A crise económica não afectou as 500 maiores empresas não
financeiras: Lucros líquidos subiram 42% só em 2004
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RESUMO DESTE ESTUDO
Em 2004 os lucros líquidos das 500 maiores empresas em Portugal somaram
3.111 milhões de euros (623,7 milhões de contos), tendo aumentado
42,1% relativamente a 2003. Se se considerar o período 2001-2004, o
aumento dos lucros destas empresas atingiu 86,7%. Estes dados mostram que a
crise económica não está a afectar as maiores empresas,
revelando-se até como anos dourados contrariamente ao que sucede
com as pequenas e médias empresas.
Este aumento de lucros tem-se verificado simultaneamente com um aumento menor
de vendas e de crescimento do VAB (riqueza criada). Por ex. em 2004, os lucros
cresceram 42,1%, as vendas 7,1% e o VAB 21,3%. Aquele crescimento dos lucros
parece ter sido conseguido fundamentalmente pela redução da
percentagem do VAB destinada ao pagamento de impostos ao Estado e ao pagamento
de remunerações aos trabalhadores.
Em 2004, cerca de 15% de toda a riqueza criada no nosso País já
era controlada pelas 500 maiores empresas e verificou-se uma tendência
continua de aumento ao longo dos últimos 4 anos. Efectivamente, entre
2001 e 2004, o VAB destas 500 empresas aumentou de 16.080 milhões de
euros para 18.554 milhões de euros. E em 2004 elas absorviam apenas 6,1%
da população empregada.
Em 2004 a Autoeuropa uma das maiores empresas a funcionar em Portugal
continuou a não divulgar dados de natureza económica e
financeira. Em 1999, os lucros da Autoeuropa haviam atingido 12,3
milhões de contos e, em 2000, cerca de 16,2 milhões de contos
portanto aumentaram 32,5%. apenas num ano. A partir de 2000 a
Autoeuropa deixou de divulgar dados de natureza económica e financeira.
Pouco depois ela impôs um congelamento de salários aos seus
trabalhadores por 3 anos, que se prolonga até Setembro de 2005,
determinando uma redução do poder de compra salarial da ordem dos
8%.
Mesmo em relação às estruturas representativas dos
trabalhadores da Autoeuropa, a empresa tem dito que são dados
confidenciais, violando a lei portuguesa (artº 503 do Código do
Trabalho e artº 358 da Lei 35/2004). É evidente que, ao ocultar
aquilo que outras empresas a funcionar em Portugal, (inclusive estrangeiras)
divulgam todos os anos, a Autoeuropa levanta suspeitas na opinião
pública e viola a lei.
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No
estudo anterior
analisamos a actividade da banca em Portugal, tendo-se
mostrado que a taxa efectiva dos impostos sobre lucros pagos por este sector ao
Estado (12,1%) representou, em 2004, menos de metade da taxa do IRC em vigor
nesse ano (25%); que a parte da riqueza apropriada pelos bancos que é
utilizada no pagamento das remunerações aos trabalhadores tem
diminuído de uma forma continuada, registando um quebra de mais de 11%
entre 1998 e 2004; e que os lucros líquidos representam mais de 29% do
chamado Produto Bancário (VAB do sector bancário), o que prova
que a banca coexiste bem com a crise económica.
Neste estudo vai-se mostrar que, contrariamente ao que muitas vezes se afirma
ou pretende fazer crer, a crise económica que enfrenta o País
não está a atingir apenas o sector. E isto porque os lucros das
500 maiores empresas não financeiras a funcionar em Portugal têm
registado um crescimento vertiginoso nos últimos anos
LUCROS LIQUIDOS DAS 500 MAIORES EMPRESAS NÃO FINANCEIRAS AUMENTARAM 86%
ENTRE 2001 E 2004
Os dados constantes do quadro seguinte, publicados pela revista
Exame
no seu número especial dedicado às 500 maiores e melhores
empresas, mostram que o aumento percentual dos seus lucros líquidos
entre 2001 e 2004, portanto no período de grande crise económica
nacional, foi 3,4 vezes superior ao aumento verificado nas vendas e 5,6 vezes
superior ao crescimento percentual verificado no VAB (riqueza criada por estas
empresas).
Entre 2001 e 2004, as vendas das 500 maiores empresas cresceram 25,2%; o VAB,
ou seja, a riqueza por elas criada, aumentou 15,4%, mas os lucros
líquidos subiram 86,7%. O ano de 2004, foi um ano de ouro para estas
empresas pois, enquanto o País continuava a debater-se numa grave crise
económica e social, os seus lucros líquidos aumentaram 42,1% num
único ano.
Como se sabe, o VAB, ou seja, a riqueza criada é aplicada em
amortizações, no pagamento das remunerações aos
trabalhadores, dos impostos ao Estado e dos lucros e juros pelos diversos
detentores do Capital. Como entre 2001 e 2004, os lucros líquidos
destas 500 maiores cresceram 5,6 vezes mais do que o VAB (entre 2001 e 2004,
os lucros aumentaram 86,7% e o VAB apenas 15,4%), é legitimo concluir
que se isso sucedeu é porque a parte destinada aos trabalhadores
(remunerações pagas por estas empresas) e ao Estado (impostos
pagos por elas) diminuiu. A confirmar isso está o facto de que, em
2001, os lucros líquidos representavam 10,4% do VAB enquanto, em 2004,
já correspondiam a 16,8% do VAB, ou seja, cresceram 61,8%.
MAIS DE 15% DE TODA A RIQUEZA NACIONAL JÁ É CONTROLADA PELAS 500
MAIORES EMPRESAS NÃO FINANCEIRAS
Em 2004, as 500 maiores empresas não financeiras empregavam 326.909
trabalhadores, o que correspondia a 6,1% da população empregada.
No entanto, em percentagem do VAB nacional, ou seja, de riqueza criada no
País corresponde a cerca de 2,5 vezes mais como mostram os dados do
quadro seguinte.
Em 2004, o VAB destas 500 maiores empresas correspondia a 15,2% do VAB
nacional. Por outro lado, os dados do período 2001-2004 constantes do
quadro anterior mostram que a percentagem da riqueza nacional controlada pelas
500 maiores empresas tem aumentado, registando mesmo uma tendência de
crescimento contínuo pois, entre 2001 e 2004, o VAB das mesmas passou de
14,5% do VAB nacional para 15,2%..
Por outro lado, se calcularmos para o ano de 2004 o valor do VAB por empregado
destas 500 maiores empresas, normalmente conhecido por produtividade do
trabalho, e se fizermos o mesmo para todo o País, obtemos os seguintes
valores: (1) Para as 500 maiores empresas, 56.755 euros por empregado; (2) Para
todo o País, 23.896 euros por trabalhador. Isto significa que a
produtividade média por empregado nas 500 maiores empresas a funcionar
em Portugal é 2,37 vezes superior à média nacional.
Esta diferença tão grande de produtividade entre as empresas a
funcionar em Portugal prova que a causa da baixa produtividade da Economia
Portuguesa não está nem na chamada "rigidez" das leis
laborais portuguesas, nem no custo do trabalho, mas sim na gestão e na
organização da produção, bem como na qualidade do
investimento realizado. E isto porque empresas com as mesmas leis laborais e
com "custos do trabalho" idênticos apresentam valores de
produtividade muito diferentes.
PORQUE RAZÃO A AUTOEUROPA DEIXOU DE DIVULGAR DADOS ECONÓMICOS E
FINANCEIROS SOBRE A SUA ACTIVIDADE EM PORTUGAL?
A Autoeuropa é uma das maiores empresas a funcionar em Portugal.
Contrariamente ao que sucede com centenas de grandes empresas portuguesas e
estrangeiras a funcionar no nosso País, em 2004, tal como nos três
anos anteriores, a Autoeuropa não divulgou dados económicos e
financeiros da sua actividade em Portugal.
Até ao ano 2000, a Autoeuropa divulgava dados económicos e
financeiros como acontece com todas as empresas a funcionar em Portugal e como
resulta da própria lei portuguesa. A partir daquela data deixou de o
fazer, considerando tais dados como confidenciais mesmo para os delegados
sindicais e para os membros da Comissão de Trabalhadores. E isto apesar
da lei portuguesa estabelecer que os representantes dos trabalhadores têm
direito a tal informação.
Efectivamente o artº 503 do Código do Trabalho dispõe
textualmente que os delegados sindicais gozam do direito de ter
"informação sobre a evolução recente e a
evolução provável da empresa ou do estabelecimento e a sua
situação económica".
E o artº 356 da Lei 35/2004 estabelece que o direito de
informação da Comissão de Trabalhadores abrange, entre
muitas, as seguintes matérias: (a) Planos gerais da empresa e
orçamento; (b) Balanço, conta de resultados e balancetes
trimestrais; (c) Impostos e pagamentos à segurança social; (c)
Previsão, volume e administração de vendas, etc. E
segundo o nº 1 e 2 do artº 358 da Lei 35/2004 esta
informação é solicitada à empresa por escrito, e a
empresa é obrigada a prestá-la também por escrito num
prazo de 8 dias que excepcionalmente poderá ser alargado para 15 dias.
No entanto, a administração da Autoeuropa deve considerar que
está acima da lei e, infelizmente, parece que tem contado com a
"compreensão/aceitação" da Comissão de
Trabalhadores, pelo menos neste campo.
A Autoeuropa é uma das poucas grandes empresas que conseguiu impor aos
seus trabalhadores um congelamento de salários durante 3 anos seguidos
(não conheço nenhuma grande empresa que tenha feito o mesmo) e
que pretendeu apresentar esse "acordo" como exemplo a ser seguido por
outras empresas do nosso país. Nestes 3 anos de congelamento salarial os
trabalhadores da Autoeuropa viram os seus salários perder mais de 7% do
seu poder de compra, o qual dificilmente será recuperado no futuro.
A decisão da Autoeuropa de deixar de divulgar os dados de natureza
económica e financeira que todas as outras empresas disponibilizam ainda
se torna mais suspeita se se tiver presente, por um lado, que isso sucedeu
precisamente pouco tempo antes de a empresa ter imposto o congelamento dos
salários aos seus trabalhadores e, por outro lado, face aos dados
divulgados pela empresa até 2000, que constam do quadro seguinte.
Entre 1999 e 2000, a Autoeuropa registou um crescimento muito grande dos seus
lucros líquidos pois passaram de 12,3 milhões de contos para 16,2
milhões de contos, um aumento de 32,5% num único ano (em 1999, o
aumento fora de 349,9% como mostra o quadro). Se se considerar um
período mais longo de 3 anos, conclui-se que o aumento dos lucros, de
acordo com os dados divulgados pela revista
Exame
não foi menor, já que atingiu 180,3% .
A produtividade do trabalho da Autoeuropa, que é medida pelo VAB (Valor
Acrescentado Bruto, que corresponde à riqueza criada em cada ano na
empresa) a dividir pelo número de trabalhadores, aumentou num ano apenas
em 10%, pois passou de 18.123 contos para 20.066 contos por trabalhador, sendo
cerca de 78% superior à média da produtividade das 500 maiores
empresas em 2000 que era, por sua vez, muito superior à produtividade
média das empresas portuguesas.
E foi precisamente pouco tempo depois que a Autoeuropa conseguiu impor aos seus
trabalhadores o congelamento de salários por um longo período de
3 anos. O menos que se poderia esperar numa situação tão
excepcional como esta de forte perda de poder de compra para os trabalhadores
(cerca de -8%) era que a empresa tornasse a situação transparente
fornecendo-lhes dados verdadeiros sobre a sua situação
económica e financeira até porque isso é imposto
pela lei portuguesa.
No entanto, foi precisamente a partir dessa altura que a Autoeuropa passou a
ocultar a sua informação económica e financeira. A
suspeita levanta-se naturalmente. Seria bom que a empresa divulgasse a
informação e os representantes dos trabalhadores a exigissem.
Isso é um direito consagrado na lei portuguesa que, a nosso ver, os
trabalhadores da Autoeuropa não devem abdicar sob pena de estarem a dar
cobertura à violação da lei pela empresa e de serem
profundamente lesados pela perda do poder de compra dos seus salários.
01/Outubro/2005
[*]
Economista,
edr@mail.telepac.pt
NOTA: Este estudo tem um Anexo com dados referentes a 2004 das Vendas, Lucros,
VAB, Nº de trabalhadores, e produtividade de cada uma das 500 maiores
empresas não financeiras agrupadas por sectores de actividade
económica. Devido à sua extensão (15 páginas), ele
só será enviado a quem o solicitar expressamente.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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