Ementas do paraíso

Uma cruzada contra os infiéis do fast-food

por César Príncipe [*]

Clique para aceder à editora. COMO REDIMIR A HUMANIDADE
PELO BEM-COMER & PELO BEM-BEBER
& DEMAIS TENTAÇÕES DO HORTO


Neste planeta, assoberbado pelo Pensamento Único & pela bestialização de prioridades & preferências, pela célere desidentificação & desertificação de povos & lugares, ocorreu ao autor contribuir para a redenção alimentar, para a reconversão dos prazeres da comida & da bebida, no quadro de um Portugal católico, apostólico & romano & de um Mundo Melhor . Se supõe, assim, com a apresentação de um roteiro, de um cardápio & de um organigrama de Serviços à comunidade, aguçar a apetência pela cozinha Espiritual & Nacional, por oposição ou em alternância ao fast-food & à macdonaldização, [1] reconsagrando pratos de eleição & copos de saudação.

No cruzamento & na junção das coisas terrenas & das causas longínquas se procurará instituir a Pax Vaticana da comida & da bebida, da ingestão & da indigestão, da devoção & da diversão: Estar de bem com Deus & com o Diabo -eis a vetusta divisa da Nova Restauração. Na singeleza dos neófitos, movido pelo espírito de retorno dos gentios das cyberculinárias & dos transgénicos ao redil do Bom Pastor, julga o gastrógrafo merecer o beneplácito das Cortes Papais de Roma a Avinhão, onde a Mesa se revelou uma arma da Fé, evidência a que a classe dos leigos não se mostrou insensível. Nesta postura de revelação & usufruto, o autor gostosamente se banqueteou no cortejo & cotejo dos prazeres eclesiásticos & monacais. Seduzido, adoptou mesmo uma linguagem obsequiosa, entre Gregório Magno & Góngora. [2]

As Bibliotecas da Igreja ou sobre a Igreja acumulam narrações de banquetes & alusões a receitas, preciosos & precisos mananciais, salvaguardas do labor & do sabor, de engenhos colectivos & lances místicos. Depósitos de sabedorias & apuros milenares tributáveis a toda a hierarquia (secular e monástica), a quem devemos inesgotáveis páginas da gula & do gole. Na esfera cristã, neste ponto de ordem, conviria, desde logo, exaltar São Vladimir, Équo-Apóstolo & Grande Príncipe de Kiev (Ucrânia) que, em 987, oficializou, nos seus domínios, o ideário cristão, apropriando-se das vastidões eslavas. Favorecido pelos céus & pelos céus contemplado com lanças, terras & gados, optou pelo cristianismo em desfavor do islamismo. Argumento incontornável: Beber é a alegria dos russos. Não conseguimos existir sem esse prazer.

Redundaria em fruste ambição carrear para um frontal de Ementas do Paraíso qualquer inventário de garfos & vasos que, no consulado cristão, reanimaram a imoralidade dos senhores & a moral dos escravos. Redundaria igualmente enfadonho pretender, aqui, esboçar umas Inquirições da Mesa Lusitana da Reconquista à Expansão Colonial. Como nos mistérios, são indescritíveis & incaptáveis muitos dos vapores das panelas & vasilhas da Igreja & da Realeza, instituições-mestras, profundamente promíscuas nas coisas da Boca & do Bocado, do Sexo & do Ceptro, do Refeitório & do Dormitório.

Portugal conta com milhões de denominativos de gentes e sítios, monumentos & cometimentos sustentados pela cultura religiosa. Um manto & uma auréola de santidade cobrem todo o território. A área gastronómica & hoteleira é apenas um dos âmbitos do totalitarismo semânticoreligioso. Cultura de temperos autóctones, mas, desde as primeiras arremetidas da Espada & da Cruz, embrenhada nos negócios da salvação universal. Negócios que necessariamente se cruzam com as leis do mercado, da oferta & da procura, da produção & do consumo. Hierarcas, santos & devotos sempre animaram o marketing das comedorias, emprestando o seu Alto Patrocínio & o seu Espírito de Troca a feiras dos gados bovinos, suínos, caprinos & ovinos, dos capões & das cebolas, dos vinhos & das sementes, dos enchidos & dos queijos; aos mercados do peixe & da fruta; às festas dos doces regionais & industriais. Igualmente o Portugal Cristão & Missionário preencheu os mapas de albergarias & recreios, consolatórios de panças & artefactos da Criação.
Citar Avinhão ou o jesuíta Coyer pelo uso do gorro nas cozinhas? Citar Pico della Mirandolla pelas sidras & saladas de pepino? Citar Afonso Henriques ou Afonso III, apaparicados, no Castelo de Guimarães, pelas freiras, que tinham uma noção próxima do Paraíso, alegrando a mesa & as almas dos monarcas com capões & congros, regueifas & vinhos, gados & pimentas, açúcar & sal, queijos & manteigas? Citar, da Bíblia, o Livro de Habacuc, a reprovação dos que embriagam os vizinhos para ver a sua nudez? Citar o pontífice Clemente VIII, que nos tolerou sorver o café, antes interdito pelos cânones do comércio como mezinha maometana? Citar Osíris, no Egipto, Dioniso, na Grécia, Baco, em Roma? Citar a indulgente bebedeira de Noé ou o Livro dos Copos? Citar São Martinho, castanhas & vinho? Citar, no Alentejo, o néctar Vila Santa ou, em Lisboa, a Missa Vínica de São Vicente de Fora? Citar a barriga de abade ou a barriga de freira ? Citar o coelho à São Cristovão ou os alfitetes de Santa Clara ? Citar a sopa de Santa Teresinha ou o bolo de anjo ? Citar as couves à Dom Prior ou as Súplicas ? Citar as favas tenras de São Domingos ou as filhós de Natal ? Citar o bacalhau à bispo ou a pêra jubileu ? Citar os ovos de freira do Salvador ou os peitinhos de rolas de Santa Maria de Agosto ? Citar as empadas de tordos da irmã Paula [3] ou a limonada de Santa Clara ? Citar o excesso & o esmero das Ceias de Natal & de Páscoa? Citar o Domingo Gordo & o Enterro do Bacalhau ? Citar as propostas de vinhos, desde as Terrras do Demo à Casa do Cónego , ao Convento de São Francisco ? Citar as inquirições & as inquisições, os códices e as crónicas, os assentos & os testamentos, os livros das vereações & os róis conventuais? Citar tantos & santos paradigmas da felicidade consentida pelo Divino? Retroceder à imitação dos libertinos tempos & templos do triclinium [4] & dos vomitórios? Retroceder à Bíblia, ao novo Testamento, Tomai e comei, Tomai e bebei, Isto é o meu Corpo ? A Eucaristia não será uma Teofagia, uma transposição para o Reino do Simbólico dos sacrifícios humanos? [5]

Cumpre-nos, nesta passagem, invocar algumas legitimações, principiando pelo Filho de Deus. Este, além de integrar & equilibrar o regime alimentar das almas, cedo se identificou com os pescadores, as redes & o peixe. Efectivamente, o peixe viria a ocupar uma centralidade discursiva & recorrente na Última Ceia, momento-chave da mensagem cristã. De resto, o peixe, nas simbólicas globais (religiosas & profanas), é um referente normalizado de cariz vital & transfigurativo: fálico, uterino, neptúnico & sereico. Para encurtar alusões, evocaremos o Milagre da Multiplicação dos Peixes, no gesto instituidor do sacramento eucarístico [6] ou o Sermão aos Peixes, de António de Lisboa & Pádua (c.1190-1231), o nosso maior doutor da Igreja, casamenteiro de solteironas & que, no palmarés de prodígios, fez um burro ajoelhar ante uma hóstia.

No reino menos santo, peixão é sinónimo de garotaça & mulheraça, como pão é um apreciativo da fêmea relativamente ao macho humano, mais pudico do que o equivalente masculino: Comiate toda . Nesta cumplicidade do Verbo com o leito & o bom proveito, igualmente se imiscui o bacalhau, fiel amigo dos portugueses (somos o maior consumidor de bacalhau seco neste mundo). Quero cheirar teu bacalhau, em verdade, em verdade vos digo, é uma fórmula de aromaterapia, consagrada pelo nacional-cançonetismo. Em consequência, não admira que Jesus Cristo, à boa maneira dos líderes partidários, houvesse utilizado as refeições para congregar fidelidades, desencadear afectos & propor uma nova ordem moral & social. Não jantou Cristo com os apóstolos (os fiéis, os traidores, os negadores) ou com os fariseus ou com Simeão, o Leproso? E que reter da suculenta consulta às fontes de confecção & destilação da cristandade? Que fixar de tão profícuo magistério, de todo o bem-temperado & de todo o bem-aventurado à la carte deste Portugal pançudo & marialva? Quantos santos & quantas santas dignificam estabelecimentos de hotelaria & de comes & bebes neste País de Romarias & Arraiais, de São Pedro dos Leitões a São Bento da Porta Aberta? [7]

E se nos dispusermos a recordar? Recordar, por exemplo, obras-primas da Pintura do repasto & libação dos deuses & de seus comensais? A Última Ceia, de Leonardo da Vinci, A Última Ceia, de Andrea del Castagno, A Última Ceia, de Tintoretto, A Última Ceia, de Emil Nolde, A Última Ceia, de Dieric Bouts, A Última Ceia, de Juan de Juanes, A Última Ceia, de Vasco Fernandes, A Última Ceia, de Francisco Henriques, A Última Ceia, de Sá Nogueira? Recordar O Banquete na Casa de Simão, de Bernardo Strozzi? Recordar O Banquete dos Oficiais de São Jorge, de Frans Hals? Recordar O Banquete de Cleópatra, de Jacob Jordaens? Recordar A Refeição em Casa do Fariseu Simão, de Giovanni di Milano? Recordar O Festim de Herodes, de Donatello? Recordar Cristo na Mesa da Casa de Levi, de Paolo Veronese? Recordar O Jantar dos Emaús & o Baco, de Caravaggio? Recordar Os Cozinheiros Perigosos, de James Ensor? Recordar A Bacanal na Ilha de Andros & A Festa dos Deuses, de Ticiano? Recordar As Bacanais, de William Hogarth? Recordar Tobias & Ana, com o Cabrito, de Rembrandt? Recordar As Bodas de Canã, de Bartolomé Murillo? Recordar O Casamento de Camponeses, de Brueghel, o Velho? Recordar O Almoço de Ostras, de Jean de Troy? Recordar O Almoço do Trolha, de Pomar? Recordar O Enterro da Sardinha, de Goya? Recordar A Velha a Fritar Ovos, de Vélasquez? Recordar Um Bar, de Manet? Recordar A Noite na Taberna, de David Teniers? Recordar O Alegre Beberrão, de Frans Hals? Recordar Os Bêbados, de Goya? Recordar O Homem com o Copo de Vinho, no Louvre, atribuído a Nuno Gonçalves? Recordar O Copo de Absinto, de Degas? Recordar Os Bêbados, de Malhoa? Recordar Os Bebedores Sentados à Mesa, de Adriaen Brouwer? Recordar o culto das naturezas-mortas (de inúmeros artistas da Era Cristã), desde logo, madre Josefa d'Óbidos ou Jan de Heem, Braque ou Morandi? Recordar Natureza-Morta com Numerosos Objectos, de Le Corbusier & Mulher & Frutos, de Columbano? Recordar A Sopa de Arroios, de Domingos António Sequeira? Recordar O Talho, de Pieter Aertsen? Recordar Figura com peças de carne, de Bacon? Recordar A Galinha Morta, de Soutine? Recordar Comendo Batatas, de Van Gogh? Recordar Fruteiro, Copo & Maçãs, de Cézanne? Recordar Dom João V, Bebendo Chocolate, Servido pelo Infante Dom Miguel, de Castrioto? Recordar O Regresso do Mercado, de Chardin? Recordar o Hortus Deliciarum / Jardim das Delícias, de Hieronymus Bosh?

Elas, as representações, traduzem a necessidade de manutenção do esqueleto & do intelecto. Elas são o refinamento de liturgias de perpetuação & posse. Quão gratos haveremos de estar à Igreja Universal, como às Igrejas de Braga, Lamego, Viseu, Coimbra, Lisboa, Évora. E que seria de nós sem o recurso às cavernas, às cátedras & às catedrais na Evolução das Espécies? Na verdade, a Humanidade progrediu, mau grado as reinvestidas do antropofagismo puro & duro & as ofensivas das refeições de plástico. E em abono da isenção, haverá que reconhecer (no decorrer da odisseia alimentar do Homem) que a Igreja Católica soube inventar & preservar um receituário a classificar pela UNESCO como Património da Humanidade. Quem recuar até aos restos paleontológicos mais arcaicos, quem se debruçar sobre as oferendas aos extintos nas rudes & nas opulentas sepulturas, empreendendo um simples relance pela Antropologia & Sociologia da Alimentação, situará o papel da Igreja de Roma & de suas extensas & dispersas administrações no Olimpo, no Paraíso.

O enfarte & o deboche sempre aliviaram a caminhada das almas. Quase sempre as Igrejas conviveram com práticas desregradas, mesmo de cónegos regrantes, mesmo de rupestres monges. Talvez uma das dramaturgias mais equívocas & perturbadoras de Cristo, na biface de Deus & Homem, se surpreenda no contexto do cristianismo medieval etíope, na estética dolorosa & redentora, chocantemente manifesta na Tortura do Fellatio [8] .

Os artistas dos eremitérios integraram, no imaginário cristão & na representação do Calvário, a figura do Crucificado com o pénis erecto (como Amon), abocanhado & sugado pelos torturadores ou veneradores. Admite-se, nesta iconografia hard-core, ser espinhoso conciliar sofrimento & comprazimento, penso & pensamento, recolhimento & envolvimento, cristianismo & canibalismo. Por isso, se compreendem os delitos da Santíssima Madre, que tem de gerir comodidades & incomodidades.

Nesta problemática, interessa-nos apontar a tónica do excesso, não tanto para incriminar Roma de capitulação perante as coisas terrenas & sensoriais, mas para enaltecer o seu esmero báquico & opíparo, a sua cultura da sociedade da abundância sob o capa do jejum & da abstinência. Compete-nos, pois, avivar aspectos sacros neste Globo secularizado, concorrendo para iluminar o limbo onde jazem ensinamentos de papados & bispados, paróquias & monastérios. Para lá da proclamação da Boa-Nova, a Igreja detém uma pautada experiência no exercício & no arbítrio das tentações, de todas as quedas do humano, das possessões que perpassam no Seu Corpo & nos rebanhos sob Seu Báculo [9] .

Espírito maléfico que muito se prontificou para os lucros do confisco & que muito se aparelhou para as fugas ao fisco. E que, nos deslumbramentos da carne, do ouro & de seus Governos, esticou a corda do Evangelho até se soltar das âncoras da Misericórdia & da Salvação. É tocado pela auréola da santidade & da sanidade que o autor de Ementas do Paraíso ousou pós-modernizar, a seu modo, um Cartulário da Nova Restauração, uma Carta Encíclica da Boa Mesa/Boa Nova, que possa sugerir o advento de uma verdadeira PanaCEIA UniverSAL. O autor, para além de não regatear & renovar louvores às entidades pontificais, episcopais, abaciais & monasteirais, considera que uma revalorização deste espólio mobilizará a massa crítica cristã para uma Pastoral de Pantagruel, que acerte o passo pelos refrões anti-McDonald's & anti-Coca-Cola, consignas do apocalipse alimentar da Humanidade. É premente organizar a Resistência dos papos de anjo ao angel cake, do slow-food ao fast-food. Portugal é um solo para primeira linha de combate, na condição de país-líder em comer fora & fora dormir, segundo A vida das mulheres & dos homens na Europa-um retrato estatístico/Relatório do Eurostat/2003. O estudo percentualiza os portugueses no top de investimento em restaurantes & hotéis: 19% & 9,3% do orçamento familiar, respectivamente.

Também os portugueses, segundo o Censo da UE, ocupam, desde há anos, o 4.º lugar no ranking europeu e mundial no consumo de vinho: Luxemburgo, França, Itália, Portugal.

A Igreja, como depositária de tradições (só a Bíblia guarda 443 referências ao vinho), não deve endossar responsabilidades no fomento de uma Gastronomia Alternativa, escudada na erudição (Primum Vivere, Deinde Philosophare). A Igreja é portadora de um now how absoluto: totalidade, regionalidade, originalidade, exclusividade. De facto & de jure, quem como a Igreja disporá de um estendal de conhecimentos & de um escol para sua ministração? Quererá a Igreja manter-se arredada das conclusões do Censo de 1991, constatando que o álcool cativa 76% dos portugueses, sabendo-se que a Missa apenas atrai 26% dos fiéis? Deixar-se-á o canto gregoriano ultrapassar pelas Canções de Beber, de Fernando Pessoa? Como compatibilizar alegrias do Horto com exemplaridades mortificantes? Como partilhar apreensões & concertar soluções na dieta dos ricos & dos pobres, do Banco Mundial & do Banco Alimentar? [10]

A Igreja foi fundadora. Terá de assumir-se como reparadora. Se fenícios, cartagineses & gregos são honrados como introdutores da pinga neste cristianizado solo, que haveria de ser chamado Portugal, logo a Santa Igreja do Ocidente reconfirmou as vinhas & as adegas & alargou as ciências gustativas.

A cobertura sagrada & cristã no Portugal de hoje poderá ainda aferir-se pela panóplia de Festas, Festivais, Feiras, Associações, Confrarias, Congressos, Colegiadas, Clubes, Academias, Ligas & Ordens que grassam de Norte a Sul, no Continente & Ilhas.
     Festas. Desde logo, da Festa da Alimentação das Almas à Festa do Bodo, da Festa da Castanha à da Cereja, da Festa da Sardinha à das Chouriças, da Festa da Espiga à das Fogaceiras, da Festa das Papas à das Roscas, da Festa do Alvarinho à do Dão, da Festa do Doce Tradicional à dos Folares, da Festa do Leitão à do Capão, da Festa do Leite à do Pastor & do Queijo, da Festa do Petisco à dos Caçadores, da Festa das Enguias à das Salinas, da Festa do Sável à da Lampreia, da Festa do Vinho à das Amendoeiras, da Festa dos Tremoços à dos Pinhões.
     Festivais. Desde logo, do Festival da Carníssima de Bragança ao da Cerveja, do Festival da Batata-Doce ao da Doçaria Conventual, do Festival das Enguias ao das Francesinhas, do Festival das Papas de Sarrabulho ao das Sopas da Serra da Estrela, do Festival de Arroz ao de Frango, do Festival do Marisco ao da Sardinha, do Festival do Peixe do Rio ao dos Perceves, do Festival dos Vinhos ao Europeu de Chocolate.
     Feiras. Desde logo, a dos Santos ou de Todos-os-Santos, de que se apontam tutelares por todo o território: Nossa Senhora da Piedade, Sant'Ana, Santa Luzia, Santa Quitéria, Santiago, Santo André, Santo António, Santo Isidro, São Bartolomeu, São Bento, São Brás, São Domingos, São Gregório, São João, São José, São Marcos, São Martinho, São Mateus, São Miguel, São Simeão, São Torcato. Frequentemente fazendo parte do programa profano das festas, haverá que seriar alguns certames, como as feiras da Apicultura, da Caça & da Pesca, da Castanha, da Vitela, das Cebolas, das Ervas Alimentares, das Provas de Azeite, das Nozes, das Sementes, das Tasquinhas, do Bolo, do Cabrito, do Capão, do Comer, do Doce, do Doce Tradicional, do Folar, do Fumeiro & do Presunto, do Gado, do Gado Suíno, do Livro & da Doçaria, do Mel, do Pão & do Mel, do Pão Quente & do Queijo Fresco, do Porco, do Presunto, do Queijo, dos Caldinhos, dos Cogumelos, dos Enchidos, dos Melões, ou a Gastronómica da Maia, a Nacional da Agricultura, a Nacional do Porco Bísaro, a Nacional do Tomate, do Vinho & da Maçã, a do Vinho Verde.
     Associações & Confrarias. Desde logo, de São Martinho, São Gonçalo, São Vicente, Santo Onofre, Sant'Iago, Senhora do Cacho, São Mateus, para além das parcerias estratégicas de marketing com as de denominação laica, desde logo, da Carne de Barroso, da Cerveja, da Lampreia de Penacova, da Panela ao Lume, da Sopa, do Vinho Verde, do Vinho do Porto & Arrais Casa do Douro, da Bairrada, do Dou-Dão (Douro, Dão, Bairrada), da Beira Interior, da Estremadura, Gastronómica Aromas & Sabores Gandareses, Gastronómica de Boticas, de Gastrónomos do Minho, Gastronómica de Trás-os-Montes & Alto-Douro, do Periquita, do Alentejo, do Espumante, do Verdelho dos Biscoitos (Açores), da Madeira, dos Vinhos Portugueses em Bruxelas, dos Amigos das Tabernas, dos Amigos da Saúde & do Vinho, dos Provadores do Alto Douro, dos Amigos do Garfo, dos Bares da Zona Histórica do Porto, dos Cavaleiros da Adega, dos Cozinheiros & Restauradores, dos Enófilos & Gastrónomos da Beira Serra, dos Enófilos & Gastrónomos de Trás-os-Montes & Alto Douro, dos Enófilos do Ribatejo, dos Jornalistas Enófilos da Academia do Gosto. Esta última levou o zelo & o esmero ao ponto de produzir um Manual de Iniciação ao Vinho. Que outras agremiações de comes & bebes proliferam ainda no solo & para consolo luso, desde a Confraria da Broa de Avintes à da Broa de Trambela, [11] desde a Confraria do Azeite à do Pão, desde a Confraria da Cabra Velha à Academia da Verdadeira Chanfana, de Saberes & Sabores da Beira à do Capão de Freamunde, desde a Confraria da Sopa à da Fogaça, desde a Confraria do Bacalhau à Confraria das Tripas, desde a Confraria do Leitão à Confraria dos Nabos, da Confraria da Pêra-Rocha do Oeste à Companhia Gastronómica, até à Gastronómica do Mar, desde a Gastronómica do Minho até à do Bacalhau de Aveiro & à Gastronómica de Beja, do Rally da Lampreia ao Rali das Vinhas de Cister, do Rali do Cabrito de Barroso à Amostra da Alheira & ao Concurso de Sopas Alentejanas.

O mapa da glutonice pátria & mátria vai da Confraria do Bacalhau em Toronto à Academia do Bacalhau da Venezuela (comunidade emigrante) à Confraria do Sável & Lampreia em Gondomar.

Portugal tem afirmado, na Europa & no Planeta, um espaço de identidade & de memória, a primeira já com site na Gastronomia Lusófona. ( http://www.gastronomia.com/ ); a segunda a preservar no Museu Nacional de Gastronomia, com sede prevista para Viana do Castelo.

Pois que nem só de vinho vive o Homem, embora Shakespeare (1564-1616), em Henrique IV, tivesse vendido a alma de Falstaff por um copo de Madeira & uma pata de capão; e, em Ricardo III, executasse a última vontade do duque de Clarence, que, na Torre de Londres, optou por uma condenação jubilosa: morrer naufragado num tonel de Malvasia. O contributo português não se esgotaria, de resto, no génio dramatúrgico do W. Shakespeare. No séc. XVII, a nossa Catarina de Bragança, após consórcio com Carlos II, pôs a hight society a bebericar chá, instituindo um real aroma na Velha Aliança, o Greenwich do Chá das Cinco. As Famílias Inglesas adoptaram o chá, daí passando ao domínio do Vinho do Porto. Justo será, nesta hora, de ajuste de euro-contas, destacar algumas dívidas de gratidão da pérfida & presumida Albion que, para seu bem-viver & seu bom-morrer, nunca vacilou em servir-se dos nossos tonificantes.

A Madre Igreja tem, como se depreende, antanhas & omipresentes responsabilidades & cumpre- lhe, em conformidade, ritualizar & reactualizar. Daí a sua Comunhão Solene. Daí a sua participação (directa ou indirecta) em celebrações laicas, mas eivadas de tradições clericais & monacais: abundam os dias, os domingos, as semanas & os meses dedicados à Gastronomia, as litutgias da Mesa. Exemplificaremos com a Semana da Sardinha à Semana dos Petiscos, com as quartas fartas no Casino de Espinho às provas de caracóis no Algarve. Daqui o repto ecumenista. Vivemos um ponto da História propenso a retornos. Voltemos às abadessadas. Voltemos aos queijinhos do céu, às nozes à carmelita, às nuvens & às orelhas-de-abade, que tanto serviço prestaram (quando ainda não grassavam as pastilhas elásticas do american way & os drops euro-chupas), nas procissões, nas entradas reais, nas esperas de touros, nos arraiais, nos autos-de-fé. Voltemos às gargantas de freira da Covilhã & ao bolo-real do Paraíso de Évora. Voltemos às arrufadas do Convento de Santa Clara , em Coimbra, de formato fálico, que as recolhidas ofereciam aos trovadores-galantes. Voltemos aos pitos de Santa Luzia, que as moçoilas de Vila Real oferecem aos noivos, em 13 de Dezembro & às Ganchas de São Brás, que os mancebos oferecem às raparigas, na festa do santo, em 3 de Fevereiro, com apropriado acompanhamento coral: Eu vou ao São Brás/De cu para trás/Comprar uma gancha/ P´ró meu rapaz.

O pito é uma doçaria com a devida conotação de formato & a gancha é um rebuçado com forma de gancho, do báculo de São Brás & de pénis estilizado. Por que não consagrar os pitos & as ganchas de Norte a Sul, de Leste a Oeste? Voltemos à liturgia beirã que, durante séculos, tolerou, na Casa de Deus, um santo de pau-feito, que reclinadas mulheres, na quadra das vindimas, ensaboavam de espuma de vinho novo, seguindo-se o ósculo da prova, da colheita do ano. [12]

E no que respeita às prescrições de contenção & de higiene, restabeleça-se uma rejuvenescida literatura de jejuns & abstinências, pontuando o Apostolado Gastronómico com Salas do Capítulo de Cuidados Básicos. Conte-se também a História da Higiene & da Etiqueta. Quem ensinará aos jovens (aos que têm a sorte de comer & beber, divertir-se & instruir-se) o longo caminho das Ciências da Mesa & da Cama? Exceptuando esporádicas descontracções, a Europa & outras apressadas comunidades abandonaram os hábitos de comer à mão & de meter a mão nos recipientes, de limpar as mãos às vestes & toalhas ou de equipar-se com guardanapo trazido de casa. As indústrias de cutelaria & dos têxteis, aliadas ao fomento do bem-estar, impuseram a comida de faca & garfo, individualizada & cerimoniosa.

No tocante a demais convenções de sanidade, a Igreja, associada a abocanhamentos do melhor pedaço, deve exercer um magistério de limpeza dental & bucal, de resto, na senda dos grandes predadores marítimos & terrestres, reforçando a intervenção de Santa Apolónia que, desde o séc. 248, é padroeira dos incisivos, caninos & molares (na Itália, venderam-se milhares de dentes-relíquias que apetrecharam a sua dotadíssima cavidade). Competirá à virgem de Alexandria, martirizada na abertura bucal (arrancaram--lhe os dentes com uma tenaz) assessorar o Ministério da Saúde, já que, como inspiradora de uma Estação dos Caminhos-de-Ferro, demonstrou não estar à altura dos reptos do TGV ou do pendolino. Deverá regressar à clínica dentária & à odontologia. Outras valências médicas & caritativas terão de reimplementar-se, perante os clamores dos utentes dos serviços de saúde. Sugere-se para patrono invocatório da modernização do sistema a figura do cardeal-rei, o avisado Dom Henrique (1512-1580). Caído enfermo do aparelho digestivo, sendo-lhe contraindicado ingerir leite de rês bovina, caprina ou ovina, os céus concederam-lhe alternativa. O purpurado só tolerava leite de mulher, pelo que as entidades competentes requisitaram ao Reynno uma manada de amas-leiteiras.

O Movimento NaCIOnal Feminino de então logo se aprontou para franquear o seio ao Senhor da Coroa & do Barrete. Reconhecendo-se as negras estatísticas das doenças do foro digestivo (os portugueses, como o peixe, morrem pela boca ), a Igreja, como Magna Mater da Bioética, só reconquistaria a cristandade persuadindo as Tutelas da Saúde & da Segurança Social a reclinar o peito das meninas SNS & das amas SS. Por certo, milhões de portugueses entrariam de baixa. Mas, pelo menos & por uma vez, todos mamaríamos, alcançando a felicidade nas marquesas & nas enfermarias, nos lares & nos domicílios. E, em termos meramente catequéticos, revolucionar-se-iam os conceitos de sacrifício & hedonismo. A Igreja nem sequer teria de sujeitar-se a inovações, sempre penosas para a burocracia romana & diocesana, nem sequer teria de canonizar ou beatificar dois ou três pares de tetas das revistas cor-de-rosa ou dos ranchos folclóricos da província, pois bastaria que se socorresse do Hagiológio, [13] das santas Ágata e Catarina de Alexandria, padroeiras das amas de leite; bem como de Noitburga de Rattenberg, que ostenta, como atributo, um pote de leite. Este serviço à comunidade justificaria o estabelecimento da Congregação das Irmãs Leiteiras.

Estamos em crer que, num país formalmente de Direito, inimigo jurado dos fundamentalismos, não se correria o risco da decepação dos seios, como, outrora, sucedeu a numerosas mulheres & virgens cristãs, que alcançaram os merecimentos do Além, como Águeda, Anastásia & Bárbara. A imaginária da primeira expõe, desde o séc. III, os seios numa bandeja, escoltados pelo unicórnio, símbolo de candidez. Até para o caso de algum surto de talibanditismo romano & peninsular, as Irmãs Leiteiras têm uma mártir de eleição. [14]

Tudo preparado, pois. Voltemos ao culto da Nossa Senhora do Leite, da Nossa Senhora da Uva & de Nossa Senhora do Figo. Voltemos ao culto de Nossa Senhora dos Verdes, no porfiado combate às lagartas da Horticultura & da Fruticultura. Voltemos à generalização do culto de Santo António como advogado dos animais. Afiança o povo que uma benção eucarística do gado vale por mil vacinas. Tal sucede em vários rincões & com particular apego na Benção dos Animais de Santo António de Mixões da Serra, Vila Verde. Voltemos aos sabores dos antepassados, agora que em voga estão as Ceias Medievais & as Ceias Renascentistas. Vidé Santa Maria da Feira ou Tomar/Cidade Templária. Atente a Igreja no movimento social, esbatidas as grandes causas, as sociedades contentam-se com as pequenas coisas: mostras/semanas/domingos gastronómicos.

Aplaudam-se, pois, as Universidades & os Média como agentes qualificados da Cultura das Tentações. Cumpre-lhes narrar & comentar o que de deve comer & beber, como deveremos repousar & foliar. Desde que a porca torce o rabo, desde os períodos pré-cristãos, em que o porco era divinizado & a porca tutelava a fecundidade, que o Homem é um animal relacionado com a porcaria. É certo que, posteriormente, os suínos perderam a graça de Deus & acabaram fria & comezinhamente imolados pela faca campestre & pelo abate industrial, num notório desdém pelo seu porte mágico & místico. Porcaria apenas evitada pela comunidade judaica, que iludia a Santa Inquisição com falsos cozidos de cristãos & com alheiras recheadas de galinha, coelho & perdiz, in nomine porco. Que, igualmente, os Governos, nas anunciadas & proteladas reformas do Ensino, procedam à reabilitação dos bovinos da Grei, a fim de que cada comensal reconheça quanto deve a este gado, também ele alvo de adoração milenar, sujeito a sacrifícios cruentos & propiciatórios, terminando, desprovido de qualquer aura, no prato & no pão da civilização cristã.

Devem os historiadores & os investigadores das linguagens questionar se o desrespeito pelos bovinos se insere na lógica de uma nova corte celeste ou no movimento europeu (a vaca é o ícone por excelência nas mitologias continentais). Vendo bem, a vaca, presentemente tão louca, incriminada & discriminada, tem todo o direito a ser reinscrita, em letras de ouro, no levantamento das grandes utopias da encarnação, da purificação & da redenção. Quem, como a vaca, poderá sintetizar a unidade dos povos & potenciar o encontro de civilizações? A vaca foi idolatrada entre os arianos, avoengos da pura raça germana &, de novo, condutores do projecto europeu; a vaca continua venerada entre indianos, filhos do Ganges & de intocáveis castas. Honremos as vacas em risco de extinção. Apelemos a São Francisco de Assis (1182-1226) para redignificar os nossos irmão-bichos, recolocando-os nos altares da consideração, donde foram desalojados pelos comerciantes de todas as reses.Voltemos à benção dos renovos da Terra. Criemos, sem delongas, uma Associação de Defesa do Baixo-Ventre, promovendo quanta idolatria & quanta iguaria nos marca como Nação.

Só as organizações piramidais & simultaneamente abertas, adestradas para emitir directivas num tempo de dispersão, possuem capacidade mobilizadora & refundadora. A Igreja Católica está vocacionada para reenvangelizar as gentios de todos os continentes & de todas as ilhas. Só Ela optimiza os meios estruturais, bem como a força da Parábola do Pão, da Parábola da Rede da Pesca, da Parábola da Mostarda. Cristo surgiu como Nova Videira. O povo de Israel também foi transplantado para o Egipto como uma videira. Se, em Londres, se edificou a Cidade do Vinho, Vinópolis, porque não sediar, em Lisboa, uma Carnópolis &, no Porto, uma Vinópolis, sob a alçada das Confrarias da Ordem? Se, em Londres, no Victoria & Albert Museum, jaz uma célebre sacerdotisa de Baco, não jazem, em Portugal, bacos à discrição? E quem providenciará no deslize dos nossos hábitos nutricionais, cada vez mais nivelados por padrões euro-americanos?

Bastará que a Conferência Episcopal relance o olhar pela Balança Alimentar Portuguesa 1990--1997, do Instituto Nacional de Estatística, para confirmar a existência de dez obesos por cada cem adultos. Existe um banco de dados oficiais susceptível de fixar padrões de qualidade & consumo, introduzindo as medidas requeridas pelo Estado Alimentar & Sanitário. Sempre com frugalidade, mas glosando Salazar, que conseguiu que o vinho desse de comer a um milhão de portugueses. Glosando sem complexos: Nada contra a Ração. Tudo pela Ração. Sabendo-se, pois, que 35% dos portugueses são pré-obesos & 15% são obesos ou obesos mórbidos, diagrama estatístico determinado num inquérito epidemiológico da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade; sabendo-se que ocupamos um lugar top no ranking europeu do alcoolismo, com a juventude a prometer uma gloriosa evolução na continuidade; também se sabendo que, segundo a Sociedade Portuguesa de Estomatologia e Medicina Dentária, cinco milhões de portugueses não consultam o dentista, ufanando-se o nosso povo de, na Europa, ser o que mais dispensa a escova de dentes – a Igreja nunca se alhearia de tão escatológicas preocupações, como o comprovou com Santa Apolónia. À Igreja compete prescrever o correctivo & o lenitivo.

Também, neste vector & nesta frente regenerativa do ecce homo sapiens, a Igreja haverá que adequar-se aos reptos da competição & da mundialização. A Igreja tem de reinstaurar, entre os abastados, as mais saborosas conquistas das cozinhas & pastelarias, das adegas & destilarias, das queijarias, gelatarias & frutarias, recuperando as satisfações das cortes eclesiásticas & aristocráticas perante uma burguesia desclassificada. Quanto aos hostilizados pela fortuna, deverá incumbir-se a Igreja de manter a fome & o apetite em níveis toleráveis pelas Obras de Misericórdia. Para o elevado patrocínio desta cruzada libertadora dos lugares santos do amesendamento, conta a Igreja com uma plêiade de invocáveis, a principiar por Nossa Senhora do FASTio- Food, venerada, nas serranias do Gerês, mas rapidamente alistável contra os lixos alimentares.

Um Novo Homem para o Novo Milénio — eis a divisa que, no ramo dietético, se propõe à Igreja, convidando-a a que abandone as rotinas & trate de curar com afinco das suas ovelhas. Nada desobrigará a Igreja de intervir. Daqui se lança um SOS, a fim de que a Voz de Homem seja acolhida & retransmitida pela Voz de Deus, devolvendo-nos a pureza dos pomos do Éden & das aras de sacrifício. A Humanidade carece de amparo & conselho, acossada que está pelo Império das Rações, das vacas loucas, dos frangos com dioxinas, dos hamburguers sincréticos & das mistelas sintéticas. Se porventura ainda subsiste um espaço profético & fraterno na Igreja Contemporânea, ele encontra justificação paroquial & ecuménica no cozido à portuguesa, na pinga de genuína cepa, no pudim abade de Priscos, nos beijinhos de freira, nas maminhas de noviça.

A Igreja sempre foi exímia em proibir o que pratica. Esta duplicidade, se a desautorizou aos olhos dos lúcidos, conferiu-lhe uma flexibilidade que explica a sua sobrevivência. A Igreja não resistiu dois mil anos pelo consistente exemplo, mas por haver articulado uma rede mundial de poder, celebrando pactos com Deus & o Diabo, conforme os condicionalismos da efemeridade & os desígnios da perenidade. Entre os dignatários mais egrégios, no que toca ao deboche sexual & estomacal, elevaremos aos píncaros Outão, soberano pontífice aos 18 anos, que se banqueteava entronizado, ante a vassalagem da corte papal, postada num estrado rebaixado, adornando com as suas vestes & dignidades o repasto, ( Ab ovo usque ad mala/Do princípio ao fim/Desde o ovo à maçã, Horácio, Sátiras, I, 3, 6). Conforme a Roma dos escravos & dos circos, do sangue & do sal. Enfim, conforme a lógica da Pax Romana, das sucessivas lógicas de anulação de identidades & liberdades. Por onde passam, os romanos deixam o deserto. A isso chamam paz. (Tácito, séc.I). [15]

Quanto aos séquitos de miseráveis, na altura sem rendimento mínimo garantido, beneficiavam de um conduto equiparado, as sopas do sidónio, que precederam as cristianíssimas sopas dos pobres, mau grado a Antiga Roma exteriorizasse maior prodigalidade, compondo-se as suas sopas de quatro sardinhas, um casqueiro & uma ânfora de vinho. Outro dos dignatários de bento ventre (alto & baixo) foi Alexandre VI (Sumo Pontífice entre 1492-1503, que contou com chusmas de amantes & cujo pontificado foi singularíssimo em toda a trama, tendo o envenenamento alcançado o esplendor. Todavia, as honras maiores, em matéria de palato, cabem a Leão X (Sumo Pontífice entre 1513-1521, cujo apetite & de seus cortesãos não prescindia de 65 pratos por refeição, cada um floreado de três variedades.

Não surpreende que, por aquela época, abundassem as vocações. Como não surpreendem as nobrezas da Gália & da Mãe Rússia, cada qual com os seus requintes, mais informais, mais formais, uma inventando a table à la française, com os jogos de pratos sobre a mesa, outra dando lugar à table à la russe , com o conjunto de pratos servidos pelas criadagens. Os pormenores da corte de Luís XV (1710-1774) iam ao ponto da condessa de Barry, chefe da alcova real, lhe enriquecer a mesa com pombos bravos, conceituados por desferirem 83 ejaculações nas respectivas fêmeas, sendo de concluir que a corte do Bem-Amado Luís XV ignorava as 350 cópulas do leão, o que privou o monarca de comer os testículos do rei dos animais. Ficou-se pelos peitos de pombo, as vulvas de porca, os testículos de carneiros & touros, sem descurar as ovas de peixe, o açafrão, as trufas, as alcachofras, o alho-porro & os pistácios. Conhecimentos de longa data codificados pela Igreja, levando mesmo São Jerónimo a proibir favas e grão-de-bico, a fim de não estimular os órgãos dos monges. Todavia, a pimenta dos monges, a baga do agnocasto, era prescrita para suster a lascívia conventual. [16]

Entre nós, reluziram as baixelas de prata & ouro & as porcelanas das Índias, de encomenda eclesiástica & nobre, acumulando-se as crónicas & os rumores de fartar vilanagem, de doenças alimentares & vergonhosas da nobreza & do clero, como a gota & a sífilis. Os poderosos são também atingidos por algumas calamidades dos fracos, embora, por regra, sejam amparados pelos fracos & pelos deuses, mesmo nos raros momentos de adversidade. A multimilenar constatação ocorreu, mais uma vez, na partida para o exílio da última família real portuguesa, em 1910. A acossada estirpe zarpou da praia da Ericeira, prevenindo-se, nas bagagens, com dois cestos grandes de lagostas vivas. Nada mais avisado do que mitigar uma diáspora com aristocráticos decápodes, macruros & palinurídeos.

Justiça se faça, entretanto: os nossos maiores reservavam algum desvelo para com os desfavorecidos. Os pobrezinhos, que sempre acompanharam a evolução das pompas & dos tachos, ora eram tocados pela generosidade celeste, com intervenção directa de Nossa Senhora, como ocorreu na confecção do xerém do Barrocal, ora eram bafejados pelas tripas da expedição de Ceuta, ora eram mimados com um acicate laboral, o gorreano, nos Açores & o frangolho, na Madeira. Para reactivar o chamamento do Além num orbe laicista & consumista, teremos, pios & ímpios, de cooperar na confecção das Ementas do Paraíso. A Igreja do Jubileu terá de urbanizar as rústicas barrigas de abade; de reelaborar propostas gastronómicas & hoteleiras para uma Sociedade de Tempos Livres. A concorrência inter-religiosa & os avanços da laicidade desafiam a Igreja Católica para tarefas de reabilitação do Paraíso Perdido. Até porque, entretanto, nada obsta a que, noutras confissões, irrompa um lampejo profético, tomando a dianteira da Reconversão. Rivalidades ancestrais podem reactivar-se. As grandes religiões nasceram no Oriente, no Extremo & no Próximo. Tão propalada & sustentada evidência supõe que tais paragens detêm uma pródiga memória, sempre pronta-a-servir & a expandir-se. Só para que o Ocidente não adormeça na superioridade das suas missas & dos seus mísseis, alertaremos as autoridades católicas & cristãs para o fausto & a fartura de palcos & protagonistas da História. Há mil anos, por exemplo, já os Senhores de Bagdad (Iraque) importavam de Bukhara (Uzbequistão) melancias envoltas em cintas de gelo. Por seu turno, pela mesma época, os Senhores de Bukhara ostentavam performances de globalização dos prazeres & de cautelares providências & previdências. Ismaíl Samani, não apenas viveu mergulhado em favoritas & ágapes, como justificou que lhe erigissem um mausoléu de tijolo, terra, leite de camela & gemas de ovo. Deste modo, quando despertasse do prolongado & estafante sono, alimentar-se-ia do próprio túmulo. E outras paragens do maravilhoso asiático, consulte-se o menu do Atharva-Veda: os inquilinos do Paraíso participam de jorros de felicidade, baseados nas coisas da Mesa (açudes de água, leite, licores, mel & natas). Sejamos francos, os nossos Senhores, religiosos, civis ou militares, jamais patentearam, muito menos há mil anos, este recorte cultural, este póstumo zelo. Limitaram-se a vagas expectativas na encomendação dos ilustres finados, menosprezando as virtudes recuperativas do leite, do mel, das gemas, do vinho. Ora, Paul Claudel [17] , cristão de talentos literários, legou uma lapidar advertência: Há mais de mil anos de história numa garrafa de vinho.

E já que nos socorremos da cultura francesa, tão perfeita & pérfida nas lides da cozinha, será de reter o aforismo Dis-moi ce que tu manges, je te dirai qui tu es. As Igrejas, com relevo para a Católica, encontrarão a receita para contagiar as comunidades de base & arrastar as elites para os bons caminhos, dotando-se de esmerados serviços de restauração & lazer. O caderno Ementas do Paraíso apenas reivindica a virtude dos simples: incentivar os copistas da Igreja, nesta Idade Média da Coca-Cola, que grassa como a peste negra, na esperança de que rivalizem na caligrafia & na ilustração com a devoção & a policromia dos Livros de Horas, com luzidias parras & ungidas aves. Que os copistas retomem a entrega às causas do Génesis. Que não se deixem ritmizar pelo stress de uma economia teocida & consumista. Que, pelo contrário, se deixem repenetrar pela paciência beneditina, pela placidez das celas & pelo palitar dos dentes nos claustros, pelos preciosos & meticulosos estúdios de design da Antiguidade Cristã. De Scriptoria-Net se precisa hoje. Para que a Humanidade não continue indefesa a comer o pão que o Diabo amassou. Para que Portugal readquira um tão sólido como líquido espírito de antecipação, empenhado numa mente sã & num corpo são, desalojando da praça o charlatanismo dos emagrecimentos químicos, mecânicos & cirúrgicos, verdadeiramente comprometido com um sebastianismo de alvo-dente & de tripaforra.

Reconhece a Igreja haver perdido o combate do Espírito, que as dinâmicas do Mundo & da Modernidade se escaparam do seu seio & de sua comunhão, mas dispõe, agora, de um vazio missionário, tudo a inspirando para redimir a Humanidade pela Boca & pelo Sexo, terçando contra a Teologia do Mercado & as Catedrais do Consumo, as religiões da Globamericanização. Nós, terrenos, esperamos uma Palavra de reconforto, de renascimento das Ideologias & do recomeço da História.

Toquem os sinos a rebate.
Por uma reconversão do Papado & da GarraFreira.
Por uma Neo-Escolástica dos Gourmets.
Por albergues & passatempos dignos dos Clássicos.
Por uma reinvenção das criações do Horto.

Documento de Reflexão, transformado em Proposta, com o fito de devolver à Igreja, principalmente à de Roma, o Espírito de Missão, de re-Civilização Cristã, de Compromisso Histórico com Crentes & Gentios. A graciosidade do prefácio, bem como da obra prefaciada, compreende-se no sentido de brindar o Povo de Deus & o Mundo Laico com um Novo Catecismo Alimentar, saborosamente coevo & prenhe de tradições. O estilo & o conteúdo reflectem uma Igreja Aberta, um catolicismo open space, que não evita confrontar-se com as derivas pagãs, cooperando na definição de um Princípio de Coexistência & de Convivência entre Civilizações, Credos & Espírito Empresarial. Esse lastro ecuménico assenta nas duas Grandes Estruturas da Criação: o Aparelho Digestivo & o Aparelho Reprodutivo. Assim se compreendem as expressões de irreverência, na linha dos trovões de Jeová & da vergasta de Jesus contra os vendilhões do templo, sem jamais descurar o cariz prazenteiro & libertador. Subscrevem a Cruzada do Bem-Comer & do Bem-Beber, do Bem-Folgar & do Bem-Pensar, letrados & santos de todas as épocas (a. & d. Cristo). Em sua representação, segue-se um abaixo-assinado por Ordem Alfabética & com Todas as Licenças.
IN NOMINE DEI
IN NOMINE ECCLESIA

Nihil Obstat
Imprimatur Est

Adão Primeiro Homem
Baco Deus
Cerejeira Cardeal
Dionísio Aeropagita Mártir
Eva Primeira Mulher
Francisco de Sales Bispo
Grão Vasco Pintor
Huberto Bispo
Inácio Padre
João Paulo II Sumo Pontífice
Karl Marx Filósofo
Lutero Teólogo
Mariana Alcoforado Freira
Nikodim II Metropolita
Oséias Profeta
Potâmio Bispo
Queirós Escritor
Ratzinger Cardeal
Saladino Sultão
Teresa de Ávila Mística
Urbano VI Sumo Pontífice
Vladimir Príncipe Ortodoxo
Wolgang Arcebispo
Ximenes Bispo
Yoshimura Cineasta
Zózimo Eremita

___________
NOTAS
1- Um dos indicadores de risco do Alimento Único, reforçando os do Pensamento Único, traduz-se na escolha da MacDonald's como patrocinadora oficial do Euro 2004. A máquina estabular norte-americana assim se posiciona & se mimetiza nos & com os grandes acontecimentos, fazendo parte do Desporto & da Festa, entre a bandeira verderubra do país organizador & a bandeira azul-estrelada da Europa.
2- Gregório (540-604). Magno ou Grande, doutor da Igreja Latina, papa & santo. Entronizado, contra o seu feitio, na cátedra de Pedro, operou uma vasta reorganização dos interesses, das regras internas & da estilística litúrgica. Cuidou dos bens eclesiásticos com sentido doutrinal, inventarial & empresarial, através do Patrimonium Petri & do lançamento da primeira pedra da Republica Christiana, da Igreja-Estado, do actual Vaticano; clausulou & seriou a Regra Pastoral, modelando a orgânica & a funcionalidade dos corpos eclesiais; sistematizou os cantos cerimoniais, canto romano ou romana cantilena, imprimindo-lhe uma nota de gravidade & pompa, que obscureceu & branqueou a origem judaica. Tal reforma traduzir-se-ia no canto gregoriano, com seculares antecedências, mas que, graças à Schola Cantorum, se confundiria com obra de Gregório, erudito & administrador por excelência, a quem o imperador Trajano deve o arrebatamento da alma do Purgatório & a quem a Inglaterra reconhece um esforço pioneiro de evangelização.
Luis de Góngora (1561-1627). Espanhol, poeta, espírito mundano & sacerdote (da capelania de Filipe III). De estilo gracioso & virtuosístico, alistável nas variantes do barroco literário, apertado pelas dificuldades financeiras & pela iminência de prestar contas ao Criador, terá renegado a veia satírica. A História da Literatura apossou-se do apelido para calendarizar & caracterizar correntes & autores.
3- Madre Paula. Convento de Odivelas. Uma das amantes de Dom João V (1689-1750). Deu ao monarca um filho, Dom José, um dos três rebentos naturais do Magnânimo (José, Gaspar & António), que foram rebaptizados como meninos de Palhavã, já que foram criados no palácio dos marqueses do Louriçal, em Palhavã, arredores de Lisboa. Dom José, filho da madre Paula, chegou a Inquisidor-Mor; Dom Gaspar, filho da freirinha Madalena Máxima, chegou a Arcebispo de Braga; Dom António, filho de freira incógnita, chegou a Cavaleiro da Ordem de Cristo. Na altura, os conventos femininos funcionavam como serralhos de monarcas, nobres, padres & poetas.
Estes últimos requisitados nos outeiros, nos festejos eleitorais das abadessas. Então, os vates desferiam rajadas poéticas, enxameando os mosteiros de paixões. Tais saraus atingiram as alturas do Monte Parnaso, daí os outeiros, nos séc XVII/XVIII. Acorriam aos abadessados versejadores de veia na ponta da língua & poetas de várias musas & elevados talentos, como Almeida Garrett, frequentador do Mosteiro de Odivelas; Camilo Castelo Branco & Guerra Junqueiro, ilustres convidados do Convento da Ave Maria; Abade de Jazente, costumeiro hóspede do Convento de Santa Clara, em Amarante. As rimas dos galãs eram pagas com vinhos & licores, doces & olhares concupiscentes.
Amiúde as irmãs se deixavam enlear, perdendo a compostura, entregando-se a desvarios pelas muitas penumbras conventuais.
4- Triclinium /Triclínio. Sala de jantar romana, com três mesas-leitos. A perfeita síntese da gastro-sexualidade cristã.
5- Ainda no ano 1000 da Era Cristã, corriam velozes as maldições, dizimadoras de populações & colheitas. O quadro alimentar vulnerabilizava o respeito pela vida dos criados à imagem & semelhança do Criador, não se vacilando, em lautas ou feras situações, perante presas da nossa espécie. Os prisioneiros indefesos & os viajantes incautos eram troféus que não inspiravam grande escrúpulo. Crianças & virgens eram carne de culto & de consumo.
As crianças, na natural imprevidência, constituíam o pitéu mais disputado. Desde remotas eras que o canibalismo entrou na Dieta Humana. No ano 2000, desencadeia-se a caça à pedofilia; no ano 1000, punha-se um ovo a cavalo nos infantes. Nesta dramatização/rebarbarização dos géneros alimentícios europeus, de realçar os desmandos de alistados nas Cruzadas, com relatos da conquista da Antioquia, em 1098, assinalando-se os que espetavam & grelhavam, nas lanças, bambinos árabes & turcos. Paradoxal churrasco numa cidade onde, segundo os Actos dos Apóstolos (11, 25), no dealbar da Era Cristã, pela primeira vez os discípulos do Divino Mestre foram designados de cristãos. Casos de canibalismo sistemático & esporádico, trágico & mórbido, ocorreram nos 2000 anos de apostolado ocidental, como noutras geografias confessionais, políticas & étnicas. Contra tais procedimentos culinários se insurgiu o padre Manuel da Nóbrega (1517-1570), fundador da Província da Companhia de Jesus do Brasil & da Cidade de São Paulo, no seu Tratado contra a Antropofagia & contra os Cristãos Seculares & Eclesiásticos que a Fomentam & Consentem. Antropofagia que, em pleno século XX, se reavivaria numa dependência da Civilização Cristã, em Macau, na Segunda Grande Guerra, conforme se comprovará no livro Macau-Dor da Guerra & em entrevistas do padre Manuel Teixeira (1912-2003): Havia fome...Havia um hotel que comprava crianças, engordavaas, cozinhava-as & oferecia-as aos hóspedes. Mas não só há testemunhos & relatos de petiscos da nossa Espécie em quadra de guerra & fome. Segundo uma publicação apocalíptica, depositada nas igrejas, Jornal Mensageiro, Católico, Apostólico, Romano, A Palavra Viva de Deus, em plena actualidade, em pleno Jubileu, em Taiwan, bebés mortos ou fetos podem ser comprados de 50 a 70 dólares, nos hospitais, para atender a alta demanda para grelhados ou churrascos.
Cérebros de bebés são vendidos como produto de beleza.
Apesar dos desmentidos oficiais, diversas publicações de Roma persistem na campanha dos bebés de Taiwan. Verdade, verdade, é que, em tempos recuados, na Europa, como em várias partes do Mundo, o canibalismo integrou as ementas de tribos e nações mais ou menos evoluídas, não somente por imperativos de sobrevivência & volúpia, também por rituais de neutralização do adverso & retransmissão da energia dos sacrificados. A instituição da eucaristia cristã inscreve-se, neste confronto de apetências, numa pedagogia sublimatória, o que representa, sem dúvida, um avanço civilizacional, para lá das tropelias ocasionais, de recaídas & reinvestidas do homem-lobo do homem.*
* Homo homini lupus / O homem é o lobo do homem. (Plauto, Asinária, 2, 4, 88)
6- Os apóstolos André & Pedro foram vocacionados & agraciados, por Cristo, como pescadores de almas. André, por seu lado, prendou Jesus com dois peixes & cinco pães, que o Divino Mestre multiplicaria, saciando 5000 convivas. (Jonas, 6, 8-9)
7- Na parte final de Ementas do Paraíso, elenca-se uma selecção de estabelecimentos & produtos do ramo, que apenas apontam uma tentacular rede de serviços & iguarias, acobertados sob o santo nome de Deus.
8- Fellacio, sucção do pénis. Acto lúdico-erógeno de remotas tradições profanas & religiosas.
9- Báculo. Bordão, cajado, signo de autoridade & aura demiúrgica desde os tempos tribais. Na estrutura da Igreja, afirmação jurisdicional de abades dos conventos & bispos; no plano pastoral & profético, símbolo de poder comunitário & diocesano, do pastoreio das almas & da segurança dos corpos.
10- Banco Alimentar. Existe em diversos países. Portugal perfila-se no ranking caritativo.
11- Broa de Avintes, Vila Nova de Gaia. Boroa Trambela, Vildemoinhos, São Salvador, Viseu.
12- Os cultos fálicos, mamários & uterinos remontam a todas as religiões, aculturando-se & perpetuando-se. Nos devocionários da Igreja Católica, são rastreáveis numerosas expressões, umas de religiosidade popular, outras assumidas ou dissimuladas pelo credo oficial. Uma devassa dos arquivos eróticos da Ecclesia Portuguesa deliciaria os propensos a êxtases & assombramentos: em Rubiães, nos revérberos da igreja, acharemos um intruso & descarado filho de Deus a beber de uma pipa & a exibir os instrumentos da procriação; na igreja de São Gonçalo de Amarante, costumavam as velhas camuflar, nos xailes e casacos, abonados pénis & suas acopladas esferas, lepidamente os desocultando no instante da benção, no decorrer da missa, persistindo a tradição do biscoito açucarado, os famosos & ostensivos doces do beato Gonçalo; o abade de Jazente (1720-1789), também amarantino, marcou indelevelmente o século XVIII do burgo portuense, com uma estada de saraus, jantaradas & papa-fêmeas, equitando por alcovas do clero, da nobreza & do povo. Ganhou fama de inveterado comilão & cortejador, mas o confesso autor de tantos pecados mortais & poeta brejeiro, primava por uma concepção multiforme de coito, implicando, segundo confidenciou, não somente as reentrâncias & as excrecências mais apelativas, mas olhos, boca, pés, mãos & cotovelos. O ardente abade esticou o pernil, com 69 anos, confortado com todos os sacramentos de Sua Santa Madre Igreja, passados os confortos da Mãe-Natureza.
13- Hagiológio. Tratado dos santos.
14- Esta proposta de medida superaria as mais avançadas terapêuticas & representaria um ousado salto na humanização dos serviços públicos & na política de proximidade entre funcionários & beneficiários, resultando ainda numa vitória aos alimentos edénicos. De facto, o cardeal-rei esboçou um SNS de rosto humano, mas que foi deixado sem continuidade & sem generalização, com as consequêncas & sequelas que os gráficos sanitários confirmam. Progresso isolado & de alcance técnico apenas se verificaria, no séc. XVIII, com a bilha de vidro, fabricada em Barcelona & que em algures & a alguém serviu de biberão & como ventosa para extrair leite dos seios. Encontra-se um destes artefactos no Museu do Caramulo.
15- A Igreja depositou em Roberto o encargo das salinas & de velar pelos salineiros, cabendo-lhe tutelar Salzburgo, cidade do sal, pelo que o dotou com as competentes insígnias: ora um saleiro, ora uma barrica de sal.
16- Naturalmente que o assédio dos sexos & o regular funcionamento da líbido forçaram a Igreja a usar calmantes nas refeições & a publicar 88 Decretais, já lá vão 1000 anos. Um sucinto apanhado dos Decretais de Brocardus: masturbação masculina & fornicação com solteira-dez dias a pão & água; masturbação feminina-um ano de jejum; masturbação mútua-trinta dias de jejum; sodomia/cópula homossexual masculina-vários anos de jejum, de acordo com o arreigamento do vício; sodomia/homossexualidade feminina-penitência de vários anos, penitência de graduação superior a idêntico delito masculino. As mulheres sempre encontraram na Igreja a Mater de que precisam para resistir ao demo & sucumbir à demografia.
17- Paul Claudel (1868-1955). Poeta, escritor, ensaísta, diplomata, convertido ao catolicismo por virtude de iluminação divina, no Natal de 1886, na catedral de Nôtre-Dame. Títulos de textos PC: Emmaus, L'Épée et le Miroir, Feuilles de Saints, Jeanne d'Arc au Bucher, La Jeune Fille Violaine, Le Pain Dur, Le Repos du Septième Jour.


[*] Jornalista e escritor. O texto acima faz parte da introdução a Ementas do paraíso. Campo das Letras, Porto, ISBN: 9726108934, 472 pgs.
O livro será lançado dia 14 de Outubro, 6ª feira, pelas 21h30, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, na cidade do Porto. A apresentação do livro será feita pelo Padre Mário de Oliveira.


Este introdução encontra-se em http://resistir.info/ .

13/Out/05