Israel: um importante marco foi ultrapassado

por John Pilger

Os bantustans no apartheid de Israel. De uma colina calcárea sobre o campo de refugiados de Qalandia pode-se avistar Jerusalém. Observei uma figura solitária que ali se postava à chuva, com o filho a segurar o seu grande casaco esfarrapado. Ele estendeu a mão e não a largava. "Sou Ahmed Harnzeh, animador de rua", disse num inglês cuidadoso. "Lá, toquei muitos instrumentos musicais, cantei em árabe, inglês e hebraico e, como eu era bastante pobre, meu filho muito pequeno mascaria gomas elásticas enquanto o macaco fazia seus truques. Quando perdemos o nosso país, perdemos o respeito. Um dia um kuwaitiano rico parou o seu carro diante de nós. Ele gritou para o meu filho: "Mostre-me como um palestino apanha as suas rações de comida!". Assim, fiz o macaco aparecer para apanhar comida no chão, na sarjeta. E meu filho apanhou-a. O kuwaitiano atirou-lhe moedas e meu filho engatinhou de joelhos para apanhá-las. Isto não estava certo, eu era um artista e não um mendigo... Agora não sou nem mesmo um camponês....

"Como se sente quanto a tudo isso?", perguntei-lhe.

"Espera que sinta ódio? O que é isso para um palestino? Nunca odiei os judeus e seu Israel... sim, suponho odiá-los agora, ou talvez ter piedade pela sua estupidez. Eles não podem vencer. Porque nós palestinos somos os judeus agora e, como os judeus, nós nunca lhes permitiremos ou aos árabes ou a si que esqueçam. A juventude nos garantirá isso, e a juventude depois deles..."

Isto foi há 40 anos atrás. Na minha última viagem à Cisjordania pouco reconheci de Qalandia, agora anunciada por um vasto posto de controle israelense, um zig zag de sacos de areia, tambores de óleo e blocos de cimento, com filas de pessoas, à espera, a espantar moscas com preciosos documentos. Dentro do campo, as tendas haviam sido substituídas por barracas firmes, embora as filas junto às poucas torneiras fossem longas e o pó ainda contribuísse para fazer lama com a chuva. No gabinete das Nações Unidas perguntei acerca de Ahmed Hamzeh, o animador de rua. Foram consultados registos, cabeças sacudiram. Alguém pensava que ele fora "levado embora... muito doente". Ninguém sabia do seu filho, cujo tracoma agora certamente transformara-se em cegueira. Do lado de fora, uma outra geração chutava na poeira uma bola de futebol furada.

E ainda assim, aquilo que Nelson Mandela denominou "a maior questão moral da nossa era" recusa-se a ser enterrada no pó. Para cada locutor da BBC que se esforça por igualar o ocupado com o ocupante, o ladrão com a vítima, para cada enxame de emails dos fanáticos do Sião, para aqueles que invertem as mentiras e descrevem o compromisso do estado israelense de destruir a Palestina, a verdade agora é mais poderosa do que nunca. A documentação da violenta expulsão dos palestinos em 1948 é volumosa. O reexame dos registos históricos pôs fim à fábula do heróico David na Guerra dos Seis Dias, quando Ahmed Hamzeh e sua família foi expulsa do seu lar. A alegada ameaça de líderes árabes de "lançar os judeus ao mar", utilizada para justificar a carnificina israelense de 1967 e desde então repetida incessantemente, é altamente questionável.

Em 2005, o espectáculo de fanáticos do Velho Testamento a choramingar quando deixavam Gaza foi uma fraude. A construção dos seus "colonatos" acelerou-se na Cisjordânia, juntamente com a muralha ilegal estilo Berlim que separa os agricultores das suas culturas, as crianças das suas escolas, as famílias uns dos outros. Agora sabemos que a destruição por Israel de grande parte do Líbano no ano passado foi previamente planeada. Tal como escreveu a antiga analista da CIA Kathleen Cristison, a recente "guerra civil" em Gaza foi realmente um golpe contra o governo eleito do Hamas, engendrado por Elliott Abrams, o sionista que dirige a política americana sobre Israel e um criminoso condenado desde o tempo do caso Irão-Contra.

A limpeza étnica da Palestina é tanto uma cruzada da América como de Israel. Em 16 de Agosto a administração Bush anunciou um "pacote de ajuda militar" sem precedentes: US$ 30 mil milhões para Israel, a quarta maior potência militar do mundo, com uma força aérea maior do que a da Grã-Bretanha, uma potência nuclear maior do que a da França. Nenhum outro país sobre a Terra desfruta de tal imunidade como Israel, o que lhe permite actuar sem sanções. Nenhum outro país tem tamanho record de ilegalidades: nenhuma das tiranias mundiais sequer se aproxima. Tratados internacionais, tais como o Tratado de Não Proliferação Nuclear, ratificados pelo Irão, são ignorados por Israel. Não há nada como isto na história das Nações Unidas.

Mas alguma coisa está a mudar. Talvez o panorama de horror do último Verão irradiado do Líbano para os écrans de TV de todo o mundo funcionem como catalisador. Ou talvez o cinismo de Bush e Blair e a incessante utilização do discurso vazio sobre o "terror", juntamente com a disseminação diária de uma insegurança fabricada em todas as nossas vidas, tenha finalmente chamado a atenção da comunidade internacional para os estados bandidos (rogue states), a Grã-Bretanha e os EUA, voltando-a para uma das suas fontes principais: Israel.

Tive há pouco, nos Estados Unidos, o sentimento disto. Um anúncio de página inteira em The New York Times tinha o cheiro característico do pânico. Havia muito anúncios "amigos de Israel" no Times, a exigirem os favores habituais, a racionalizarem os ultrajes costumeiros. Este era diferente. "Boicote uma cura para o câncer?" era o seu título principal, seguido por "Cessar a irrigação por gotejamento na África? Impedir a cooperação científica entre países?" Quem desejaria fazer tais coisas? "Alguns académicos britânicos querem boicotar israelenses", era a resposta explicativa. O anúncio referia-se à moção na conferência inaugural da University and College Union (UCU), em Maio, apelando à discussão dentro dos seus organismos de um boicote a instituições académicas israelenses. Tal como destacou John Chalcraft, da London School of Economics, "a academia israelense desde há muito proporciona apoio intelectual, linguístico, logístico, técnico, científico e humano a uma ocupação em violação directa do direito internacional [contra a qual] nenhuma instituição académica de Israel tomou alguma vez uma posição pública".

O maré do boicote está a crescer inexoravelmente, como se um importante marco houvesse sido ultrapassado, recordando os boicotes que levaram a sanções contra o apartheid sul-africano. Tanto Mandela como Desmond Tutu traçaram este paralelo, assim como o ministro sul-africano Ronnie Kasrils e outros ilustres membros judeus da luta de libertação. Na Grã-Bretanha, uma campanha muitas vezes conduzida por judeus contra a "destruição metódica do sistema de educação [palestino]" pode corroborar aqueles que descreveram a partir dos territórios ocupados o arbitrário encerramento de universidades palestinas, a perseguição e humilhação de estudantes em postos de controle e os disparos e as mortes de crianças palestinas no seu caminho para a escola.

Estas iniciativas tem sido apoiadas por um grupo britânico, o Independent Jewish Voices, cujas 528 assinaturas incluem Stephen Fry, Harold Pinter, Mike Leigh e Eric Hobsbawm. O maior sindicato do país, o Unison, apelou a um "boicote económico, cultural, académico e desportivo" e ao direito ao retorno para a famílias palestinas expulsas em 1948. O notável é que o comité internacional de desenvolvimento Commons assumiu uma posição semelhante. Em Abril, os membros da National Union of Journalists (NUJ) votaram por um boicote só para vê-lo apressadamente derrubado pelo conselho executivo nacional. Na República da Irlanda, o Congresso Irlandês dos Sindicatos conclamou a um desinvestimento em companhias israelenses: uma campanha destinada à União Europeia, a qual representa dois terços das exportações de Israel de acordo com um Acordo de Associação UE-Israel. O Relator Especial das Nações Unidos sobre o Direito à Alimentação, Jean Ziegler, afirmou que no acordo deveriam ser estabelecidas condições sobre os direitos humanos e suspensas as preferências comerciais de Israel.

Isto é pouco habitual, pois outrora não se ouviam estas palavras. E que tão grave discussão de um boicote se tenha tornado "global" não estava previsto no Israel oficial, há muito confortado pelos seus mitos aparentemente intocáveis e o grande poder dos seus patrocinadores, bem como a confiança em que a mera ameaça de anti-semitismo asseguraria o silêncio. Quando a decisão dos académicos britânicos foi anunciada, o Congresso dos EUA aprovou uma absurda resolução descrevendo a UCU como "anti-semita". (Oitenta deputados foram a Israel este Verão, às custas dos dinheiros públicos)

A intimidação funcionou no passado. A calúnia de académicos americanos negou-lhes promoção, até mesmo o emprego. O falecido Edward Said mantinha um botão de emergência no seu apartamento em Nova York ligado à esquadra de polícia local, seus escritórios na Universidade de Columbia certa vez foram incendiados. A seguir ao meu filme de 2002, "A Palestina ainda está em causa" ("Palestine is Still the Issue"), recebi ameaças de morte e mensagens caluniadoras, vindas na maior parte dos EUA onde o filme nunca foi exibido. Quando o Independent Panel da BBC examinou recentemente a cobertura corporativa do Médio Oriente, foi inundado com emails, "muitos deles do estrangeiro, principalmente da América do Norte", dizia o seu relatório. Alguns indivíduos "enviavam múltiplas mensagens, algumas em duplicado e havia uma clara evidência de mobilização de um grupo de pressão". A conclusão do painel era que o relato da BBC da luta palestina não era "completo e justo" e "em importantes aspectos, apresenta um quadro incompleto e neste sentido enganoso". Isto foi neutralizado nos press releases da BBC.

O corajoso historiador israelense Ilan Pappé acredita que um único Estado democrático, no qual seja dado aos refugiados palestinos o direito de retorno, é a única solução factível e justa, e que uma campanha de sanções e boicote é crítica para alcançar isto. Será que a população israelense ficaria comovida por um boicote mundial? Embora eles raramente admitissem isto, os brancos sul-africanos foram suficientemente abalados para apoiar uma mudança histórica. Um boicote de instituições, bens e serviços israelenses, afirma Pappé, "não mudará a posição [israelense] num dia, mas enviará uma mensagem clara de que [as premissas do sionismo] são racistas e inaceitáveis no século XXI... Eles teriam de optar".

E assim deveríamos fazer todos nós.

23/Agosto/2007

O original encontra-se em http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=451

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
30/Ago/07