Porque razão os Óscares são uma trapaça
por John Pilger
Na sua última coluna para o
New Statesman,
John Pilger interroga-se porque é que directores e escritores permitem
que a fórmula da propaganda de Holywood domine os filmes, com uma acesa
disputa pelos Óscares a obscurecer um milhão de iraquianos
mortos, e Clint Eastwood a esconder a verdade da luta contra o apartheid
enquanto George Clooney se diverte com os mesmos velhos estereótipos.
Porque é que há tantos filmes tão maus? As
nomeações para os Óscares deste ano são um desfile
de propaganda, de estereótipos e de total desonestidade. O tema
dominante é tão velho como Hollywood: o direito divino da
América a invadir outras sociedades, roubar a sua história e
ocupar a nossa memória. Quando é que directores e escritores se
vão comportar como artistas em vez de prostitutos em
relação à visão de um mundo dedicado ao controlo e
à destruição?
Cresci com o mito dos filmes do Oeste Selvagem, que era bastante inofensivo a
não ser que se fosse um americano nativo. A fórmula
mantém-se inalterada. Distorções auto-apreciativas
apresentam a nobreza dos agressores coloniais americanos como uma capa para
massacres, desde as Filipinas ao Iraque. Só entendi perfeitamente o
poder do engano quando fui enviado para o Vietname como repórter de
guerra. Os vietnamitas eram "chinas" e "índios" cujo
assassínio industrial tinha sido pré-comandado nos filmes de John
Wayne e era remetido a Hollywood para o tornar mais romântico ou para o
redimir.
Estou a usar a palavra assassínio com alguma cautela, porque o que
Hollywood faz de forma brilhante é suprimir a verdade acerca dos ataques
da América. Não há guerras, mas apenas a
exportação de uma "cultura" homicida, viciada em
pistolas. E quando se desgasta a noção de psicopatas enquanto
heróis, o banho de sangue torna-se numa "tragédia
americana" com uma banda sonora de pura ansiedade.
A Guerra ao Terror (The Hurt Locker)
de Kathryn Bigelow insere-se nesta tradição. Favorito a
múltiplos Óscares, o filme dela é "melhor do que
qualquer documentário que já vi sobre a guerra no Iraque.
É tão real que até mete medo". (Paul Chambers CNN).
Peter Bradshaw no
Guardian
considera que ele tem uma "clareza despretensiosa" e trata "do
prolongado e doloroso jogo de guerra no Iraque" que "diz mais sobre a
agonia e a injustiça e a tragédia da guerra do que todos os mais
sérios filmes de boas intenções".
Que absurdo. Este filme proporciona uma excitação indirecta
através de mais uma escalada psicopata do padrão de
violência num país de outro povo onde as mortes de um
milhão de pessoas estão condenadas ao esquecimento
cinematográfico. A publicidade exagerada em torno de Bigelow é
que ela pode ser a primeira mulher directora a ganhar um Óscar. Que
insulto que é uma mulher ser premiada por um filme de guerra, uma coisa
tipicamente masculina.
Os elogios repetem os que foram feitos ao
Caçador (The Deer Hunter)
(1978) que os críticos aclamaram como "o filme que podia purificar
a culpa de uma nação!" O
Caçador
enaltecia aqueles que haviam provocado as mortes de mais de três
milhões de vietnamitas enquanto reduzia aqueles que tinham resistido a
figuras de bárbaros comunas. Em 2001, o filme
Cercados (Black Hawk Down)
de Ridley Scott proporcionou uma catarse semelhante, embora menos subtil, para
outro nobre fracasso americano na Somália, pintando ao de leve os
heróis que massacraram mais de 10 mil somalis.
Em contraste, o destino de um filme de guerra americano admirável,
Redacted
[não exibido em Portugal N.T.], é esclarecedor. Feito em
2007 por Brian de Palma, o filme baseia-se na história verdadeira do
sequestro de uma adolescente iraquiana e do assassínio da sua
família por soldados americanos. Não há heroísmo,
não há purificação. Os assassinos são
assassinos e a cumplicidade de Hollywood e dos meios de
comunicação no épico crime no Iraque é descrita
perspicazmente por De Palma. O filme acaba com uma série de fotografias
de civis iraquianos assassinados. Quando o obrigaram a escurecer as caras deles
"por razões de ordem legal", De Palma disse, "Acho que
é uma coisa terrível porque agora nem sequer podemos dar a
dignidade dos rostos a este povo sofredor. A grande ironia quanto a Redacted
é que ele acabou por ser emendado
(redacted)
". Depois de uma exibição limitada nos EUA, este
óptimo filme acabou por desaparecer.
Considera-se que a humanidade não americana (ou não ocidental)
não faz bilheteira, quer esteja morta quer viva. Eles são os
"outros" que, na melhor das hipóteses, podem ser salvos por
"nós". Em
Avatar,
a enorme e violenta fábrica de dinheiro, em 3-D, de James Cameron, os
nobres selvagens conhecidos por Na'vi precisam de um bom soldado americano, o
sargento Jake Sully, para os salvar. Isso confirma que eles são
"bons". Claro.
O meu Óscar para o pior das actuais nomeações vai para
Invictus,
o insulto untuoso de Clint Eastewood à
luta
contra o apartheid na África do Sul. Feito a partir de uma hagiografia
de Nelson Mandela escrita por um jornalista britânico, John Carlin, o
filme podia ter servido como propaganda do apartheid. Ao promover a cultura
racista, dos brutamontes do râguebi, como uma panaceia da
"nação arco-íris", Eastwood quase não
dá a entender que muitos sul-africanos negros ficaram profundamente
envergonhados e magoados pela adesão de Mandela ao odiado Veado,
símbolo do seu sofrimento. Obscurece a violência branca mas
não a violência negra, que está sempre presente como uma
ameaça. Quanto aos racistas bóeres, têm
corações de ouro, porque "não sabíamos de
nada". O tema subliminar é demasiado familiar: o colonialismo
merece perdão e adaptação, nunca justiça.
A princípio julguei que
Invictus
não podia ser levado a sério, depois olhei à minha volta
no cinema para os jovens e para outras pessoas que não têm a
experiência do apartheid, e compreendi os estragos que uma máscara
inteligente faz na nossa memória e nas suas lições morais.
Imaginem Eastwood a fazer uma coisa equivalente sobre os escravos felizes no
Sul americano profundo. Não se atrevia.
O filme mais nomeado para um Óscar e promovido pelos críticos
é
Nas Nuvens (Up in the Air),
que põe George Clooney a viajar pela América a despedir pessoas
e a juntar pontos de passageiro frequente. Antes de a banalidade se dissolver
no sentimentalismo, aparecem todos os estereótipos, em especial os das
mulheres. Há uma prostituta, uma santa e uma vigarista. Mas é
"um filme para a nossa época", diz o director Jason Reitman,
que se gaba de ter gente realmente despedida. "Entrevistámo-los
sobre o que era perder o emprego nesta economia", disse ele, "depois
despedimo-los em frente da câmara e pedimos-lhes que reagissem da mesma
forma que tinham reagido quando perderam o emprego. Foi uma experiência
incrível observar estes amadores com 100 por cento de realismo".
Uau, que vencedor!
11/Fevereiro/2010
O original encontra-se em
http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=566
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|