PEC2005-2009: Um programa de estagnação económica e de
ataque aos direitos dos trabalhadores portugueses
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RESUMO DESTE ESTUDO
O
Programa de Estabilidade e de Crescimento: 2005-2009
(PEC2005-2009)
apresentado pelo governo, por exigência da
União Europeia, substitui, na prática, o programa Eleitoral do
PS e o Programa de governo, até porque vai ser controlado por aquela
instituição europeia.
De acordo com o "PEC2005-2009", o objectivo de crescimento
económico subordina-se ao objectivo de redução do
défice orçamental, passando a ser a diminuição do
défice o objectivo central da acção do governo, mesmo
sacrificando o desenvolvimento económico e social do País. E a
justificação é que "o País depois do inferno
terá o paraíso", mas isso não é verdade.
Para conseguir reduzir o défice orçamental em 4 pontos
percentuais (de 6,8% para apenas 2,8%, ou seja, 5.600 milhões de euros),
em 3 anos apenas (2005-2008) o governo pretende:
(1) dinamizar a chamada "bolsa de supranumerários" na
Administração Pública para onde pretende atirar todos os
trabalhadores considerados pelas respectivas chefias "excedentários
ou inadequados ao serviço", pondo assim tal labéu a muitos
trabalhadores, criando desta forma as condições para o
despedimento;
(2) alterar o sistema de aposentação dos trabalhadores da
Administração Pública que entraram antes de 1 de Setembro
de 1993, cujos direitos adquiridos todos os governos anteriores respeitaram,
mas que o actual governo pretende não fazê-lo aumentando a idade
de reforma em 5 anos e reduzindo o valor da pensão por cada ano de
serviço realizado depois de 31.12.2006 em 20% (a forma de cálculo
da aposentação a partir de 31.12.2005 consta das págs. 3 e
4 deste estudo);
(3) aumentar a idade de reforma dos trabalhadores por conta de outrem do regime
geral da Segurança Social;
(4) reduzir as comparticipações nos genéricos e em outros
medicamentos entre 5% e 10%, com a justificação de que as
farmácias e os laboratórios vão reduzir os preços
dos medicamentos em 3%;
(5) aumentar o IVA de 19% para 21% e os impostos sobre os combustíveis
todos os anos o que determinará o aumento generalizado dos
preços;
(6) impor aos trabalhadores da Administração Pública o
congelamento das progressões nas suas carreiras profissionais assim como
aumentos de remunerações inferiores às subidas de
preços, o que determinará diminuição do poder de
compra dos vencimentos;
(7) dar aos patrões privados orientações para que
respeitem uma política de "moderação salarial" o
que significa que façam o mesmo que o governo pretende impor aos
trabalhadores da Administração Pública;
(8) reduzir, em termos reais, pelo menos até 2007 o investimento
público o que determinará mais retrocesso económico e mais
desemprego;
(9) continuar a política de privatizações das empresas
públicas destruindo assim um importante instrumento de política
económica e uma fonte importante de receitas para o Orçamento do
Estado.
É evidente, contrariamente àquilo que o governo afirma, que
esta política de submissão às exigências da
União Europeia e a interesses económicos, criará
inevitavelmente grande instabilidade no País com elevados custos sociais
e económicos, e não é uma política de crescimento
económico mas sim de estagnação, que afastará ainda
mais o País da média comunitária e acarretará mais
desemprego.
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O governo apresentou aquilo a que chamou
Programa de Estabilidade e Crescimento: 2005-2009 (PEC2005-2009)
.
A razão utilizada para a sua apresentação foi a necessidade de
cumprir o défice de 3% exigido pela UE. Desta
forma, aos olhos dos portugueses, associou à
União Europeia estagnação
económica, mais desemprego e mais sacrifícios.
É evidente que os programas que havia apresentado anteriormente
Programa eleitoral, Programa de governo foram pura e simplesmente
esquecidos e substituídos por este programa que é dominado pela
obsessão do défice. Este programa, como se vai provar neste
estudo, tem muito pouco de crescimento e é difícil, para
não dizer mesmo impossível, pensar que sem crescimento possa
haver estabilidade. Para além disso, ele contem um ataque cerrado aos
direitos dos trabalhadores da Administração Pública e
também aos dos outros trabalhadores, por isso provocará
inevitavelmente grande instabilidade social em todo o País.
OBJECTIVOS CONTRADITÓRIOS
No Programa começa-se por afirmar que o objectivo "para o
período 2005-2009" é "retomar a convergência com
a média Europeia e alcançar em 2009 um crescimento do PIB de
3%" (pg. 5), mas logo a seguir diz-se que isso terá de ser
alcançado sob "uma fortíssima redução do
défice dos actuais 6,8% para um valor abaixo dos 3% já em 2008 e
um esforço de redução da divida pública, dos
actuais 67% para 64,6% em 2009" (pg. 5), ou seja, o primeiro objectivo
tem-se de submeter ao segundo.
E esta conclusão ainda se torna mais evidente se se tiver presente que,
de acordo com o próprio programa, "o objectivo de médio
prazo desejável deveria corresponder, no caso português, a um
défice subjacente de cerca de 0,5% do PIB", mas "o
défice subjacente projectado para 2009 será ainda de 1,6% do
PIB" (pg. 5). A obsessão pelo défice continua e a
intenção de o reduzir o défice em apenas três anos
para um valor inferior mesmo a 3% (2005: -6,2%; 2006:-4,6%; 2007:-3,9%; e
2008:-2,8%; pg. 3), portanto para valores que nunca foram atingidos em
Portugal, e ainda por cima num período de grave crise económica
do País e de baixo crescimento económico na UE de que Portugal
está profundamente dependente em termos de comercio externo (cerca de
80% das exportações portuguesas) é apostar na
recessão económica e na ruptura e em confrontos sociais. Sobre
isso não poderá haver dúvidas.
MEDIDAS MAIS IMPORTANTES CONFIRMAM POLÍTICA DE OBSESSÃO COM O
DÉFICE
A análise atenta das medidas mais importantes constantes do PEC2005-2009
apresentado pelo governo confirmam que a preocupação fundamental,
para não dizer mesmo exclusiva, é a obsessão do
défice orçamental.
Assim, o governo propõe-se implementar medidas na área da
saúde, da educação, das finanças locais, da
segurança social (funcionários públicos e também
trabalhadores em geral), de aumento de impostos, na área da
Administração Pública, no domínio das
privatizações, e mesmo no campo dos investimentos, cujos
objectivos são sempre, e fundamentalmente, para não dizer mesmo
exclusivamente, a redução do défice orçamental. E
chega-se mesmo ao ponto de afirmar que se as medidas previstas não forem
suficientes para reduzir o défice para os valores previstos, o governo
"compromete-se a adoptar medidas adicionais de forma a manter, mesmo em
condições menos favoráveis, o objectivo de conseguir um
défice público inferior a 3% do PIB em 2008" (pg. 12)., ou
melhor, a 1,6% em 2009 (pg.5).
Em resumo, o governo pretende reduzir o défice dos 6,8% do PIB previstos
inicialmente para 2005 para 2,8% do PIB em 2008, ou seja, reduzi-lo em 4 pontos
percentuais. Como cada ponto percentual corresponde actualmente a 1.400
milhões de euros, quatro pontos percentuais do PIB correspondem a
preços actuais a 5.600 milhões de euros (1.120 milhões de
contos) de redução nas despesas da Administração
Pública, o que é um valor muito grande.
A obsessão pelo défice é clara, e o governo pretende
sacrificar ainda mais a Economia Portuguesa, a qualidade dos serviços
públicos e o já baixo nível de vida dos trabalhadores e
de outras camadas desfavorecidas da população para atingir
aqueles valores de défice.
A nível económico, no campo da criação de emprego,
de aumentos de salários e das pensões, de combate às
graves desigualdades existentes no nosso País, não se encontra
prevista qualquer medida no Programa de Estabilidade e Crescimento para o
período 2005-2009 com significado que possa inverter o perigoso estado
de desaceleração e mesmo de recessão económica e de
redução das condições de vida em que o País
se encontra mergulhado há vários anos.
MEDIDAS CONTRA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
Para atingir os objectivos enunciados anteriormente, muitas das medidas
constantes do PEC2005-2009 são essencialmente medidas visando a
redução pura e simples de despesas e não têm como
objectivo aumentar a qualidade, eficiência e eficácia dos
serviços públicos prestados à população.
Para além disso, a sua natureza e a forma como estão a ser
lançadas vão determinar naturalmente graves
perturbações nos serviços públicos com reflexos
negativos na qualidade dos serviços prestados à
população. Neste campo verifica-se mesmo uma grande
irresponsabilidade que terá como consequência custos
económicos e sociais elevados.
Assim, e com esse objectivo, o governo encomendou a consultores externos,
naturalmente bem pagos, mas com reduzida experiência e conhecimentos do
que são serviços públicos, auditorias cujo objectivo mais
importante é a redução de consumos e de pessoal.
Chega-se ao ponto de fixar no próprio PEC2005-2009, como objectivo,
antes mesmo de terminar as referidas auditorias "uma
redução, ao longo da legislatura, de 10% dos consumos
intermédios do conjunto da Administração Pública
(pg. 35 ).
A PREPARAÇÃO DE DESPEDIMENTOS E DE REDUÇÃO DE
DIREITOS NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
Na área do Pessoal, e com o objectivo de reduzir despesas, o governo
pretende dinamizar a chamada "Bolsa de Supranumerários" para
onde pretende atirar todos "os trabalhadores considerados
excedentários ou inadequados ao serviço" (pg. 35 do
PEC2005-2009), acenando já com as seguintes medidas contra eles:
"Ao fim de 3 meses, os funcionários perderão o chamado
vencimento de exercício, que corresponde a um sexto do seu vencimento.
Enquanto na bolsa, um funcionário não poderá recusar uma
proposta de colocação, em condições a estabelecer,
sob pena de perder o vinculo à função pública. E
como incentivo à saída da Administração
Pública para o sector privado" acena-se " com "o direito
automático a usufruir de licenças sem vencimento "
(págs. 35 e 36). Os objectivos são claros: o governo pretende
descartar-se daqueles trabalhadores que sejam considerados pelas chefias,
muitas delas já nomeadas por ele, como trabalhadores
"excedentários ou inadequados aos serviços". Desta
forma o arbítrio pode-se instalar em toda a Administração
Pública e será colado a muitos trabalhadores o labéu de
"excedentários ou inadequados aos serviços" (o leitor
imagine-se que no seu local de trabalho lhe era colada tal etiqueta, como se
sentiria?) .
Na área das carreiras profissionais dos trabalhadores, o governo
pretende congelar de uma forma generalizada as progressões nas carreiras
até ao fim de 2006 (com esse objectivo até já elaborou um
projecto de lei) e "reformar profundamente o sistema de carreiras e
remunerações até ao final de 2006, reduzindo
substancialmente o número de carreiras, bem como limitando drasticamente
os elementos de progressão automática actualmente
existentes" (pg. 36).
Neste campo existe já uma experiência, ou melhor, uma tentativa
com o mesmo objectivo, que permite tornar transparente aquilo que o governo
tem em mente. E essa experiência é a proposta de ACT para os
Hospitais SA, agora chamados Hospitais EPE, apresentada aos Sindicatos pelo
Ministério da Saúde que tinha e tem os mesmos objectivos e que
só não foi para a frente devido à oposição
generalizada dos sindicatos.
Os resultados para os trabalhadores dos Hospitais SA dessa "reforma
profunda do sistema de carreiras e remunerações" eram
nomeadamente os seguintes: (a) Redução do valor hora pago aos
profissionais de saúde que variava entre -30% (médicos ) e -10%
(restantes trabalhadores); (b) Criação de categorias com outros
nomes, onde em cada uma se incluía um grande número de
profissões actuais (por ex., a nova categoria " Especialistas de
serviço de suporte" pretendia incluir as actuais categorias
"Especialistas de informática", "Técnicos de
informática" e "Pessoal Técnico do Regime geral",
etc), com redução dos níveis, o que determinava que
trabalhadores com diferentes especializações fossem obrigados a
realizar, indiferentemente, todas as funções. Esta
situação associada a uma redução para apenas 4
níveis e ao aumento do horário semanal de trabalho determinava um
redução significativa do valor hora pago a esses profissionais.
Foi o primeiro caso, em toda a história da contratação
colectiva em Portugal, em que uma entidade patronal, neste caso o
Ministério da Saúde, apresentou uma proposta de ACT em que
defendia uma redução nominal da remuneração hora
que os trabalhadores já auferiam.
A juntar a tudo isto está a intenção de impor, como consta
do PEC2005-2009 apresentado pelo governo, durante o período compreendido
entre 2005-2009 uma "actualização da tabela salarial em 2%
ao ano" (pg. 49), quando no mesmo documento se prevê uma taxa de
inflação superior em todo o período (2,7% em 2005; 2,9% em
2006; e em todos os restantes anos, uma taxa de inflação de 2,5
ao ano; pg. 54). E como a experiência tem mostrado as previsões do
governo relativamente à taxa de inflação são sempre
ultrapassadas, o que determina que a redução do poder de compra
dos vencimentos ainda seja superior à prevista.
Para além disto o governo tenciona reduzir para 65% do vencimento
diário aquilo que o trabalhador terá direito em cada dia que
estiver doente. Neste momento ainda não é claro se o trabalhador
terá direito àquela parcela de vencimento correspondente aos 3
primeiros dias pois se o esquema for igual ao sector privado não
terá direito.
AS ALTERAÇÕES NO REGIME DA CGA E AS CONSEQUÊNCIAS PARA 400
MIL TRABALHADORES.
Como será calculada a nova pensão de aposentação?
O argumento mais utilizado pelo governo a nível de opinião
pública para justificar o não respeito por direitos adquiridos no
campo
da segurança social dos trabalhadores da AP é que são
"privilégios injustificáveis". No entanto, todos esses
"privilégios" foram implementados através diplomas
legais aprovados pelo governo. Enquanto tem esta atitude, o mesmo governo
já não considera como "privilégio
injustificável" que alguém tenha direito a uma pensão
de 8.000 euros, com apenas 6 anos de serviço, paga por uma entidade
pública, e a receber a partir dos 49 anos de idade acumulando com outros
rendimentos.
Devido à sua complexidade e também às consequências
graves que terão para os trabalhadores as alterações que o
governo pretende introduzir na idade e no cálculo da pensão de
aposentação vai-se explicar com mais pormenor a forma como o
novo sistema funcionará. Tenha-se presente que vai-se utilizar a pouca
informação que consta do PEC2005-2009 (pg. 39), só se
podendo ficar a conhecer efectivamente como funcionará após a
publicação da respectiva lei. No entanto é já
possível dar uma ideia clara daquilo que o governo tem em mente neste
campo.
Como se sabe, em 1993, o governo em funções nesse ano decidiu que
todos os trabalhadores que entrassem para a Administração
Pública depois de 1 de Setembro daquele ano ficariam abrangidos pelo
Regime Geral da Segurança, portanto pelo regime que se aplica aos
trabalhadores do sistema privado (reforma aos 65 anos, 2% do salário
pensionável por cada ano de descontos para a Segurança Social,
máximo de reforma 80% do salário pensionável). No entanto,
respeitou os direitos adquiridos pelos trabalhadores pois o novo regime
não se aplicava aos trabalhadores que entraram para a
Administração Publica antes de 1 de Setembro de 1993. Agora a
intenção do governo é não respeitar os direitos
adquiridos por esses trabalhadores, pois tenciona alterar o sistema de
aposentação dos trabalhadores que entraram antes de 1993.
E as alterações anunciadas são nomeadamente as seguintes:
(1) Até ao fim de 2005 aplicar-se-á o sistema actual, ou seja,
aposentação aos 60 anos de idade, com 36 anos de serviço,
uma pensão igual a 90% do vencimento que se estava a receber, e por
cada ano a menos de 60 anos uma redução de 4,5% na pensão
a que tinha direito se tal não fosse feito (2) A partir de 31 de
Dezembro de 2005, por cada ano para além de 2005, o limite dos 60 anos
em que um trabalhador se pode aposentar actualmente será aumentado em
seis meses (no fim de 2006, a idade de reforma passará para 60,5 anos e
assim sucessivamente até atingir os 65 anos), e a pensão
referente a este período (depois de 31/12/2005) será calculado da
mesma forma que a dos trabalhadores do regime geral, ou seja, multiplicando o
número de anos deste período por 2% e pelo chamado vencimento
pensionável ou relevante; (c) No caso de o trabalhador ter anos de
serviço antes e depois de 31/12/2005, serão calculados dois
valores uma pensão referente ao período até
31/12/05 utilizando o método de cálculo actual da pensão
de aposentação da função pública que
chamamos
"p1"
; a outra pensão relativa ao período posterior a 31/12/2005
utilizando o método de cálculo actual da pensão dos
trabalhadores do regime geral da Segurança Social (para isso,
considera-se os vencimentos dos 15 anos anteriores à data da sua
reforma e actualiza-se esses vencimentos anuais para o ano da reforma com base
no Índice de Preços; seguidamente selecciona os dez vencimentos
mais elevados e calcula depois o vencimento médio, fazendo uma
média aritmética. O valor assim obtido chama-se vencimento
pensionável ou relevante, e para obter a pensão referente ao
período posterior a 31/12/2005 tem de multiplicar o valor anteriormente
obtido pelo número de anos de serviço feitos depois de 31/12/2005
e depois o resultado obtido multiplica-se agora por 2%, ou seja, 0,02);
repetindo, é esse valor assim obtido que chamamos
"p2"
.
A pensão de aposentação que o trabalhador receberá
obtém-se calculado a média ponderada, em que os pesos a atribuir
a cada uma pensões anteriores são o número de anos de
serviço até 31/12/2005 a que chamaremos
"n1"
e o número de anos de serviço feitos depois de 31/12/2005
a que chamaremos
"n2".
Em resumo, a formula matemática utilizada para calcular a
pensão de aposentação dos trabalhadores que entraram para
a função pública antes de 1 de Setembro de 1993 e que se
aposentem depois de 31/12/2005, uma média ponderada, é a
seguinte:
PENSÃO DE APOSENTAÇÃO
= [(p1 x n1)+ (p2 x n2 )] / (n1+n2)
[1]
As alterações que o governo pretende impor na segurança
social dos trabalhadores da Administração Pública
determinarão dois tipos de prejuízos para os mesmos: (1) O
primeiro, o aumento da idade de reforma de 60 para 65 anos; (2) o segundo, que
não é menos importante, será o de que por cada ano de
serviço realizado depois de 31/12/2005 o trabalhador receberá um
valor de pensão correspondente apenas a 2% do vencimento
pensionável ou relevante, que é o do regime geral, e não
2,5% que é o valor utilizado actualmente para o calculo da pensão
de aposentação (os 2,5% obtém-se dividindo os 90% de
vencimento a que têm direito pelos 36 anos de serviço que tem de
ter para receber uma pensão igual a 90% do vencimento na data da
aposentação). Isto significa uma redução de 20% na
pensão por cada ano de serviço realizado a partir de 31/12/2005.
O trabalhador comparando o valor que obteve da forma indicada anteriormente com
o que obtém utilizando a formula de cálculo actual da
pensão de aposentação da função
pública ficará com uma ideia da diminuição da sua
pensão. No entanto, chama-se a atenção para o facto de que
só quando o governo tornar público o projecto de lei é
que se poderá ficar com uma ideia clara da perda total e certa para os
trabalhadores, pois existem situações que ainda não
estão totalmente esclarecidas mas que são importantes,
nomeadamente as seguintes: ( a) Como é calculado o vencimento
pensionável ou relevante com base no qual se calcula a reforma do
período posterior a 31/12/2005, embora já existam
declarações do secretário de Estado na Assembleia da
República, e são essas que utilizamos aqui; (b) Qual é
valor máximo da pensão de substituição do
vencimento (90% do vencimento como vigora actualmente na função
pública, ou os 80% que é o limite máximo que vigora no
Regime Geral da Segurança Social).
A aplicação do esquema que o governo pretende impor poderá
determinar situações aberrantes e profundamente injustas como
facilmente se concluirá da aplicação a casos concretos.
Por ex., poderá suceder que o trabalhador para alcançar o novo
limite da idade de reforma tenha de ter mais de 40 anos de serviço, ou
que faça descontos que já não têm qualquer efeito na
formação da sua pensão de aposentação. Esta
última situação acontecerá quando atinja o limite
da pensão de substituição que é de 90% do
vencimento para os trabalhadores que entraram para a
Administração Pública antes de 1993 e é de 80% para
os trabalhadores do Regime Geral da Segurança Social, e tenha de
continuar a trabalhar para alcançar o novo limite de idade de reforma.
A PREPARAÇÃO DO ATAQUE AO REGIME GERAL DA SEGURANÇA SOCIAL
Na pg. 39 do próprio PEC2005-2009 confessa-se que "de modo a
habilitar o governo a tomar as medidas mais adequadas nesta área (Regime
Geral) foi criado um grupo de trabalho encarregado de estudar e avaliar as
diferentes alternativas de medidas, que deverá entregar a sua
avaliação no último trimestre do corrente ano"
(2005). E o próprio programa indica que "estas medidas
visarão aumentar a sustentabilidade do sistema a longo prazo, tendo em
conta a evolução da esperança de vida" (pg. 39). Na
pg. 37 do programa diz-se que "a esperança de vida à
nascença, actualmente superior a superior a 77 anos, tem crescido de uma
forma sustentada, cerca de 10 anos nas últimas três
décadas". No entanto, o programa esquece-se de referir que a
previsão para o futuro já não é de um crescimento
semelhante, e que as despesas resultantes do envelhecimento da
população são em parte compensadas com a
diminuição da população mais jovem, e outra parte
com o aumento da riqueza criada por cada trabalhador resultante do
desenvolvimento cientifico e tecnológico.
Mas o que parece evidente é que se está a preparar um 2º
relatório Constâncio, cujos resultados são já mais
ou menos conhecidos, como sucedeu com o 1º relatório, e que visam
"habilitar o governo a tomar medidas" contra o Regime Geral da
Segurança Social, como se afirma no próprio PEC2005-2009.
NA SAÚDE O GOVERNO PRETENDE REDUZIR COMPARTICIPAÇÕES, O
QUE ASSOCIADO AO AUMENTO DE IMPOSTOS DETERMINARÁ SUBIDA GENERALIZADA DOS
PREÇOS
De acordo com o constante na pg. 42 do próprio PEC2005-2009 o governo
tenciona extinguir a "bonificação de 10% na
comparticipação dos medicamentos genéricos" e rever
o "escalão A de comparticipação de medicamentos, com
passagem de 100% para 95%, e o reembolso de doentes crónicos mediante
prova de meios, nas situações de rendimento igual ou inferior ao
salário mínimo nacional"; portanto um aumento de
preços dos medicamentos abrangidos que variará entre 5% e 10%.
Para compensar, e fundamentalmente para ser utilizado na propaganda, o governo
promete uma baixa de preços dos medicamentos comparticipados de 3% que
seria suportado pelas farmácias e comerciantes de medicamentos (a ver
vamos ) e o reembolso da comparticipação perdida pelos doentes
crónicos com rendimento total inferior a um salário mínimo
nacional (antes teriam de suportar do seu bolso a comparticipação
e depois tinham que provar que possuíam um rendimento total mensal
inferior a um salário mínimo para serem reembolsados, o que
significará na prática que a maioria não será
reembolsada da comparticipação que tiveram de pagar)
É evidente que esta política de redução de
comparticipações nos medicamentos associada ao aumento do IVA,
dos impostos sobre os combustíveis, do IT e IA determinará um
aumento generalizado dos preços com incidências em 2005 mas
fundamentalmente em 2006.
AUSÊNCIA TOTAL DE MEDIDAS PARA REACTIVAR O CRESCIMENTO ECONÓMICO E
COMBATER O DESEMPREGO, MAS SIM PARA REDUZIR O INVESTIMENTO PÚBLICO
Um aspecto que surpreende em todo este Programa de Estabilidade e Crescimento
apresentado pelo governo para o período compreendido entre 2005 e 2009
é ausência quase total de objectivos e de medidas para reactivar o
crescimento económico e para combater o grave problema do desemprego que
atingiu , no 1º trimestre de 2005, cerca de 550 mil portugueses, o que
corresponde a 10% da população activa. Estes problemas
estagnação económica e aumento vertiginoso do emprego
é como não existissem para o governo. As únicas
referências que se podem considerar relacionadas com o crescimento
económico são relativas ao investimento, e muito negativas.
Assim, logo no inicio do PEC2005-2009 afirma-se que "o investimento
público aumentará em média 15% ao ano ao longo da
legislatura, compensando
parcialmente
a redução de fundos estruturais" (pg. 7); portanto, o
aumento do investimento público nacional nem conseguirá compensar
totalmente a redução prevista no investimento público
total, que inclui a parte nacional e a referentes aos fundos
comunitários, o que determinará uma diminuição do
investimento total público, que nos últimos anos tem
diminuído continuamente.
Depois, na pg. 44 do PEC2005-2009 apenas se prevê que "o
esforço de modernização e conservação das
infra-estruturas, as políticas de solidariedade nacional em apoio ao
desenvolvimento regional, incluindo através das SCUTS e da contrapartida
nacional para os investimentos financiados pelos fundos
comunitários" sejam financiadas somente com "um aumento
faseado do imposto sobre produtos petrolíferos (ISP) de 2,5
cêntimos por litro em média a serem introduzidos em 1 de Janeiro
de 2006, 2007 e 2008)"; portanto, os investimentos serão
financiados pelo aumento dos impostos sobre os combustíveis, o que
confirma o seu valor insuficiente face às necessidades do País.
Finalmente, na pg. 52, acaba-se por reconhecer que "o investimento
público (abstraindo venda de activos) sofrerá mesmo alguma
redução real até 2007".
É evidente, que se se verificar uma quebra no investimento
público pelo menos até 2007, como se afirma no próprio
PEC2005-2009 apresentado pelo governo, é previsível que, por
arrastamento, o mesmo se verifique em relação ao investimento
privado, o que determinará o agravamento da crise económica e
social, mais desemprego e mais recessão.
MAIS PRIVATIZAÇÕES
A privatização maciça das empresas públicas levadas
a cabo pelos governos de Cavaco Silva e de Guterres fizeram perder ao Estado um
importante instrumento de desenvolvimento e uma fonte importante de receitas
para o Orçamento de Estado.
Em termos de financiamento do défice orçamental foi um muito mau
negócio. Para concluir isso basta recordar os seguintes dados constantes
de um relatório elaborado pelo próprio Ministério das
Finanças com o prefácio do ex-ministro das Finanças do PS,
Oliveira Martins: Entre 1989 e 1995, as privatizações do sectores
bancário e segurador deram receitas ao Estado de apenas 6.827,3
milhões de euros. Entre 1996 e 2001, as receitas arrecadas com a
privatizações somaram 15.919,8 milhões de euros, o que
somado ao valor anterior totaliza 22.747,1 milhões de euros de receitas.
No entanto, segundo um relatório do Tribunal de Contas, os lucros
antes dos impostos de apenas 11 empresas públicas e só em 4 anos
(1999-2002) somaram 9.176,7 milhões de euros (1.835 milhões de
contos), sendo os lucros líquidos, ou seja, depois de pagar os impostos
ao Estado, de 7.057,1 milhões de euros (1.411 milhões de contos).
Com a privatização de muitas destas empresas, o Orçamento
do Estado perdeu uma importante fonte de receitas, e aqueles lucros
líquidos e, muitas vezes, até uma parte dos impostos passaram a
ser arrecadados pelos grupos económicos que ficaram com essas empresas.
No entanto, apesar desta experiência negativa, de acordo com o
PEC2005-2009, "o governo pretende, ainda prosseguir
privatizações que, para além do contributo para a
consolidação das finanças públicas, através
da redução da divida pública, favoreça
também o crescimento económico" (pg. 48). A
experiência passada mostrou precisamente o contrário. Apesar da
venda maciça e muitas vezes ao desbarato de empresas públicas, o
País até regrediu em termos económicos.
A APLICAÇÃO AO SECTOR PRIVADO DA MODERAÇÃO DE
SALÁRIOS
Antes de apresentar o Programa de Estabilidade e Crescimento o governo afirmou
que os vencimentos dos trabalhadores da Administração
Pública iriam aumentar em termos reais, embora de uma forma moderada.
Isto significava que iriam aumentar mais do que os preços. Os dados
constantes do PEC2005-2009 apresentado pelo governo provam que isso não
é verdade.
Na pg. 49 do programa o governo afirma "a actualização das
tabelas salariais em 2% ao ano" e na pg. 54 prevê que a taxa de
inflação aumentará 2,7% em 2005, 2,9% em 2006, e 2,5% nos
restantes anos. Isto significa à partida uma diminuição
média dos salários reais dos trabalhadores da
função pública em mais - 3%. E isto supondo que a taxa de
inflação seja a prevista pelo governo, porque a experiência
passada tem mostrado que as previsões do governo ficam sempre abaixo da
realidade.
E neste campo o governo não se coíbe de dar uma ajuda às
entidades patronais. Assim na pg. 55 do PEC2005-2009 afirma que "é
essencial que no horizonte do Programa (2005-2009) a negociação
salarial seja realista e tenha em conta as condições acrescida
nos mercados internacionais e no mercado doméstico em que deparam hoje
os produtos portugueses. Neste contexto, espera-se um crescimento moderado das
remunerações reais dos trabalhadores abaixo do crescimento da
produtividade" . Tal como o patronato o governo também pensa que o
aumento da competitividade das empresas portuguesas passa pela
manutenção de baixos salários. E com esse objectivo
dá como orientação o que pretende impor à
Administração Pública.
UM PROGRAMA NÃO DE CRESCIMENTO MAS SIM DE ESTAGNAÇÃO
ECONÓMICA
Devido à fragilidade do tecido económico e social em Portugal, a
Administração Pública é essencial em Portugal para
a coesão social e para o crescimento económico. E mais numa
época em que impera uma globalização dominada por uma
liberação selvagem que determina uma concorrência global
agressiva e muitas vezes desleal que gera inseguranças e a
destruição do tecido económico e social nacional. A
acrescer a tudo isto numa altura em que o País enfrenta uma grave crise
económica e social.
Um ataque como aquele que o governo está a desencadear contra a
Administração Pública e contra os seus trabalhadores
é não perceber os graves problemas que o País enfrenta,
é criar condições para um maior agravamento da crise
económica e social.
A juntar tudo isto, e também contrariando o que tem continuamente
declarado o governo, o investimento público, que inclui o investimento
público nacional e o investimento público comunitário, vai
diminuir em termos reais pelo menos até 2007. E isto no cenário
mais favorável. Se as exportações não crescerem
tanto como o previsto (e poderá acontecer), se o preço do
petróleo continuar a subir (poderá suceder) e se o PIB não
crescer como o previsto (e já vimos que o governo e o Banco de Portugal
não são fortes em previsões; a prová-lo
está o facto de o dr. Constâncio afirmar no seu relatório
que o crescimento económico em 2005 seria de 1% e três dias depois
o ministro das Finanças vir dizer que já não era verdade,
pois o crescimento em 2005 seria apenas de 0,8%), então o governo
tomará medidas ainda mais restritivas para que a meta do défice
seja alcançada. E tudo em contra-ciclo o que agravará ainda mais
a crise económica e social.
[1]
A forma de calcular a pensão é
explicada com mais pormenor no sítio web do Sindicato dos
Trabalhadores da Função Pública:
http://www.stfpsa.pt
.
[*]
Economista,
edr@telepac.pt
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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