Sicko 2: A destruição do Serviço Nacional de Saúde
britânico
por John Pilger
Deitado numa cama de hospital, cumpridos e bem todos os procedimentos, com uma
chávena de chá a acompanhar agradavelmente a última dose
de morfina, assistimos ao que há de melhor. Por melhor, quero dizer um
vislumbre de uma sociedade sem os dogmáticos histriões dos media
e da política determinados a mudar a forma como pensamos. Isso é
o que há de pior. Por melhor, recordo a inesquecível
manifestação dos mineiros de Murton, County Durham, surgindo em
meio ao nevoeiro numa fria manhã de Março, com as mulheres a
desfilarem à frente, a voltarem para o fosso da mina. Não importa
que tenham sido derrotados por forças superiores, eles eram os melhores.
Numa cama de hospital, provavelmente o melhor é mais corriqueiro, com
pessoas a trabalhar rotineiramente, escutando, respondendo, tranquilizando. O
vocabulário dessas pessoas não é o da linguagem
empresarial. A sua 'produtividade' não é um artifício para
o lucro. O seu empenhamento não tem uma meta a cumprir e a sua
camaradagem é como uma presença, e nós passamos a fazer
parte dela. O denominador comum é a humanidade e a
preocupação. Que exótico que isto soa. Ligamos a
televisão do hospital e deparamos com um outro mundo bizarro de
"notícias", com idiotas famosos a tecerem a
destruição final da sociedade.
Lá está o louco do Blair a apelar para um ataque ao Irão e
o secretário da educação, Ed Balls, a vender os seus
diplomas falsos, e o primeiro-ministro Gordon Brown, que acabou de receber
Rupert Murdoch e Alan Greenspan, a anunciar o seu "regresso à
liberdade" juntamente com as suas últimas "reformas" que
são uma safadeza para com a instituição que personifica a
liberdade na Grã-Bretanha: o Serviço Nacional de Saúde.
Nenhum deles tem a mais pequena ligação com as pessoas que
mantêm o meu hospital a funcionar. O divisor de águas na
Grã-Bretanha de hoje está entre uma sociedade representada por
aqueles que mantêm o Serviço de Saúde a funcionar, e a sua
mutação sintetizada pelo governo trabalhista de Blair e de Brown.
No filme
Sicko,
de Moore, o socialista Tony Benn profetiza uma revolução na
Grã-Bretanha se o SNS for abolido. Mas o Serviço de Saúde
da Grã-Bretanha está a ser destruído por desgaste, e se as
últimas "reformas" não forem impedidas, será
tarde demais para erguer barricadas. A 5 de Outubro, o secretário da
Saúde, Alan Johnson, aprovou uma lista de catorze empresas que
serão consultoras e assumirão a "delegação de
poderes" dos serviços do SNS. Ser-lhes-á dada a
possibilidade de escolha, se não o próprio controlo, sobre quais
os tratamentos que os doentes devem receber e quem é que os irá
proporcionar. Elas têm garantidos lucros de muitos milhões.
Essas empresas incluem as americanas UnitedHealth, Aetna e Humana. Estas
organizações totalitárias têm sido multadas muitas
vezes pelo seu conhecido papel no sistema de serviços de saúde
americanos. No ano passado, o director geral da UnitedHealth, William McGuire,
que ganhava 125 mil de dólares por ano, demitiu-se na sequência de
um escândalo de direito de opção. Em Setembro, a companhia
aceitou pagar 20 mil dólares de multa "por não atender a
reclamações e não responder às queixas dos
doentes". A Aetna teve que pagar 120 mil dólares de
indemnização depois de um júri na Califórnia a ter
condenado por "má-fé, opressão e fraude". No
filme
Sicko,
mostra-se uma analista médica da Humana a testemunhar no Congresso que
provocou a morte de um homem por lhe recusar assistência para poupar o
dinheiro da empresa. Todos os anos morrem cerca de 18 mil americanos porque
não têm acesso aos cuidados de saúde ou porque não
os podem pagar.
Estas empresas são as amigas do governo trabalhista. Simon Stevens,
antigo conselheiro da política de saúde de Blair, é hoje
director executivo da UnitedHealth. Julian Le Grand, que escreve no
Guardian
como um distinto professor, dá a sua aprovação
esclarecida às "reformas" também ele foi
conselheiro de Blair.
Em Manchester, há outras "reformas" em vias de destruir os
serviços do SNS para os doentes mentais. William Scott suicidou-se
depois de deixar de ter o apoio de um trabalhador do SNS que tratou dele
durante oito anos. O que tudo isto significa é que o SNS está a
passar sub-repticiamente para a privatização. É esta a
política não confessada do governo de Brown, cujas
acções predadoras no exterior estão a ser copiadas
internamente. Foi Brown, enquanto tesoureiro, que promoveu a desastrosa
"iniciativa financeira privada" como uma artimanha para construir
novos hospitais, enquanto entregava enormes lucros a companhias suas
protegidas. Em consequência disso, o SNS está a ser sangrado em
700 mil libras por ano. Isto provocou uma desnecessária "crise
financeira" que é o argumento do 'Ardil 22'
[NT1]
para permitir que apareçam mais oportunistas para se apoderem do que
foi outrora a maior proeza do antigo governo trabalhista. Vamos permitir que
eles se safem com isto?
01/Novembro/2007
[NT1] Na novela
Catch 22,
de Joseph Heller, a expressão 'Ardil 22' adquiriu um uso
idiomático com o sentido de 'beco sem saída'.
Ver também:
Porque eles temem Michael Moore
, de John Pilger.
O original encontra-se em
http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=461
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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