Bem-vindos à primeira murdocracia mundial
por John Pilger
Adelaide é a cidade festiva da Austrália. O seu festival de arte
está a dar que falar. Debates civilizados, estética e vinho de
muitas octanas estão a ditar leis ao mundo. Com uma
excepção. Adelaide é o sítio onde Rupert Mordoch
iniciou o seu império. O trilho devorador começou aqui.
Não existe nenhuma estátua; a dele é uma presença
espectral, que controla o único jornal diário, e também as
empresas gráficas. Em toda a Austrália, ele controla quase 70 por
cento da imprensa da capital e o único jornal nacional, e a Sky
Television, e muitas outras coisas. Bem-vindos à primeira murdocracia do
mundo.
O que é uma murdocracia? É onde a fidelidade e o acréscimo
de editores e gestores de Murdoch existem sem disfarce, uma
inspiração ao seu coro em sete continentes, onde mesmo os seus
competidores cantam em uníssono e os políticos sagazes prestam
atenção ao murdoquismo: "Como é que vai ser? Um
cabeçalho por dia ou um balde de merda por dia?"
Embora a veracidade desta famosa observação seja por vezes posta
em causa, o espírito dela não é. Atacado por uma
pneumonia, o antigo primeiro-ministro John Howard arrastou-se para fora da cama
para prestar vassalagem ao homem a quem devia muitos baldes vazios. O seu
sucessor, Kevin Rudd, foi a correr a uma audiência obrigatória com
Murdoch em Nova Iorque antes da sua eleição. Isto é um
padrão em todo o planeta. Antes de subir ao poder, Tony Blair voou
até uma ilha ao largo de Queensland para subir à tribuna azul
Newscorp e defender o tratcherismo e a desregulamentação dos
meios de comunicação diante da cara papuda que acenava com a
cabeça na fila da frente. No dia seguinte, o
Sun
elogiava Blair como alguém que "tem visão [e] fala a nossa
linguagem sobre a moral e a vida familiar".
Murdoch sabe que pouco separa os principais partidos políticos da
Austrália, da Grã-Bretanha e da América. Porta-se como um
homem. Em 1972, apoiou Gough Whitlam da Austrália que se revelou um
reformador radical, ameaçando mesmo denunciar as bases espiãs da
América. Um Murdoch furioso agitou os seus jornais contra Whitlam com
histórias tão escandalosamente deformadas que jornalistas
rebeldes do
The Australian
queimaram o jornal no meio da rua. Isso nunca mais se repetiu.
Os temas dominantes na murdocracia australiana, para além do desporto e
das coscuvilhices sobre celebridades, são a promoção da
guerra e o nacionalismo exacerbado, a política externa americana, Israel
e o paternalismo para com os aborígenes, o povo indígena mais
empobrecido do mundo, segundo a ONU. Este antiquado combatente da guerra-fria
não se deve inteiramente à imprensa de Murdoch, evidentemente,
mas a agenda sim. Quando o tirano indonésio general Suharto esteve
prestes a ser derrubado pelo seu próprio povo, o editor-chefe do
The Australian,
Paul Kelly, chefiou uma delegação de editores da maior parte
dos principais jornais da Austrália a Jakarta. Com Kelly ao lado, o
assassino de massas, que os pasquins de Murdoch promoveram a
"moderado", aceitou o tributo de todos eles.
O lacaio de Murdoch mais descarado, senão mesmo ridículo,
é Greg Sheridan, editor do estrangeiro do
The Australian.
Numa das suas peregrinações aos Estados Unidos, local da sede
de Murdoch, Sheridan escreveu, "Os EUA são o melhor argumento
possível para a desregulamentação dos meios de
comunicação. Todas as manhãs, saltito entre a Fox, a CNN e
a MSNBC enquanto como os cereais
porque é que demorou tanto tempo
para a TV a pagar chegar à Austrália?" Estava a referir-se,
instintivamente, à Foxtel, a companhia de TV paga, do seu patrão.
Quanto ao terrorismo, Sheridan acusa o "chomskismo pilgerista" de
"alimentar ideologicamente os seguidores de Osama bin Lenin, desculpem,
Laden".
Uma das campanhas mais eficazes da murdocracia australiana foi a lavagem dum
passado colonial sangrento, incluindo uma série de ataques ao distinto
cronista do genocídio aborígene, professor Henry Reynolds, e ao
director do Museu Nacional da Austrália, Dawn Casey, por terem ousado
apresentar a verdade sobre o sofrimento indígena. O grande historiador
independente da Austrália, o falecido Manning Clark, foi caluniado pelo
Courier-Mail
de Murdoch como um agente vermelho, depois como uma fraude, no mesmo estilo
com que o
London Sunday Times
de Murdoch caluniou o membro do parlamento do partido Labour, Michael Foot,
como sendo um agente soviético.
Uma coisa parecida espera todo aquele que questionar a
manipulação da recordação do sacrifício de
sangue da Austrália em prol do imperialismo, o antigo e o novo. Visando
os jovens, um "novo patriotismo" sentimental atinge o clímax
anual em 25 de Abril, aniversário do desastre da primeira guerra mundial
em Gallipoli
[1]
, conhecido por Dia Anzac
[2]
. A mensagem é um militarismo aberto que promove as invasões do
Afeganistão e do Iraque. Assim, o primeiro-ministro Rudd diz, de modo
absurdo, que as forças armadas são a profissão mais
elevada da Austrália.
Estas falsas bandeiras estão constantemente viradas para Israel, que
assiste a uma corrente de jornalistas australianos apoiados e pagos por grupos
sionistas. O resultado é a reportagem apologética de
acções criminosas que evoca os grandes pacificadores como
Geoffrey Dawson, editor do
The Times
nos anos 30. O debate sobre declarados crimes de guerra não chegou
à Austrália. Que um antigo e um actual primeiro-ministros
britânicos tenham sido convocados a depor perante o inquérito
Chilcot em Londres, é encarado com estupefacção porque
aqui nunca aconteceria uma coisa dessas. Mas John Howard, que também
invadiu o Iraque, detém uma espécie de recorde por ter afirmado
30 vezes num só discurso que sabia que Saddam Hussein tinha um
"verdadeiro programa maciço" de armas de
destruição maciça.
A emissora nacional, a Australian Broadcasting Corporation, há muito que
foi intimidada pela imprensa de Murdoch sob a forma obsessiva da campanha
travada contra a BBC. Financiada directamente pelos governos, a ABC não
tem a independência nominal e a protecção do sistema
britânico através do recurso a uma taxa de TV para a
difusão pública. No ano passado, o HarperCollins, propriedade de
Murdoch, foi recompensado com uma lucrativa "parceria" com o ramo
editorial da ABC, o ABC Books.
Em 1983, havia 50 importantes empresas que dominavam os meios de
comunicação mundiais. Em 2002, estavam reduzidas a nove. Rupert
Murdoch diz que acabará por haver apenas três, incluindo a sua
própria. Se aceitarmos isto, os meios de informação e o
controlo da informação serão a mesma coisa, e passaremos a
ser todos cidadãos duma murdocracia.
11/Março/2010
N.T.
[1] Campanha Gallipoli batalha na peninsula da Turquia em 1915-1916.
Tentativa falhada de conquista de Istambul com pesadas baixas.
[2] ANZAC Australian and New Zealand Army Corps
O original encontra-se em
http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=569
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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