Sem lágrimas nem remorsos pelos caídos do Iraque
por John Pilger
No Dia da Memória de 2007, os grandes e os bons inclinaram suas
cabeças no Cenotáfio. Generais, políticos, leitores de
jornais, dirigentes do futebol e correctores de acções vestiram
as suas melhores roupas. A hipocrisia sentia-se. Ninguém mencionou o
Iraque. Ninguém exprimiu o mais ligeiro remorso pelos caídos
daquele país. Ninguém leu a lista proibida.
A lista de documentos proibidos é o papel que o Estado britânico e
a sua corte desempenhou na destruição do Iraque. Aqui
está ela:
1. Negação do holocausto
Em 25 de Outubro, o deputado Dai Davies perguntou a Gordon Brown acerca dos
civis mortos no Iraque. Brown transferiu a questão para o
secretário do Exterior, David Miliband, o qual passou-a para o seu
ministro júnior, Kim Howells. Este respondeu: "Continuamos a
acreditar que não há números completos ou
confiáveis quanto a mortos a partir de Março de 2003". Isto
era mentira. Em Outubro de 2006 a
Lancet
publicou investigação da Johns Hopkins University dos EUA e da
Universidade al-Mustansiriya de Bagdad, o qual calculava que 655 mil iraquianos
haviam morrido devido à invasão anglo-americana. Uma
investigação ao abrigo da lei da Freedom of Information revelou
que o governo, apesar de publicamente minimizar o estudo, secretamente
considerou-o como completo e confiável. O conselheiro científico
chefe do ministro da Defesa, sir Roy Anderson, considerou os seus
métodos como "robustos" e "de acordo com a melhor
prática". Outros altos responsáveis do governo reconheceram
secretamente que o inquérito "tentou e testou o método de
medição da mortalidade em zonas de conflito". Desde
então, a agência britânica de investigação de
opinião, Opinion Research Business, extrapolou um número de 1,2
milhão de mortos no Iraque. Portanto, a escala de mortes provocada
pelos governos britânico e americano pode ter ultrapassado aquela do
genocídio de Rwanda, tornando-a o maior acto único de
assassínio em massa do fim do século XX e do século XXI.
2. Saqueio
A razão não declarada para a invasão do Iraque era as
ambições convergentes dos neocons, ou neo-fascistas, em
Washington e o regime de extrema-direita de Israel. Ambos os grupos há
muito queriam o Iraque esmagado e o Médio Oriente colonizado para
atender os desígnios americano e israelense. O plano inicial para isto
foi o "Defence Planning Guidance", de 1992, o qual delineou os planos
pós Guerra Fria dos EUA a fim de dominar o Médio Oriente e
não só. Os seus autores incluíam Dick Cheney, Paul
Wolfowitz e Colin Powell, arquitectos da invasão de 2003. A seguir
à invasão a autoridade civil em Bagdad foi dada a Paul Bremer, um
neocon fanático, e numa série de decretos ele transferiu toda a
futura economia iraquiana para corporações americanas. Como isto
era ilegal, a pilhagem corporativa recebeu imunidade quanto a quaisquer formas
de processo. O governo Blair foi totalmente cúmplice e até mesmo
objectou quando lhe pareceu que companhias britânicas poderiam ser
excluídas de grande parte do saqueio corporativo. Oficiais
britânicos foram premiados como se fossem funcionários de postos
coloniais. Uma "lei" do petróleo permitirá, com
efeito, a companhias estrangeiras aprovar os seus próprios contratos
sobre os vastos recursos energéticos do Iraque. Isto constituirá
o maior roubo desde que Hitler despojou as suas conquistas europeias.
3. Destruição da saúde de um país
Em 1999 entrevistei o dr. Jawad Al-Ali, especialista em cancro do hospital da
cidade de Bassora. "Antes da Guerra do Golfo", disse ele,
"tínhamos apenas três ou quatro mortes de câncer por
mês. Agora há 30 a 35 pacientes a morrerem a cada mês. Os
nossos estudos indicam que 40 a 48 por cento da população nesta
área ficará com cancro". O Iraque estava então nas
garras de um sítio económico e humanitário, iniciado e
conduzido pelos EUA e Grã-Bretanha. O resultado, escreveu Hans von
Sponeck, o então responsável chefe da missão
humanitária da ONU em Bagdad, foi "genocida... praticamente toda
uma nação foi sujeita à pobreza, morte e
destruição dos seus fundamentos físicos e mentais".
A maior parte do sul do Iraque permanece poluído com os resíduos
tóxicos dos explosivos britânicos e americanos, incluindo
munições com urânio-238. Médicos iraquianos pediram
ajuda em vão, citando os níveis de leucemia entre crianças
como os mais altos já vistos desde Hiroshima. O professor Karol Sikora,
chefe do programa de cancro da Organização Mundial da
Saúde, escreveu no BMJ: "Pedidos de equipamentos de radioterapia,
drogas de quimioterapia e analgésicos são sistematicamente
bloqueados pelos conselheiros dos Estados Unidos e britânicos [no
Comité de Sanções]". Em 1999, Kim Howells,
então ministro do Comércio, proibiu efectivamente a
exportação para o Iraque de vacinas que protegeriam a maior parte
das crianças de difteria, tétano e febre amarela, as quais, disse
ele, "são capazes de serem utilizadas em armas de
destruição em massa".
A partir de 2003, excepto para exercícios de RP para os media embebidos,
os ocupantes britânicos não fizeram qualquer tentativa de
reequipar e reabastecer hospitais que, antes de 1991, eram vistos como os
melhores do Médio Oriente. Em Julho, a Oxfam relatou que 43 por cento
dos iraquianos estavam a viver na "pobreza absoluta". Sob a
ocupação, as taxas de desnutrição entre
crianças dispararam para 28 por cento. Um documento secreto da Defence
Intelligence Agency, "Iraq Water Treatment Vulnerabilities", revela
que o abastecimento de água civil foi alvejado deliberadamente. Em
consequência, a grande maioria da população não tem
acesso a água corrente nem a esgotos num país onde tais
serviços básicos foram outrora tão universais quanto na
Grã-Bretanha. "A mortalidade de crianças em Bassorá
aumentou em aproximadamente 30 por cento em comparação à
era de Saddam Hussein", disse o dr. Haydar Salah, um pediatra do hospital
de crianças de Bassora. "Estão a morrer crianças
diariamente e ninguém está a fazer algo para
ajudá-las". Em Janeiro deste ano, cerca de 100 importantes
médicos britânicos escreveram a Hilary Benn, então
secretário do Desenvolvimento Internacional, a descrever como estavam a
morrer crianças porque a Grã-Bretanha não havia cumprido
as suas obrigações como potência ocupante sob a
Resolução 1483 do Conselho de Segurança das
Nações Unidas. Benn recusou-se a vê-los.
4. Destruição de uma sociedade
A ONU estima que 100 mil iraquianos estão a fugir do país a cada
mês. A crise de refugiados ultrapassou agora aquela de Darfur como a
mais catastrófica sobre a Terra. Metade dos médicos iraquianos
foi-se, bem como engenheiros e professores. A sociedade mais educada do
Médio Oriente está a ser desmantelada, peça por
peça. Dentre os mais de quatro milhões de pessoas deslocadas, no
ano passado a Grã-Bretanha recusou visto à maior parte dos mais
de 1000 iraquianos que pediram para virem aqui, enquanto removiam mais
refugiados iraquianos "ilegais" do que qualquer outros país
europeu. Graças a legislação inspirada em
tablóides, iraquianos na Grã-Bretanha estão muitas vezes
na miséria, sem direito a trabalhar e sem apoio. Eles dormem e recolhem
resíduos em parques. O governo, diz a Amnistia, "está a
tentar matá-los à fome para que saiam do país".
5. Propaganda
"Veja a minha linha de actuação", disse George W. Bush,
"você mantém-se a repetir coisas múltiplas vezes para
a verdade entrar na cabeça, como que para catapultar a propaganda".
De pé do lado de fora da Downing Street nº 10, em 9 de Abril de
2003, o editor político da BBC, Andrew Marr, relatou a queda de Bagdad
como um discurso vitorioso. Tony Blair, declarou ele aos telespectadores,
"disse que seria capaz de tomar Bagdad sem um banho de sangue, e que no
fim os iraquianos estariam a celebrar. E em ambos os pontos ele verificou-se
conclusivamente certo. E seria inteiramente desagradável, mesmo para os
seus críticos, não reconhecerem que esta noite ele se ergue como
um grande homem e um primeiro-ministro mais forte". Nos Estados Unidos,
travestis semelhantes passavam por jornalismo. A diferença era que os
principais jornalistas americanos começaram a considerar as
consequências do papel que haviam desempenhado na
preparação para a invasão. Vários deles
disseram-me acreditar que se os media houvessem desafiado e investigado as
mentiras de Bush e de Blair, ao invés de reflecti-las e
ampliá-las, a invasão poderia não ter acontecido. Um
estudo europeu descobriu que, entre as maiores redes de televisão
ocidental, a BBC permitiu menos cobertura de divergências do que todas as
outras. Um segundo estudo descobriu que a BBC deu crédito
sistematicamente à propaganda do governo de que existiram armas de
destruição em massa. Ao contrário do
Sun,
a BBC tem credibilidade como tem, ou tinha, o
Observer.
Em 14 de Outubro de 2001, a primeira página do
London Observer
dizia "Falcões americanos acusam o Iraque quanto ao antrax".
Isto era inteiramente falso. Fornecida pela inteligência americana, isto
fazia parte da firme cobertura pró guerra do
Observer,
a qual incluía afirmar que existia uma ligação entre o
Iraque e al-Qaeda, para a qual não havia evidência crível,
o que traiu o passado honroso do jornal. Uma reportagem em cada duas
páginas era intitulada: "A conexão iraquiana". Aquilo
também vinha de "fontes de inteligência" e era lixo. O
repórter David Rose concluía a sua investigação
estéril com um sentido apelo à invasão. "Há
ocasiões na história", escreveu ele, "em que a
utilização da força é ao mesmo tempo certa e
lógica". Rose posteriormente escreveu o seu mea culpa, incluindo
nesta a confissão de como fora utilizado. Mas outros jornalistas ainda
têm de admitir que foram manipulados devido ao seu próprio
relacionamento crédulo com o poder estabelecido.
Nestes dias, o Iraque é noticiado como se ali houvesse exclusivamente
uma guerra civil, com um "crescimento"
("surge")
dos militares americanos a fim de a trazer paz aos nativos briguentos. A
perversidade disto é de cortar a respiração. Que a
violência sectária é o produto de uma política
viciosa de dividir para conquistar está para além de qualquer
dúvida. Quanto ao abundante mito dos media sobre a al-Qaeda, "a
maior parte dos [americanos] favoráveis contar-lhe-ão",
escreveu Seymour Hersh, "que os combatentes estrangeiros são uns
dois por cento, e estão sem liderança". Que uma
resistência fracamente armada e audaciosa tenha não só
travado o mais poderoso exército do mundo como tenha acordado uma agenda
anti sectária, anti al-Qaeda, a qual opõe-se a ataques a civis e
apela a eleições livres, isto não é notícia.
6. A próxima matança
Nas décadas de 60 e 70, governos britânicos expulsaram
secretamente a população de Diego Garcia, uma ilha no Oceano
Índico cuja população tem nacionalidade britânica.
Mulheres e crianças foram carregadas em barcos que lembravam navios
negreiros e despejadas em favelas das Ilhas Maurícias, depois de a sua
terra natal ter sido dada aos americanos para a instalação de uma
base militar. Três vezes o Supremo Tribunal descobriu esta atrocidade
ilegal, considerando-a como um desacato à Magna Carta e a recusa do
governo Blair de permitir o povo voltar para casa como "ultrajante" e
"repugnante". Mas o governo continua a utilizar recursos
infindáveis para apelar, a expensas dos contribuintes, para impedir que
Bush fique inquieto. A crueldade disto rivaliza com o facto de que não
só os EUA repetidamente bombardearam o Iraque a partir de Diego Garcia
como em "Camp Justice", na ilha, "suspeitos da al-Qaeda"
são "entregues"
("rendered")
e "torturados", segundo o
Washington Post.
Agora a US Air Force apressa-se a ampliar as instalações de
hangares na ilha para que bombadeiros invisíveis ao radar possam
transportar bombas de 14 toneladas para "destruição de
bunkers" num ataque ao Irão. A propaganda orquestrada nos media
é crítica para o êxito deste acto de pirataria
internacional.
Em 22 de Maio a primeira página do
London Guardian
estampava a manchete: "Plano secreto do Irão para ofensiva de
Verão a fim de forçar os EUA para fora do Iraque". Era um
panfleto de pura propaganda baseada inteiramente em fontes anónimas
oficiais dos EUA. Por toda a parte, nos media, começaram a rufar
tambores. As "ambições nucleares do Irão"
escorrem facilmente dos lábios dos leitores destas notícias,
não importa que a Agência Internacional de Energia Atómica
tenha refutado as mentiras de Washington, não importa o eco das
"armas de destruição em massa de Saddam", não
importa que outro banho de sangue esteja a preparar-se.
Para que não esqueçamos.
14/Novembro/2007
O original encontra-se em
http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=462
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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