Um filme farsa devido às suas omissões
por John Pilger
Em 30 de Agosto decorreu uma década desde que o povo de Timor Leste
desafiou os ocupantes genocidas do seu país ao participar num referendo
das Nações Unidas, votando pela sua liberdade e
independência. Seguiu-se uma campanha de "terra arrasada" por
parte da ditadura indonésia, agravando o número de mortos na
carnificina que havia começado 24 anos antes quando a Indonésia
invadiu o minúsculo Timor Leste com o apoio secreto da Austrália,
Grã-Bretanha e Estados Unidos. De acordo com um comité do
parlamento australiano, "pelo menos 200 mil" morreram sob a
ocupação, um terço da população.
Ao filmar clandestinamente em 1993, encontrei cruzes por quase toda parte:
grandes cruzes negras a contrastar contra o céu, cruzes sobre picos,
cruzes em filas nas faldas das montanhas, cruzes junto a estradas. Elas
manchavam a terra e enchiam os olhos. Um holocausto aconteceu em Timor Leste,
contando-nos mais acerca da opressora potência ocidental, os seus
objectivos de propaganda e os verdadeiros, do que as actuais aventuras
coloniais. O registo histórico é inequívoco: os EUA,
Grã-Bretanha e Austrália conspiraram para aceitar tamanha escala
de banho de sangue como preço para garantir o "grande
prémio" do Sudeste da Ásia com o seu "tesouro de
recursos naturais". Philip Liechty, o responsável sénior das
operações da CIA em Djakarta no tempo da invasão,
contou-me: "Vi os relatórios de inteligência. Houve pessoas a
serem arrebanhadas para dentro de edifícios escolares pelos soldados
indonésios e os edifícios eram incendiados. O lugar era uma zona
de fogo livre... Nós lhes enviámos tudo o que era
necessário para combater uma grande guerra contra pessoas que não
tinham quaisquer armas. Nada disso saiu daqui... A Suharto [o ditador
indonésio] foi dado sinal verdade para fazer o que ele fez".
A Grã-Bretanha forneceu a Suharto metralhadoras e
caças-bombardeiros Hawk os quais, pouco importando falsas
"garantias", foram utilizados contra indefesas aldeias do Timor
Leste. O papel crítico foi desempenhado pela Austrália. Isto era
região da Austrália. Durante a segunda guerra mundial, o povo de
Timor Leste combatera heroicamente para travar a invasão japonesa da
Austrália. A sua traição ficou explicitada numa
série de telegramas enviados pelo embaixador australiano em Djakart,
Richard Woolcott, antes e durante a invasão indonésia em 1975.
Reflectindo Henry Kissinger, ele incitou a "uma posição
pragmática ao invés de uma de princípios", recordando
ao seu governo que "mais prontamente" exploraria a riqueza em
petróleo e gás sob o Mar de Timor com a Indonésia do que
com os seus legítimos possuidores, o timorenses do Leste. "O que a
Indonésia agora procura da Austrália", escreveu ele quando
forças especiais de Suharto massacravam Timor Leste, "é
algum entendimento da sua atitude e possível acção para
ajudar o entendimento público na Austrália".
Dois meses antes, tropas indonésias haviam assassinado cinco jornalistas
da Australian TV perto da cidade de Balibó, no Timor Leste. No dia em
que a capital, Dili, foi tomada, eles alvejaram e mataram um sexto jornalista,
Roger East, lançando o seu corpo ao mar. A inteligência
australiana soube com 12 horas de antecipação que os jornalistas
em Balibó enfrentavam morte iminente e o governo nada fez. Interceptada
na base de espionagem, a Defence Signals Directorate (DSD) perto de Darwin, a
qual abastece a inteligência dos EUA e britânica, a
advertência foi suprimida de modo a que não revelasse a parte dos
governos ocidentais na conspiração para invadir e a mentira
oficial de que os jornalistas haviam sido mortos em "fogo cruzado". O
secretário do Departamento Australiano da Defesa, Arthur Tange, um
notório homem da guerra fria, exigiu que o governo nem mesmo informasse
as famílias dos jornalistas dos seus assassinatos. Nenhum ministro
protestou junto aos indonésios. Esta conivência criminosa
está documentada em
Mortes em Balibó, Mentiras em Canberra (
Death in Balibo, Lies in Canberra
),
de Desmond Ball, um reputado especialista em inteligência, e Hamish
McDonald.
A cumplicidade do governo australiano no assassinato dos jornalistas e, acima
de tudo, num banho de sangue proporcionalmente maior do que o perpetrado por
Pol Pot no Cambodja, foi quase inteiramente cortada de um novo filme,
Balibó,
cuja divulgação internacional começou na Austrália.
Afirmando ser uma "história verdadeira", é uma farsa
pelas omissões. Em oito das 16 minutas do seu roteiro, David Williamson, o
distinto dramaturgo australiano, descreveu graficamente a cadeia de eventos
reais que começaram com as intercepções originais de
rádio do governo australiano e fizeram o seu caminho até o
primeiro-ministro Gough Whitlam, o qual acreditava que Timor Leste deveria ser
"integrada" dentro da Indonésia. Isto no filme é
reduzido a uma imagem fugaz de Whitlam e Suharto num jornal que embrulhava
peixes e batatas. O roteiro original de Williamson descrevia o efeito do
encobrimento sobre as famílias dos jornalistas assassinados e a sua ira
e frustração ao lhes ser negada informação e o
desespero com a escandalosa decisão de Canberra de ter as cinzas dos
jornalistas enterradas em Djakarta com o embaixador Woolcott, o principal
apologista [da invasão] a ler a oração fúnebre. O
que o governo temia se as cinzas voltassem à Austrália era a
indignação pública para com o cliente ocidental em
Djakarta. Tudo isto foi cortado.
Esta "verdadeira história" é em grande parte
fictícia. Finamente dramatizado, actuado e localizado, o filme recorda o
género dos filmes de Vietname, tal como
The Deer Hunter,
o qual artisticamente escamoteia a verdade daquela guerra atroz da
história popular. Não surpreendentemente, ele tem sido louvado
nos media australianos, os quais têm interesse mínimo no
sofrimento de Timor Leste durante os longos anos da ocupação
indonésia. Tão enamorado do general Suharto estava o único
diário nacional do país,
The Australian,
propriedade de Rupert Murdoch, que o seu editor chefe, Paul Kelly, levou os
principais editores do jornal a Djakarta a fim de apertar a mão ao
tirano.
Há uma fotografia de um deles a cumprimentar.
Perguntei ao director de
Balibó,
Robert Connolly, porque havia retalhado o roteiro original de Williamson e
omitido toda a cumplicidade do governo. Ele respondeu que o filme havia
"gerado enorme discussão nos media e no governo australiano" e
assim "a Austrália ficaria mais bem preservada". O truísmo
de Milan Kundera vem à mente: "A luta do povo contra o poder
é a luta da memória contra o esquecimento".
O original encontra-se em
http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=544
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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