Social-chauvinismo e euro-esquerda, ou tão amigos que eles são
Da revolução (mundial e permanente)
à reestruturação (honrada e responsável)
Setenta figurões decidiram sentar-se a uma mesa para, em verdadeiro
concílio de sábios, se debruçarem sobre os assuntos da
pátria e chegarem a uma conclusão quanto ao caminho que devemos
trilhar se queremos recuperar a independência. Foram longos os debates,
morosas as discussões, com murros na mesa, altercações,
zangas feias, insultos à mãe e ao pai, ofensas à dignidade
pessoal, lares desfeitos no fim, amizades que jamais se recuperarão. Mas
estes setenta Senhores (que até mesmo as senhoras de entre eles
são uns Senhores, assim mesmo, com S maiúsculo e tudo), sem
cederem às soluções fáceis e amando apenas a
verdade, não se acobardaram enquanto ela não se revelou, inteira,
perante os seus olhos. E quando a viram, descreveram-na. Fixaram-na num
manifesto
, e deram-no a conhecer aos ignaros. A luz do conhecimento entrou-nos
pela cabeça dentro, como o sol entra pela vidraça. E
ficámos, como com o sol, iluminados e quentes, perante tamanha
eloquência e tão irrebatível conclusão. Uma
conclusão que irmana gente tão díspar como um ex-ministro
das Colónias, um ex-secretário-geral da CGTP, um ex-coordenador
do BE, uma ex-ministra das Finanças do PSD, ou é a verdade, ou
devemos para todo o sempre descrer que a verdade existe.
E que é a verdade, perguntamos nós, como Pilatos? A verdade
é que a dívida pública portuguesa tem de ser
reestruturada. Assim mesmo. Cumpre ser "caloteiro", como diria Nuno
Melo eis a verdade. Cumpre ceder às "pantominices" de
quem o defende há anos, como lhes chamou Gaspar rendemo-nos
à verdade. Não pode continuar a defender-se que a este ritmo, com
estes juros, com este montante, a dívida pública portuguesa
é pagável e quem o faz, bem o vemos, falta à verdade. Como
perante uma árvore caída no meio da estrada, que nos impede de
prosseguir viagem, Louçã e Adriano Moreira, Ferreira Leite e
Carvalho da Silva, vibram um sério aviso de que "a árvore
tem de sair do caminho, ou não passaremos adiante". Provam mais
lucidez que a de Gaspar e Passos Coelho, que a de Portas ou a de Nuno Melo. O
que é fraco consolo: ser mais lúcido que um doido varrido
não é exactamente um certificado de genialidade. Nem sequer nos
assegura que não estamos loucos: apenas que somos menos loucos um
bocadinho. Talvez loucos o suficiente para
pedir a quem cortou a
árvore, a deitou na estrada, a pregou ao chão, e a defende dos
nossos esforços para a remover com cães e homens armados, que nos
ajude a retirá-la da frente.
Porque é disso que se fala quando se quer uma
"reestruturação honrada e responsável da
dívida" (o que já de si é mau começo de
conversa), feita no "âmbito de funcionamento da União
Económica e Monetária" (o que consegue ser pior ainda). O
que causou o aumento prodigiosa da dívida pública?
Determinações orçamentais e financeiras da União
Europeia. O que tem agravado a dívida pública?
Determinações financeiras e orçamentais da União
Europeia. Por via de que instrumentos está a banca alemã a
saquear as classes populares portuguesas? De determinações
financeiras e orçamentais da União Europeia. Quem produz, dita, e
impõe, essas determinações orçamentais e
financeiras da União Europeia? O pessoal político dos partidos da
política de direita cá dentro (PS, PSD, e CDS) e a eurocracia de
Bruxelas. A quem decidem estes setenta figurões pedir auxílio
para reestruturar a dívida? Já adivinham aos partidos da
política de direita, que a criaram e de onde muitos deles provêm,
e às instituições europeias, que a criaram, para onde
alguns deles irão mais cedo ou mais tarde, mas cuja fiabilidade para
auxiliar num processo desta natureza é absolutamente nula, como a
sensatez mais minúscula demonstra até às mentes mais
deslustradas quanto mais à de ilustríssimos
figurões, e logo setenta!
Como um alcoólico com o fígado dilacerado por anos e anos de
bebida que "conclui", do fundo da sua embriaguez, que a cura para a
sua doença é mais uma cerveja, os setenta figurões,
sentados à volta de uma mesa, chegam à conclusão brilhante
de que a solução para a dívida que contraímos por
força da nossa presença na UE é aprofundarmos mais ainda a
União Europeia. E aprofundá-la apresentando-nos perante ela para
negociar como quem o faz de chapéu na mão, temeroso, com
vergonha, como quem faz uma asneira indevida, como quem comete um crime por
querer negociar. Perante os homens armados, com pastores alemães pela
trela, que guardam a árvore pregada no meio do nosso caminho, os setenta
figurões pedem ajuda de voz embargada e joelhinho bambo. Que outra coisa
podem eles esperar se não que lhes soltem os cães, que disparem
sobre eles, que os feridos e mortos saídos dessa estratégia
sejamos todos nós, sejam também eles próprios?
A admitir-se a reestruturação da dívida, ou ela é
feita nos termos determinados pelos interesses dos trabalhadores e do povo
português, se necessário com a determinação
unilateral dos juros, dos prazos, e dos montantes para o pagamento, em franca e
indiscutível ruptura e hostilidade para com as
instituições europeias que criaram esta dívida, ou essa
reestruturação não serve para nada. Aliás, serve:
para afinar o método através do qual os rendeiros da
dívida portuguesa a extorquem, de modo que a galinha dos ovos de ouro
não morra de fadiga antes de os ter fartado suficientemente. Serve para
tornar o mecanismo da dívida, que é um instrumento de
exploração do homem pelo homem, um instrumento mais preciso e
mais eficaz na consecução da sua tarefa. Para semelhante tarefa,
o concurso da esquerda não se dá. A simples proposta é de
rejeitar de forma liminar. A sua concretização é para
denunciar, sem reserva.
Termino este texto com uma nota de ironia: é sempre com curiosidade que
assisto a antigos defensores do anti-capitalismo, da construção
do socialismo, até mesmo da tomada do poder pelos trabalhadores, da
revolução mundial e permanente, sentados à mesa dos
setenta sábios a definir, ombro a ombro com eles e por amor à
Europa fundamentalmente boa e indiscutivelmente reformável e
refundável, as condições mais adequadas para a
continuação da exploração de quem trabalha.
É com curiosidade, mas sem deixar de achar sintomático, que
assisto a quem chama cobardolas a uns ir, com "cobardolice" igual,
pedir ao patrão, se faz favor, se nos arranja umas batatinhas porque
nós somos boa gente, séria honrada e responsável
(só faltou "limpinha"), que vai pagar o que ele quer, tudo o
que ele quer, pelo tempo que ele quiser, desde que seja devagarinho e, nos
termos de João Cravinho "com o BCE por trás"
(supõe-se a fazer o quê). A revolução é um
belo artifício retórico, o socialismo uma aspiração
magnífica, os trabalhadores uma gente adorável. Mas isso fica
para depois. Para já, e como todos sabemos, discute-se à mesa dos
setenta, de cartola e conhaque na mão, para se anunciar aos
trabalhadores que o patrão deu uma côdea.
12/Março/2014
[*]
Professor de História da Arte.
O original encontra-se em
conscienciavisceral.wordpress.com/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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