Três semanas após a declaração do governador do
Banco de Portugal (BdP), são muitos os silêncios e omissões
sobre este caso e os contornos que o envolvem, impondo-se apurar a
situação até ao fim e tomar as medidas correspondentes. Ao
mesmo tempo o PCP alerta para as manobras que, reduzindo apenas as
responsabilidades a alguns protagonistas, visam ocultar as causas que resultam
do próprio funcionamento do sistema capitalista e da correspondente
configuração do sistema financeiro, e dos seus objectivos, e as
responsabilidades políticas de sucessivos governos e reguladores,
executores de regras impostas pelo próprio sistema financeiro depois de
capturar o poder político. A promiscuidade entre o poder político
e o poder económico, a que este governo tem dado continuidade,
está patente, designadamente, na circulação de quadros
entre as empresas do sector financeiro e o governo, e deste para as
administrações dos bancos e das seguradoras.
São muitas as questões que exigem do governo e do regulador,
respostas claras e, sobretudo, que exigem a assumpção de
responsabilidades, que o PCP exige ver apuradas no quadro da Comissão de
Inquérito Parlamentar que apresentará no início da nova
sessão legislativa.
É inadmissível que o Primeiro Ministro, Ministra das
Finanças e o Governador do Banco de Portugal não assumam as suas
responsabilidades políticas. A política de mentira adoptada pelo
Governo
seja pela mistificação das funções de
regulação, que sabem concebidas para não
"regular", seja pela sucessão de afirmações
sobre a solidez das instituições financeiras, seja o não
envolvimento de recursos públicos
[NR]
põem em evidência que é o próprio sistema
financeiro, depois de capturar o poder político, que define as suas
próprias regras de funcionamento.
Não só não há responsabilidades criminais,
políticas e éticas atribuídas no processo GES/BES, como
alguns dos que têm fortes responsabilidades na condução dos
destinos do GES, particularmente no banco, continuam a intervir, agora no Novo
Banco, quer na administração, quer como consultores. Chega-se
mesmo ao
escândalo do regulador permitir que José Maria Ricciardi se
mantenha como presidente do BESI.
O PCP exige, igualmente, respostas claras por parte do governo e do BdP, quanto
ao verdadeiro projecto que têm para o futuro do banco, e não a
continuada dissimulação da Ministra das Finanças
que, a pretexto da tese de que é uma empresa privada, quer iludir que
estamos perante um banco capitalizado com uma parte significativa de dinheiros
públicos, gerido a partir do Ministério das Finanças e do
Banco de Portugal, e com implicações diversas na economia
nacional.
Venda às fatias, por inteiro, o mais depressa possível,
são algumas das ideias que vão sendo veiculadas para a
opinião pública e que são contraditórias com
qualquer intenção de colocar o banco a funcionar, ou de defender
os interesses nacionais.
A posição do governo e do BdP só pode ser compreendida
pela
deliberada intenção de dar sinais aos grandes especuladores que
acorrem aos países em crise para comprar empresas por valores muito
baixos, redimensioná-las (extinguir postos de trabalho e fechar sectores
que não contribuam para lucros significativos) e, depois, especular com
a venda dessas empresas
, obtendo chorudos lucros, como ainda recentemente ouvimos da boca de um dos
responsáveis do Fundo de Investimento Apollo.
A forma com estão a avançar a venda das empresas do GES,
sobretudo as mais apetecíveis (BES/Saúde e Tranquilidade),
confirmam que estamos perante a possibilidade real do mesmo vir a acontecer ao
Novo Banco. Ou seja,
o governo decide intervir com dinheiros públicos para salvar o banco e
depois, com a empresa livre de dívidas coloca-a nas mãos dos
especuladores.
Por mais desmentidos que façam, o que o actual processo revela é
a reprodução do que aconteceu no BPN, com a venda à pressa
e ao desbarato do património e activos. A situação criada
e as evoluções que conduziram à
canalização de 4,4 mil milhões de euros para o Novo Banco
exige, para já, até ao apuramento real e definitivo, que o
Estado use todos os meios ao seu dispor para que sejam impedidas quaisquer
alienações ou vendas de activos integrados no Novo Banco, mas
também nas empresas do GES.
No desenvolvimento deste processo, assume particular actualidade o conjunto de
questões para que o PCP chamou a atenção quando do acordo
entre o Conselho e a maioria de deputados do Parlamento Europeu sobre o
Mecanismo de Resolução (MUR). Nessa altura denunciámos as
consequências que adviriam para o País do passo que se estava a
dar na concretização da gigantesca operação de
concentração e centralização do sector
bancário na União Europeia, a que chamam de "união
bancária" e que com o avanço deste processo, os Estados
perderiam os poucos ou quase nenhuns poderes de controlo, de
regulação e de intervenção sobre a banca que ainda
detinham, vendo assim ainda mais limitada a possibilidade deste sector
estratégico ser colocado ao serviço do desenvolvimento
económico.
"União Bancária" que, ao contrário do que
procuram fazer crer, não se destina a reforçar os mecanismos
ditos independentes de controlo, supervisão e fiscalização
do sector financeiro, mas a aprofundar o papel central que o Banco Central
Europeu tem, no processo de concentração e
centralização de capital e de subordinação das
decisões da UE aos interesses dos megabancos, do sistema financeiro e
dos seus interesses predadores, num desesperado esforço para implementar
mecanismos que permitam aos seus accionistas voltar a elevadas taxas de lucro.
A realidade tem demonstrado como a actuação do BdP
testemunha que as entidades reguladoras actuam, em geral, segundo uma
lógica de liberalização dos sectores em que
intervêm, escudando-se numa autonomia que deriva da ausência de
controlo democrático do seu desempenho, para impor decisões, em
geral, favoráveis ao grande capital.
Países como Portugal, que abdicaram da sua moeda e alienaram soberania
monetária, ficam mais limitados na regulação do sector
financeiro.
Se dúvidas existissem, aí está o exemplo dos
acontecimentos em torno do BES/GES, e da decisão do BCE de decidir
unilateralmente o corte de financiamento a um banco nacional e, desta forma,
poder decidir a sua extinção.
A financeirização da economia desenvolveu-se em intensa
articulação com a reconstituição dos grupos
monopolistas e, em particular, com o papel que, após a
privatização do sector bancário e segurador
público, o sector financeiro privado voltou a ter na
condução da economia nacional.
As medidas que foram tomadas pelo Governo PS com o apoio de PSD e CDS
relativamente ao BCP, BPN e BPP, prosseguidas pelo actual governo, que levaram
à implosão dos dois últimos, rapidamente se transformaram
num mecanismo de transferência dos elevados prejuízos do sector
financeiro o seu «lixo tóxico» para o Estado,
pelo que ganha redobrada actualidade a exigência do controlo
público do sistema financeiro, decisivo para o desenvolvimento do
País.
25/Agosto/2014
[NR] Os sublinhados a vermelho são da responsabilidade de resistir.info.