Sobre o ataque à Linha Justa a pretexto do combate ao sectarismo
A substituição da táctica pelo tacticismo chama-se
oportunismo
Numa obra crucial para o nosso tempo aos mais diversos títulos, e
infelizmente muito pouco lida, Marx expõe os princípios
fundamentais da orientação política do Movimento
Operário, válidos para então e para hoje. Dizia o
filósofo alemão que "[c]ada passo de movimento real é
mais importante do que uma dúzia de programas. Se, portanto, não
se podia ir
além
do
programa de Eisenach
e as circunstâncias do tempo não o
permitiam deveria simplesmente ter-se concluído um acordo para a
acção contra o inimigo comum. Se, porém, se fazem
programas de princípios (em vez de remeter isso para um tempo em que
eles tenham sido preparados por uma mais longa actividade comum) erguem-se
perante o mundo inteiro marcos pelos quais se mede o nível do movimento
do Partido".
[1]
Rico de ensinamentos, este parágrafo avança, para o que aqui
importa, uma ideia crucial: a de uma hierarquia clara e inultrapassável
entre
questões programáticas
e
acordos para a acção.
Os comunistas distinguem com clareza, não confundem jamais, e nunca
erram na ordem de prioridades, entre princípios, estratégia e
táctica: para a consecução dos seus objectivos
revolucionários, naturalmente, precisam de flexibilidade, de
alianças, de uma estratégia de acção que permita em
cada momento aproveitar as condições sociais e históricas
em presença para fazer avançar a luta do proletariado. Compete
todavia ter presente que se trata realmente de fazer avançar a luta do
proletariado, e não simplesmente de suster temporariamente, ou abrandar
o ritmo, à investida reaccionária da burguesia. A confusão
entre as duas coisas é o que preside, regra geral, à
anteposição do táctico e do estratégico ao
programático. Sendo que nos nossos dias (de resto, como é usual
historicamente), a consecução dolosa desta confusão vem
acompanhada de acusações de dogmatismo, sectarismo, e de
críticas eivadas de um ostensivo filistinismo na sua troça
(deprimente, tanto mais quando se quer desempoeirada e moderna
) ao
"passadismo" de certos posicionamentos, e ao
"intelectualismo" de outros, num desprezo pela teoria que,
demonstra-o a história do Movimento Operário (a qual é,
convém recordar, o acervo da sua prática), sempre foi pago a
preço muito elevado.
Ocorrem neste momento dois exemplos muito claros desta postura na
Península Ibérica. Desiguais em dimensão, igualam-se,
contudo, na sua natureza. Começando por Portugal, e depois do
Manifesto dos 70
pela reestruturação "honrada e responsável" da
dívida pública, voltamos a ter personalidades alegadamente
anticapitalistas e empenhadas na construção do socialismo, entre
elas nada menos que um antigo secretário-geral da CGTP, a comparticipar,
com recauchutadas figuras de direita, ex-ministros de Governos
responsáveis por privatizações, por
desregulamentação dos direitos laborais, por cortes em
prestações sociais, pela aplicação, em suma, de uma
política reaccionária de agressão e
subjugação dos trabalhadores, um apelo à
"actuação intensamente activa" do Estado,
solicitando-se-lhe que "interprete fielmente a prossecução
do bem comum que é pertença da Nação"
[2]
! Excluindo o fraseado simultaneamente bacoco e confrangedor da primeira
citação ("actuação activa"
) e a
"Nação" maiusculada da segunda, à guisa de velho
documento fascista, o que consegue ser ainda pior neste documento é o
haver, já hoje, quem o considere uma vitória por ter posto
"até gente de direita" a reclamar intervenção
pública nesta matéria. Debalde se dirá que o
carácter dessa "actuação intensamente activa"
não é revelado, pelo que a resposta ao apelo pode ser a que o
Governo, intérprete, entender. Debalde ainda se pode falar do
branqueamento político que tal proposta constitui. Debalde ainda se
poderia argumentar contra o que há de transigente para com o
próprio discurso da reacção sobre a existência de um
interesse nacional autónomo e diferente dos interesses das diversas
classes. Tudo isto, arremessam, é purismo e sectarismo e dogmatismo e
inflexibilidade.
Do mesmo nos acusarão no segundo caso, a propósito do
fenómeno político da moda no Estado espanhol, o
Podemos.
Crismado de "esquerda radical" pelos media, adoptado como tal pela
esquerda que o refluxo e a pré-morte do Bloco de Esquerda votou à
orfandade, o
Podemos
tem tido nos seus dirigentes e nos seus documentos oficiais as mais ostensivas
demonstrações de que podendo ter algo de esquerda, nada tem de
radical. Juan Monedero, seu nº 2, assevera que não há
alternativa ao capitalismo
[3]
. Pablo Iglesias, líder do partido, sustenta que a discussão
política fundamental dos dias de hoje não é entre direita
e esquerda, mas entre democracia e ditadura
[4]
. No programa do
Podemos
chega-se à insólita insensatez de simultaneamente se reclamar
regresso da soberania popular e confiar num Banco Central Europeu
democrático e favorável ao desenvolvimento dos países
periféricos
[5]
. A lista podia prosseguir indefinidamente.
A esquerda "anticapitalista" póstuma ao BE não se
demoveria de crer, em todo caso, que só o sectarismo, o dogmatismo, o
monolitismo, e outras coisas mais acabadas em "ismo" dos
críticos do
Podemos
os faziam, por finca-pé, não ver ali a evidência do
anticapitalismo mais empenhado. As provas materiais das concessões, das
cedências, das traições a princípios auto-evidentes
de qualquer luta anticapitalista com a pretensão mais elementar de ser
séria, seria recebia com um sorriso de saloia astúcia, um
"isso é táctica, não se pode dizer já tudo,
é preciso chegar às pessoas". "Chegar às
pessoas" é um dever dos anticapitalistas: se for para as mobilizar,
as organizar, e as levar a tomar em mãos a tarefa histórica de
construir o socialismo. Chegar a elas para lhes arrebanhar o voto, vendendo a
ilusão em reformas, vendendo a ilusão em remendos, vendendo a
tese de que um qualquer Governo lhes entregará o socialismo já
feito sem nunca lhes termos sequer falado em socialismo tem um nome, e esse
nome é oportunismo.
Seja pois essa a resposta que damos a todos quantos, aos gritos de "abaixo
o sectarismo!", mais não fazem que atacar a linha
revolucionária, a Linha Justa: a substituição da
táctica pelo tacticismo não se chama flexibilidade: chama-se
oportunismo. A substituição dos princípios fundamentais da
luta anticapitalista por uma qualquer forma de pragmatismo, por um discurso e
uma prática política "mais soltos", "mais
práticos", "mais eficazes" (eficazes para
quem
?) não se chama inovação e livre desenvolvimento dos
princípios marxistas, sem anquilosamentos nem mecanicismos: chama-se
mesmo, e apenas, oportunismo. Não há nisso ponta de luta contra o
dogmatismo, nem o sectarismo, nem o imobilismo: há oportunismo, redondo,
sem disputa.
Alguns poderão objectar que os comunistas se dispõem a lutar por
reformas. Tal é verdade. A reforma é, contudo, uma coisa muito
clara para um comunista: uma mudança reordenadora da
correlação de forças, que não transforma a
sociedade mas gera condições propiciatórias da sua
transformação. É um meio, não um fim. Entregar a
tarefa de as produzir a quem vir nelas um fim em si é esgotar, matando
à nascença, o potencial transformador da reforma: e é
acima de tudo facultar à burguesia um expediente narcotizante das
classes populares, que iludidas com a falsa promessa na bondade e
irreversibilidade da reforma ficam a meio do golpe decisivo no momento
decisivo. A reforma, em suma, cria melhores condições para a
revolução. O reformismo desarma o proletariado em face da
reacção inevitável. Compreender isto ou não, lutar
contra o oportunismo ou não, alinhar com a confusão
propositadamente urdida entre firmeza de princípios, linha
revolucionária, e sectarismo, ou não eis o que
distinguirá, no futuro próximo, os que estiverem genuinamente com
o proletariado, pelo socialismo, dos que estão apostados em cavalgar o
descontentamento popular para projectos puramente reformistas.
[1] In
Crítica do Programa de Gotha
disponível aqui:
marxists.org/portugues/marx/1875/05/05.htm
[2]
www.dinheirovivo.pt/empresas/telecom/interior.aspx?content_id=4218639&page=-1
[3]
www.jn.pt/PaginaInicial/Mundo/Interior.aspx?content_id=4217736&page=-1
[4]
www.andalucesdiario.es/...
[5]
podemos.info/wordpress/wp-content/uploads/2014/05/Programa-Podemos_galego.pdf
Do mesmo autor:
As armas da crítica e a crítica das armas
[*]
Licenciado em História e mestre em História e Educação.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|