Cuidado com o "Dia da marmota" de Obama
por John Pilger
Um dos filmes mais inteligentes que já vi é
"O dia da marmota" (Groundhog Day)
[1]
, no qual Bill Murray actua como um meteorologista da TV que se descobre preso
no tempo. A princípio ele tem a ilusão de que o mesmo dia e as
mesmas pessoas e as mesmas circunstâncias apresentam novas oportunidades.
Finalmente, sua ingenuidade e falsas esperanças abandonam-no e ele
percebe a verdade da sua situação aflitiva e escapa. Será
isto uma parábola para a era de Obama.
Tendo feito campanha com "A mudança em que você pode
acreditar", o presidente eleito Barack Obama nomeou a sua equipe. Ela
inclui Hillary Clinton, que votou por atacar o Iraque sem ler a
avaliação da inteligência e desde então tem
ameaçado "obliterar totalmente" o Irão por conta de uma
potência externa, Israel. Durante a sua campanha primária, Obama
referiu-se repetidamente às mentiras de Clinton acerca do seu registo
político. Quando nomeou a sua secretária de Estado, chamou-a
"minha querida amiga".
O slogan de Obama agora é "continuidade". O seu
secretário da Defesa será Robert Gates, que serviu o regime Bush
ilegal e empapado em sangue como secretário da Defesa, o que significa
secretário da guerra (a última vez que os EUA tiveram de
defender-se a si próprios foi em 1812 quando os britânicos o
invadiram). Gates não queria data para uma retirada do Iraque e
"mais de 20 mil soldados" a serem enviados para o Afeganistão.
Ele também quer que os EUA construam um arsenal nuclear completamente
novo, incluindo armas nucleares "tácticas" que turvam a
distinção com as armas convencionais.
Outro produto da "continuidade" é a primeira escolha de Obama
para a chefia da CIA, John Brennan, que partilha responsabilidades pelo
sequestro e tortura sistemática de pessoas conhecido como
"extraordinary rendition". Obama também designou Madelein
Albritht para informar sobre como "fortalecer a liderança dos EUA
em reacção ao genocídio". Albright como
secretária de Estado foi em grande medida responsável pelo
bloqueio do Iraque na década de 1990, descrito por Denis Halliday, da
ONU, como genocídio.
Há mais continuidade nas nomeações de Obama dos
responsáveis que tratarão da pirataria económica que
deitou abaixo a Wall Street e empobreceu milhões. Como no pesadelo de
Bill Murray, eles são os mesmos responsáveis que provocaram
aquilo. Lawrence Summers, por exemplo, dirigirá o National Economic
Council. Como secretário do Tesouro, segundo o
New York Times,
"promoveu a lei que desregulamentou os derivativos, os... instrumentos
também conhecidos como activos tóxicos que
disseminaram perdas financeiras [e] recusou-se a dar atenção aos
críticos que advertiam dos perigos pela frente".
Há lógica aqui. Ao contrário do mito, a campanha de Obama
foi financiada em grande medida pelo capital predador, tal como o Citigroup e
outros responsáveis pelo escândalo das hipotecas sub-prime, cujas
vítimas foram principalmente afro-americanos e outras pessoas pobres.
Será isto uma grande traição? Obama nunca escondeu o seu
registo como homem de um sistema descrito por Martin Luther King como "o
maior fornecedor de violência no mundo de hoje". O namorico de
Obama como crítico soft do desastre no Iraque alinhava-se com a maior
parte da opinião do Establishment de que aquilo fora "tolo".
Os seus fãs incluem os criminosos de guerra Tony Blair, que
"saudou" suas nomeações", e Henry Kissinger, que
descreveu a nomeação de Hillary Clinton como
"excelente". Um dos principais conselheiros de John McCain, Max
Boot, que está na ala direita do Partido Republicano, disse:
"Estou espantado com estas nomeações. Elas podiam
facilmente ter vindo de um presidente McCain".
A vitória de Obama é histórica, não só
porque ele será o primeiro presidente negro como porque ele penetrou num
grande movimento popular entre minorias da América e os jovens fora do
Partido Democrático. Em 2006 os latinos, a maior minoria do
país, apanharam a América de surpresa quando manifestaram-se em
massa nas cidades para protestar contra as leis draconianas de
imigração de George W. Bush. Eles cantavam: "Si, se
puede!" ("Sim, podemos!"), um slogan que posteriormente Obama
afirmou como o seu próprio. Sua secretária para Segurança
Interna é Janet Napolitano que, como governadora do Arizona, ganhou
notoriedade por alimentar a hostilidade contra imigrantes latinos. Ela
militarizou a fronteira do seu estado com o México e apoiou a
construção de uma muralha odiosa, semelhante àquela que
divide a Palestina ocupada.
Na véspera da eleição, relatou a Gallup, a maior parte dos
apoiantes de Obama estava "empenhada" mas "profundamente
pessimista acerca da futura direcção do país". Minha
suposição é que muitas pessoas sabiam o que estava para
vir, mas esperavam o melhor. Ao explorar esta esperança, Obama quase
neutralizou o movimento anti-guerra que historicamente é aliado dos
democratas. Afinal de contas, quem pode disputar com o símbolo do
primeiro presidente negro neste país escravocrata, pouco importando se
ele é um fomentar de guerras? Como destacou Noam Chomsky, Obama
é uma "marca" diferente das outras, tendo ganho a maior
campanha publicitária e atraído somas de dinheiro sem
precedentes. A marca venda por algum tempo. Ele encerrará a
Baía de Guantanamo, cujos presos representam menos de um por cento dos
27 mil "prisioneiros fantasmas" dos EUA. Ele continuará a
fazer discursos comoventes e banais, mas as lágrimas secarão
quando o povo entender que o presidente Obama é o mais recente
administrador de uma máquina ideológica que transcende o poder
eleitoral. Ao ser perguntado o que fariam os seus apoiantes quando a realidade
irrompe-se, Stephen Walt, um conselheiro de Obama, dise: "Eles não
têm nenhum lugar para ir".
Não ainda. Se há um final feliz no
Dia da marmota
de guerra e pilhagens repetidas, ele pode certamente ser encontrado no
próprio movimento de massa cujos entusiastas registaram eleitores e
bateram a portas e levaram Obama ao poder. Será que eles agora
ficarão satisfeitos como espectadores diante do cinismo da
"continuidade"? Em menos de três meses, milhões de
americanos irados foram politizados pelo espectáculo de milhares de
milhões de dólares de donativos para a Wall Street quando eles
lutam para salvar os seus empregos e as suas casas. Como se sementes
começassem a brotar por baixo da neve política. E a
história, como o
Dia da marmota,
pode repetir-se. Poucos previram os acontecimentos que fizeram época
na década de 1960 e a velocidade com a qual eles se sucederam. Como um
beneficiário daquele tempo, Obama deveria saber que quando as viseiras
são removidas, tudo é possível.
11/Dezembro/2008
[1]
Groundhog Day
: A expressão em inglês serve para indicar "sempre
a mesma coisa outra vez", sobretudo em referência a ciclos
repetitivos desagradáveis.
O original encontra-se em
http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=515
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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