O saque, a variante terrorista da corrupção
por J. Varela Gomes
Em rigor, trata-se mesmo de saque
e não apenas de corrupção. Quero eu dizer na minha que
aquilo que, efectivamente, se passa neste nosso infeliz País se aproxima
mais do conceito de saque que da banalizada imagem da corrupção
administrativa.
Num sentido tradicional, o assalto selvagem que a burguesia arrivista
neoliberal está movendo contra o Estado/Nação
visando, em última análise, a sua destruição... a
apropriação dos bens patrimoniais colectivos... a
dilapidação dos fundos públicos em proveito próprio
configura a licenciosidade concedida à tropa invasora quando
assalta e conquista cidades inimigas ou quando os piratas procedem a pilhagem
dos navios capturados.
Isso mesmo está acontecendo, isto é, temos vindo a assistir a
cenas de pilhagem da riqueza e dos bens nacionais protagonizadas por
políticos burgueses, cujo comportamento é o de verdadeiros
inimigos do Estado, de predadores insaciáveis e sem escrúpulos.
Aliás, tornou-se corrente ouvir, nas mais variadas circunstâncias,
a sentença "O País está a saque".
Deve notar-se que a sentença assim expressa é de gravidade
ético/política bastante superior à comum
constatação da existência da corrupção...
descrita como um vírus, uma chaga, um cancro, uma espécie de
doença endémica que está corroendo a sociedade portuguesa.
A burguesia capitalista, nas suas infinitas metamorfoses de sobrevivência
(com as quais mal sonhou Karl Marx), já absorveu há muito a
corrupção no seu código genético. (Na realidade, o
fenómeno da corrupção já aparece discutido nos
Diálogos socráticos da "República", vai para
2.500 anos, donde se poderia concluir dentro do mais ortodoxo marxismo
que a corrupção é componente orgânico,
universal, do poder, mormente, quando exercido por classes e indivíduos
cujo objectivo primacial é a satisfação dos interesses
próprios e da classe a que pertencem). Nos tempos modernos, o dogma do
"fatalismo da corrupção" está integrado na
religião capitalista liberal, tendo-se tornado fenómeno
quotidiano, encarado com naturalidade, sem pudor ou vergonha. Nem sequer
será precisa grande dose de sarcasmo para afirmar que o
vigarista/corrupto é o herói iconográfico do regime
democrático bi-partidário, imposto ao Mundo através da
cruzada imperialista americana.
Em Portugal, a corrupção banalizou-se ao fim de 30 anos de
democracia constitucional, acompanhada da tolerância e impunidade de que
gozam os seus mais exímios executantes.
Esta realidade histórica, embora nos custe admitir, representa um
formidável trunfo ideológico da classe burguesa capitalista, que
assim entra triunfante neste século XXI da era cristã.
Entretanto, admitindo como um dado adquirido a
praxis
corruptora nas sociedades democráticas do Ocidente cristão que
seguem o evangelho da economia libertária, é altura de reconhecer
e identificar a variante terrorista do saque puro e duro, sem
restrições que se encontra em pleno desenvolvimento,
designadamente, nos países pobres do chamado Terceiro Mundo e nas
débeis economias periféricas, cuja esperança de progresso
reside na invasão turística e num duvidoso investimento
estrangeiro. Nesta última categoria está, evidentemente, o nosso
País.
Em qualquer dos casos em África, na América Central ou do
Sul, na periferia do Leste e Sul da Europa , os bandos arrivistas
instalados na manjedoura do poder por via da cruzada democrática
bi-partidária (as ditaduras dos filhos de puta amigos dos States
também servem de exemplo) já muito comeram e devoraram nos
respectivos países. Em Portugal, são 30 anos de regabofe, como
é sabido.
Todavia "eles", os
boys & girls
do carreirismo partidário burguês, em vagas sucessivas, querem
sempre mais. Entram famintos pelos corredores e antecâmaras da
governança, exigindo tachos e conezias, reclamando privilégios e
favorecimentos ilícitos, etc., etc.. Há que procurar novas
pastagens, inventar truques para ladear restrições legais (e,
principalmente, orçamentais), multiplicar as comissões,
missões, altos-comissários, os contractos especiais, assaltar os
remanescentes redutos da independência estatutária profissiona e,
finalmente, preparar a Grande Operação de Saque contra o
Estado/Nação, destinada a desmantelá-lo para melhor
partilhar/partidarizar/privatizar os restos e lançá-los à
voragem das clientelas e
lobbies.
Nos dias que correm (meados de Setembro de 2005), com campanhas eleitorais
autárquicas e presidenciais misturadas, ambos os lideres dos maiores
partidos supostos rivais debitam o mesmo discurso, proclamam
enfaticamente a mesma panaceia para curar todos os males da Pátria:
"Morte ao Estado e ao seus servidores"; "Partir a espinha
à Função Pública", nomeadamente, professores,
magistrados e militares.
Com franqueza, ilustres políticos da nossa praça,
desgraçados ilusionistas que a ninguém iludem! Falando a
sério. Não tendes consciência que toda a gente está
farta de saber que a vossa classe, respectivos familiares e amigos, colegas de
partido e de negócios... que todos vocês vivem e engordam à
custa do Estado? Matar a galinha dos ovos de ouro?! Não brinquem
connosco. Vocês, o que querem é levar a galinha para o vosso
quintal. Deixem-se de retóricas farisaicas.
A estratégia de ataque contra "o monstro burocrático
estatal", compartilhada por todos os partidos burgueses portugueses, tem,
seguramente, inspiração e respaldo imperialista.
Tradição antiga, com raízes em 1975, na abjecta
contra-revolução, na altura obrigada a usar máscara
socialista. Aliás, essas raízes deram árvore frondosa numa
região do País que, há muito, atingiu o ideal americano
o vosso ideal de democracia totalitária. Refiro-me, claro
está, ao arquipélago da Madeira com o vosso bem alimentado
cacique... à custa do "malvado" Estado do
cótinente cubano.
(Sendo nós, ao fim e ao cabo, contribuintes continentais, os
"cubanos" esmifrados pelo
vilhão
madeirense).
Os argumentos economicistas que tentam justificar os ataques à
administração pública convertem-se em motivo de
escárnio geral quando cotejados com os escândalos vindos a lume
quase diariamente.
Funcionários públicos em excesso? Mas é notório e
sabido que cada novo governo mal é empossado começa a destacar
hordas de apaniguados para ocuparem o aparelho de Estado! Em poucos meses
são milhares. Não só na administração
central, mas ainda mais nas direcções regionais dos vários
sectores, nas empresas públicas e municipais, institutos, etc. A cada
nova vaga de arrivistas/assaltantes correspondem outros tantos milhares de
funcionários desalojados. São os
excedentes.
Outro método muito usado de criar excedentes consiste nas consultorias
externas. Escritórios e empresas privadas são contratados para
realizar trabalhos desde sempre da competência dos quadros
orgânicos. Estes ficam desocupados... acusados de baixa produtividade. Os
"privados" contratados acabam amiúde admitidos na
função pública.
São infinitas as manigâncias inventadas por esta gente dos
partidos para sofismar as restrições legais (em particular, as
orçamentais). Seria necessário um Livro Negro de milhares de
páginas para se fazer ideia aproximada. Podemos apenas
imaginá-las a partir de alguns casos ocasionalmente mencionados pela
comunicação social.
Um exemplo, recentíssimo: o assalto ao Tribunal de Contas. A manobra,
aliás, foi iniciada em Maio de 2004 pela então ministra das
Finanças PSD/CDS, Manuela Ferreira Leite, quando contratou um tal Paulo
Macedo para director-geral das Contribuições e Impostos (DGCI)
pelo ordenado milionário de 16.000 euros por mês, mais extras,
entre os quais o pagamento de mais 3.700 euros por mês para o
fundo privado
de pensões de S. Exa.! Tudo isto ao arrepio das normas vigentes na
administração pública. Novo governo PS e o
milionário Macedo permanece inamovível. Até ao presente, o
Estado já pagou ao sujeito 275.000 euros... só em vencimentos.
Sócrates finaliza a manobra: neste mês de Setembro nomeia quatro
novos directores gerais da área das Finanças; e anuncia a
designação para presidente do Tribunal de Contas de um quadro
proeminente do PS, Oliveira Martins. Depois de Salazar, o governo passa a
controlar totalmente a alavanca fundamental do poder: as Finanças e seus
fiscais. O cacique Alberto João apressou-se aplaudir a manobra: o modelo
madeirense, da democracia totalitária, impunha-se no
cótinente.
Só imaginar podemos quantas centenas de
boys & girls,
de camisolinha rosa vestida vão engrossar as fileiras do "monstro
burocrático" nas belas e rendosas funções de fiscais
das contas do Estado... incluindo as do partido a que ficam devendo o tacho.
Nas três maiores empresas do Estado Caixa Geral dos
Depósitos, Galp e Telecom o assalto está consumado... e
quase esquecido/absorvido. Com retoques e requintes de rara fineza: a Telecom
ofereceu tachos aos filhos dos políticos mais dedicados à causa
do bem público entre vários outros, Guterres, Marcelo
Rebelo de Sousa e, para que haja moralidade, os filhos do dr. Jorge Sampaio.
Também sem aflições de desemprego continuam Cavaco Silva,
com 9.000 euros de pensões e honorários; Ferro Rodrigues, feito
embaixador à pressão, com outros 9.000; e correligionários
avulso, depois de breve estágio em virtuais assessorias, nomeados apesar
da interdição ética solenemente proclamada por
Sócrates. Nestes últimos dias veio a lume o escândalo do
"contracto" (textual!) de António Vitorino, deputado do PS,
como advogado
particular
da Galp. Descobre-se que Vitorino é sócio de um
escritório de advogados acabado de comprar pela Iberdola... empresa com
negócios importantes na área dos combustíveis, cujo
representante em Portugal é Pina Moura, militante e antigo ministro do
PS. É o saque, puro e duro, sem restrições nem pudor!
O horizonte próximo não augura bom tempo.
A nau do Estado navega acossada por barcos piratas hasteando bandeiras
partidárias. À proa, conhecidos veteranos de muitas capturas e
saques. Mesmo disfarçados com paleta no olho e perna de pau, há
quem distinga por estibordo (a amurada enganadora), numa velha escuna de velame
esfarrapado, o jerarca Soares; à bolina, numa nave melhor aparelhada,
assobiando para um pequeno papagaio empoleirado na mezena (faz lembrar
alguém do PSD), o Tony Blair português poupa
munições, aguardando o afundanço do outro corsário.
Estará a tripulação da nau do Estado em
condições de repelir o assalto e o saque das barcaças
piratas? É lícito duvidar-se, visto ser sabido que a
tripulação está altamente desmoralizada e, em grande
parte, infiltrada por elementos piratas.
O original encontra-se no semanário
Alentejo Popular
, edição de 13/Outubro/2005.
Este artigo encontra-se em
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