Ementas do paraíso
Uma cruzada contra os infiéis do
fast-food
COMO REDIMIR A HUMANIDADE
PELO BEM-COMER & PELO BEM-BEBER
& DEMAIS TENTAÇÕES DO HORTO
Neste planeta, assoberbado pelo
Pensamento Único
& pela bestialização de prioridades & preferências, pela
célere desidentificação & desertificação de
povos & lugares, ocorreu ao autor contribuir para a redenção
alimentar, para a reconversão dos prazeres da comida & da bebida, no
quadro de um Portugal católico, apostólico & romano & de um
Mundo Melhor
. Se supõe, assim, com a apresentação de um roteiro, de um
cardápio & de um organigrama de Serviços à comunidade,
aguçar a apetência pela cozinha Espiritual & Nacional, por
oposição ou em alternância ao
fast-food
& à macdonaldização,
[1]
reconsagrando pratos de eleição & copos de
saudação.
No cruzamento & na junção das coisas terrenas & das causas
longínquas se procurará instituir a
Pax Vaticana
da comida & da bebida, da ingestão & da indigestão, da
devoção & da diversão:
Estar de bem com Deus & com o Diabo
-eis a vetusta divisa da Nova Restauração. Na singeleza dos
neófitos, movido pelo espírito de retorno dos gentios das
cyberculinárias & dos transgénicos ao redil do Bom Pastor, julga
o gastrógrafo merecer o beneplácito das Cortes Papais de Roma a
Avinhão, onde a Mesa se revelou uma arma da Fé, evidência a
que a classe dos leigos não se mostrou insensível. Nesta postura
de revelação & usufruto, o autor gostosamente se banqueteou no
cortejo & cotejo dos prazeres eclesiásticos & monacais. Seduzido,
adoptou mesmo uma linguagem obsequiosa, entre Gregório Magno &
Góngora.
[2]
As Bibliotecas da Igreja ou sobre a Igreja acumulam narrações de
banquetes & alusões a receitas, preciosos & precisos mananciais,
salvaguardas do labor & do sabor, de engenhos colectivos & lances
místicos. Depósitos de sabedorias & apuros milenares
tributáveis a toda a hierarquia (secular e monástica), a quem
devemos inesgotáveis páginas da gula & do gole. Na esfera
cristã, neste ponto de ordem, conviria, desde logo, exaltar São
Vladimir, Équo-Apóstolo & Grande Príncipe de Kiev
(Ucrânia) que, em 987, oficializou, nos seus domínios, o
ideário cristão, apropriando-se das vastidões eslavas.
Favorecido pelos céus & pelos céus contemplado com lanças,
terras & gados, optou pelo cristianismo em desfavor do islamismo. Argumento
incontornável:
Beber é a alegria dos russos. Não conseguimos existir sem esse
prazer.
Redundaria em fruste ambição carrear para um frontal de Ementas
do Paraíso qualquer inventário de garfos & vasos que, no
consulado cristão, reanimaram a imoralidade dos senhores & a moral dos
escravos. Redundaria igualmente enfadonho pretender, aqui, esboçar umas
Inquirições da Mesa Lusitana da Reconquista à
Expansão Colonial. Como nos mistérios, são
indescritíveis & incaptáveis muitos dos vapores das panelas &
vasilhas da Igreja & da Realeza, instituições-mestras,
profundamente promíscuas nas coisas da Boca & do Bocado, do Sexo & do
Ceptro, do Refeitório & do Dormitório.
Portugal conta com milhões de denominativos de gentes e sítios,
monumentos & cometimentos sustentados pela cultura religiosa. Um manto & uma
auréola de santidade cobrem todo o território. A área
gastronómica & hoteleira é apenas um dos âmbitos do
totalitarismo semânticoreligioso. Cultura de temperos autóctones,
mas, desde as primeiras arremetidas da Espada & da Cruz, embrenhada nos
negócios da salvação universal. Negócios que
necessariamente se cruzam com as leis do mercado, da oferta & da procura, da
produção & do consumo. Hierarcas, santos & devotos sempre
animaram o
marketing
das comedorias, emprestando o seu Alto Patrocínio & o seu
Espírito de Troca a feiras dos gados bovinos, suínos, caprinos &
ovinos, dos capões & das cebolas, dos vinhos & das sementes, dos
enchidos & dos queijos; aos mercados do peixe & da fruta; às festas dos
doces regionais & industriais. Igualmente o Portugal Cristão &
Missionário preencheu os mapas de albergarias & recreios,
consolatórios de panças & artefactos da Criação.
Citar Avinhão ou o jesuíta Coyer pelo uso do gorro nas cozinhas?
Citar Pico della Mirandolla pelas sidras & saladas de pepino? Citar Afonso
Henriques ou Afonso III, apaparicados, no Castelo de Guimarães, pelas
freiras, que tinham uma noção próxima do Paraíso,
alegrando a mesa & as almas dos monarcas com capões & congros, regueifas
& vinhos, gados & pimentas, açúcar & sal, queijos & manteigas?
Citar, da Bíblia, o Livro de Habacuc, a reprovação dos que
embriagam os vizinhos
para ver a sua nudez?
Citar o pontífice Clemente VIII, que nos tolerou sorver o café,
antes interdito pelos cânones do comércio como mezinha maometana?
Citar Osíris, no Egipto, Dioniso, na Grécia, Baco, em Roma? Citar
a indulgente bebedeira de Noé ou o Livro dos Copos? Citar São
Martinho, castanhas & vinho? Citar, no Alentejo, o néctar Vila Santa ou,
em Lisboa, a Missa Vínica de São Vicente de Fora? Citar a
barriga de abade
ou a
barriga de freira
? Citar o
coelho à São Cristovão
ou os
alfitetes de Santa Clara
? Citar a
sopa de Santa Teresinha
ou o
bolo de anjo
? Citar as
couves à Dom Prior
ou as
Súplicas
? Citar as
favas tenras de São Domingos
ou as
filhós de Natal
? Citar o
bacalhau à bispo
ou a
pêra jubileu
? Citar os
ovos de freira do Salvador
ou os
peitinhos de rolas de Santa Maria de Agosto
? Citar
as empadas de tordos da irmã Paula
[3]
ou a
limonada de Santa Clara
? Citar o excesso & o esmero das Ceias de Natal & de Páscoa? Citar o
Domingo Gordo
& o
Enterro do Bacalhau
? Citar as propostas de vinhos, desde as
Terrras do Demo
à
Casa do Cónego
, ao
Convento de São Francisco
? Citar as inquirições & as inquisições, os
códices e as crónicas, os assentos & os testamentos, os livros
das vereações & os róis conventuais? Citar tantos & santos
paradigmas da felicidade consentida pelo Divino? Retroceder à
imitação dos libertinos tempos & templos do
triclinium
[4]
& dos vomitórios? Retroceder à Bíblia, ao novo
Testamento,
Tomai e comei, Tomai e bebei, Isto é o meu Corpo
? A Eucaristia não será uma Teofagia, uma
transposição para o Reino do Simbólico dos
sacrifícios humanos?
[5]
Cumpre-nos, nesta passagem, invocar algumas legitimações,
principiando pelo Filho de Deus. Este, além de integrar & equilibrar o
regime alimentar das almas, cedo se identificou com os pescadores, as redes & o
peixe.
Efectivamente, o peixe viria a ocupar uma centralidade discursiva &
recorrente na Última Ceia, momento-chave da mensagem cristã. De
resto, o peixe, nas simbólicas globais (religiosas & profanas), é
um referente normalizado de cariz vital & transfigurativo: fálico,
uterino, neptúnico & sereico. Para encurtar alusões, evocaremos o
Milagre da Multiplicação dos Peixes, no gesto instituidor do
sacramento eucarístico
[6]
ou o Sermão aos Peixes, de António de Lisboa & Pádua
(c.1190-1231), o nosso maior doutor da Igreja, casamenteiro de solteironas &
que, no palmarés de prodígios, fez um burro ajoelhar ante uma
hóstia.
No reino menos santo,
peixão
é sinónimo de garotaça & mulheraça, como
pão
é um apreciativo da fêmea relativamente ao macho humano, mais
pudico do que o equivalente masculino:
Comiate toda
. Nesta cumplicidade do Verbo com o leito & o bom proveito, igualmente se
imiscui o bacalhau,
fiel amigo
dos portugueses (somos o maior consumidor de bacalhau seco neste mundo).
Quero cheirar teu bacalhau,
em verdade, em verdade vos digo, é uma fórmula de aromaterapia,
consagrada pelo nacional-cançonetismo. Em consequência, não
admira que Jesus Cristo, à boa maneira dos líderes
partidários, houvesse utilizado as refeições para
congregar fidelidades, desencadear afectos & propor uma nova ordem moral &
social. Não jantou Cristo com os apóstolos (os fiéis, os
traidores, os negadores) ou com os fariseus ou com Simeão, o Leproso? E
que reter da suculenta consulta às fontes de confecção &
destilação da cristandade? Que fixar de tão
profícuo magistério, de todo o bem-temperado & de todo o
bem-aventurado
à la carte
deste Portugal pançudo & marialva? Quantos santos & quantas santas
dignificam estabelecimentos de hotelaria & de comes & bebes neste País
de Romarias & Arraiais, de São Pedro dos Leitões a São
Bento da Porta Aberta?
[7]
E se nos dispusermos a recordar? Recordar, por exemplo, obras-primas da Pintura
do repasto & libação dos deuses & de seus comensais?
A Última Ceia,
de Leonardo da Vinci,
A Última Ceia,
de Andrea del Castagno,
A Última Ceia,
de Tintoretto,
A Última Ceia,
de Emil Nolde,
A Última Ceia,
de Dieric Bouts,
A Última Ceia,
de Juan de Juanes,
A Última Ceia,
de Vasco Fernandes,
A Última Ceia,
de Francisco Henriques,
A Última Ceia,
de Sá Nogueira? Recordar
O Banquete na Casa de Simão,
de Bernardo Strozzi? Recordar
O Banquete dos Oficiais de São Jorge,
de Frans Hals? Recordar
O Banquete de Cleópatra,
de Jacob Jordaens? Recordar
A Refeição em Casa do Fariseu Simão,
de Giovanni di Milano? Recordar
O Festim de Herodes,
de Donatello? Recordar
Cristo na Mesa da Casa de Levi,
de Paolo Veronese? Recordar
O Jantar dos Emaús
& o
Baco,
de Caravaggio? Recordar
Os Cozinheiros Perigosos,
de James Ensor? Recordar
A Bacanal na Ilha de Andros
&
A Festa dos Deuses,
de Ticiano? Recordar
As Bacanais,
de William Hogarth? Recordar
Tobias
&
Ana, com o Cabrito,
de Rembrandt? Recordar
As Bodas de Canã,
de Bartolomé Murillo? Recordar
O Casamento de Camponeses,
de Brueghel, o Velho? Recordar
O Almoço de Ostras,
de Jean de Troy? Recordar
O Almoço do Trolha,
de Pomar? Recordar
O Enterro da Sardinha,
de Goya? Recordar
A Velha a Fritar Ovos,
de Vélasquez? Recordar
Um Bar,
de Manet? Recordar
A Noite na Taberna,
de David Teniers? Recordar
O Alegre Beberrão,
de Frans Hals? Recordar
Os Bêbados,
de Goya? Recordar
O Homem com o Copo de Vinho,
no Louvre, atribuído a Nuno Gonçalves? Recordar
O Copo de Absinto,
de Degas? Recordar
Os Bêbados,
de Malhoa? Recordar
Os Bebedores Sentados à Mesa,
de Adriaen Brouwer? Recordar o culto das naturezas-mortas (de inúmeros
artistas da Era Cristã), desde logo, madre Josefa d'Óbidos ou Jan
de Heem, Braque ou Morandi? Recordar
Natureza-Morta com Numerosos Objectos,
de Le Corbusier &
Mulher & Frutos,
de Columbano? Recordar
A Sopa de Arroios,
de Domingos António Sequeira? Recordar
O Talho,
de Pieter Aertsen? Recordar
Figura com peças de carne,
de Bacon? Recordar
A Galinha Morta,
de Soutine? Recordar
Comendo Batatas,
de Van Gogh? Recordar
Fruteiro, Copo
&
Maçãs,
de Cézanne? Recordar
Dom João V, Bebendo Chocolate,
Servido pelo Infante Dom Miguel, de Castrioto? Recordar
O Regresso do Mercado,
de Chardin? Recordar o
Hortus Deliciarum / Jardim das Delícias,
de Hieronymus Bosh?
Elas, as representações, traduzem a necessidade de
manutenção do esqueleto & do intelecto. Elas são o
refinamento de liturgias de perpetuação & posse. Quão
gratos haveremos de estar à Igreja Universal, como às Igrejas de
Braga, Lamego, Viseu, Coimbra, Lisboa, Évora. E que seria de nós
sem o recurso às cavernas, às cátedras & às
catedrais na Evolução das Espécies? Na verdade, a
Humanidade progrediu, mau grado as reinvestidas do antropofagismo puro & duro &
as ofensivas das refeições de plástico. E em abono da
isenção, haverá que reconhecer (no decorrer da odisseia
alimentar do Homem) que a Igreja Católica soube inventar & preservar um
receituário a classificar pela UNESCO como Património da
Humanidade. Quem recuar até aos restos paleontológicos mais
arcaicos, quem se debruçar sobre as oferendas aos extintos nas rudes &
nas opulentas sepulturas, empreendendo um simples relance pela Antropologia &
Sociologia da Alimentação, situará o papel da Igreja de
Roma & de suas extensas & dispersas administrações no Olimpo, no
Paraíso.
O enfarte & o deboche sempre aliviaram a caminhada das almas. Quase sempre as
Igrejas conviveram com práticas desregradas, mesmo de cónegos
regrantes, mesmo de rupestres monges. Talvez uma das dramaturgias mais
equívocas & perturbadoras de Cristo, na biface de Deus & Homem, se
surpreenda no contexto do cristianismo medieval etíope, na
estética dolorosa & redentora, chocantemente manifesta na Tortura do
Fellatio
[8]
.
Os artistas dos eremitérios integraram, no imaginário
cristão & na representação do Calvário, a figura do
Crucificado com o pénis erecto (como Amon), abocanhado & sugado pelos
torturadores ou veneradores. Admite-se, nesta iconografia
hard-core,
ser espinhoso conciliar sofrimento & comprazimento, penso & pensamento,
recolhimento & envolvimento, cristianismo & canibalismo. Por isso, se
compreendem os delitos da Santíssima Madre, que tem de gerir comodidades
& incomodidades.
Nesta problemática, interessa-nos apontar a tónica do excesso,
não tanto para incriminar Roma de capitulação perante as
coisas terrenas & sensoriais, mas para enaltecer o seu esmero báquico &
opíparo, a sua cultura da sociedade da abundância sob o capa do
jejum & da abstinência. Compete-nos, pois, avivar aspectos sacros neste
Globo secularizado, concorrendo para iluminar o limbo onde jazem ensinamentos
de papados & bispados, paróquias & monastérios. Para lá da
proclamação da Boa-Nova, a Igreja detém uma pautada
experiência no exercício & no arbítrio das
tentações, de todas as quedas do humano, das possessões
que perpassam no Seu Corpo & nos rebanhos sob Seu Báculo
[9]
.
Espírito maléfico que muito se prontificou para os lucros do
confisco & que muito se aparelhou para as fugas ao fisco. E que, nos
deslumbramentos da carne, do ouro & de seus Governos, esticou a corda do
Evangelho até se soltar das âncoras da Misericórdia & da
Salvação. É tocado pela auréola da santidade & da
sanidade que o autor de Ementas do Paraíso ousou pós-modernizar,
a seu modo, um Cartulário da Nova Restauração, uma Carta
Encíclica da Boa Mesa/Boa Nova, que possa sugerir o advento de uma
verdadeira PanaCEIA UniverSAL. O autor, para além de não regatear
& renovar louvores às entidades pontificais, episcopais, abaciais &
monasteirais, considera que uma revalorização deste
espólio mobilizará a massa crítica cristã para uma
Pastoral de Pantagruel, que acerte o passo pelos refrões anti-McDonald's
& anti-Coca-Cola, consignas do apocalipse alimentar da Humanidade. É
premente organizar a Resistência dos
papos de anjo
ao
angel cake,
do
slow-food
ao
fast-food.
Portugal é um solo para primeira linha de combate, na
condição de país-líder em comer fora & fora dormir,
segundo
A vida das mulheres & dos homens na Europa-um retrato
estatístico/Relatório do Eurostat/2003.
O estudo percentualiza os portugueses no
top
de investimento em restaurantes & hotéis: 19% & 9,3% do orçamento
familiar, respectivamente.
Também os portugueses, segundo o Censo da UE, ocupam, desde há
anos, o 4.º lugar no
ranking
europeu e mundial no consumo de vinho: Luxemburgo, França,
Itália, Portugal.
A Igreja, como depositária de tradições (só a
Bíblia guarda 443 referências ao vinho), não deve endossar
responsabilidades no fomento de uma Gastronomia Alternativa, escudada na
erudição
(Primum Vivere, Deinde Philosophare).
A Igreja é portadora de um
now how
absoluto: totalidade, regionalidade, originalidade, exclusividade. De facto &
de jure,
quem como a Igreja disporá de um estendal de conhecimentos & de um
escol para sua ministração? Quererá a Igreja manter-se
arredada das conclusões do Censo de 1991, constatando que o
álcool cativa 76% dos portugueses, sabendo-se que a Missa apenas atrai
26% dos fiéis? Deixar-se-á o canto gregoriano ultrapassar pelas
Canções de Beber,
de Fernando Pessoa? Como compatibilizar alegrias do Horto com exemplaridades
mortificantes? Como partilhar apreensões & concertar
soluções na dieta dos ricos & dos pobres, do Banco Mundial & do
Banco Alimentar?
[10]
A Igreja foi fundadora. Terá de assumir-se como reparadora. Se
fenícios, cartagineses & gregos são honrados como introdutores da
pinga neste cristianizado solo, que haveria de ser chamado Portugal, logo a
Santa Igreja do Ocidente reconfirmou as vinhas & as adegas & alargou as
ciências gustativas.
A cobertura sagrada & cristã no Portugal de hoje poderá ainda
aferir-se pela panóplia de Festas, Festivais, Feiras,
Associações, Confrarias, Congressos, Colegiadas, Clubes,
Academias, Ligas & Ordens que grassam de Norte a Sul, no Continente & Ilhas.
Festas.
Desde logo, da Festa da Alimentação das Almas à Festa do
Bodo, da Festa da Castanha à da Cereja, da Festa da Sardinha à
das Chouriças, da Festa da Espiga à das Fogaceiras, da Festa das
Papas à das Roscas, da Festa do Alvarinho à do Dão, da
Festa do Doce Tradicional à dos Folares, da Festa do Leitão
à do Capão, da Festa do Leite à do Pastor & do Queijo, da
Festa do Petisco à dos Caçadores, da Festa das Enguias à
das Salinas, da Festa do Sável à da Lampreia, da Festa do Vinho
à das Amendoeiras, da Festa dos Tremoços à dos
Pinhões.
Festivais.
Desde logo, do Festival da Carníssima de Bragança ao da
Cerveja, do Festival da Batata-Doce ao da Doçaria Conventual, do
Festival das Enguias ao das Francesinhas, do Festival das Papas de Sarrabulho
ao das Sopas da Serra da Estrela, do Festival de Arroz ao de Frango, do
Festival do Marisco ao da Sardinha, do Festival do Peixe do Rio ao dos
Perceves, do Festival dos Vinhos ao Europeu de Chocolate.
Feiras.
Desde logo, a dos Santos ou de Todos-os-Santos, de que se apontam tutelares
por todo o território: Nossa Senhora da Piedade, Sant'Ana, Santa Luzia,
Santa Quitéria, Santiago, Santo André, Santo António,
Santo Isidro, São Bartolomeu, São Bento, São Brás,
São Domingos, São Gregório, São João,
São José, São Marcos, São Martinho, São
Mateus, São Miguel, São Simeão, São Torcato.
Frequentemente fazendo parte do programa profano das festas, haverá que
seriar alguns certames, como as feiras da Apicultura, da Caça & da
Pesca, da Castanha, da Vitela, das Cebolas, das Ervas Alimentares, das Provas
de Azeite, das Nozes, das Sementes, das Tasquinhas, do Bolo, do Cabrito, do
Capão, do Comer, do Doce, do Doce Tradicional, do Folar, do Fumeiro & do
Presunto, do Gado, do Gado Suíno, do Livro & da Doçaria, do Mel,
do Pão & do Mel, do Pão Quente & do Queijo Fresco, do Porco, do
Presunto, do Queijo, dos Caldinhos, dos Cogumelos, dos Enchidos, dos
Melões, ou a Gastronómica da Maia, a Nacional da Agricultura, a
Nacional do Porco Bísaro, a Nacional do Tomate, do Vinho & da
Maçã, a do Vinho Verde.
Associações & Confrarias.
Desde logo, de São Martinho, São Gonçalo, São
Vicente, Santo Onofre, Sant'Iago, Senhora do Cacho, São Mateus, para
além das parcerias estratégicas de
marketing
com as de denominação laica, desde logo, da Carne de Barroso, da
Cerveja, da Lampreia de Penacova, da Panela ao Lume, da Sopa, do Vinho Verde,
do Vinho do Porto & Arrais Casa do Douro, da Bairrada, do Dou-Dão
(Douro, Dão, Bairrada), da Beira Interior, da Estremadura,
Gastronómica Aromas & Sabores Gandareses, Gastronómica de
Boticas, de Gastrónomos do Minho, Gastronómica de
Trás-os-Montes & Alto-Douro, do Periquita, do Alentejo, do Espumante, do
Verdelho dos Biscoitos (Açores), da Madeira, dos Vinhos Portugueses em
Bruxelas, dos Amigos das Tabernas, dos Amigos da Saúde & do Vinho, dos
Provadores do Alto Douro, dos Amigos do Garfo, dos Bares da Zona
Histórica do Porto, dos Cavaleiros da Adega, dos Cozinheiros &
Restauradores, dos Enófilos & Gastrónomos da Beira Serra, dos
Enófilos & Gastrónomos de Trás-os-Montes & Alto Douro, dos
Enófilos do Ribatejo, dos Jornalistas Enófilos da Academia do
Gosto. Esta última levou o zelo & o esmero ao ponto de produzir um
Manual de Iniciação ao Vinho. Que outras
agremiações de comes & bebes proliferam ainda no solo & para
consolo luso, desde a Confraria da Broa de Avintes à da Broa de Trambela,
[11]
desde a Confraria do Azeite à do Pão, desde a Confraria da
Cabra Velha à Academia da Verdadeira Chanfana, de Saberes & Sabores da
Beira à do Capão de Freamunde, desde a Confraria da Sopa à
da Fogaça, desde a Confraria do Bacalhau à Confraria das Tripas,
desde a Confraria do Leitão à Confraria dos Nabos, da Confraria
da Pêra-Rocha do Oeste à Companhia Gastronómica, até
à Gastronómica do Mar, desde a Gastronómica do Minho
até à do Bacalhau de Aveiro & à Gastronómica de
Beja, do
Rally
da Lampreia ao Rali das Vinhas de Cister, do
Rali
do Cabrito de Barroso à Amostra da Alheira & ao Concurso de Sopas
Alentejanas.
O mapa da glutonice pátria & mátria vai
da Confraria do Bacalhau
em Toronto à Academia do Bacalhau da Venezuela (comunidade emigrante)
à Confraria do Sável & Lampreia em Gondomar.
Portugal tem afirmado, na Europa & no Planeta, um
espaço de identidade & de memória, a primeira já com
site
na Gastronomia Lusófona.
(
http://www.gastronomia.com/
);
a segunda a preservar no Museu Nacional de Gastronomia, com sede prevista para
Viana do Castelo.
Pois que nem só de vinho vive o Homem, embora Shakespeare (1564-1616),
em
Henrique IV,
tivesse vendido a alma de Falstaff por
um copo de Madeira & uma pata de capão;
e, em
Ricardo III,
executasse a última vontade do duque de Clarence, que, na Torre de
Londres, optou por uma condenação jubilosa: morrer naufragado num
tonel de Malvasia. O contributo português não se esgotaria, de
resto, no génio dramatúrgico do W. Shakespeare. No séc.
XVII, a nossa Catarina de Bragança, após consórcio com
Carlos II, pôs a
hight society
a bebericar chá, instituindo um real aroma na Velha Aliança, o
Greenwich do Chá das Cinco. As Famílias Inglesas adoptaram o
chá, daí passando ao domínio do Vinho do Porto. Justo
será, nesta hora, de ajuste de euro-contas, destacar algumas
dívidas de gratidão da pérfida & presumida Albion que,
para seu bem-viver & seu bom-morrer, nunca vacilou em servir-se dos nossos
tonificantes.
A Madre Igreja tem, como se depreende, antanhas & omipresentes
responsabilidades & cumpre- lhe, em conformidade, ritualizar & reactualizar.
Daí a sua Comunhão Solene. Daí a sua
participação (directa ou indirecta) em celebrações
laicas, mas eivadas de tradições clericais & monacais: abundam
os dias, os domingos, as semanas & os meses dedicados à Gastronomia, as
litutgias da Mesa. Exemplificaremos com a Semana da Sardinha à Semana
dos Petiscos, com as
quartas fartas
no Casino de Espinho às provas de caracóis no Algarve. Daqui o
repto ecumenista. Vivemos um ponto da História propenso a retornos.
Voltemos às abadessadas. Voltemos aos
queijinhos do céu, às nozes à carmelita, às nuvens
& às orelhas-de-abade,
que tanto serviço prestaram (quando ainda não grassavam as
pastilhas elásticas do
american way
& os
drops
euro-chupas), nas procissões, nas entradas reais, nas esperas de touros,
nos arraiais, nos autos-de-fé. Voltemos às
gargantas de freira da Covilhã & ao bolo-real do Paraíso de
Évora.
Voltemos
às arrufadas do Convento de Santa Clara
, em Coimbra, de formato fálico, que as recolhidas ofereciam aos
trovadores-galantes. Voltemos aos
pitos de Santa Luzia,
que as moçoilas de Vila Real oferecem aos noivos, em 13 de Dezembro &
às
Ganchas de São Brás,
que os mancebos oferecem às raparigas, na festa do santo, em 3 de
Fevereiro, com apropriado acompanhamento coral:
Eu vou ao São Brás/De cu para trás/Comprar uma gancha/
P´ró meu rapaz.
O pito é uma doçaria com a devida conotação de
formato & a gancha é um rebuçado com forma de gancho, do
báculo de São Brás & de pénis estilizado. Por que
não consagrar os pitos & as ganchas de Norte a Sul, de Leste a Oeste?
Voltemos à liturgia beirã que, durante séculos, tolerou,
na Casa de Deus, um santo de pau-feito, que reclinadas mulheres, na quadra das
vindimas, ensaboavam de espuma de vinho novo, seguindo-se o ósculo da
prova, da colheita do ano.
[12]
E no que respeita às prescrições de
contenção & de higiene, restabeleça-se uma rejuvenescida
literatura de jejuns & abstinências, pontuando o Apostolado
Gastronómico com Salas do Capítulo de Cuidados Básicos.
Conte-se também a História da Higiene & da Etiqueta. Quem
ensinará aos jovens (aos que têm a sorte de comer & beber,
divertir-se & instruir-se) o longo caminho das Ciências da Mesa & da
Cama? Exceptuando esporádicas descontracções, a Europa &
outras apressadas comunidades abandonaram os hábitos de
comer à mão
& de
meter a mão
nos recipientes, de limpar as mãos às vestes & toalhas ou de
equipar-se com guardanapo trazido de casa. As indústrias de cutelaria &
dos têxteis, aliadas ao fomento do bem-estar, impuseram a
comida de faca & garfo,
individualizada & cerimoniosa.
No tocante a demais convenções de sanidade, a Igreja, associada a
abocanhamentos do
melhor pedaço,
deve exercer um magistério de limpeza dental & bucal, de resto, na
senda dos grandes predadores marítimos & terrestres, reforçando a
intervenção de Santa Apolónia que, desde o séc.
248, é padroeira dos incisivos, caninos & molares (na Itália,
venderam-se milhares de dentes-relíquias que apetrecharam a sua
dotadíssima cavidade). Competirá à virgem de Alexandria,
martirizada na abertura bucal (arrancaram--lhe os dentes com uma tenaz)
assessorar o Ministério da Saúde, já que, como inspiradora
de uma Estação dos Caminhos-de-Ferro, demonstrou não estar
à altura dos reptos do TGV ou do
pendolino.
Deverá regressar à clínica dentária & à
odontologia. Outras valências médicas & caritativas terão
de reimplementar-se, perante os clamores dos utentes dos serviços de
saúde. Sugere-se para patrono invocatório da
modernização do sistema a figura do cardeal-rei, o avisado Dom
Henrique (1512-1580). Caído enfermo do aparelho digestivo, sendo-lhe
contraindicado ingerir leite de rês bovina, caprina ou ovina, os
céus concederam-lhe alternativa. O purpurado só tolerava leite de
mulher, pelo que as entidades competentes requisitaram ao
Reynno
uma manada de amas-leiteiras.
O Movimento NaCIOnal Feminino de então logo se aprontou para franquear o
seio ao Senhor da Coroa & do Barrete. Reconhecendo-se as negras
estatísticas das doenças do foro digestivo (os portugueses, como
o peixe,
morrem pela boca
), a Igreja, como
Magna Mater
da Bioética, só reconquistaria a cristandade persuadindo as
Tutelas da Saúde & da Segurança Social a reclinar o peito das
meninas SNS & das amas SS. Por certo, milhões de portugueses
entrariam de baixa.
Mas, pelo menos & por uma vez, todos mamaríamos, alcançando a
felicidade nas marquesas & nas enfermarias, nos lares & nos domicílios.
E, em termos meramente catequéticos, revolucionar-se-iam os conceitos de
sacrifício & hedonismo. A Igreja nem sequer teria de sujeitar-se a
inovações, sempre penosas para a burocracia romana & diocesana,
nem sequer teria de canonizar ou beatificar dois ou três pares de tetas
das revistas cor-de-rosa ou dos ranchos folclóricos da província,
pois bastaria que se socorresse do Hagiológio,
[13]
das santas Ágata e Catarina de Alexandria, padroeiras das amas de
leite; bem como de Noitburga de Rattenberg, que ostenta, como atributo, um pote
de leite. Este serviço à comunidade justificaria o
estabelecimento da Congregação das Irmãs Leiteiras.
Estamos em crer que, num país formalmente de Direito, inimigo jurado dos
fundamentalismos, não se correria o risco da decepação dos
seios, como, outrora, sucedeu a numerosas mulheres & virgens cristãs,
que alcançaram os merecimentos do Além, como Águeda,
Anastásia & Bárbara. A imaginária da primeira
expõe, desde o séc. III, os seios numa bandeja, escoltados pelo
unicórnio, símbolo de candidez. Até para o caso de algum
surto de talibanditismo romano & peninsular, as Irmãs Leiteiras
têm uma mártir de eleição.
[14]
Tudo preparado, pois. Voltemos ao culto da Nossa Senhora do Leite, da Nossa
Senhora da Uva & de Nossa Senhora do Figo. Voltemos ao culto de Nossa Senhora
dos Verdes, no porfiado combate às lagartas da Horticultura & da
Fruticultura. Voltemos à generalização do culto de Santo
António
como advogado dos animais.
Afiança o povo que uma benção eucarística do gado
vale por mil vacinas.
Tal sucede em vários rincões & com particular apego na
Benção dos Animais de Santo António de Mixões da
Serra, Vila Verde. Voltemos aos sabores dos antepassados, agora que em voga
estão as Ceias Medievais & as Ceias Renascentistas. Vidé Santa
Maria da Feira ou Tomar/Cidade Templária. Atente a Igreja no movimento
social, esbatidas as grandes causas, as sociedades contentam-se com as pequenas
coisas: mostras/semanas/domingos gastronómicos.
Aplaudam-se, pois, as Universidades & os Média como agentes qualificados
da Cultura das Tentações. Cumpre-lhes narrar & comentar o que de
deve comer & beber, como deveremos repousar & foliar. Desde que a porca torce o
rabo, desde os períodos pré-cristãos, em que o porco era
divinizado & a porca tutelava a fecundidade, que o Homem é um animal
relacionado com a porcaria. É certo que, posteriormente, os
suínos perderam a graça de Deus & acabaram fria & comezinhamente
imolados pela faca campestre & pelo abate industrial, num notório
desdém pelo seu porte mágico & místico. Porcaria apenas
evitada pela comunidade judaica, que iludia a Santa Inquisição
com falsos cozidos de cristãos & com alheiras recheadas de galinha,
coelho & perdiz,
in nomine
porco. Que, igualmente, os Governos, nas anunciadas & proteladas reformas do
Ensino, procedam à reabilitação dos bovinos da Grei, a fim
de que cada comensal reconheça quanto deve a este gado, também
ele alvo de adoração milenar, sujeito a sacrifícios
cruentos & propiciatórios, terminando, desprovido de qualquer aura, no
prato & no pão da civilização cristã.
Devem os historiadores & os investigadores das linguagens questionar se o
desrespeito pelos bovinos se insere na lógica de uma nova corte celeste
ou no movimento europeu (a vaca é o ícone por excelência
nas mitologias continentais). Vendo bem, a vaca, presentemente tão
louca, incriminada & discriminada, tem todo o direito a ser reinscrita, em
letras de ouro, no levantamento das grandes utopias da
encarnação, da purificação & da
redenção. Quem, como a vaca, poderá sintetizar a unidade
dos povos & potenciar o encontro de civilizações? A vaca foi
idolatrada entre os arianos, avoengos da pura raça germana &, de novo,
condutores do projecto europeu; a vaca continua venerada entre indianos,
filhos do Ganges & de intocáveis castas. Honremos as vacas em risco de
extinção. Apelemos a São Francisco de Assis (1182-1226)
para redignificar os nossos irmão-bichos, recolocando-os nos altares da
consideração, donde foram desalojados pelos comerciantes de todas
as reses.Voltemos à benção dos renovos da Terra. Criemos,
sem delongas, uma Associação de Defesa do Baixo-Ventre,
promovendo quanta idolatria & quanta iguaria nos marca como Nação.
Só as organizações piramidais & simultaneamente abertas,
adestradas para emitir directivas num tempo de dispersão, possuem
capacidade mobilizadora & refundadora. A Igreja Católica está
vocacionada para reenvangelizar as gentios de todos os continentes & de todas
as ilhas. Só Ela optimiza os meios estruturais, bem como a força
da Parábola do Pão, da Parábola da Rede da Pesca, da
Parábola da Mostarda. Cristo surgiu como
Nova Videira.
O povo de Israel também foi transplantado para o Egipto como uma
videira. Se, em Londres, se edificou a Cidade do Vinho,
Vinópolis,
porque não sediar, em Lisboa, uma Carnópolis &, no Porto, uma
Vinópolis, sob a alçada das Confrarias da Ordem? Se, em Londres,
no Victoria & Albert Museum, jaz uma célebre sacerdotisa de Baco,
não jazem, em Portugal, bacos à discrição? E quem
providenciará no deslize dos nossos hábitos nutricionais, cada
vez mais nivelados por padrões euro-americanos?
Bastará que a Conferência Episcopal relance o olhar pela
Balança Alimentar Portuguesa 1990--1997, do Instituto Nacional de
Estatística, para confirmar a existência de dez obesos por cada
cem adultos. Existe um banco de dados oficiais susceptível de fixar
padrões de qualidade & consumo, introduzindo as medidas requeridas pelo
Estado Alimentar & Sanitário. Sempre com frugalidade, mas glosando
Salazar, que conseguiu que o vinho desse de comer a um milhão de
portugueses. Glosando sem complexos: Nada contra a Ração. Tudo
pela Ração. Sabendo-se, pois, que 35% dos portugueses são
pré-obesos & 15% são obesos ou
obesos mórbidos,
diagrama estatístico determinado num inquérito
epidemiológico da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade;
sabendo-se que ocupamos um lugar
top
no
ranking
europeu do alcoolismo, com a juventude a prometer uma gloriosa
evolução na continuidade;
também se sabendo que, segundo a Sociedade Portuguesa de Estomatologia
e Medicina Dentária, cinco milhões de portugueses não
consultam o dentista, ufanando-se o nosso povo de, na Europa, ser o que mais
dispensa a escova de dentes a Igreja nunca se alhearia de tão
escatológicas preocupações, como o comprovou com Santa
Apolónia. À Igreja compete prescrever o correctivo & o lenitivo.
Também, neste vector & nesta frente regenerativa do
ecce homo sapiens,
a Igreja haverá que adequar-se aos reptos da competição
& da mundialização. A Igreja tem de reinstaurar, entre os
abastados, as mais saborosas conquistas das cozinhas & pastelarias, das adegas
& destilarias, das queijarias, gelatarias & frutarias, recuperando as
satisfações das cortes eclesiásticas &
aristocráticas
perante uma burguesia desclassificada. Quanto aos hostilizados pela fortuna,
deverá incumbir-se a Igreja de manter a fome & o apetite em
níveis toleráveis pelas Obras de Misericórdia. Para o
elevado patrocínio desta cruzada libertadora dos lugares santos do
amesendamento, conta a Igreja com uma plêiade de invocáveis, a
principiar por Nossa Senhora do FASTio-
Food,
venerada, nas serranias do Gerês, mas rapidamente alistável
contra os lixos alimentares.
Um Novo Homem para o Novo Milénio eis a divisa que, no ramo
dietético, se propõe à Igreja, convidando-a a que abandone
as rotinas & trate de curar com afinco das suas ovelhas. Nada
desobrigará a Igreja de intervir. Daqui se lança um SOS, a fim de
que a Voz de Homem seja acolhida & retransmitida pela
Voz de Deus,
devolvendo-nos a pureza dos pomos do Éden & das aras de
sacrifício. A Humanidade carece de amparo & conselho, acossada que
está pelo Império das Rações, das vacas loucas, dos
frangos com dioxinas, dos
hamburguers
sincréticos & das mistelas sintéticas. Se porventura ainda
subsiste um espaço profético & fraterno na Igreja
Contemporânea, ele encontra justificação paroquial &
ecuménica no
cozido à portuguesa,
na pinga de genuína cepa, no
pudim abade de Priscos,
nos
beijinhos de freira,
nas
maminhas de noviça.
A Igreja sempre foi exímia em proibir o que pratica. Esta duplicidade,
se a desautorizou aos olhos dos lúcidos, conferiu-lhe uma flexibilidade
que explica a sua sobrevivência. A Igreja não resistiu dois mil
anos pelo consistente exemplo, mas por haver articulado uma rede mundial de
poder, celebrando pactos com Deus & o Diabo, conforme os condicionalismos da
efemeridade & os desígnios da perenidade. Entre os dignatários
mais egrégios, no que toca ao deboche sexual & estomacal, elevaremos aos
píncaros Outão, soberano pontífice aos 18 anos, que se
banqueteava entronizado, ante a vassalagem da corte papal, postada num estrado
rebaixado, adornando com as suas vestes & dignidades o repasto, (
Ab ovo usque ad mala/Do princípio ao fim/Desde o ovo à
maçã,
Horácio, Sátiras, I, 3, 6). Conforme a Roma dos escravos & dos
circos, do sangue & do sal. Enfim, conforme a lógica da
Pax Romana,
das sucessivas lógicas de anulação de identidades &
liberdades.
Por onde passam, os romanos deixam o deserto. A isso chamam paz.
(Tácito, séc.I).
[15]
Quanto aos séquitos de miseráveis, na altura sem rendimento
mínimo garantido, beneficiavam de um conduto equiparado, as
sopas do sidónio,
que precederam as cristianíssimas
sopas dos pobres,
mau grado a Antiga Roma exteriorizasse maior prodigalidade, compondo-se as
suas sopas de quatro sardinhas, um casqueiro & uma ânfora de vinho. Outro
dos dignatários de bento ventre (alto & baixo) foi Alexandre VI (Sumo
Pontífice entre 1492-1503, que contou com chusmas de amantes & cujo
pontificado foi singularíssimo em toda a trama, tendo o envenenamento
alcançado o esplendor. Todavia, as honras maiores, em matéria de
palato, cabem a Leão X (Sumo Pontífice entre 1513-1521, cujo
apetite & de seus cortesãos não prescindia de 65 pratos por
refeição, cada um floreado de três variedades.
Não surpreende que, por aquela época, abundassem as
vocações. Como não surpreendem as nobrezas da Gália
& da Mãe Rússia, cada qual com os seus requintes, mais informais,
mais formais, uma inventando a
table à la française,
com os jogos de pratos sobre a mesa, outra dando lugar à
table à la russe
, com o conjunto de pratos servidos pelas criadagens. Os pormenores da corte de
Luís XV (1710-1774) iam ao ponto da condessa de Barry, chefe da alcova
real, lhe enriquecer a mesa com pombos bravos, conceituados por desferirem 83
ejaculações nas respectivas fêmeas, sendo de concluir que a
corte do
Bem-Amado
Luís XV ignorava as 350 cópulas do leão, o que privou o
monarca de comer os testículos do rei dos animais. Ficou-se pelos peitos
de pombo, as vulvas de porca, os testículos de carneiros & touros, sem
descurar as ovas de peixe, o açafrão, as trufas, as alcachofras,
o alho-porro & os pistácios. Conhecimentos de longa data codificados
pela Igreja, levando mesmo São Jerónimo a proibir favas e
grão-de-bico, a fim de não estimular os órgãos dos
monges. Todavia, a
pimenta dos monges,
a baga do agnocasto, era prescrita para suster a lascívia conventual.
[16]
Entre nós, reluziram as baixelas de prata & ouro & as porcelanas das
Índias, de encomenda eclesiástica & nobre, acumulando-se as
crónicas & os rumores de fartar vilanagem, de doenças alimentares
& vergonhosas da nobreza & do clero, como a gota & a sífilis. Os
poderosos são também atingidos por algumas calamidades dos
fracos, embora, por regra, sejam amparados pelos fracos & pelos deuses, mesmo
nos raros momentos de adversidade. A multimilenar constatação
ocorreu, mais uma vez, na partida para o exílio da última
família real portuguesa, em 1910. A acossada estirpe zarpou da praia da
Ericeira, prevenindo-se, nas bagagens,
com dois cestos grandes de lagostas vivas.
Nada mais avisado do que mitigar uma diáspora com
aristocráticos decápodes, macruros & palinurídeos.
Justiça se faça, entretanto: os nossos maiores reservavam algum
desvelo para com os desfavorecidos. Os pobrezinhos, que sempre acompanharam a
evolução das pompas & dos tachos, ora eram tocados pela
generosidade celeste, com intervenção directa de Nossa Senhora,
como ocorreu na confecção do xerém do Barrocal, ora eram
bafejados pelas
tripas
da expedição de Ceuta, ora eram mimados com um acicate laboral, o
gorreano, nos Açores & o frangolho, na Madeira. Para reactivar o
chamamento do Além num orbe laicista & consumista, teremos, pios &
ímpios, de cooperar na confecção das Ementas do
Paraíso. A Igreja do Jubileu terá de urbanizar as rústicas
barrigas de abade;
de reelaborar propostas gastronómicas & hoteleiras para uma Sociedade
de Tempos Livres. A concorrência inter-religiosa & os avanços da
laicidade desafiam a Igreja Católica para tarefas de
reabilitação do Paraíso Perdido. Até porque,
entretanto, nada obsta a que, noutras confissões, irrompa um lampejo
profético, tomando a dianteira da Reconversão. Rivalidades
ancestrais podem reactivar-se. As grandes religiões nasceram no Oriente,
no Extremo & no Próximo. Tão propalada & sustentada
evidência supõe que tais paragens detêm uma pródiga
memória, sempre pronta-a-servir & a expandir-se. Só para que o
Ocidente não adormeça na superioridade das suas missas & dos seus
mísseis, alertaremos as autoridades católicas & cristãs
para o fausto & a fartura de palcos & protagonistas da História.
Há mil anos, por exemplo, já os Senhores de Bagdad (Iraque)
importavam de Bukhara (Uzbequistão) melancias envoltas em cintas de
gelo. Por seu turno, pela mesma época, os Senhores de Bukhara ostentavam
performances
de globalização dos prazeres & de cautelares providências &
previdências. Ismaíl Samani, não apenas viveu mergulhado em
favoritas & ágapes, como justificou que lhe erigissem um mausoléu
de tijolo, terra, leite de camela & gemas de ovo. Deste modo, quando
despertasse do prolongado & estafante sono, alimentar-se-ia do próprio
túmulo. E outras paragens do maravilhoso asiático, consulte-se o
menu do Atharva-Veda: os inquilinos do Paraíso participam de jorros de
felicidade, baseados nas coisas da Mesa (açudes de água, leite,
licores, mel & natas). Sejamos francos, os nossos Senhores, religiosos, civis
ou militares, jamais patentearam, muito menos há mil anos, este recorte
cultural, este póstumo zelo. Limitaram-se a vagas expectativas na
encomendação dos ilustres finados, menosprezando as virtudes
recuperativas do leite, do mel, das gemas, do vinho. Ora, Paul Claudel
[17]
,
cristão de talentos literários, legou uma lapidar
advertência:
Há mais de mil anos de história numa garrafa de vinho.
E já que nos socorremos da cultura francesa, tão perfeita &
pérfida nas lides da cozinha, será de reter o aforismo
Dis-moi ce que tu manges, je te dirai qui tu es.
As Igrejas, com relevo para a Católica, encontrarão a receita
para contagiar as comunidades de base & arrastar as elites para os bons
caminhos, dotando-se de esmerados serviços de restauração
& lazer. O caderno Ementas do Paraíso apenas reivindica a virtude dos
simples: incentivar os copistas da Igreja, nesta Idade Média da
Coca-Cola, que grassa como a
peste negra,
na esperança de que rivalizem na caligrafia & na
ilustração com a devoção & a policromia dos
Livros de Horas,
com luzidias parras & ungidas aves. Que os copistas retomem a entrega
às causas do Génesis. Que não se deixem ritmizar pelo
stress
de uma economia teocida & consumista. Que, pelo contrário, se deixem
repenetrar pela
paciência beneditina,
pela placidez das celas & pelo palitar dos dentes nos claustros, pelos
preciosos & meticulosos estúdios de
design
da Antiguidade Cristã. De
Scriptoria-Net
se precisa hoje. Para que a Humanidade não continue indefesa a
comer o pão que o Diabo amassou.
Para que Portugal readquira um tão sólido como líquido
espírito de antecipação, empenhado numa
mente sã
& num
corpo são,
desalojando da praça o charlatanismo dos emagrecimentos
químicos, mecânicos & cirúrgicos, verdadeiramente
comprometido com um sebastianismo de alvo-dente & de tripaforra.
Reconhece a Igreja haver perdido o combate do Espírito, que as
dinâmicas do Mundo & da Modernidade se escaparam do seu seio & de sua
comunhão, mas dispõe, agora, de um vazio missionário, tudo
a inspirando para redimir a Humanidade pela Boca & pelo Sexo, terçando
contra a
Teologia do Mercado
& as
Catedrais do Consumo,
as religiões da Globamericanização. Nós,
terrenos, esperamos uma Palavra de reconforto, de renascimento das Ideologias &
do recomeço da História.
Toquem os sinos a rebate.
Por uma reconversão do Papado & da GarraFreira.
Por uma Neo-Escolástica dos
Gourmets.
Por albergues & passatempos dignos dos Clássicos.
Por uma reinvenção das criações do Horto.
Documento de Reflexão, transformado em Proposta, com o fito de devolver
à Igreja, principalmente à de Roma, o Espírito de
Missão, de re-Civilização Cristã, de Compromisso
Histórico com Crentes & Gentios. A graciosidade do prefácio, bem
como da obra prefaciada, compreende-se no sentido de brindar o Povo de Deus & o
Mundo Laico com um Novo Catecismo Alimentar, saborosamente coevo & prenhe de
tradições. O estilo & o conteúdo reflectem uma Igreja
Aberta, um catolicismo
open space,
que não evita confrontar-se com as derivas pagãs, cooperando na
definição de um Princípio de Coexistência & de
Convivência entre Civilizações, Credos & Espírito
Empresarial. Esse lastro ecuménico assenta nas duas Grandes Estruturas
da Criação: o Aparelho Digestivo & o Aparelho Reprodutivo. Assim
se compreendem as expressões de irreverência, na linha dos
trovões
de Jeová & da vergasta de Jesus contra os
vendilhões do templo,
sem jamais descurar o cariz prazenteiro & libertador. Subscrevem a Cruzada do
Bem-Comer & do Bem-Beber, do Bem-Folgar & do Bem-Pensar, letrados & santos de
todas as épocas (a. & d. Cristo). Em sua representação,
segue-se um abaixo-assinado por Ordem Alfabética & com Todas as
Licenças.
IN NOMINE DEI
IN NOMINE ECCLESIA
Nihil Obstat
Imprimatur Est
Adão
Primeiro Homem
Baco
Deus
Cerejeira
Cardeal
Dionísio Aeropagita
Mártir
Eva
Primeira Mulher
Francisco de Sales
Bispo
Grão Vasco
Pintor
Huberto
Bispo
Inácio
Padre
João Paulo II
Sumo Pontífice
Karl Marx
Filósofo
Lutero
Teólogo
Mariana Alcoforado
Freira
Nikodim II
Metropolita
Oséias
Profeta
Potâmio
Bispo
Queirós
Escritor
Ratzinger
Cardeal
Saladino
Sultão
Teresa de Ávila
Mística
Urbano VI
Sumo Pontífice
Vladimir
Príncipe Ortodoxo
Wolgang
Arcebispo
Ximenes
Bispo
Yoshimura
Cineasta
Zózimo
Eremita
___________
NOTAS
1- Um dos indicadores de risco do Alimento Único, reforçando os
do
Pensamento Único,
traduz-se na escolha da MacDonald's como patrocinadora oficial do Euro 2004.
A máquina estabular norte-americana assim se posiciona & se mimetiza nos
& com os
grandes acontecimentos,
fazendo parte do Desporto & da Festa, entre a bandeira verderubra do
país organizador & a bandeira azul-estrelada da Europa.
2- Gregório (540-604). Magno ou Grande, doutor da Igreja Latina, papa &
santo. Entronizado, contra o seu feitio, na cátedra de Pedro, operou uma
vasta reorganização dos interesses, das regras internas & da
estilística litúrgica. Cuidou dos bens eclesiásticos com
sentido doutrinal, inventarial & empresarial, através do
Patrimonium Petri
& do lançamento da primeira pedra da
Republica Christiana,
da Igreja-Estado, do actual Vaticano; clausulou & seriou a Regra Pastoral,
modelando a orgânica & a funcionalidade dos corpos eclesiais;
sistematizou os cantos cerimoniais,
canto romano
ou
romana cantilena,
imprimindo-lhe uma nota de gravidade & pompa, que obscureceu & branqueou a
origem judaica. Tal reforma traduzir-se-ia no canto gregoriano, com seculares
antecedências, mas que, graças à
Schola Cantorum,
se confundiria com obra de Gregório, erudito & administrador por
excelência, a quem o imperador Trajano deve o arrebatamento da alma do
Purgatório & a quem a Inglaterra reconhece um esforço pioneiro de
evangelização.
Luis de Góngora (1561-1627). Espanhol, poeta, espírito mundano &
sacerdote (da capelania de Filipe III). De estilo gracioso &
virtuosístico, alistável nas variantes do barroco
literário, apertado pelas dificuldades financeiras & pela
iminência de prestar contas ao Criador, terá renegado a veia
satírica. A História da Literatura apossou-se do apelido para
calendarizar & caracterizar correntes & autores.
3- Madre Paula. Convento de Odivelas. Uma das amantes de Dom João V
(1689-1750). Deu ao monarca um filho, Dom José, um dos três
rebentos naturais do Magnânimo (José, Gaspar & António),
que foram rebaptizados como
meninos de Palhavã,
já que foram criados no palácio dos marqueses do
Louriçal, em Palhavã, arredores de Lisboa. Dom José, filho
da madre Paula, chegou a Inquisidor-Mor; Dom Gaspar, filho da freirinha
Madalena Máxima, chegou a Arcebispo de Braga; Dom António, filho
de freira incógnita, chegou a Cavaleiro da Ordem de Cristo. Na altura,
os conventos femininos funcionavam como serralhos de monarcas, nobres, padres &
poetas.
Estes últimos requisitados nos outeiros, nos festejos eleitorais das
abadessas. Então, os vates desferiam rajadas poéticas, enxameando
os mosteiros de paixões. Tais saraus atingiram as alturas do Monte
Parnaso, daí os outeiros, nos séc XVII/XVIII. Acorriam aos
abadessados versejadores de veia na ponta da língua & poetas de
várias musas & elevados talentos, como Almeida Garrett, frequentador do
Mosteiro de Odivelas; Camilo Castelo Branco & Guerra Junqueiro, ilustres
convidados do Convento da Ave Maria; Abade de Jazente, costumeiro
hóspede do Convento de Santa Clara, em Amarante. As rimas dos
galãs eram pagas com vinhos & licores, doces & olhares concupiscentes.
Amiúde as irmãs se deixavam enlear, perdendo a compostura,
entregando-se a desvarios pelas muitas penumbras conventuais.
4-
Triclinium
/Triclínio. Sala de jantar romana, com três mesas-leitos. A
perfeita síntese da gastro-sexualidade cristã.
5- Ainda no ano 1000 da Era Cristã, corriam velozes as
maldições, dizimadoras de populações & colheitas. O
quadro alimentar vulnerabilizava o respeito pela vida dos criados à
imagem & semelhança do Criador, não se vacilando, em lautas ou
feras situações, perante presas da nossa espécie. Os
prisioneiros indefesos & os viajantes incautos eram troféus que
não inspiravam grande escrúpulo. Crianças & virgens eram
carne de culto & de consumo.
As crianças, na natural imprevidência, constituíam o
pitéu mais disputado. Desde remotas eras que o canibalismo entrou na
Dieta Humana. No ano 2000, desencadeia-se a caça à pedofilia; no
ano 1000, punha-se um ovo a cavalo nos infantes. Nesta
dramatização/rebarbarização dos géneros
alimentícios europeus, de realçar os desmandos de alistados nas
Cruzadas, com relatos da conquista da Antioquia, em 1098, assinalando-se os que
espetavam & grelhavam, nas lanças, bambinos árabes & turcos.
Paradoxal churrasco numa cidade onde, segundo os Actos dos Apóstolos
(11, 25), no dealbar da Era Cristã, pela primeira vez os
discípulos do Divino Mestre foram designados de cristãos. Casos
de canibalismo sistemático & esporádico, trágico &
mórbido, ocorreram nos 2000 anos de apostolado ocidental, como noutras
geografias confessionais, políticas & étnicas. Contra tais
procedimentos culinários se insurgiu o padre Manuel da Nóbrega
(1517-1570), fundador da Província da Companhia de Jesus do Brasil & da
Cidade de São Paulo, no seu
Tratado contra a Antropofagia & contra os Cristãos Seculares &
Eclesiásticos que a Fomentam & Consentem.
Antropofagia que, em pleno século XX, se reavivaria numa
dependência da Civilização Cristã, em Macau, na
Segunda Grande Guerra, conforme se comprovará no livro
Macau-Dor da Guerra
& em entrevistas do padre Manuel Teixeira (1912-2003):
Havia fome...Havia um hotel que comprava crianças, engordavaas,
cozinhava-as & oferecia-as aos hóspedes.
Mas não só há testemunhos & relatos de petiscos da nossa
Espécie em quadra de guerra & fome. Segundo uma publicação
apocalíptica, depositada nas igrejas,
Jornal Mensageiro, Católico, Apostólico, Romano, A Palavra Viva
de Deus,
em plena actualidade, em pleno Jubileu,
em Taiwan, bebés mortos ou fetos podem ser comprados de 50 a 70
dólares, nos hospitais, para atender a alta demanda para grelhados ou
churrascos.
Cérebros de bebés são vendidos como produto de beleza.
Apesar dos desmentidos oficiais, diversas publicações de Roma
persistem na campanha dos bebés de Taiwan. Verdade, verdade, é
que, em tempos recuados, na Europa, como em várias partes do Mundo, o
canibalismo integrou as ementas de tribos e nações mais ou menos
evoluídas, não somente por imperativos de sobrevivência &
volúpia, também por rituais de neutralização do
adverso & retransmissão da energia dos sacrificados. A
instituição da eucaristia cristã inscreve-se, neste
confronto de apetências, numa pedagogia sublimatória, o que
representa, sem dúvida, um avanço civilizacional, para lá
das tropelias ocasionais, de recaídas & reinvestidas do
homem-lobo do homem.*
*
Homo homini lupus / O homem é o lobo do homem.
(Plauto, Asinária, 2, 4, 88)
6- Os apóstolos André & Pedro foram vocacionados & agraciados, por
Cristo, como
pescadores de almas.
André, por seu lado, prendou Jesus com dois peixes & cinco
pães, que o Divino Mestre multiplicaria, saciando 5000 convivas. (Jonas,
6, 8-9)
7- Na parte final de Ementas do Paraíso, elenca-se uma
selecção de estabelecimentos & produtos do ramo, que apenas
apontam uma tentacular rede de serviços & iguarias, acobertados sob o
santo nome de Deus.
8-
Fellacio,
sucção do pénis. Acto lúdico-erógeno de
remotas tradições profanas & religiosas.
9- Báculo. Bordão, cajado, signo de autoridade & aura
demiúrgica desde os tempos tribais. Na estrutura da Igreja,
afirmação jurisdicional de abades dos conventos & bispos; no
plano pastoral & profético, símbolo de poder comunitário &
diocesano, do pastoreio das almas & da segurança dos corpos.
10- Banco Alimentar. Existe em diversos países. Portugal perfila-se no
ranking
caritativo.
11- Broa de Avintes, Vila Nova de Gaia. Boroa Trambela, Vildemoinhos, São
Salvador, Viseu.
12- Os cultos fálicos, mamários & uterinos remontam a todas as
religiões, aculturando-se & perpetuando-se. Nos devocionários da
Igreja Católica, são rastreáveis numerosas
expressões, umas de religiosidade popular, outras assumidas ou
dissimuladas pelo credo oficial. Uma devassa dos arquivos eróticos da
Ecclesia
Portuguesa deliciaria os propensos a êxtases & assombramentos: em
Rubiães, nos revérberos da igreja, acharemos um intruso &
descarado filho de Deus a beber de uma pipa & a exibir os instrumentos da
procriação; na igreja de São Gonçalo de Amarante,
costumavam as velhas camuflar, nos xailes e casacos, abonados pénis &
suas acopladas esferas, lepidamente os desocultando no instante da
benção, no decorrer da missa, persistindo a
tradição do biscoito açucarado, os famosos & ostensivos
doces do beato Gonçalo; o abade de Jazente (1720-1789), também
amarantino, marcou indelevelmente o século XVIII do burgo portuense, com
uma estada de saraus, jantaradas & papa-fêmeas, equitando por alcovas do
clero, da nobreza & do povo. Ganhou fama de inveterado comilão &
cortejador, mas o confesso autor de tantos pecados mortais & poeta brejeiro,
primava por uma concepção multiforme de coito, implicando,
segundo confidenciou, não somente as reentrâncias & as
excrecências mais apelativas, mas
olhos, boca, pés, mãos & cotovelos.
O ardente abade esticou o pernil, com 69 anos,
confortado com todos os sacramentos de Sua Santa Madre Igreja,
passados os confortos da Mãe-Natureza.
13- Hagiológio. Tratado dos santos.
14- Esta proposta de medida superaria as mais avançadas
terapêuticas & representaria um ousado salto na humanização
dos serviços públicos & na política de proximidade entre
funcionários & beneficiários, resultando ainda numa
vitória aos alimentos edénicos. De facto, o cardeal-rei
esboçou um SNS de rosto humano, mas que foi deixado sem continuidade &
sem generalização, com as consequêncas & sequelas que os
gráficos sanitários confirmam. Progresso isolado & de alcance
técnico apenas se verificaria, no séc. XVIII, com a bilha de
vidro, fabricada em Barcelona & que em algures & a alguém serviu de
biberão &
como ventosa para extrair leite dos seios.
Encontra-se um destes artefactos no Museu do Caramulo.
15- A Igreja depositou em Roberto o encargo das salinas & de velar pelos
salineiros, cabendo-lhe tutelar Salzburgo, cidade do sal, pelo que o dotou com
as competentes insígnias: ora um saleiro, ora uma barrica de sal.
16- Naturalmente que o assédio dos sexos & o regular funcionamento da
líbido forçaram a Igreja a usar calmantes nas
refeições & a publicar 88 Decretais, já lá
vão 1000 anos. Um sucinto apanhado dos Decretais de Brocardus:
masturbação masculina & fornicação com solteira-dez
dias a pão & água; masturbação feminina-um ano de
jejum; masturbação mútua-trinta dias de jejum;
sodomia/cópula homossexual masculina-vários anos de jejum, de
acordo com o arreigamento do vício; sodomia/homossexualidade
feminina-penitência de vários anos, penitência de
graduação superior a idêntico delito masculino. As mulheres
sempre encontraram na Igreja a
Mater
de que precisam para resistir ao demo & sucumbir à demografia.
17- Paul Claudel (1868-1955). Poeta, escritor, ensaísta, diplomata,
convertido ao catolicismo por virtude de
iluminação
divina, no Natal de 1886, na catedral de Nôtre-Dame. Títulos de
textos PC:
Emmaus, L'Épée et le Miroir, Feuilles de Saints, Jeanne d'Arc au
Bucher, La Jeune Fille Violaine, Le Pain Dur, Le Repos du Septième Jour.
[*]
Jornalista e escritor.
O texto acima faz parte da introdução a
Ementas do paraíso.
Campo das Letras, Porto, ISBN: 9726108934, 472 pgs.
O livro será lançado dia 14 de Outubro, 6ª feira, pelas 21h30, na
Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, na cidade do Porto. A
apresentação do livro será feita pelo Padre Mário de
Oliveira.
Este introdução encontra-se em
http://resistir.info/
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