Descascando a cebola
Há um livro de um grande escritor onde vamos buscar o título
deste apontamento. Trata-se de uma polémica obra de Günter Grass, a
sua autobiografia, sobre a sua integração nas forças das
SS quando a Alemanha já desesperava em combates derradeiros e uma
adolescência por entre os escombros do pós-guerra. Este autor
questiona um comportamento que agora lhe é estranho e pensa na melhor
estratégia de pesquisa:
"A cebola tem muitas camadas. Mal é descascada, renova-se. Cortada,
provoca lágrimas. Só ao descascá-la fala verdade".
A fórmula escolhida para lidar com a maior crise bancária
europeia do ano (até à data) tem de ser esclarecida e descascada.
Há aqui muitas questões a nível macro, meso e micro que
são instrumento de trabalho para audições aos
protagonistas e para a agenda de comissões de inquérito.
A SOLUÇÃO É UM HOLOGRAMA
O BES parece ser um desconcertante caso de "morte-súbita". Uma
instituição todo-poderosa, multi-secular, pluri-continental e
trans-regime que desaparece num fim-de-semana causando alarido na sociedade
portuguesa, pânico entre os reguladores, fazendo com que muitos
operadores internacionais virassem a atenção em
direcção a Portugal.
Uma primeira implicação é que a presença do resgate
original se volta a fazer sentir quando o actual governo se preparava para
olhar para as eleições do novo ano. O pós-troika foi uma
fugaz Primavera. O fenómeno BES foi um dos grandes endividadores de
Portugal e isso tem repercussões a nível macro, sobretudo quando
são atingidas as contas nacionais e forem renovado/estafado pretexto
para mais austeridade e punição da população.
É também uma grande maçada pois o complexo
Espírito-Santo simbolizava um certo tipo de modelo económico que
o actual governo venera: o deslumbramento da finança como a actividade
económica por excelência, a estética dos bons nomes de
família, o culto cowboi dos grandes "CEO", a elegância
abstracta dos conceitos ensinados em prestigiadas Madrassas de Negócios.
Proverbialmente desatento ao surgimento de crises, o actual primeiro-ministro
dizia em plena fase aguda do subprime numa uma longa entrevista ao
Correio da Manhã:
"Na área financeira acho que nós devemos gradualmente criar
condições para que o Estado se retire da área financeira.
E por isso defendo a privatização da Caixa Geral de
Depósitos." (Passos Coelho, 2008)
O modo como a situação está a ser mal (di)gerida mostra
que o executivo tem estado de cabeça enfiada na areia e não
queria sequer sair da praia para enfrentar o problema. Em Junho o líder
do governo já se denunciava ao referir que problemas sistémicos
da economia não seriam da responsabilidade nem do governo nem do
supervisor (!). Depois um conselho de ministros sombra (talvez à sombra
de um chapéu-de-sol) lá o e-governo encontrou uma maneira de
resolver a sua situação: fingir que havia uma
solução tecnocrática ao dar ainda mais poderes ao
atordoado Carlos Costa para ficar com o problema nos braços sem
saber bem o que fazer com ele. Mas parece que esta solução
é um holograma:
Note-se que com esta situação o Banco de
Portugal (BdP) se arroga a capacidade de deliberação sobre fundos
à guarda do Estado e obtidos por resgate governativo de má
memória: uma situação que, no mínimo, é
dúbia na sua legitimidade mas, no máximo, pode ser mesmo ilegal.
Note-se igualmente que com esta abordagem o Estado
chega-se à frente mas não se torna accionista, nem sequer
obrigacionista ... na melhor das hipóteses torna-se um
"para-obrigacionista" pois facilita dinheiros que não
são seus (pelos quais tem pago bom dinheiro arrecadado de impostos) para
serem colocados num Fundo (a lucro económico zero) que é
institucionalmente enquadrado pelo BdP que resolve tornar-se empreendedor de
fim-de-semana.
Note-se também que é um organismo
não eleito (o BdP), e protegido por uma entidade externa que não
responde perante ninguém (o Banco Central Europeu), que assume o
telecomando de uma empresa privada (uma expropriação sem
nacionalização) e impõe uma nova equipa de gestão
(sem ter havido uma Assembleia Geral) numa instituição
temporária (que nem é dona do seu próprio nome).
Note-se sobretudo que há limites para se
sacudir a água do capote quando a tutela do Fundo de
Resolução está situada bem no centro nevrálgico do
actual governo .
Note-se finalmente, para que não haja qualquer
dúvida, este é mais um mau resultado que advém de toda a
condução da co-intervenção Troika/PSD-CDS a qual
sistematicamente privilegiou e poupou a finança e atrofiou o papel do
Estado no seu papel soberano perante os "mercados" e social perante
as populações.
ALGUÉM NÃO REGULA BEM
Há mais um nível que é preciso escavar. A ministra destas
Finanças dizia: "Não estamos a preparar nada, nem temos
qualquer indicação que isso possa ser necessário" (17
Julho). O Presidente desta República afirmou: "De acordo com a
informação que tenho da próprio Banco de Portugal,
considero que a sua actuação tem sido muito, muito correcta"
(21 Julho). Contudo, mesmo que haja por aí alguma gente bizarramente
conivente, avoluma-se a evidência que as autoridades estão mesmo a
"mentir aos Portugueses".
Já é demasiado claro que a regulação caiu numa
cilada e que o Presidente e o Governo vão atirar para esta as culpas. No
entanto, e mantendo a distância face a essas previsíveis manobras
políticas, há muitos e perturbadores desafios com as quais o
colectivo de actores sectoriais estão confontados. Não basta
actuar quando é tarde demais, isto é, quando os efeitos de
práticas a la Alves dos Reis ou a la Dona Branca se tornam massivos e
catastróficos.
A função regulação está fundamentalmente
ameaçada e é preciso resgatá-la. Mas, isso não
será feito sem antes se colocarem perguntas severas em cima da mesa. Por
exemplo:
1. Como afinal justifica o BdP a sua existência num
país sem política monetária própria e com um
processo de união bancária em curso? E é idóneo um
conselho de administração com elementos ligados a entidades
problemáticas, sob escrutínio no passado ou agora, como o BCP de
Jardim Gonçalves ou o universo BES?
2. Como é que a CMVM autoriza operações
de capitalização por parte de entidades sobre as quais já
existem denúncias graves? E quando as campanhas de aumentos de capital
são inclusivamente facilitadas por operadores do mesmo grupo, os quais
têm estado associados a variados casos de abuso de mercado como o BESI?
3. Mais, a questão não é apenas dos
reguladores em si próprios mas também da
articulação entre reguladores. Se o fenómeno financeiro
é mais vasto que a banca então porque não se articulam o
BdP, a CMVM e o Instituto de Seguros de Portugal? Já agora, será
que inimizades pessoais existentes entre os reguladores obstaculizaram
materialmente a cooperação inter-institucional? E, então,
já se constituiu um grupo de trabalho misto de autoridades Portuguesas e
Angolanas para investigar o caso BESA?
4. Mais ainda, a Associação Portuguesa de
Bancos (tipicamente presidida por destacados orquestradores da mesma "cor
política", desde João Salgueiro a Faria de Oliveira)
não aparenta servir para a auto-regulação sectorial. Nem
tão pouco para a auto-justificação serve sequer, pois
tão certa está de não ser questionada pois rodeada que
está sempre de amigos. Parece, isso sim, talhada para massajar a
definição do quadro regulamentar, apoiar a
elaboração de políticas económicas enviesadas e
contribuir para tudo menos reduzir os níveis de risco da actividade
bancária (leia-se o que diz a própria APB).
5. Mas há mais ainda por exigir, pois as perguntas
duras à regulação não podem parar por aqui.
Comentadores de conveniência como Marques Mendes e Marcelo Rebelo de
Sousa estão a ter expressivo acesso a "informação
privilegiada". É por demais evidente que certos agentes da
comunicação social e certas práticas instaladas na
cobertura nos assuntos económicos estão a funcionar como
"correias de transmissão" do poder político (encore:
sempre a mesma "cor política") e do poder económico
(encore une fois: as mesmíssimas "elites"). Nesse
último anel de supervisão e vigilância que é a
esfera pública está a ser injectado ar viciado. Isto pode
configurar uma autêntica manipulação de massas
(cidadãos tanto no seu papel de contribuintes, como de clientes, como de
pequenos acionistas) que é muitíssimo grave e não se
percebe como persiste/insiste/satura/inunda. A lei Lei nº 53/2005, Art.
8/c, diz que é um dever "Zelar pela independência das
entidades que prosseguem actividades de comunicação social
perante os poderes político e económico", ou será que
a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) ainda
não reparou?
A MÃO VISÍVEL
A linguagem usada pelo governo revela muito. Vejamos, como exemplo, o que diz
esse ministro do situacionismo económico, Pires de Lima. Sobre a causa
das coisas comenta: "Houve acontecimentos inexplicáveis para
qualquer investidor". Ora, há que não deixar passar este
sistémico encolher de ombros sempre que a iniciativa empresarial mete os
pés pelas mãos.
Em primeiro lugar, o que ao longo deste tempo se passava no BES não era
uma situação incomum. Pelo contrário, o que vimos agora
tinha sido pré-anunciado num acontecimento que, à posteriori, se
revela premonitório. Em Janeiro de 2010 Ricardo Salgado chefiou um grupo
de capitães empresariais (atentamos bem quais: PT, EDP, Jerónimo
Martins, ...) que chumbou aquilo que se apresentava como uma reforma dos
códigos de conduta para uma boa gestão. Depois percebeu-se o
porquê deste boicote: dava direitos aos pequenos accionistas e exigia
transparência das remunerações à alta
direcção. Por isso se justifica a Comissão de
Trabalhadores da PT exigir a devolução de bónus por parte
de Administradores que desviam quase 900 milhões da empresa
(aliás, como é possível este cambalacho mirabolante ainda
estar impune?!). Por isso não se compreende a actual
administração do Novo Banco quando não justifica a
inclusão numa equipa de seis elementos nada menos que três
elementos de topo vindos do BES (aliás, como não foi a
Polícia Judiciária mandatada para apreender logo no início
desta crise todos os computadores e dispositivos de comunicação
das cúpulas deste pouco católico conglomerado pelo menos
até ao nível de director-coordenador?!).
Em segundo lugar, basta colher algumas palavras de quadros e
funcionários do banco para desvendar ainda mais umas
problemáticas camadas. No banco todos estavam mais ou menos ligados
à "rádio-alcatifa" (uma das expressões usadas
internamente) e por isso lá se iam comentando à boca miúda
algumas operações. Saber-se-ia, consta, de "algumas
chatices" pois na finança, sabemo-lo,
"shit happens" (sic).
Por um lado, os trabalhadores (isto é, os "colaboradores", e
é preciso distingui-los dos "colaboracionistas", e é
também preciso distinguir entre bancários e banqueiros) do banco
manifestam uma sensação de "choque" face à
escala e à abrangência da "informalidade". Note-se: a
surpresa não é a existência de tais práticas,
trata-se de espanto perante o volume; isso mostra que o que correu mal foi
muito mais que uma mera excepção, tratou-se de algo muito
profundo, gigantesco e sistémico que deveria até ter chamado a
atenção de pares que agora se dizem traídos e
atónitos. Muitas operações decorriam em termos
excessivamente "fáceis" sempre que as partes interessadas
teriam nomes de família. Por outro lado, o "ambiente de
decisão" era muito constrangido. Gestores que saberiam demais
seriam colocados em "prateleiras douradas" porque assim não
seriam fontes de agitação e gestores que queriam saber demais
perceberiam que após a sua dissidência dificilmente poderiam
encontrar emprego noutras instituições na indústria, em
Portugal, pois o BES era o "primus inter-pares" onde pontificava o
decano dos banqueiros. Ou seja, reconhecia-se o longo braço dos
"Irmãos Dalton"
(esta expressão entre aspas, refira-se de novo, vem de dentro da
organização).
Ou seja, é preciso chegar ao fundo da questão apesar da
incúria, da incompetência, da conivência, da cumplicidade e,
sobretudo, da intervenção directa de gente muito poderosa que
intimida, destrói e corrompe. Há, particularmente, perguntas de
nível micro que têm de ser feitas e respondidas:
Onde aprendem, e com quem aprendem, os gestores de topo a comportarem-se
assim?
Porque foram, e continuam a ser, obstaculizados os movimentos de
promoção de transparência nas estruturas de
governação societária?
Porque razão não surgiram denunciadores internos
("whistleblowers")
nestes e noutros casos?
Perante a malfeitoria económica do século (até mais ver)
é preciso descascar a cebola. Rapidamente, com destreza, sem cortar a
direito, mas decididamente.
Ver também:
E depois do BPN e do BES?
, Jorge Bateira
Espirito Santo : Cas particulier d’un cas général
, François Leclerc
Notas sobre o BES e o Banco Novo
, Pena Preta
[*]
Professor de Economia no ISCTE Business School. O original consta no
Expresso
On-line de 7/Agosto/2014
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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