O actual governo socialista está em funções desde meados
de Março (tomada de posse: 12/Mar/05). São 40 dias. Pouco, sem
dúvida. Mas os sinais de uma falsa partida acentuam-se.
Em termos de orientação geral política, pode dizer-se que
mal se vislumbra ruptura em relação à política
seguida pelo anterior governo PSD/CDS. Claro bem entendido tem
havido substituição de pessoas. Os
boys
e as
girls
estavam impacientes. E continuam insatisfeitos. Querem mais, muito mais,
muitíssimo mais. Mas Sócrates, na postura esfíngica que
adoptou (fazendo lembrar alguém de má memória) vai
satisfazendo a rapaziada a conta-gotas... deixando intacta a maior parte da
funesta herança da coligação de direita incluindo
inúmeras e importantes decisões e nomeações
efectuadas à pressão, numa ânsia suspeita, logo a seguir
à dissolução do Parlamento (30/Nov/04) até à
entrada em funções do novo governo PS. Foram três meses e
12 dias a aviar milhões de euros e milhares de benefícios para
amigos e correligionários; os últimos 20 dias a partir da
derrota eleitoral de 20 Fevereiro deveriam ter sido de mera
gestão de assuntos correntes. Mas não se notou qualquer
diferença na generosidade dos despachos.
A legitimidade de nenhuma dessas decisões ou despachos não parece
ter sido posta em causa pelo novo governo, até à data. Nem, muito
menos, anulada. Sinal deveras preocupante. O senhor Presidente da
República, pelos vistos, deixa correr, não se considera
autoridade competente. Quem os fiscaliza, afinal? Toda esta indiferença
levanta no mínimo grandes interrogações.
Como por exemplo:
Qual o destino das mega-negociatas aprovadas ou decididas pelo governo
Santana depois de exonerado pelo Presidente da República:
a) A venda pela PT/Portugal Telecom dos activos do grupo de media
Lusomundo (recém-comprado, aliás) a uma empresa desportiva sem
créditos firmados que fica assim convertida na mais poderosa empresa de
comunicação social do País? Para onde vai o
"resto" da estratégica PT, já privatizada a 70% e
controlada pelo Banco Espírito Santo?
b) O que se passou com a privatização da Galp, a maior empresa
nacional, onde a participação do Estado (40,79%) foi vendida, em
Novembro 2004, a um grupo privado, por metade do valor de referência?
c) Vai ficar por esclarecer a duvidosa adjudicação
três dias após as eleições! da rede de
telecomunicações de emergência, por 538 milhões, a
um grupo privado constituído por dirigentes do PSD,
incluindo o ministro do Interior ainda em exercício de
funções?
d) Vão manter-se as nomeações de Santana para cargos da
Administração Pública após ter sido exonerado (89
despachos no "Diário República") e de outros membros do
governo em teórica "gestão corrente" (mais 56
despachos)?
e)
Idem,
nomeações para dirigentes de institutos públicos, com
remunerações e regalias à
la carte;
para agências, unidades de missão, para programas operacionais,
etc, etc, uma infinidade de "invenções
burocráticas" que só cérebros em delírio de
poder e saque poderiam conceber. Toda essa gente seguramente, milhares
ficam com vínculo à função pública?
Têm direito a indemnizações? A reformas? Diga lá,
sr. primeiro-ministro. Explique-se. Porque se não se explica podem os
"mal-intencionados" e são multidão
pensar que o Partido Socialista já gastou do mesmo e não tenciona
incomodar colegas de ofício.
Vamos, entretanto, deixar para trás o território das negociatas e
da "pequena política". Embora, defectivamente, seja o
território preferido da totalidade da classe política burguesa, o
único onde realizam plenamente a sua vocação de
angariadores do sagrado lucro, esse supremo ideal do catecismo capitalista.
Recordemos as prioridades eleiçoeiras do PS, tal como foram proclamadas
pelo seu secretário-geral, o eng. José Sócrates: o
referendo sobre o aborto; a limitação de mandatos dos agentes
políticos; o combate à evasão fiscal; a reforma da
Administração Pública; e, finalmente, como flor de cheiro
decorativa, o famoso choque tecnológico. Vejamos então,
após mais de um mês no poder executivo, qual a
situação dos macro-objectivos socialistas (por assim dizer).
Para começar, neste momento, a prioridade atribuída ao assunto
aborto está encalhada numa monumental trapalhada... igualzinha às
que fizeram a glória de Santana Lopes. A data do referendo permanece
incógnita. Talvez para o ano que vem... talvez, como a Casa da
Música, a ver vamos. O Presidente da República e o
primeiro-ministro trocam responsabilidades. A questão, provavelmente,
será resolvida no vão de escada (não o aborto: a
legislação). Enquanto o outro campeão da
resolução fulminante (Bloco de Esquerda) assobia para o lado.
O debate sobre a limitação dos mandatos está a suscitar
polémica feroz, cada dinossauro defendendo o seu feudo como lobo
esfaimado. Promete! Lá mais para diante, claro. Seguramente, será
mais uma resolução trapalhona. Mudar alguma coisinha... para que
tudo fique na mesma. Principalmente, não melindrar o
cacique/palhaço da Madeira. Não vá o homem proclamar a
independência do arquipélago, deixando o dr. Sampaio e o eng.
Sócrates, muito encabulados, a pedir misericórdia à Dona
Europa ou ao Padrinho Americano.
Do combate à evasão fiscal ouviu-se falar na RTP no dia 22
passado. Pela boca do primeiro-ministro. Estratégia anunciada:
fiscalizar rigorosamente supostos abusos cometidos pelos contribuintes que
não podem evadir o imposto... isto é, os trabalhadores por conta
de outrem. São uns malandros sempre a faltarem ao trabalho, metendo
constantes baixas fraudulentas, vivendo à custa do subsídio de
desemprego! E as falsas declarações para o rendimento
mínimo!? Nem queiram saber os milhões que os nossos queridos
socialistas vão sacar ao bolso desses exploradores. Quanto aos ricos,
aos burgueses instalados com duas reformas ou mais, somando um tacho e uma
"carta de missão", bem, isso é tudo gente acima de
qualquer suspeita. Nem vale a pena gastar dinheiro (dos contribuintes) a
fiscalizá-los. Basta fixar um tecto máximo para as respectivas
reformas: o vencimento do Presidente da República. E fica cumprida a
promessa eleitoral. Mais umas ameaças aos professores, aos
funcionários públicos em geral, incluindo reduções
de efectivos, aumento do tempo de serviço, congelamento de carreiras e
salário, etc.. Os sindicatos reagiram assarapantados, parecendo
surpreendidos com o "choque fiscal", modelo
socialismo adiantado século XXI.
Ó meus amigos! Trinta anos de democracia libertária, já os
devia
ter preparado para o cinismo da classe burguesa/capitalista. (Comentava um
desses sujeitos/patrões na RTP: o facto de quase dois terços das
empresas reterem os descontos dos trabalhadores deve ser encarado como uma
forma de incentivo para a manutenção dos postos de trabalho).
Não é apenas a estupidez que não tem limites; a canalhice
também não tem.
A reforma da Administração Pública
Já se escreveram toneladas de considerações sobre a
"mãe de todas as reformas", a panaceia para todos os males da
ancestral Nação Lusitana.
Bullshit,
resumindo em americanês. Mas não resisto a transcrever a abalizada
opinião da dra. Ferreira Leite, saudosa mãe, que foi, da abortada
reforma, tal como vem impressa no
Expresso
desta semana de 23/Abr/05:
"Seria difícil imaginar maior machadada na reforma que... a
alteração proposta pelo actual governo com a qual pretende que os
dirigentes máximos (da Administração Pública)
cessem automaticamente funções com a mudança de governo
(...) O que está em causa com esta proposta é a falta de coragem
para declarar que se quer colocar no topo da Administração
Pública clientelas partidárias; que se pretende distribuir
lugares [visto que] os do governo não chegam."
Rematando:
"(...) Condena-se [assim] a Administração Pública ao
pior dos destinos o da desconfiança, do oportunismo, da falta de
credibilidade".
Pois é, doutora. Nós já sabíamos isso há
muito. Antes, muito antes da Vossa Sapiência ser ministra de um governo
reaccionário de direita. Aquele governo em que a doutora nomeou um
cliente, para director-geral dos Impostos, com um vencimento largamente
superior ao do PR. Lembra-se? Por acaso o homem ainda por lá se
mantém. Favores dos colegas socialistas E nomeou uma ignara ministra da
Justiça para administradora da Caixa Geral dos Depósitos. Sua
amiga, com certeza também se lembra. De caminho
desacreditando
um pouco mais a CGD. (Já serviu para lá arrumar
dezenas de administradores da classe política/partidária).
Sobre o choque tecnológico não vale a pena gastar cera.
Demagogia, comissões, cartas de missão, subcomités,
consultorias, viagens... Mais demagogia. Vai chegar para centenas de
boys
e
girls.
E não esquecer os incentivos a distribuir pelas empresas. Mais uns
milhões para... para os mesmos.
Por fim, acho que merece menção o desaparecimento do tema
corrupção no discurso e nas prioridades dos socialistas. Como se
fosse já um dado adquirido, uma característica genética da
democracia partidária; na melhor das suposições, uma
espécie de doença crónica, incurável, que é
de bom tom não referir entre amigos e mesmo com estranhos. Aliás,
a verdade é que os corruptos e são legião
por aí andam, nédios, lustrosos, cada dia mais prósperos.
A suposta doença não parece afectá-los. Viva a (boa) vida!
Enquanto dura, vida doçura. E as tristezas não pagam
dívidas.
(Uma última nota: por que será que as organizações
adversárias/inimigas do capitalismo libertário não
lêem o
Diário da República?
É um daqueles mistérios da vida política portuguesa,
para os quais a explicação deve ser do domínio do sonho,
do mito, da nossa identidade metafísica. Domínios em que,
confesso, não tenho qualquer competência).
Lisboa, 25 de Abril de 2005
[*] Coronel na reserva.
O original encontra-se no jornal Alentejo Popular,
edição de 28/Abr/05.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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