores
venezuelanos) e anarquistas libertários. As principais fontes de
financiamento dos think tank, jornais e investigações dos
críticos do "estatismo" são a Fundação
Ford, as Fundações Ebert e uma sopa de letras de siglas de outras
instituições da classe dominante.
A demonização do "Estado" é o que junta os
ideólogos da extrema-direita e do centro-esquerda. Em nome da
"liberdade" anti-estatista, das actividades sem
restrições, desregulamentadas e vorazes de capitalistas privados
nacionais, os monopólios, bancos e corporações
transnacionais podem florescer. O Estado é a única
instituição potencialmente capaz de conter, controlar e
confrontar as corporações privadas gigantes. A questão
fundamental não é o "anti-estatismo" mas a natureza de
classe do Estado e sua responsabilidade para com a maioria do povo trabalhador.
O mais oco e enganoso conceito manipulado pelos "anti-estatistas"
críticos académicos liberais do Presidente Chavez é o de
"sociedade civil" quando falam em "apoiar a sociedade civil
contra o Estado".
"Sociedade civil" é um eufemismo para sociedade de classe,
é um conceito que oculta divisões de classe fundamentais,
organizações de classe conflitantes e relações de
exploração. Versões abastardadas de "Escritos da
prisão", de Gramsci, onde os seus censores fascistas
forçaram-no a adoptar uma linguagem de Esopo, foram adoptadas pelos
académicos liberais ao escreverem acerca de uma homogénea (sem
classe) "sociedade civil" contra o "Estado" (opressivo).
Na Venezuela, a "sociedade civil" está longe de ser
homogénea, como é evidente com as suas profundas divisões
de classe, polarização política e o abismo entre estratos
da maioria popular que apoiam o Estado (liderado por Chavez) as classes altas.
O discurso de oposição à "sociedade civil"
é um dispositivo retórico utilizado pelos burocratas das ONGs e
elites académicas liberais para obscurecerem a sua prática de
colaboração de classe, o seu apoio ao capital privado contra a
propriedade pública e atraírem assim grandes ajudas
monetárias dos seus patrocinadores imperiais.
Um dos eufemismos mais habitualmente utilizados é a referência por
parte dos críticos liberais e social-democratas das políticas de
Chavez à "economia de mercado". Trata-se de outro
esforços para dar uma aparência de solidez ao que é puro
vento. Os mercados existiram durante milhares de ano por todo o mundo sob uma
grande variedade de sociedades e economias desde a tribal, feudal,
escravocrata, mercantil, capitalismo competitivo e monopolista. Há
mercados locais baseados em produtores de pequena escala e mercados mundiais
dominados por menos de um milhar de corporações multinacinais e
instituições financeiras. A utilização de
"economia de mercado" evoca imagens falsas de
transacções por produtores/países iguais, recordando um
passado que nunca existiu. A real "economia de mercado" existente
é dominada pela competição e cooperação em
grande escala de monopólios, os quais penetram todas as economias
não reguladas. O seu poder e exploração só pode
ser contido por Estados nacionalistas ou socialistas que prestam contas a
movimentos de classe organizados e ao planeamento central. Qualquer
discussão honesta e leal deve colocar a questão das
estratégias económicas e do papel do Estado e do mercado na sua
apropriada moldura histórico-mundial: capital imperial, Estado
nacional, movimentos e instituições com base de classe.
Quando questões de democracia e participação são
discutidas seriamente, o foco não deveria ser exclusivamente sobre
Estados mas deveria incluir também associações influentes
na sociedade. Não há qualquer discussão ou
menção, por parte dos teóricos liberal democratas
venezuelanos, da pluralidade de associações autoritárias,
não participativas e dominadas pelas elite de negócios,
organizações cívicas, conglomerados privados de media,
partidos tradicionais e sindicatos. Os seus líderes são
reeleitos repetidamente (alguns pela vida toda) sem discordância ou
competição e nem mesmo consulta aos seus membros.
Os académicos liberais, além de ignorarem a estrutura vertical
profundamente autoritária das instituições dominantes na
"sociedade civil", falham até mesmo em colocar a
questão de como esta pluralidade da instituição ditatorial
da elite é compatível com a democracia. A cegueira
analítica e moral dos académicos liberais para com o
profundamente enraizado domínio arbitrário sobre a cultura, a
economia e a sociedade por parte desta elite anti-democrática é o
outro lado da moeda da sua preocupação unilateral com o
défice democrático em instituições públicas
eleitas e em partidos, sindicatos e associações de moradores
favoráveis a Chavez.
A profunda falta de clareza dos críticos de Chavez e do expoentes da
ideologia liberal está intimamente relacionada com o seu pressentimento
de que falar claramente e com precisão desmascararia a sua defesa dos
mercados capitalistas; a sua oposição ao "estatismo"
como oposição à propriedade pública; o seu apoio a
instituições autoritárias da elite é a sua defesa
da "sociedade civil"; a sua oposição às
iniciativas radicais com base de massa de Chavez é apresentada como
"autonomia popular".
O MICROSCÓPIO E O TELESCÓPIO
Os métodos dos críticos académicos liberais são
tão reveladores da sua política reaccionária quanto as
suas mal disfarçadas lealdades à classe dominante. Eles utilizam
o microscópio para detectar defeitos no tecido dos movimentos sociais
pro-Chavez, eleitores e políticas do governo Chavez, e um
telescópio para descrever a descarada intervenção e
colaboração em grande escala e a longo prazo do Estado imperial
americano com os seus aliados venezuelanos.
As exigências liberais são direccionadas unilateralmente para um
lado do processo político. Um profundo criticismo em
relação às organizações de Chavez, mas
não para com os estudantes e académicos que foram financiados
pelas agências do Estado americano. Aparentemente, a académicos
que aceitam dinheiro do National Endowment for Democracy não se deveria
pedir para "repensar criticamente" a sua colaboração
com uma potência imperial que se comprometeu a destruir
instituições democráticas. Os críticos
académicos liberais confiam em subjectivos mexericos anedóticos
para alimentar o seu rancor anti-Chavez, ao invés de factos abertos ao
público. Preferem especular sobre a "ambiguidade
presidencial" quanto ao resultado do referendo ao invés de ouvir e
observar o imediato e franco reconhecimento da derrota no referendo pelo
Presidente Chavez.
A linguagem política do eufemismo é destinada a fazer com que
mentiras soem verdadeiras, tornar a regra da exploração de classe
respeitável e dar à retórica liberal-democrata a
aparência de solidez. Este breve inventário do eufemismo é
concebido para desmascarar as ideologias do anti-chavismo "light" e
estimular o avanço do socialismo venezuelano.
05/Janeiro/2008
O original encontra-se em
www.abpnoticias.com/boletin_temporal/contenido/articulos/petras_eufemismo.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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