A primeira baixa real da guerra
A censura no jornalismo é virulenta tanto na Grã-Bretanha como
nos EUA e isto significa a diferença entre a vida e a morte para
povos de países remotos.
Durante a década de 1970 filmei secretamente na Checoslováquia,
então [considerada] uma ditadura estalinista. O escritor dissidente
Zdenek Urbánek disse-me: "Em certo aspecto, somos mais afortunados
do que vocês no ocidente. Não acreditamos em nada do que lemos
nos jornais e vemos na televisão, em nada da verdade oficial. Ao
contrário de vocês, aprendemos a ler entre as linhas, porque a
verdade real é sempre subversiva".
Este cepticismo agudo, esta habilidade de ler entre as linhas, é
urgentemente necessário nas sociedades supostamente livres de hoje.
Tome as reportagens da guerra promovida pelo estado. O mais velho
cliché é de que a primeira baixa da guerra é a verdade.
Discordo. O jornalismo é a primeira baixa. E não é
só isso: ele torna-se uma arma de guerra, uma censura virulenta que
continua não reconhecida nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e em
outras democracias, censura por omissão, cujo poder é tamanho
que, na guerra, ela pode representar a diferença entre a vida e a morte
para povos em países remotos, tal como o Iraque.
Como jornalista ao longo de mais de 40 anos, tenho tentado entender como isto
funciona. No rescaldo na guerra americana no Vietnam, que eu cobri, a
política em Washington era a vingança, uma palavra utilizada
muitas vezes em privada mas nunca publicamente. Foi imposto um embargo ao
Vietnam e ao Camboja; o governo Thatcher cortou o fornecimento de leite
às crianças do Vietnam. Este assalto à própria
essência da vida em duas das mais golpeadas sociedades do mundo foi
raramente relatado; a consequência foi o sofrimento em massa.
Foi nessa época que fiz uma série de documentários acerca
do Camboja. O primeiro, em 1979,
Year Zero: the silent death of Cambodia,
descrevia o bombardeamento americano que serviu de catalisador para o ascenso
de Pol Pot, e mostrava os chocantes efeitos humanos do embargo.
Year Zero
foi difundido em uns 60 países, mas nunca nos Estados Unidos. Quando
fui a Washington e ofereci-o à cadeia pública nacional, PBS,
deparei-me com uma reacção curiosa. Os executivos da PBS ficaram
chocados com o filme, e falaram admirativamente dele, mesmo quando
colectivamente sacudiam as suas cabeças. Um deles disse-me;
"John, perturba-nos que o seu filme diga que os Estados Unidos
desempenharam um papel tão destrutivo, assim decidimos designar um
árbitro jornalístico
(journalistic adjudicator)
".
A expressão "árbitro jornalístico" é digna
de Orwell. A PBS designou um Richard Dudman, repórter do
St. Louis Post-Dispatch,
e um dos poucos ocidentais que haviam sido convidados por Pol Pot a visitar o
Camboja. Os seus despachos nada reflectiam da selvajaria que envolvia aquele
país, ele chegou mesmo a louvar seus hospedeiros. Não
surpreendentemente, ele vetou o meu filme. Um dos executivos da PBS
confidenciou-me: "São dias difíceis estes sob Ronald
Reagan. O seu filme teria dado problemas para nós".
A ausência de verdade acerca do que realmente aconteceu no sudeste da
Ásia o mito promovido pelos media de um "erro
estúpido" e a supressão da verdadeira escala das baixas
civis e de uma rotina de assassínio em massa, até da palavra
"invasão" permitiu a Reagan lançar uma segunda
"nobre causa" na América Central. O alvo era uma outra
nação empobrecida e sem recursos: a Nicarágua, cuja
"ameaça", como a do Vietnam, era tentar estabelecer um modelo
de desenvolvimento diferente daquele das ditaduras coloniais apoiadas por
Washington. A Nicarágua foi esmagada, graças em não
pequena parte à actuação de jornalistas americanos,
conservadores e liberais, que suprimiram os êxitos dos sandinistas e
encorajaram um debate especioso acerca de uma "ameaça".
A tragédia no Iraque é diferente, mas, para jornalistas,
há semelhanças pungentes. Em 24 de Agosto do ano passado, um
editorial do
New York Times
declarava: "Se todos nós tivéssemos sabido o que sabemos
agora, a invasão [do Iraque] teria sido travada por um clamor
popular". Esta admirável admissão estava a dizer, com
efeito, que a invasão nunca teria acontecido se jornalistas não
houvessem traído o público ao aceitar e amplificar e repetir as
mentiras de Bush e Blair, ao invés de desafiá-las e
expô-las.
Agora sabemos que a BBC e outros media britânicos foram utilizados pelo
MI6, o serviço secreto de inteligência. Naquilo que foi chamado
"Operation Mass Appeal", agentes do MI6 plantaram estórias
acerca de armas de destruição em massa de Saddam Hussein
tais como armas escondidas nos seus palácios e em bunkers
subterrâneos secretos. Todas estas estórias eram falsas. Mas
isto não é o principal. O principal é que as
façanhas escuras do MI6 eram absolutamente desnecessárias.
Recentemente, pediram à directora de noticiários da BBC, Helen
Broaden, que explicasse como um dos seus repórteres
"embutidos" ("embedded") no Iraque, tendo aceite
desmentidos americanos quando à utilização de armas
químicas contra civis, podia descrever o objectivo da invasão
anglo-americana como "trazer a democracia e os direitos humanos" para
o Iraque. Ela respondeu com citações de Blair de que este era na
verdade o objectivo, como se as declarações de Balir e a verdade
estivessem de alguma forma relacionadas. No terceiro aniversário da
invasão, um noticiário da BBC descreveu este acto ilegal,
não provocado, baseado em mentiras, como um "erro de
cálculo" ("milcalculation"). Assim, para usar a
memorável frase de Edward Herman, o impensável foi normalizado.
Tal servilismo ao poder do estado é ardentemente negado, mas é
rotina. Quase todos os media britânicos omitiram o número
verdadeiro das baixas de civis iraquianos, ignorando deliberadamente ou
tentando desacreditar estudos respeitáveis. "Adoptando
hipóteses conservadoras", escreveram os investigadores da eminente
Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, trabalhando com
académicos iraquianos, "pensamos que cerca de 100 mil mortes, ou
mais, verificaram-se desde a invasão do Iraque em 2003 ... as quais
foram primariamente o resultado de acções militares das
forças da coligação. A maior parte dos mortos pela
coligação eram mulheres e crianças
..." Isto foi em 29 de Outubro de 2004. Hoje, o número duplicou.
A linguagem talvez seja o mais crucial dos campos de batalha. Nobres palavras
tais como "democracia", "libertação",
"liberdade" e "reforma" foram esvaziadas do seu verdadeiro
significado e re-enchidas pelos inimigos daqueles conceitos. A
contrafacção domina os noticiários, juntamente com
etiquetas políticas desonestas, tais como "esquerda do
centro", uma predilecta atribuída a chefes de guerra como Blair e
Bill Clinton; ela significa o oposto. "Guerra ao terror" é
uma metáfora falsa que insulta a nossa inteligência. Não
estamos em guerra. Ao invés disso, nossas tropas estão a
combater insurreições em países em que as nossas
invasões provocaram mutilações criminosas e sofrimento,
cujas provas e imagens são suprimidas. Quantas pessoas sabem que, em
vingança das 3000 vidas inocentes ceifadas no 11 de Setembro de 2001,
mais de 20 mil pessoas inocentes morreram no Afeganistão.
Para recuperar a honra da nossa profissão, sem falar na verdade,
nós jornalistas precisamos pelo menos entender a tarefa histórica
que nos é assinalada isto é, relatar o resto da humanidade
em termos da sua utilidade, ao invés de resistir a resistência do
público a ataques predatórios a países que não
constituem ameaça para nós. Nós reduzimos a
resistência ao desumanizá-los, ao escrevermos acerca da
"mudança de regime" no Irão como se aquele país
fosse uma abstracção e não uma sociedade humana. A
Venezuela de Hugo Chávez está agora a ser amaciada em ambos os
lados do Atlântico. Umas poucas semanas atrás, a
Channel 4 News
transmitiu uma grande peça que poderia ter sido difundida pelo
Departamento de Estado americano. O repórter, Jonathan Rugman,
correspondente em Washington, apresentou Chávez como um carácter
caricatural, um sinistro bufão cujos modos latinos coloquiais
disfarçavam um homem "em risco de se juntar à vil galeria de
ditadores e déspotas o mais recente pesadelo de Washington".
Em contraste, a Condoleezza Rice foi dada compostura e a Donald Rumsfeld foi
permitido comparar Chávez com Hitler.
Na verdade, quase tudo nesta paródia de jornalismo foi encarado a partir
de Washington, e apenas fragmentos disto nos barrios da Venezuela, onde
Chávez desfruta uma popularidade de 80 por cento. Que ele tenha vencido
nove eleições e referendos democráticos um
récorde mundial era omitido. Num estilo soviético bruto,
ele era apresentado ladeado por Saddam Hussein e Muammar Gaddafi, embora estes
breves encontros tenham a ver com a OPEP e apenas com petróleo. Segundo
Rugman, a Venezuela sob Chávez está a ajudar o Irão a
desenvolver armas nucleares. Nenhuma prova foi dada para este absurdo. As
pessoas que assistiam não tinham qualquer ideia de que a Venezuela foi o
único país produtor de petróleo do mundo a utilizar o
rendimento do seu óleo em benefício dos pobres. Elas não
ficavam com qualquer ideia dos espectaculares desenvolvimentos em saúde,
educação, literacia, nem tão pouco com a ideia de que a
Venezuela não tem prisões políticas ao
contrário dos Estados Unidos.
Assim, se a administração Bush resolver executar a
"Operação Bilbao", um plano de contingência para
derrubar o governo democrático da Venezuela, quem se importará,
pois quem saberá? Portanto teremos apenas a versão dos media;
um outro demónio merecerá o que está a acontecer-lhe. Os
pobres da Venezuela, tal como os pobres da Nicarágua, os pobres do
Vietnam e os incontáveis outros pobres de lugares remotos, cujos sonhos
e vidas não são de interesse, serão invisíveis na
sua dor: um triunfo da censura através do jornalismo.
Diz-se que a Internet proporciona uma alternativa, e o que é maravilhoso
acerca dos espíritos rebeldes na worldwide web é que eles muitas
vezes relatam como muitos jornalistas deveriam fazer. Eles são pessoas
independentes na tradição de investigadores que denunciam
escândalos
(muckrakers)
como Claud Cockburn, que afirmou: "Nunca acredite em qualquer coisa
até que ela tenha sido negada oficialmente". Mas a Internet ainda
é uma espécie de samizdat, algo subterrâneo, e a maior
parte da humanidade não se conecta a ela, assim como a maior parte da
humanidade não possui sequer um telemóvel. E o direito a saber
deve ser universal. Outro grande investigador, Tom Paine, advertiu que se
à maioria do povo estiver a ser negada a verdade e ideias de verdade,
é chegado o tempo de atacar o que denominou a "Bastilha das
palavras". Este tempo é já.
24/Abril/2006
[*]
Versão abreviada do discurso "Reporting War and Empire",
pronunciado na Universidade de Columbia, Nova York, em
companhia de Seymour Hersh, Robert Fisk e Charles Glass.
O original encontra-se em
http://www.newstatesman.com/200604240013
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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